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Full text of "Obras completas do Cardeal Saraiva (d. Francisco de S. Luiz) patriarcha de Lisboa : precedidas de uma introducção pelo marquez de Rezende"

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OBRAS COMPLETAS 






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CARDEAL SARAIVA 

(D. FRANCISCO DE S. LUIZ) 

PATEIAECHA DE LISBOA 

riiliCEDIDAS DE 

U5IA INTIlOpUCÇÃO PELO MARQUEZ DE REZENDE 

PUDLICADAS POR 
ANTÓNIO CORREIA CALDEIRA 

TOMO V 










LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

187o 



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DO 



CARDEAL SARAIVA 



OBMS COMPLETAS 



DO 



CARDEAL SAEAIVA 

(«. FRANCISCO UE S. LUIZ) 

PATRIARCHA DE LISBOA 

PRECEDIDAS DE 

UMA INTRODUCCÃO PELO MARQUEZ DE REZENDE 



PUBLICADAS POR 

ANTOXIO CORKEIA CALDEIRA 



TO]\IO V 




LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL, 

1875 



Re 

15- 

Szg 



ESTUDOS HISTÓRICOS 

E 

CHRONOLOGICOS 

SODRE AS 

NMECliS, VliUENS, DESÍOBfilill [ COittUISIlS DOS PDfilUGUEZES 

NOS 

PAIZES ULTRAMARINOS 

K ÁllERCA DOS 

PROGRESSOS DA MARINHA l'ORTU(;[EZA ATÉ OS PRL\CO'IOS DO SEtLIO XVI 



REFLEXÕES GERAES 

ÁCEKCA DO INFANTE D. HENRIQUE, 

E DOS DESCOBRIMENTOS DE QUE ELLE FOI AUCTOR 

NO SÉCULO XV 



REFLEXÕES GERAES 

ACERCA DO INFANTE D. HENRIQUE, 

E DOS DESCOBRLMENTOS DE QUE ELLE FOI AUCTOR 

NO SÉCULO XV 



Quem ler com alguma attenção, e com animo imparcial 
e limpo de baixas preoccupações a historia dos descobri- 
mentos e viagens marítimas emprendidas e executadas 
pelos Portuguezes desde os princípios do século xv com 
tanta utilidade do mundo civilisado, não poderá deixar 
de sentir-se possuído de admiração, e quasi assombro, 
considerando que huma nação pequena, libertada pouco 
antes da oppressão dos San-acenos, e das pretensões dos 
seus vizinhos ; destituída de guia e exemplar, que a tivesse 
precedido na sua carreira; carecida dos muitos meios e 
methodos, que o tempo, a industria, e o [)rogresso das 
sciencias têem depois multiplicado; que esta nação, digo, 
formasse e executasse a vasta, difíicil, e ari'ojada em- 
preza de descobrir tantos mares, terras, e povos até en- 
tão desconhecidos, de navegar até ás mais apartadas re- 
giões do mundo, e de levar por toda a parle a sua indus- 
tria, a sua civilisação, o seu commercio, as suas armas, 
e o seu domínio! Mas tanto pôde o génio! (luni homem 



de génio, hum Príncipe dotado de huma grande alma, e 
de huma constância invencível, bastou para conceber e 
executar tamanha empreza ! 

Foi este o immortal Infante D. Henrique, fdho de el- 
Rei D. João I. A ordem do nascimento não o havia desti- 
nado para o throno; os seus meios erão consequentemente 
Hmitados, se os compararmos com a grandeza e vastidão 
do projecto a que se abalançava; a sua idade parece que 
não dava bastante caução nem á madureza do plano, nem 
á constância do desempenho: muitos Portuguezes, ainda 
dos mais doutos e avisados, impugnavão as suas idéas 
como quiméricas, ou temerárias, e o seu plano como in- 
exequível; antigas preoccupações, ainda não dissipadas 
pela experiência, representavão a zona tórrida como inha- 
bitavel, e a existência dos antípodas como impossível: 
imaginavão-se medos e receios de navegar em mares pe- 
rigosos, cheios de monstros, e nunca trilhados de outras 
quilhas. Emlíni, ainda depois que o Infante deo principio 
aos seus trabalhos marítimos, doze ou mais annos se ha- 
vião já passado em tentativas infructuosas, sem resultado 
algum essencial, senão o de dar novos argumentos, e 
maior ousadia aos inimigos e ímpugnadores da empreza. 
Tudo isto parece que seria mais que sufíiciente para des- 
animar huma alma menos heróica, e para privar, ainda 
por longo tempo, o mundo das immensas vantagens que 
havião de seguir-se de tão glorioso projecto. Mas o illus- 
tre Príncipe teve em pouco todas as díííiculdades que se 
lhe oppunhão, e marchou intrépido na carreira que tinha 
encetado. Nem se presuma que as suas resoluções erão 
cegas ou temerárias : que as não costumão tomar taes os 
grandes homens, ainda que o vulgo ignorante, e incapaz 
de comprehender as cousas elevadas, que sobreexcedem 
a medida do seu espirito, lhes ponha nmitas vezes essa 
tacha. 

Tinha o illustre Infante diante dos olhos a vasta gran- 



deza, e quasi iramensidade do Oceano (1), e pelas antigas 
cartas, taboas, e descripções dos geógrafos podia presu- 
mir que esta grande massa de aguas drciimdava toda a 
Africa, e banhando a sua testa meridional, liia unir-se 
com os mares do oriente, por onde naquelles tempos se 
navegarão as especiarias, e drogas da Ásia para os golfos 
Pérsico, e Arábico. 

As lYàçÃms da Europa que hião a Levante buscar estas 
mercadorias, e que tinhão suas feitorias no Egypto, na 
Syria, na Ásia menor, na Arménia, e nos estados berbe- 
rescos, não deixarião de ter algumas noticias daquelles 
mares, e de que elles vinhão lavar as praias e costas orien- 
taes de Africa. Os Árabes e Mouros estavão estabelecidos 
em muitos pontos delias, navegavão todos os mares orien- 
taes até á China, e Mar Paciíico, e tinhão relações com o 
Cairo, Alexandria, Damasco, e outros empórios de Le- 
vante. 

Por oulra parle tinha o Infante, pelas lições da histo- 
ria, noticia das navegações antigas em roda de Africa, 
attribuidas aos navegadores Fenícios e Garthaginezes (2) ; 

(1) o Infante fez a sua ordinária residência em Sagres (no antigo 
promontório sacro, hoje cabo de S. Vicente), e ahi fundou a villa 
que se chamou Villa Nova do Infante, e depois Sagres. D'ahi fazia 
e dirigia todas as suas expedições marítimas. 

(2) Referem os antigos que Nechao, Rei do Egypto. informado 
dos progressos que os Fenícios tinhão feito na navegação, tomara a 
seu serviço marinheiros desta gente, os quaes, sahindo do Mar Roxo 
por sua ordem, costearão toda a Africa, e no íim de três annos vol- 
tarão ao Egypto pelo estreito de Hercules. Era isto (diz hum Geó- 
grafo moderno) mais de dons mil annos antes que Vasco da Gama 
fizesse inversamente o mesmo caminho. De outras viagens antigas á 
roda de Africa nos dá noticia Plinio, liv. 2.°, cap. 69." : «Hanno (diz) 
CartJiaginis jwtentia florente, rircumrectns a Gadilms ad finem Ara- 
hiae, navirjationem eam prodidit scripto: sicut ad extra Europae 
noscenda missus eodem tempere Himilco. Praetei-ea Nejms Cornelius 
auctor est Eudoxum quemdam sua aetale, quum Lathyriím regem fii- 
gcret, arabiro sinu erircssum Gadcs nxquc proveetnm. MuUoqtte ante 



e postoque podesse duvidar da realidade destas grandes 
emprezas, como muitos modernos têem duvidado, nem 
por isso era menos certo, que antiquissimos e mui doutos 
Escriptores as havião julgado possiveis e exequíveis, que 
era o que bastava para dar força, e até probabilidade ás 
conjecturas sobre a communicação, e continuidade dos 
mares. 

Igualmente havião de ser conhecidas ao douto Infante 
as viagens marítimas dos dousMarselhezesPytliéas, eEu- 
tliyrnenes, huma pelas costas occidentaes da Europa ao 
norte do estreito de Hercules, até á ilha de Thule, e ou- 
tra pela de Africa ao sul do mesmo estreito até hum rio 
que os antigos chamavão Nilo, e que [lairce ser o Sene- 
gal, ou algum dos outros grandes rios, que naquellas pa- 
ragens vem sahir ao Atlântico (3). 

eum Caelins Antipater. ridisse se qui nariyasset ex Hispânia in 
Aelhiopiam commercii gratia... Sic maria circumfnsa nndique di- 
viduo globo partem orbis aufei'unt nobis, ócc. 

(3) Pylheas, o primeiro destes navegadores, que se julga contem- 
porâneo de Aristóteles, depois de ter feito importantes observações 
astronómicas na sua pátria, sahio a descobrir e examinar as costas 
do Oceano ao norte do estreito hercúleo. Navegou até á illia de Thu- 
le, entrou o Báltico, e em resultado de suas observações estabeleceo 
a diíTerença dos climas pela grandeza dos dias e das noutes. A Re- 
lação de suas viagens, que ainda existia, e era conhecida pelos fins 
do século IV da era Christãa, paroceo fabulosa a Polybio, e Eslrabão, 
os quaes tinhão por inhabitaveis alguns dos paizes descriptos por Py- 
theas. Comtudo Gassendo, Sanson. e Rudbek pozerão-se da parle dos 
antigos Hipparco, e Eratosthenes, que tinhão defendido o illustre na- 
vegador rnathematico ; e mais modernamente Mr. Baiily na sua His- 
toria da Astronomia dá os merecidos elogios ás importantes obser- 
vações que elle fez. O seu compatriota Euthymenes tomou no mesmo 
tempo bum caminho opposto, e navegou ao sul do estreito pela costa 
de Africa. A Relação da sua viagem também se perdeo; mas Séneca, 
Qitest. Natur.j liv. 4.", cap. 2.°, nos dá noticia delia, e até cita pala- 
vras de Euthymenes, quando trata das varias opiniões dos antigos 
sobre as causas da inundação periódica do iXilo. Eis-aqui as suas 
palavras : « Euthymenes Massiliensis testimonium dicit : navigavi, in- 



Vindo a tempos mais modernos, não se pôde negar, 
que as cruzadas, o commercio com o oriente, e as viagens 
por terra havião alargado muito os limites da geografia. 
Além das feitorias europeas no Levante, de que já falá- 
mos, e além da communicação com os Árabes, e do com- 
mercio, que por meio delles se fazia com a Pérsia e ín- 
dia, bem conhecidas são as numerosas viagens, que nos 
séculos xni e xiv se emprendêrão e executarão, tanto 
pelos Christãos como pelos Árabes, entre os quaes al- 
guns dos primeiros não só frequentarão os paizes orien- 
taes mais remotos, mas também fundarão nelles estabe- 
cimentos Christãos, descerão a Ormuz, e ás costas occi- 
dentaes da índia, áquem do Ganges, vizitárão a ilha de 
Java, e Columbo em Ceylão, aonde havia igreja Chris- 
tãa, ác, e os segundos divagarão por toda a Ásia orien- 
tal e Occidental, correrão a Africa até Sofala ao oriente, 
e até ás margens do Niger no interior, e nos deixarão em 
seus escriptos preciosas noticias geográficas, principal- 
mente dos vastos paizes aonde tinha chegado o Isla- 
mismo (4). 

quit, atlanticum maré: inde Nihis fluit maior, quamdiu etesiae tem- 
pus ohservant, íunc enim ejicitur maré intrantibus ventis : cum re- 
sederint, et pelagus conquiescit, minorque discedenti inde vis Nilo 
est: ceterum dnlcis maris sapor est, et símiles niloticis behiac ». Por 
onde se \ê que Euthymenos navegou pelo Atlântico ao longo da 
costa Africana, e chegou, pelo menos, até hum grande rio, que elle 
chama Nilo, e em que achou analogias com o outro Nilo do Egypto. 
Bem sabido he que alguns antigos davão o nome de Nilo ao Sene- 
gal ou Niger, ou fosso por acharem entre elles as mesmas analogias, 
ou pelos supporem nascidos da mesma origem, ou linalmente por 
ser o vocábulo Nilo primitivamente hum termo genérico, e como tal 
applicavel a dilferentes indivíduos. 

(4) Em 1245 enviou o Santo Padre Iniiocencio IV á Tartaria os 
dons frades menores, Fr. Lourenço, Portuguez, e Fr. João de l'lan- 
(larpin, que escreveo a líelação da sua viagetn. Em 1307 foi man- 
dado ao mesmo paiz l''r. André Pi^rusino, lambem frade menor, com 
outros seis, já consagrados Bispos, e destinados a auxiliar, conservar 



As importantes relações de todos estes trabalhos fizerão 
os paizes orientaes menos estranhos aos Europeos ; am- 
pliarão a esfera da geografia, excitarão a curiosidade e 
gosto das viagens, e dei'ão a conhecer, postoque ainda 
confusamente, muitos povos e naçíjes da Ásia, denotando 
alguns pontos importantes das suas costas, ilhas, e mares. 

Todos estes conhecimentos auxiliados das próprias re- 
flexões e combinações cosmograficas do Infante D. Hen- 

e ampliar as cliristandades que naquellas regiões se achavão funda- 
das por Fr. João Moncorvino, que falieceo sendo Arcebispo de (]am- 
balu em 1330. Estes religiosos varões estiverão por alguns annos na 
mesma cidade de Caml)alu, como refere o próprio Fr. André, dando 
noticia da grandeza e magnificência daquelle império, da frequência 
c variedade dos povos que o liahitavão, ou a elle concorriJo, da or- 
dem da sua policia, &c., e fazendo menção da grande cidade de 
Caiton sobre o Oceano oriental, d'onde elle mesmo era Bispo, e da- 
tava a sua carta em Janeiro de 13á6. No anno de 1314 sahio para 
o oriente Fr. Odorico do Friul, também frade menor, o qual depois 
de correr varias provincias da Ásia, veio a Ormuz, visitou o ]\Ia]a- 
bar, e as ilhas de Ceylão, e Java, e penetrou até á China e Tibet, 
voltando a Itália em 1330, depois de dezeseis annos de extensa e 
laboriosa peregrinação. Nesse mesmo anno de 1330 mandou ainda 
o Papa João XXII alguns varões apostólicos a diversas terras orien- 
taes, entre os quaes se nomeia Fr. Jordão, da ordem dos Pregadores, 
consagrado Bispo para Columbo, em (Ceylão, a cujos Chrisfãos, appel- 
lidados Nascarinos (Nazarenos), escrevia o Santo Padre, recommen- 
dando-lhes o Bispo, e os outros frades que o acompanhavão. Final- 
mente são bem conhecidas as viagens de Marco Paulo, que alguns 
chamão o pai da geografia Tarlara, as de João de Marignole, de 
Jlicold de Montecroix, kc., &c. Entre os Árabes, sem fazermos men- 
ção do celebre Scherif Al-Edrisi, mais conhecido pela denominação 
de Geógrafo Nuhiense, de Shahab-Eddin Abu Abdallah Yakut, do 
Cheykh Zacarias, e de outros do mesmo tempo, lembraremos aqui 
somente Ibn-al-Ouardi, que pelo meio do século xiv escrevia a sua 
obra intitulada Pérola dax Maravilhas, o sábio Abul-Feda, El-Ba- 
ckoui, e o iilustre Ibn-Batuta, que a todos os viajantes Árabes do 
século XIV excedeo na vastidão de suas peregrinações, executadas 
por espaço de trinta annos, e terminadas com a viagem ao interior 
de Africa, énc, kc. 



9 

rique, e fermentados (digamos assim) pelas inspirações 
do génio, influirão no immortal Princi])e a sua heróica re- 
solução, tanto mnis facilmente por elle adoptada, quanto 
mais a grandeza do commetti mento conformava com a 
vasta capacidade do seu generoso e verdadeiramente real 
espirito. A fortuna favoreceo a sua constância e heróica 
perseverança. 

Depois de alguns annos de tentativas infructuosas do- 
brou-se emfim o formidável cabo Bojador^ que por tanto 
tempo triunfara das diligencias e esforços dos navega- 
dores Portugiiezes. Virão-se novos mares, novas ilhas, 
novas terras: descobrírão-se nações barbaras, estranhas 
na côr, na linguagem, nos costumes, na religião: come- 
çarão a alargar-se os limites do commercio com os novos 
objectos, que cada dia se offerecião ás suas indagações, e 
tá sua actividade : formárão-se relações de communicação, 
e até de amizade com alguns dos Príncipes bárbaros; e 
abrirão-se as portas á navegação oriental, ao conheci- 
mento das vastíssimas regiões interiores de Africa, até 
então vedadas aosEuropeos, e ao descobrimento do novo 
mundo, que sem' as atrevidas navegações dos Portugue- 
zes, he de presumir que ainda por muito tempo ficasse 
ignorado. 

O illustre Infante, lendo empregado nestes úteis e glo- 
riosos trabalhos quarenta e dous annos da sua vida, fal- 
leceo emfim a 13 de Novembro de 1460, deixando des- 
coberta, além de muitas ilhas, a costa occidental de Africa 
desde o cabo de Nam até Serra Leoa, legando aos Reis 
Portuguezes, e a toda a nnçTiohuma grande herança de glo- 
ria, e indicando aos vindouros o caminho, que devião se- 
guir para dar feliz complemento aos seus vastos planos, e 
desenhos. 

Parece que o superior merecimento deste grande e glo- 
rioso Príncipe não ])odia deixai' de lhe grangear então, e 
ainda hoje, o reconhecimento, o respeito, e o louvor de 



10 

todas as pessoas que, superiores aos baixos affectos do 
ciúme e da inveja, sabem, e costumão avaliar os grandes 
homens pelo que elles realmente valem, e os grandes fei- 
tos pela verdadeira utilidade que delles pôde resultar ao 
mundo, e pela influencia que podem ter sobre o bem da 
humanidade e sobre os progressos da civilisação geral. 

Assim vemos que escriptores de mui distincto nome 
e saber, tanto antigos como modernos, exaltarão o In- 
fante D. Henrique com expressões de merecido louvor, 
c deixarão o seu nome, e os seus altos méritos recom- 
mendados com encarecidas palavras á agradecida memo- 
ria da posteridade (5). 

Não faltarão comtudo alguns, como costuma acontecer, 
que por differenles modos, e com differentes fundamen- 
tos, ou pretextos, mas sempre indirectamente (porque de 
outra maneira se não alreverião a fazel-o) pretenderão 
despojar o illuslre Príncipe da sua maior gloria, levando 
ao mesmo tempo em vista deslustrar a fama do nome 
Portuguez, já que de todo a não podião escurecer. A ver- 
dade porém mais forte que as miseráveis paixões e il- 
lusões humanas tem tomado, e ha de sempre conservar 
a superioiidade que lhe he devida, e o mundo verdadei- 
ramente sábio e imparcial não deixará em tempo algum 

(5) Seja-nos pcrmillido, unicamente para exemplo, trazer aqui as 
palavras de que se servem os Auctores Inglezes da Historia Univer- 
sal acerca do Infante: «Este Infante D. Henrique (dizem elles) não 
só foi hum dos nunores homens do seu tempo em Portugal, mas tam- 
bém hum dos mais exceUentes, que se tem visto em todas as nações, 
e em todas as idades. E postoque isto seja muito dizer em seu lou- 
vor, todavia não exagerámos nada, nem affirmdmos cousa, que não 
seja mui somenos de seus merecimentos. E seja qual for a differença 
que ha entre o estado da Europa acjora, e o em que se achava no 
tempo de D. Henrique, he indispularel que todas as vantagens pro- 
cedidas do descobrimento da maior parte de Africa, e das índias 
oriental e occidental, e todas as que delias se derivarem até o fim 
dos séculos, se devem ao génio e diligencias deste Príncipe», &c. 



de recordar com admiração, e reconhecimento os im- 
mensos benefícios de que gosa, devidos ao immortal In- 
fante D. Henrique. 

O Padre Labat, Francez, foi o primeiro, que nos conste, 
que intentou roubar a este Príncipe a originalidade de 
seus descobrimentos na costa occidental de Africa. Es- 
crevia elle em 1717, três séculos inteiros depois que co- 
meçarão as nossas navegações para aquella costa, e quasi 
quatro séculos depois da data, que elle mesmo attribue ás 
suas fabulas. E como nenhum documento, memoria, ou 
escripto tivesse, com que auctorisarsuccessos tão antigos, 
e até então ignorados, nem entre os papeis, que lhe forão 
confiados pela companhia Franceza das índias e do Sene- 
gal, achasse titulo algum legitimo que remontasse acima 
do anno de 1626, julgou conveniente ao seu plano ser- 
vir-se de não sei que tradições e conjecturas, e sobre 
estes tão fúteis e tão vacillantes fundamentos teve a ou- 
sadia de afQrmar que os marinheiros de Dieppe havião 
descoberto, e frequentado as costas occidentaes de Africa 
desde o principio do século xiv, e que em 1364 tinhão 
estabelecido commercio em Rufica, e muito além de Serra 
Leoa. 

Esta quimérica opinião era logo á primeira vista fácil 
de refutar-se por muitas razões tão obvias como incon- 
testáveis: 

1.° Pela posse antiga e pacifica dos Portuguezes, fun- 
dada nas Relações de suas primeiras viagens e descobri- 
mentos, Relações contemporâneas dos successos. Rela- 
ções singelas e desaffecladas, que progressivamente se 
hião publicando, e corrião por toda a Europa sem a me- 
nor contradicção, sem que pessoa alguma sahisse em de- 
fcza da prioridade de qualquer outra nação, e sem que 
os próprios Francczes allegnssem a sua mais antiga posse, 
ou dessem o mais leve signal ou indicio de lhes serem já 
conhecidas aquellas regiões. 



2.° Porque nem os Portuguezes frequentando as costas 
de Africa, nem os estrangeiros que com elles, ou depois 
delles as visitarão, acharão monumento, vestígio, memo- 
ria, ou rasto algum de quaesquer outros Europeos, que 
em tempos mais remotos tivessem ali aportado ; nem des- 
cobrirão vocábulo ou nome algum da língua Franceza 
dado aos logares, ou a outros objectos; antes pelo con- 
trario observarão a profunda e total ignorância em que 
estavão os Africanos acerca de tudo quanto podia dizer 
respeito aos Europeos, e aos seus usos, costumes, reli- 
gião, artes, e commercio. 

3.° Porque tendo alguns Normandos tentado nos prin- 
cípios do século XV, debaixo da protecção de el-Rei de 
Castella, a conquista das Canárias, já no precedente sé- 
culo XIV reconhecidas e visitadas pelos Portuguezes, e de- 
pois delles por outros navegantes (como mais adiante 
mostraremos), nada parecia mais natural do que darem 
d'ahi huma revista á costa do continente Africano, onde 
devião esperar achar, não só vestígios ainda recentes dos 
Francezes seus nacionaes, mas também estabelecimentos 
permanentes, e feitorias por elles fundadas desde Cabo 
Verde (como elles dizem) até d Mina, e de mais a mais 
huma igreja, levantada neste ultimo lugar em 1388, 
como se atreveo a escrever hum Auctor moderníssimo (6). 
Longe, porém, de succeder assim, sabemos que esses 
mesmos Normandos nem ao menos reconhecerão todas 
as Canárias, nem nellas se poderão conservar por muilo 
tempo. 

4.° Porque ainda que os Francezes, ou pelo decurso e 
circumstancias dos tempos, ou por causa das suas per- 
turbações internas, e guerras com os estrangeiros, ou por 
outros quaesquer motivos tivessem interrompido as suas 

(6) Mr. (i'Avezac, Esqnisse general de l' Afrique. Aspect el con- 
stitution phisiqiie, Histoire natnrelle, Etlniolorjie, Lingiiistirjue, État 
social, histoire, cxploratiom, et Geographie. Paris, 1837, 12. 



13 

suppostas navegações Africanas, e abandonado os esta- 
belecimentos, que os seus modernos escriptores dizem 
que elles tinhão feito naquellas partes; he comtudo inve- 
rosímil que de todo se houvessem esquecido delles em 
pouco tempo, e que lhes não restasse desejo algum de os 
poderem ainda tornai- a possuir, ou ao menos de conser- 
varem alguma memoria do seu direito. Este estranho es- 
quecimento porém he o que se deduz da historia con- 
temporânea, não só pelo absoluto silencio que os mesmos 
Francezes guardarão acerca de suas anteriores, mas ainda 
recentes emprezas; senão também, e especialmente, por- 
que tendo os Reis de Portugal e Castella dividido entre si 
o globo da terra para fixarem a demarcação e limites de 
suas respectivas conquistas, e evitarem futuras contendas 
e discórdias, diz a Historia, que fora requerido o Rei de 
França para acceder a esta divisão, e ter parte nas con- 
quistas, se assim o quizesse; mas que elle volunta- 
riamente desistira do direito que podia por este modo 
adquirir, e renunciara ao convite (7): acaso por jul- 
gar então loucas, insensatas^, e desatinadas as navegações 

(7) Andrade, Chronica de el-Rei />. João III, part. 1,% cap. 10." : 
«El-Rei Francisco (1.° de França) quiçá desejoso de ter parte nos 
grandes proveitos, que tinha por informação que se tiravão da na- 
vegação e commercio da índia, começou a arguir novas duvidas so- 
bre a demarcação, que lizerão antre sy os Reis de Portugal e Cas- 
tella, da qual naquelle tempo elle se lançara fora sendo requerido 
para isso^ e agora sentia muyto a renunciação que tinha feito da 
parte da acção, que poderá ter neste descobrimento. Deste desgosto 
nascia o consentir el-Rei de França que os seus navios andassem 
roubando os Portuguezes no mar (;om pretextos, ò:c. A Chronica de 
rl-Rei D. Sebastião, attribuida a D. Manoel de Menezes, no cap. 43.", 
lalando da empreza de Villegainon sobre o Rio de Janeiro em 1556, 
rellecte, que os Francezes nenhum direito tinlião áquellas terras, 
tanto porque erão descobrimentos e conquistas dos Portuguezes, 
como jje/ff desistência (são as palavras da Chronica) qve os seus 
Reis tinhão feito, quando pelo Papa forão convidados para a repar- 
licão de novos descobrimentos de terras», &c. 



14 

Portuguezas, como muitos naquelle tempo lhe chama- 
vão (8). 

5." Porque ainda depois que os Francezes começarão 
a observar as vantagens e grandes proveitos, que os Por- 
tuguezes tiravão de seus descobrimentos e conquistas, e 
a sentir o tardio arrependimento de haverem renunciado 
á acção, que neiles poderão ter. nunca jamais se lembra- 
rão de allegar a prioridade de suas navegações e de sua 
antiga posse, nem mostrarão intento de reivindicar hum 
só palmo de terra na costa de Africa, nem ao menos di- 
rigirão para aquella banda as repetidas tentativas do seu 
despeitoso ciúme, e as continuas e vergonhosas piratarias 
com que tanto incommodárão os Portuguezes, e deterio- 
rarão o seu commercio no meio da paz dolosa que com 
elles mantinhão (9). 

(8) Jeronymo Conestagio, depois de exaltar as façanhas dos Por- 
tuguezes na Europa, acrescenta : « O luesnio esforço mostrou esta 
nação assim em Africa como na índia, tanto por haver alcançado o 
íim de sua estupenda e admirável navegação, que ao principio foi 
reputada por temerária e louca pelos mais sábios e entendidos, como 
por ter dado naquellas partes grandes provas de suas pessoas nas 
armas», &c. Paulo Jovio ciiamou insanas as navegações Portugue- 
zas : insana navifjatione atlanticuin praelervecti, &c. ; sobre o que 
reflecte o elegantíssimo Fr. Luiz de Souza, que os estrangeiros qua- 
lificavão de loucas e desatinadas as nossas emprezas marítimas, ou 
porque não achavão palavras que igualassem o louvor que merecião, 
ou porque se não atreverão a encobrir a inveja, que lhes fazia a ines- 
timarel ijloria, a infinita riqueza, e os triumfos e victorias, que por 
meio delias alcançou este pequeno reino. 

(9) Não consta que os Francezes mandassem os seus navios ás 
possessões Portuguezas de Africa occidental senão pelos annos de 
i5%, isto he, cento o setenta annos depois de nossos primeiros des- 
cobrimentos, e quando as nações da Europa, sob pretexto de nos 
acharmos unidos, ou sujeitos á Monarquia Hespanhola, começarão 
a desenvolver a sua antiga inveja, e a aproveitar-se da nossa situa- 
ção para retalharem as nossas ricas colónias, p se apossarem delias. 
Até então limitarão-se os Francezes a invasões sobre o Brazil, aonde 
nos julgavão menos fortes, ou menos acautelados, e a esperarem as 



15 

Sem embargo porém destas e de outras muitas razões, 
que mostravão quanto era vãa e quimérica a opinião do 
Padre Labat, não deixou ella de ter seguidores de grande 
nome, ou enganados das apparentes razões de escriptor, 
adoptadas sem exame, ou arrastados do falso zelo da glo- 
ria da sua pátria, ou levados (o que he mais provável) do 
baixo ciúme, com que ainda hoje muitos escriptores es- 
trangeiros procurão deprimir, escurecer, ou pôr em es- 
quecimento a gloria que os Portuguezes adquirirão com 
tão justos titulos no século xv: ciúme, bem impróprio, 
por certo, de todos os que se prezão de amar a sabedo- 
ria; mas que desgraçadamente não he pouco vulgar entre 
elles. 

Nós, sem nos demorarmos mais em longa e escusada 
discussão a este respeito, nem repetirmos o que outros 
têem dito, contentar-nos-hemos de traduzir aqui as pala- 
vras do douto geógrafo moderno Walkenaer, o qual fa- 
lando das opiniões do Padre Labat, e tendo-as refutado 
com argumentos e provas irrecusáveis, conclue assim: 

«Devemos declarar aos nossos leitores, que as preten- 
sões dos Dieppezes ao descobrimento das costas occiden- 
taes de Africa, e as suas viagens ao longo delias até Serra 
Leoa, anteriormente ás dos Portuguezes, não podem sus- 
tentar o mais ligeiro exame: e que ainda que o Abbade 
Prévost, e hum grande numero de escriptores hajão ado- 
ptado a Relação do Padre Labat, nem por isso deixa ella 
de ser huma grosseira impostura, á qual não faríamos, 
sequer, a honra de a refutar, se muitos homens respeitá- 
veis, arrastados do falso zelo da gloria da sua pátria, não 
tivessem julgado devei* rej»roduzil-a, e acredital-a, com 

náos da índia, e de Africa jui paragem dos Açores, para ahi nos 
roubarem a seu salvo ; procedimento não só iniquo, mas alé pouco 
leal, que por muito tempo, e muitas vezes foi objecto das queixas 
do governo Portuguez ao de França, sem se obter dos seus Reis 
mais do quo boas palavras, e novos insultos. 



16 

seus votos, e se ella não houvesse sido de algum modo 
posta no catalogo das verdades reconhecidas, á força de 
ser repetida sem contradicção por escriptores de huma 
nação rival, que muitas vezes se mostrão empenhados 
em roubar aos Francezes o mérito de seus mais incontes- 
táveis descobrimentos » (10). 

Assim restitue este sábio escriptor aos Portuguezes a 
gloria, que indubitavelmente lhes pertence, de haverem 
antes de quaesquer outros navegadores modernos fran- 
queado o Bojador, descoberto as costas, terras, povos e 
ilhas de Africa occidental, e patenteado o caminho para 
a mais remota Ásia, e para o descobrimento do novo 
mundo. E comtudo não foi isto bastante para reprimir, ou 
conter hum pouco a inconsiderada hgeireza, com que Mr. 
de Avezac, neste mesmo anno em que estamos escre- 
vendo, e no opúsculo já citado (nota 6), depois de repe- 
tir as fabulas do Padre Labat, e nos dar noticia de hwna 
igreja fundada pelos Francezes na Mina em 1383, e dos 
muitos estabelecimentos que fizerão por toda aquella 
costa, conclue em tom decretorio e magistral, que estes 
factos têeni sido contestados pelo único fundamento da 
commum fama, que proclamou como descobrimentos a 
serie de reconhecimentos, que os Portuguezes effeiluárão 
mais tarde ao longo das costas de Africa, inconsideração, 
e hgeireza que seria incomprehensivel, se não fosse tão 
frequente em outros escriptores, e em cuja refutação não 
julgámos dever gastar mais palavras. 

Outro escriptor, de não vulgar credito nos estudos geo- 
gráficos, não achando fundamento provável, em que po- 
dasse firmar as fabulas do Padre Labat, recorreo a outros 
meios de deslustrar a gloria dos Portuguezes, e do sábio 
Príncipe que os instruio, guiou e animou, e suppoz que 

(10) Revue Encyclopédique, ou Analyse raisonnée. òíC. Maio de 
1828, pag. 327, e mais especialmente pag. 335. 



17 

as primeiras lenlativas dos Portuguezes na costa Occiden- 
tal de Africa ínrão ordenadas por el-fíei D. João I com o 
só intuito de acommeller pela retar/uarda os Mouros, a 
quem intentava fazer .t^uerra; e que depois disto se forão 
seguindo os descol)timenlos, (juasi como meras conse- 
quências daquelle piinieiro intento. Assim [)arece que re- 
duz este escriptor hiima empreza tão extraordinária, e 
seguida por tantos annos com invencivel constância, a 
quasi puro effeito do acaso, ou a hum successo secundá- 
rio, que não entrava no plano e nas intenções de el-Rei, 
nem do Ínclito Infante seu filho. 

«D. João I (diz este escriptor), Rei de Portugal, tendo 
resolvido usar de represálias contra os Mouros, esquipou 
huma armada para hir acommetter as costas de Berbéria. 
Despachou alguns navios, que i^econhecessem a costa me- 
ridional deste paiz, sem outro intento mais que o de tomar 
os Mouros pela retaguarda, ou acommettel-os por onde 
elles estivessem menos prevenidos para a defeza. Até en- 
tão o cabo de Nam era o limite que os aventureiros Por- 
tuguezes não tinhão transgredido. Mas desta vez adian- 
tárão-se até o Bojador, palavra que na lingua Portugueza 
quer ãizer praia a dobrar (rivage à doubler)», á-c. 

Todo este discurso, porém, he fundado em supposiçôes 
arbitrarias, he destituído de fundamento algum solido, e 
he contrario á verdade histórica. 

Primeiramente : todos os escriptores Portuguezes, sem 
excepção alguma, atlribuem a primeira idéa e projecto dos 
descobrimentos ao Infante D. Henrique, e não a el-Rei seu 
pai ; e suppõem ser este pensamento inspirado ao immor- 
tal Principe pelos vastos conhecimentos que tinha adqui- 
rido da geografia, cosmogralia, e náutica, para cujo adian- 
tamento fundou a famosa escola de Sagies, donde sahírão 
tantos homens consummados naquellas sciencias. 

Em segundo logar: nem o projecto dos descobrimentos 
teve relação alguma directa com a foninda dcOuta: nem 

TOMO V _> 



18 

el-Rei D. João I teve lembrança ou inlenlo algum de to- 
mar os Mouros pela retaguarda desta praça; nem com 
esse intento, ou sem elle, despachou hum só navio, quanto 
mais armada, para reconhecer a costa meridional deste 
paiz, como erradamente diz o escriptor. El-Rei tendo re- 
solvido a conquista de Ceuta, mandou, na verdade, reco- 
nhecer a praça, a sua situação, e a costa do mar adjacente. 
A este reconhecimento forão D. Álvaro Gonçalves Camelo, 
Prior do Crato, e Aííonso Furtado, Capitão-mór do mar, 
com sós duas galeras, cujo destino apparente era huma 
viagem á Sicília, e certa negociação com a Rainha D. Rran- 
ca, que ali reinava. As galeras demandarão Ceuta sob pre- 
texto de se proverem de algumas cousas necessárias á sua 
derrota, e depois de examinarem, e sondarem a costa (não 
a meridionai mas sim a do norte contra Hespanha), e de 
tirarem o plano da praça, tomarão eíTectivamente o rumo 
de Sicilia para melhor occultarem os seus verdadeiros in- 
tentos, e passado pouco tempo, voltarão a Portugal com 
as informações que el-Rei desejava, e a que os havia man- 
dado. Não iiouve nenhum outro reconhecimento de cos- 
ias meridionaes, nem outros alguns navios que a isso 
fossem. 

Em verdade custa a crer, e nós não podemos deixar de 
admirar, que hum escriptor geógrafo ouse escrever, que 
el-Rei D. João 1 querendo tomar Ceuta, e pretendendo 
com esse fim incommodar a retaguarda dos Mouros, man- 
dasse as suas esquadras ao cabo de Nam, e ainda além 
delle ao Bojador! Basta lançar os olhos a huma carta geo- 
gráfica para se ver quanto he absurdo este pensamento. 

Demais, que a praça de Ceuta foi tomada em 1415, e 
só depois desta conquista he que nos consta que o Infante 
mandasse os seus navios a dobrar o Bojador para o sul, 
apartando-se cada vez mais da retaguarda de Ceuta, e dos 
limites do império de Marrocos, e insistindo neste em- 
penho por cousa de doze annos, até effectivamente fran- 



quear aquelle então temeroso passo, pelos annos de 1429 
ou 1430. 

He portanto fora de duvida, que o sábio Infante levou 
na gloriosa empreza de seus descobrimentos hum fim 
mais alto e mais importante do que a mesquinha idéa de 
colher os Mouros pela retaguarda, idéa da qual se não diz 
huma só palavra na vida do Infante, nem de seu augusto 
pai, nem tão pouco em historia alguma dos descobrimen- 
tos Portuguezes. 

Este alto e importante fim, este generoso e magnânimo 
intento do Infante, foi expressamente declarado por elle 
mesmo na supphca, que dirigio á Santidade do Papa Ni- 
coláo V, em virtude da qual se expedio a Bulia de 6 dos 
idos de Janeiro do anno da Encarnação do Senhor de 
1454, confirmada logo depois pelo Santo Padre Calixto III 
a 3 dos idos de Março do anno da Encarnação de 1455. 

Dizia o Infante : « Que tinha por noticia, que nunca, ou 
ao menos desde a memoria dos homens, houvera costume 
de navegar o mar Oceano para as regiões meridionaes, e 
orientaes, sendo o mesmo mar tão desconhecido a nós os 
occidentaes, que nenhuma certa noticia tinhamos das gen- 
tes daquellas partes; pelo que julgava fazer grande ser- 
viço a Deos, se por sua industria e trabalho se fizesse o 
dito mar navegável até aos povos Indianos, que se dizia 
serem Christãos, a fim de participar e communicar com 
elles; de empregar o seu auxilio contra os Sarracenos, 
e outros inimigos do nome Christão: e de fazer pregar 
u Evangelho aos idolatras, que porventura habitassem 
aquellas remotissimas regiõesy> (11). Por onde se vé cla- 

(H) "Piacterea (diz a Bulia) cuiu olim ad ipsiiis liiJantis perve- 
nisset notiliam, quod nunquam, vol saltem a memoria hominum, 
iioti consuevisset Tperhujnsniddi Oceannm iiuirc mcridionales, et orien- 
ta Irs pia (/as navif)ori, iliudque ikiIjís ocfiduis adeo forct incognilum. 
ut nullam de parfiuin illanun gentibus cerlam nofitiam haberemus; 
credens se tnaximum in lioc Deo praestare obsequium, si ejus opera 



20 

ramente quaes erão os primeiros e originaes intentos do 
Infante, e quão longe estava da verdade o escriptor, que 
acabámos de refutar. 

O mesmo escriptor porém parece que não tinha 
grande confiança nas suas próprias idéas; porque pondo 
de parte a guerra que se queria fazer aos Mouros pela 
retaguarda, varia de opinião e de principio, e diz : « Que 
o bom êxito da empreza da conquista das Canárias pelo 
Francez Bethencourt em 1402 fora o que dera o primeiro 
impulso a todas as mais, que se seguirão naqiiellas para- 
gens. Esta lembrança não he mais feliz que a precedente, 
nem estriba em melhores fundamentos. 

A conquista das Canárias, quando quer, e por quem 
quer que fosse feita, não tinha relação alguma com a na- 
vegação e descobrimento dos mares e terras meridionaes, 
e orientaes para passar d índia, que era (como acabá- 
mos de ver) o pensamento do Infante, e a alma da sua em- 
preza. Não facilitava nem aquella navegação, nem aquelle 
descobrimento: não facilitava, ao menos, a passagem do 
cabo Bojador, que lhe ficava hum pouco ao sul. Os nave- 
gadores Porluguezes do Infante D. Henrique nunca pro- 
curarão, nem tomarão as Canárias como ponto de partida 
para suas expedições, nem como baliza que os orientasse 
na direcção de suas viagens. 

Se o escriptor quer dizer, que o Infante estava pei'- 
plexo, ou irresoluto, ou timido em suas resoluções, e que 
o bom successo do Francez Bethencourt o animou, e esti- 



ei industria 7iiare ipsinn nsqne aã Indos, qni Christi nomen colere di- 
cuntur narigabilc fieret, sicque cum lis parlicipare, et illos in Chris- 
tianorum auxiiium adversus Sarracenos, et alios hujusinodi fidei hos- 
tes commovere posset, ac nonnullos gentiles, seu paganos, nefan- 
díssima Mahumetis secta uiinime infectos, populos, inibi médio exis- 
tentes, continuo debellare, iisque incognitum sacratissimum Ciiristi 
nomen praedicare, ac facere prsedit^ari », &c. Provas daHistatia Ge- 
nenh(]ka. tom. !." 



21 

rnuloLi a proseguir a sua empreza, erra ainda mais gros- 
seiramente, e mostra grande ignorância da historia das 
Canárias. 

As Canárias tinhão sido procuradas, reconhecidas, e vi- 
sitadas pelos Portuguezes no século xiv mais de huma 
vez. ENRei D. Affonso IV intentando conquistal-as, man- 
dou a ellas os seus navios antes do anno de 1336, e se- 
gunda vez em 1341; e no anno de 1344 dizia ao Santo 
Padre Clemente VI: «Que quando cuidava em mandar 
huma armada á conquista daquellas ilhas, fora impedido 
pela guerra com el-Rei de Castella, e depois com os 
Mouros (12). Zurita faz menção de navegantes Guipus- 
coanos, e Andaluzes, queforão m descobrimento das Caná- 
rias em 1393, e se apossarão de algumas delias, e acres- 
centa, que finalmente el-Rei D. Henrique III de Castella 
facultara a Roberto de Braquemont no anno de 1401 o 
reconhecel-as, e conquistal-as, e que commeltendo Bra- 
quemont a expedição a seu parente João de Bethencourt, 
este com effeito conquistara algumas, e levantara forta- 
leza na Lançarote, em 1417. 

Do que tudo manifestamente se collige: i.°, que a par- 
ticular empreza da conquista das Canárias pelo Francez 
(alias Normando) Bethencourt nenhuma influencia teve, 
nem podia ter, nas emprezas marítimas da nossa gente; 
pois nem era nova, nem extraordinária, nem tinha por 
objecto descobrir novas terras e novos mares, mas sim 
e tão somente conquistar ilhas já conhecidas, e muito an- 
tes frequentadas por outros navegantes, e especialmente 
pelos próprios Portuguezes; 2.", que ainda concedendo 
(postoque seja falso) que a conquista das Canárias fosse 
capaz de dar o primeiro impulso aos descobrimentos Por- 
tuguezes, nenhuma necessidade tinha o Infante de esperar 

(12) Vejão-se as duas Memorias do Sr. .loaquim José da Cosfa 
do Macedo, nas Collenves ila Academia Real das Sciencias de Lis- 
boa, totii. 0.". pari. \.\ pag. H. r loiíi. 11/', iiarl. 2.-\ pag. 177. 



22 

que esse impulso lhe viesse de França, ou da Normandia, 
pois o tinha mais perto, em sua própria caza, e nas em- 
prezas de seu bisavô D. Aífonso IV; e, consequentemente, 
3.°, que se a gloriosa originalidade dos descobi-imentos 
do Infante D. Henrique podesse ser deslumbrada, ou oífus- 
cada pelo descobrimento ou conquista das Canárias, não 
caberia por certo essa honra ao navegante Normando, que 
não fez mais que repetir o que muitos outros tinhão feito 
antes delle. 

Mas não nos enganemos com a idéa de orighmUdade, 
que no nosso caso parece não ter sido sempre bem deter- 
minada pelos escriptores. A (jriginalidade, que nós atlri- 
buimos ás idéas, planos, e descobrimentos do immortal 
D. Henrique, não consiste precisamente em que só elle 
mandasse navegar mares, e descobrir terras desconheci- 
das, ou que fosse elle o primeiro que o emprendesse; 
consiste sim, e propriamente, em que desde tem[)Os an- 
teriores á era Christãa só elle projectou a circmnnavega- 
çào Africana, e por meio delia abrir caminho mar it imo 
para o Oriente, projecto que, pelo menos desde aquelles 
remotos tempos, ninguém formou antes deile, e ninguém 
executou senão elle, e os Portuguezes que se lhe seguirão 
depois da sua morte. 

E tanto he certo serem estes os principaes intentos do 
illustre Infante, e as bases, ou idéas fundamentaes do seu 
plano, que as contradicções que de muitos ao principio ex- 
perimentou, e as difficuldades que lhe oppunhão, erão em 
grande parte fundadas na supposta ou acreditada impos- 
sibilidade de haver habitantes na zona tórrida, e na outra 
impossibilidade da existência dos antípodas (13): contra- 

(13) Entre as razões que, segundo os nossos escriptores, se alle- 
gavão para impugnar os projectos do Infante D. Henrique, duas erão 
as principaes : liuma fundada na opinião de Aristóteles, recebida 
naquelle tempo nas escolas, que negava que a Zona Tórrida podesse 
ser habitada; opinião que contirmavão com a dePlinio, de Virgilio, 



23 

dicções, e difficuldades, que não podião ter lugar algum, 
se os projectos reconhecidos do Infante não consistissem 
em descobrir as costas e mares occidentaes e meridionaes 
de Africa, e passar por este caminho ao opposto hemis- 
fério, aonde somente podião achar-se os antipodas. Vejão 
pois os escriptores estrangeiros que relação tem a con- 
quista das Canárias com hum tão vasto e grandioso pro- 
jecto, e quão insensato he atlribuir a tão pequena causa 
hum eífeito tão extraordinário e tão novo ! 

Finalmente, o escriptor que acabamos de refutar, para 
nos não deixar (ao que parece) duvida alguma acerca do 
espirito, e das intensões que o dirigem, diz ainda depois, 

de Ovidio, e de outros antigos. A outra era que Lactancio, Santo 
Agostinho, e muitos outros escriptores, respeitáveis pelo seu saber 
e piedade, constantemente linhão affirmado não haver, nem poder 
haver antipodas. A estas razões acrescentavão, que Pindaro, famoso 
poeta Grego, S. Gregório Nazianzeno, e outros erão de parecer que 
o Oceano se não podia navegar além das coluranas de Hercules; e 
finalmente discorrião, que as terras que o Infante queria indagar, 
parecia terem sido cdadas somente para habitação de animaes bru- 
tos e de feras selvagens, e que se assim não fosse, seria impossivei 
que de tantos Reis e Principes, que no discurso dos séculos tinha ha- 
vido nas Hespanhas, desejosos de se assignalarem por emprezas gran- 
des e gloriosas, nenhum se lembrasse de mandar descobrir terras tão 
visinhas, contentando-se (dizião) com a que Deos dera para habita- 
ção dos homens, e não de brutos, como devia ser a que o Infante 
buscava, ainda que se viesse a descobrir. Alguns acrescentão, que 
ainda se dava outra razão contra os projectos do Infante, e era, que 
quem navegasse para aquellas partes se converteria de branco em ne- 
gro. Este modo do pensar, que bojo nos parece ridículo, era fundado 
na opinião então corrente (o não sei se ainda do todo desvanecida) 
que attribuia ás inthicncias do clima a côr que se observa nas dilfe- 
rentes raças de homens, opinião que seguio Plinio, liv. 2.°, cap. 78." 
(Aethiopas vicini siderii vapore lorreri. adnstisque similes qigni, 
barba et capillo vibrato, non est dubium), e que parece indicar que 
se não ignorava do toilo serom a(|uplles paizos. que so buscavão, ha- 
bitados do homens negros, noticia que provavolmonlo se tinha adqui- 
rido pelas informações dos Mouros. 



24 

que os Porluguezes descobrirão as costas de Africa aju- 
dados de alguns Italianos, que erão então os iinicos que 
os podião dirigir. 

Nós não disputámos aos Italianos, nem a nenliuma ou- 
tra nação o seu merecimento verdadeiro, e solido, e pro- 
vado, de qualquer natureza que elle seja; nem queremos 
fazer aqui odiosas comparações. Mas não podemos, nem 
devemos escusar-nos a dizer, que os Italianos não derão 
ás navegações Portuguezas soccorro algum essencial, nem 
de sciencia, nem de forças, nem de industria, nem de pe- 
ricia náutica; e que alguns poucos, que por acaso tiverão 
parte em nossas emprezas. em vez de nos trazerem soc- 
corro, vinlião pelo contrario participar da nossa gloria, e 
talvez dos lucros, que começavão a resultar de nossos des- 
cobrimentos e conquistas. 

Succedia naquelles tempos o mesmo que ainda hoje 
succede em circumstancias similhantes. 

Alguns aventureiros illustres, amigos da gloria, e de- 
sejosos de ler parte nas grandes e famosas emprezas, vi- 
nhão espontaneamente oíferecer-se aos Príncipes Portu- 
guezes, attrahidos do seu nome, e da fama que delles cor- 
ria por toda a Europa, para os servirem no mar ou na 
terra, e illustrarem assim suas pessoas, e adquirirem 
honra, reputação, e gloria (14). 

(14) Quando el-Rei D. João I preparava a grande armada, com 
que havia de hir á conquista de Cauta, consta pela historia, que al- 
guns estrangeiros, Inglezes, Francezes. e Allemães vierão offerecer-se 
ao seu serviço, e effectivamente o acompanharão, levando hum delles 
quatro ou cinco haixeis, e outro quarenta lanças á sua custa. Pelos 
annos de 1442 veio a Portugal hum Gentil-hometn da caza do Im- 
perador Frederico III, por nome Baltazar, o qual quiz embarcar-se 
em huma das expedições cá costa de Africa, unicamente com o fim 
de satisfazer a sua curiosidade, e ver as cousas novas, que a fama 
por toda a parte divulgava das navegações Portuguezas. Em 1446 
veio com o mesmo intento outro fidalgo da corte de Dinamarca cha- 
mado Balarte, e teve a infelicidade de morrer de desastre em Cabo 



:25 

Outros por descontentes das suas pátrias, ou por de- 
sejarem e buscarem melhor fortuna do que nellas gosa- 
vão, vinhão alistar-se no serviço dos nossos Reis e do In- 
fante, aonde suppunhão, e espera vão maiores e mais 
certos interesses. 

Outros serião talvez ciiamados e convidados pelos nos- 
sos Príncipes, que nunca desdenharão aproveitar os es- 
trangeiros beneméritos, ou para augmentarem a massa 
dos conhecimentos scientificos, ou para terem em seu ser- 
viço maior numero de empregados úteis, quando o mesmo 
serviço era vasto, e importante. 

Pelo que respeita em particular aos Italianos, o escri- 
ptor que afíirma, que elles ajudarão os Portuguezes em 
seus descobrimentos, e que erão os únicos que os po- 
Hão dirigir, he que devia indica r-nos quem forão es- 
ses Italianos, mestres, auxiliadores, e directores dos Por- 
tuguezes; mas he mais fácil usar de frases vagas, que 
não têera significação alguma determinada, do que re- 
ferir sincera e desapaixonadamente factos verdadeiros e 
provados. 

O primeiro Italiano, de algum nome, que tomou parte 

Verde, querendo haver hum elefante vivo. Em 1493 veio hum grande 
senhor Francez, que os nossos charaão Mr. de Liou, oíferecer-se a 
el-Rei D. João II para o servir com trezentas lanças na guerra de 
Africa. Em lolG escrevia Henrique VIII, Rei de Inglaterra, a el-Rei 
D. Manoel recommendando-lhe coin encarecidas palavras a João 
Wallop, nobre cavalleiro Inglez, varão illustre na milicia terrestre 
e naval, que desejava servir debaixo das bandeiras de Portugal, 
movido das grandes cousas que tinha ouvido dos Portuguezes, o 
de como á custa de inmicnsas despezas, c com incrivel valor Unhão 
alcançado formosas victoi'ias, doscoberlo hum mundo d'anlcs igno- 
rado (itjnDlum antea orlw.m), e It^vado as bandeiras de Christo victo- 
riosas por todas as praias do Oceano, vencendo Reis e povos ate o 
Mar Vermelho. E porque todos estes factos são verdadeiros, atre- 
ver-se-ha altmem a dizer, que as emprozas e grandes feitos dos Por- 
tuguezes são d(í\i(Ins ao auxilid, ou á direcção dos Aliemães, e dos 
Dinamarquczes, dos Prancezcs, ou dos Inglezes? 



em nossas navegações, foi Luiz de Carfawosío, Veneziano, 
o qual, segundo suas próprias Relações, veio a Portugal 
em 1444, e fez duas viagens á costa de Africa, huma em 
\ 445, e outra era 1 446, vinte e oito, ou vinte e nove annos 
depois de começadas as emprezas do Infante D. Henri- 
que, e vencidas as primeiras difiQculdades, e quando já 
os Portuguezes, sem auxilio nem direcção estrangeira, ti- 
nhão descoberto as ilhas da Madeira, Porto Santo, e De- 
serta, algumas do Archipelago dos Açores, e a costa de 
Africa até Cabo Verde inclusivamente. Cadamosto nem foi 
chamado, nem veio de propósito a Portugal. Dirigia-se ao 
norte a negociar suas fazendas; sahio em terra no cabo 
de Sagres; e ahi informado de nossas navegações, e dos 
lucros que já se tiravão do commercio dos lugares des- 
cobertos, desejou ser admittido em nossos navios, e avis- 
tando-se com o Infante, obteve delle fácil consentimento. 
Embarcou em huma caravella do mesmo Infante, que en- 
tão se apromptava para Africa, governada e guarnecida 
de Portuguezes ; e nella correo a costa de Cabo Verde para 
o sul até o rio Gambia, e paiz deste nome, que era o que 
deterrmnadammto buscarão os Portuguezes por expressa 
ordem do Jn/antc. Nesta primeira viagem de Cadamosto 
se encontrou a caravella, era que elle hia, com outras duas, 
em que navegava António de JSola, Genovez (de que logo 
falaremos) com alguns Portuguezes criados do infante, 
e accordando-se todos, resolverão hir em conserva, e as- 
sim o executarão. 

No anno seguinte de 1446 fez Cadamosto a sua segunda 
viagem em huma caravella, acompanhado de outras duas, 
huraa do Infante D. Henrique, e outra era que hia Antó- 
nio de Nola. Na altura de Cabo Verde descobrirão quatro 
ilhas daquelle archipelago, descobrirão a costa do conti- 
nente até o Rio Grande, e defronte delle algumas ilhas, 
que parece serem as do archipelago dos Bissangos, donde 
voltarão a Portugal : e não sabemos que Cadamosto fizesse 



27 

outra alguma viagem para arliaular os descobrimentos Por- 
tuguezes. 

Nestas duas pode ser, e he de presumir que eile mos- 
trasse génio curioso, animo resoluto, e até alguma perí- 
cia náutica; mas nós não sabemos, que por sua direcção 
e magistério se vencesse alguma especial ditlíiculdade, ou 
que elle por qualquer modo corregisse, rectificasse, ou 
aperfeiçoasse os conhecimentos náuticos dos Portugue- 
zes, nem os planos, ou os melhodos de suas navegações; 
e julgamos não fazer injuria a Gadamosto, se disser- 
mos, que o seu nome não seria tão conhecido, se elle 
não tivesse escripto as Relações das suas viagens, que 
divulgando-se pela Europa, e perpetuando-se depois pela 
imprensa, o associarão para sempre á gloria de nossas 
emprezas. 

O segundo Italiano, de que temos noticia que tomasse 
parte em nossas navegações, he António de Nola, Geno- 
vez. que ha pouco nomeámos. Não temos certo conheci- 
mento dos motivos, que o trouxerão a Portugal; e so- 
mente alguns de nossos antigos escriptores dizem, que 
elle, descontente da sua republica, viera a este reino com 
duas náos e hum barinel, trazendo em sua companhia 
dous sobrinhos, ou hum sobrinho e hum filho natural, 
ambos do mesmo appellido. Dos seus descobrimentos sa- 
bemos o que diz Gadamosto, e nós referimos nos antece- 
dentes parágrafos. Os escriptores Portuguezes e estran- 
geiros vincularão o nome de António de Nola ao desco- 
brimento das ilhas de Cabo Verde, postoque com alguns 
erros e contradicções chronologicas: nós porém, sem o 
querermos despojar dessa gloria, contentâmo-nos com 
reflectir, que as ilhas de Cabo Verde, na situação em que 
estavão, havião de ser mais cedo ou mais tarde desco- 
bertas i)or alguns dos muitos navegantes Portuguezes 
que corrião aquelles mares, e que o seu descobrimento 
por António de Nola nos não parece bastante pai-a lhe dar 



28 

O titulo pomposo e enfático de auxiliador e director das 
nossas emprezas maritimas. 

Outro tanto dizemos de Fernando Pó, que aqui apon- 
tamos por nos parecer Italiano o seu appellido, postoque 
em nenhum dos nossos escriptores o temos achado desi- 
gnado como estrangeiro. Este navegador descobrio a ilha, 
que conserva o seu nome, e he tudo quanto sabemos da 
sua perícia náutica. 

O quarto Italiano de nome, que nos occorre, he o ce- 
lebre America Vespticio, Florentino, o qual foi positiva- 
mente convidado por el-Rei D. Manoel, mais de oitenta 
annos depois de começadas e muito adiantadas as nossas 
emprezas maritimas, e por mandado daquelle Príncipe 
reconheceo as costas da Terra de Santa Cruz (Brazil), já 
descoberta por Cabral em 1300, e tocou vários pontos 
daquellas vastas regiões, hindo, comtudo, nas suas duas 
viagens, em navios Portuguezes, navegados por Portu- 
guezes, e debaixo da direcção de Capitães Portuguezes. 
Ninguém dirá (nos parece) que naquelle tempo necessi- 
tássemos ainda das direcções Italianas em nossas nave- 
gações. 

Em summa: a passagem do cabo Bojador tão dilFicul- 
tosa, e tão temida naquelles primeiros tempos; o desco- 
brimento da alta e baixa Guiné; a estupenda passagem 
do cabo da Boa Esperança; a derrota do grande Gama até 
Calecut, que foi o acontecimento de maior interesse, e de 
igual diíFiculdade, e os ousados descobrimentos que logo 
se seguirão até ás costas mais remotas da China, e do Ja- 
pão, d-c, tudo isto foi obra somente de Portuguezes, em 
que nenhum estrangeiro teve parte, como he constante 
da historia. 

Seja-nos permittido acrescentar ainda, em nosso justo 
desagravo, que nem os Italianos, nem outra alguma na- 
ção da Europa, era naquelles princípios, e depois no de- 
curso do século XV, mais instruída que os Poituguezes 



Í9 

nos estudos da astronomia, cosmografia, e náutica (15). 
Os Italianos navegavão, he verdade, desde longos tem- 
pos, e derramavão pela Europa as drogas e especiarias 
do oriente, e com isto tinhão chegado a grande riqueza, 
poder, e luzimento as republicas de Veneza, Génova, Piza, 
Florença, d-c; comtudo estas suas navegações erão quasi 
meramente commerciaes ; limitavão-se aos mares conhe- 
cidos, e especialmente ás costas do Mediterrâneo, mais 
ou menos praticadas das outras nações marítimas ; e nunca 

(15) Citaremos em prova disto dous ou três escriptores, que se 
não podem reputar suspeitos. Seja o primeiro Montucla, Historia 
das Mathematicas, Supplemento contendo a historia da navegação, 
tom.â.", pag. 6i8 : «Aos Portuguezes devemos (he forçoso confessal-o) 
o exemplo deste ardor que nos grangeou hum conhecimento mais 
perfeito do globo. No meio do século xv, D. Henrique, filho de João, 
Rei de Portugal, Principe filosofo, e versado na mathematica, con- 
cebeo o nobre desígnio de adiantar os descobrimentos. . . ao longo 
das costas de Africa. Ajudado dos dous mathematicos José e Rodrigo, 
ensinou aos navegantes methodos, e lhes deu instrumentos próprios 
para observai" o sol e as estreitas. . . A invenção das cartas hydrogra- 
ficas he obra do Principe D. Henrique », &c. 

Malte Brun, Précis de Geographie: «A marinha Portugueza foi 
mui florente no tempo de D. .loão I. Havia então no reino escolas 
mui celebres para os estudos da navegação, em hunia das quaes aca- 
bou Colombo de aperfeiçoar os seus talentos. No mesmo reinado erão 
os Portuguezes reputados como os primeiros navegadores do seu sé- 
culo, e Portugal occupava o primeiro lugar entre as potencias ma- 
ritimas». 

Bory de St. Vincent: «Nestes tempos heróicos se arremeçou o 
génio Portuguez a hir brilhar até ás extremidades da terra. A arte 
da navegação, e ns sciencias geográficas cultivadas com feliz successo 
abrirão o vasto caminho dos mares aos valerosos aventureiros. . . 
Pouco a pouco a costa de Africa foi explorada até ao fundo da Guiné 
meridional... Em 1497 foi dobrado o cabo Tormentoso, e descoberto 
o caminho da índia: vierão alguns guerreiros do Tejo dictar leis 
ao gollo Pérsico, ao Sinde, c ao Ganges. Huiiia multidão de ilhas, 
a que nem o nome se sabia, tomarão seu lugar na carta geográfica, 
e a metade da America meridional foi também tributaria a este canto 
da Europa », &('. 



3Q 

tiverão por objecto o descobrimento e exploração de ma- 
res, terras, e costas totalmente ignoradas dos Europeos. 
E d'af{ui veio não só a admiração e o espanto que em 
toda a Europa causarão naquelles tempos as ousadas na- 
vegações Portuguezas (que alguns tinhão, como já disse- 
mos, por insanas, até entre os próprios Italianos) (16), 
mas também o empenho com que muitos estrangeiros sá- 
bios, e curiosos, vinhão a Portugal para verem com seus 
olhos o que a fama divulgava, e para reconhecerem por 
si mesmos o que de outro modo parecia superior a toda 
a credibilidade. 

Agora que nos temos demorado neste assumpto mais 
do que ao principio foi nosso intento, não será totalmente 
alheio delle notar ainda algumas outras falsidades, e erros 
não menos grosseiros, que se têem escripto ao mesmo 
respeito, para que por elles se veja com quanta razão nos 
queixámos, e quão justa he, e bem merecida a indignação 
que a cada passo nos excita o baixo ciúme, ou a affectada 
ignorância, com que os estrangeiros tratão nossas cousas. 

Mr. RoUin (Histoire ancienne) tratando dos progressos 
da navegação, e encarecendo as vantagens da bússola, e 
de alguns outros instrumentos, que se forão inventando, e 
taboas e cálculos que se tizerão para facilitar a observação 
dos astros, continua assim: «Os pilotos se aproveitarão 
destas vantagens, e ajudados deste soccorro atravessarão 
mares desconhecidos, e o successo das primeiras viagens 
os animou a tentar novos descobrimentos. Todos os povos 
da Europa se empregarão d 'porfia em navegar mares 
desconhecidos. Os Francezes forão dos primeiros que as- 
signalárão a sua coragem e dexteridade. Occupárão as 
Canárias, e penetrarão mui avante em Guiné. Os Portu- 

(16) Fr. Bernardo de Brito no Elorjio de el-Rei D. Manoel, diz 
que «alguns llalianoí^ chamavão temerárias as emprezas dos Portu- 
gnezes, por não serem dentro de caza, e com destruição da pátria, 
como as suas delles ». 



3i 

guezes tomarão a ilha da Madeira, e a de Cabo Verde. Os 
Flamengos descobrirão as ilhas dos Açores. Estes des- 
cobrimentos não farão mais que preludio do do novo 
mundo». Aqui fala de Colombo, e logo continua: « Por 
outra parte os pilotos do Rei de Portugal, que até então 
não tinlião feito mais que correr as costas de Africa, do- 
brarão então o cabo da Boa Esperança», &c. 

Tanta força tem a preoccupação, o amor desordenado 
da pátria, ou a presumpção da gloria nacional, que hum 
escriptor tão sizudo, e tão douto como Rollin, lhe não 
pôde resistir, escrevendo as palavras citadas com menos- 
cabo da verdade, do seu próprio credito, e até do seu 
saber. 

Nós perguntaremos primeiro a Rollin, que pilotos forão 
esses que atravessarão mares desconhecidos, e quaes os 
povos da Europa que á porfia se empregarão em os na- 
vegar? 

Se o douto escriptor quizer ser sincero e verídico não 
terá muito que responder a esta pergunta, senão recor- 
rendo aos pilotos Portuguezes, e á nação Portugueza ; pois 
de nenhuns outros e de nenhuma outra sabemos, que nos 
tempos de que falia Rollin atravessassem mares desconhe- 
cidos, e porfiassem em os navegar. 

Mr. Rollin julga-se com direito a pôr os Francezes na 
classe dos primeiros, que naquellas emprezas assignalá- 
rão a sua coragem e dexteridade, repetindo sem prova 
alguma os suppostos descobrimentos de Guiné, e a con- 
quista das Canárias. Mas ambas estas quimeras ficão acima 
refutadas, e nos parece que não merecem mais longa dis- 
cussão. 

.Das outras nações não aponta Rollin outra alguma, que 
fizesse descobrimentos marítimos naquelle tempo, senão 
os Flamengos, a quem attribue o descobrimento das ilhas 
dos Açores. Esta opinião he destituída de fundamento, e 
alguns escriptores que a tem seguido, talão com tanta va- 



32 

riedade e incerteza, que bem mostrão não procederem 
sobre razões solidas; mas sem nos empenharmos aqui 
em discutir este ponto (que liavemos de tratar em outra 
parte) contentâmo-nos com dizer: 1.°, que muito antes 
dos Flamengos tinhão os Portuguezes descoberto as prin- 
cipaes illias do archipelago dos Açores, como he sabido; 
2.°, que ainda suppondo certo esse descobrimento dos 
Flamengos, resta muito para mostrar, que os navegado- 
res desta nação por/idrão em navegar mares desconhe- 
cidos; e resta ainda muito mais para provar, que todas 
as nações entrarão no mesmo empenho na época de que 
fala Rollin. 

Ultimamente descobre-se mais claramente o ciúme do 
auctor, quando no meio desse alvoroço, e porfiado em- 
penho, que suppõe em todas as nações, apenas se digna 
attribuir aos Portuguezes o descobrimento da ilha da Ma- 
deira, e da de Cabo Verde, sendo bem notável, que para 
attenuar ainda mais o merecimento dos Portuguezes, até 
supponha este escriptor huma só ilha de Cabo Verde (Visle 
de Madera, et celle da Cop-vcrd), como se falando delias 
no numero plural avultasse mais a gloria dos descobri- 
dores ! 

Estes descobrimentos (diz Rollin) não farão mais que 
preludio do do novo mundo. Nós ousámos contradizer, 
nesta parte, redondamente o douto escriptor, e susten- 
tamos que os descobrimentos dos Portuguezes desde o 
anno 1416, em que os começarão, até o de 1492 em que 
Colombo descobrio as Antilhas, forão alguma cousa mais 
do que preludio deste ultimo successo. Pois que? Julga 
Rollin, ou pôde julgar alguma pessoa de são juizo, que o 
descobrimento de toda a costa occidenlal de Africa e do 
cabo da Boa Esperança (já dobrado ao tempo da expedi- 
ção de Colombo), não foi mais que preludio da viagem de 
Colombo? Ainda quando as navegações e os navegadores 
Portuguezes não tivessem dado a Colombo exemplo e li- 



:í3 

çues, ainda quando nunca tivessem existido os descobri- 
mentos de Colombo, poderia acaso negar-se algum valoi^ 
próprio e real a descobrimentos, que facilitarão a circum- 
navegação Africana; que abrirão o caminho maritimo do 
oriente; que mostrarão aos astrónomos novos ceos e no- 
vas estrellas; que desvanecerão a antiga preoccupação de 
ser inhabitavel a zona tonida, e de serem impossíveis os 
antípodas; e finalmente, que fizerão confessar ao mundo 
(segundo a frase do illustre Marechal de Turenna) a igno- 
rância, em. qiip. vivia até ao tempo do glorioso atrevimento 
Portnguez? 

«Os pilotos do Uei de Portugal (diz ainda RoUín) que 
até ao descobiimcnío de Colombo não tin/ião feito mais 
que correr as costas de A/rica, dobrarão então o cabo da 
Boa Esperança.» 

O escriptor ignorava (ao que parece) ([ue o cabo da 
Boa Esperança tinha sido descoberto e dobrado pelo in- 
trépido navegador Portuguez Bartliolomeu Dias, man- 
dado a essa grande empreza por el-Rei D. João II, em 
1486, alguns annos antes que Colombo começasse a sua 
navegação. 

Perdoemos ao escriptor Francez esta ignorância: mas 
quem ha de perdoar-lhe o affectado desdém, com que diz 
que até áquelle tempo os pilotos do Rei de Portugal não 
tinhão feito mais que correr as costas de Africa? 

Os pilotos do Rei de Portugal, e os grandes navegado- 
res Portugufzes dnquelle século não só tinhão corrido 
toda a costa occidental de Africa, por elles mesmos palmo 
a palmo descoberta, e nunca porventura vista ou tocada, 
na sua maior parte, de alguns outros navegadores antigos 
ou modernos; mas tinhão também fundado nella fortale- 
zas, feitorias, povoações, e cidades: tiniiãoannunciadoem 
algumas daquellas barbaras regiíjes o Evangelho de Jesu 
Christo, e plafilado a sua fé; tinhão revelado á Europa e 
ao mundo as immensas vantagens que dali podião vir ao 

TOMO V 3 



34 

commercio; tinhão ligado communicação e amizade cora 
os Príncipes Africanos, e feito algumas diligencias para 
alcançarem noticia das grandes feiras de Tomboctu, e Hua- 
dem, à-c. E com isto tinhão ainda descoberto e povoado 
os archipelagos da Madeira, dos Açores, de Gabo Verde, 
de S. Thomé; tinhão despachado viajantes por terra á 
Abyssinia e á índia; e tinhão finalmente aberto o cami- 
nho, por onde os sábios chegarão a alcançar o perfeito co- 
nhecimento do globo que habitamos. E julga Mr. Rollin, 
que satisfaz ;i verdade e sinceridade histórica, encerran- 
do-se em dizer, que os pilotos do Rei de Portugal, até á 
empreza de Colombo não tinhão feito mais que correr as 
costas de Africa?! Nós, por certo, temos pejo, e nos sen- 
timos magoado de notar taes ignorâncias, e tão ineptas 
reticencias em hum escriptor tão erudito, e tão acreditado 
entre os eruditos ! 

Seria necessário escrever hum grosso volume, se qui- 
zessemos notar os erros, as ignorâncias, os anachronis- 
mos, e as falsidades, que a cada passo se lêem nos escriptos 
estrangeiros acerca de nossos descobrimentos e suas cir- 
cumstancias. 

Hum, por exemplo, diz que os Portuguezes se glorião 
de serem os primeiros que conhecerão o cabo da Boa Es- 
perança, mas que he indubitável que tombem os antigos 
o conhecerão, sem comtudu designar quem forão estes 
antigos (17). E em outro lugar, diz que osFrancezes des- 
cobrirão a região de Guiné, e fundarão nella colónias; 
mas que sendo o reino de França gravemente perturbado 
pelas guerras de Carlos VI e VII, forão os Francezes ex- 
pulsos de Guiné pelos Portuguezes, Inglezes, Hollande- 
zes, Dinamarquezes, e Suecos, que todos ali tiverão esta- 
belecimentos! (18). 

(17) Moreri, Diccion. Univers., v. Ethiopia. 

(18) Ibid.. íbid, V. Guiné. 



35 

Outro diz que o Cabo Verde fora conhecido antes que 
os Portuguezes lá chegassem em 1474. Que Axim he hum 
pequeno paiz na costa de Africa habitado antigamente 
pelos Francezes, e que os Portuguezes os lançarão d^ali, 
e edificarão no mesmo lugar hum forte em 1416! Que se 
crê que o cabo da Boa Esperança foi avistado em 1420 
por hum navio que vinha da índia! Sem comtudo nos 
dizer d'o?ide ou para onde vinha esle navio da índia em 
1420, nem aonde ancorou, ou deo noticia de ter avistado 
o cabo! Este escriplor ainda acrescenta, que as ilhas do 
Cômoro forão descobertas pelos Portuguezes; mas que 
estes se portarão tão mal, que nunca mais os Europeos 
poderão ali conservar-se (19). 

Outro diz que a ilha de S. Thomé fora descoberta em 
1405, a do Príncipe em 1471, a ([^Annobom em 1526, e 
que os Portuguezes se apossarão de Çofala em 1586 (20). 

Outro diz que o nome da China foi inventado pelos Por- 
tuguezes. Que Bombaim he derivado das palavras Portu- 
guezas buon-bahia. Que o nome de Siam fora dado pela 
ignorância Portuçueza ao reino e capital, que assim seno- 
meião. Que os nomes de Cochinchina, Siampa, e Cam- 
boge são desconhecidos no paiz, d-c. Este mesmo escri- 
ptor chama ilhas Paracels huns ilhotes defronte da costa 
oriental da Cochinchina, aos quaes os Portuguezes deno- 
minarão parce/^ com o nome genérico, que significa baixo 
formado de penedos ou rochas, que sobem pouco acima 
da super ficie do mar, á-c, á-c. (21). 

Outro ainda diz, que os Francezes forão os primeiros 
que abordarão á ilha de Madagáscar , e nella fuudárão 
hum estabelecimento, que se não consernui (22), cVc. d-c. 

(IS)) Mv. \\ni'f. Diriion. Vuicers. de Geoiiruf. Miidi'tii., otl. 
do 18i;i. 

(20) Mr. la (Jroix, Comp. de Gcoijynl'. moderu.. iil. ilf 1777. 

(21) Pinckerton, Abreg. de Geograf., &c. 

(22) Mr. de Bulíon, líht. mtur. de 1'Iwiiiiiu: 



36 



Taes são as liçOes que nos dão os estrangeiros, e a vin- 
gança que tomão das que nós lhes demos no século xv, e 
da gloria verdadeira e solida que então adquirimos! 



NOTA NA EDIÇÃO DE 1840 

O discurso que agora publicámos pela imprensa, foi es- 
cripto ha cousa de dez annos, quando, achando-nos em 
forçado e penoso ócio, procurávamos distrahir de amar- 
gas cogitações o nosso espirito, e empregar o tempo com 
alguma satisfação, e utilidade própria. 

Succedendo, muito depois, dar leitura delle a algumas 
pessoas de nossa amizade, e respeito, e julgando ellas que 
a sua publicação poderia ser conveniente, não hesitámos 
em consentir que se publicasse, e então lhe fizemos al- 
gumas poucas e pequenas alterações. 

Quando porém o tirávamos a limpo para a impressão, 
vierão á nossa mão duas obras, que tocando alguns dos 
pontos do mesmo Discurso, nos pareceo que não devião 
ficar de todo sem resposta. E como a nossa situação já 
então nos não permittisse entrar de espaço, e pausada- 
mente nesse empenho, hmitámo-nos a escrever o seguinte 
P. S., que bastará, emquanlo penna mais hábil não em- 
prende, sobre tão importante assumpto, algum trabalho 
mais acabado. 

P. S. 1." 

A primeira daquellas duas obras, que vierão á nossa 
mão, tem por titulo Voyages en Afrique, comprenant 
li's découveríes et mnqaêtes des Portiigais. Paris, 18H4, 
2 vol., 8.° 

No tom. \.^, pag. 106, confessa o escriptor com notá- 
vel ingenuidade: a Que toda a parte occidental de Africa, 



37 

desde Gibraltar até o cabo da Boa Esperança, somente 
foi bem conhecida depois que os Porttcguezcs dobrarão 
este cabo, indo ás índias por mary>; mas logo acres- 
centa: 

«Comtudo, muitos viajantes, entre outros Villaul-bel- 
lefbnd, eLabat, provão pelos monumentos, que ainda sub- 
sistem em Africa, que desde o meio do século xív, isto he, 
mais de cem annos antes dos primeiros descobrimentos 
dos Portuguezes, alguns mercadores Francezes de Dieppe, 
seguindo as costas desde Gibraltar, forão ao Senegal, e 
formarão estabelecimentos sobre a costa de Malaguetta, 
donde trazião pimenta e marfim. Dão-se por prova destas 
viagens os nomes Francezes, que se têem conservado na- 
quelles paizes, onde algumas bahias se chamão ainda 
baies de France, e onde dous lugares se nomeião ainda, 
hum le petit Dieppe, e outro le petit Paris. Ajuntão, que 
os tambores negros batem ainda huma marcha Franceza! 
E aíTirma-se emíim que o celebre castello da Mina fora 
edificado pelos Poituguezes sobre as ruinas de hum an- 
tigo estabelecimento Francez, que tinha sido abandonado 
durante as guerras civis, assim como outras possessilies 
em Cormentim e Commendo . Mas he difjlcil crer que tenhão 
ficado tão poucos vestigios de tamanho poder. O que pa- 
rece provado he que com efíeito os Normandos, inclinados 
sempre, pela sua situação, ao commercio marítimo, fre- 
quentarão longo tempo as costas de Africa, onde tiverão 
feitorias, que as guerras civis fizerão abandonar depois 
da morte de Carlos VI. He ao menos certo que quando os 
Inglezes, primeiro a[)ós os Poituguezes, fizerão empre- 
zas commerciaes na cosia de Guiné, os Francezes pare- 
dão ter-se esquecido daqueUe caminho, a que só voltarão 
algum tem[)o depois. » 

Muito de propósito copiámos todo este lugar, traduzido 
fiel e litteralmente em portuguez, para que por elle se 
conlicça quanto he vão, inconsistente, e até cnntiMdictoric 



38 

O discurso do escriplor, e quanlo elle mesmo reconhecia 
a verdade, que pretende encobrir e confundir. 

Refere-se elle a muitos viajantes, que i)rovão as empre- 
zas dos mercadores de Dieppe nas costas occidentaes de 
Africa no século xiv. E quando era de esperar, e a im- 
portância e novidade da matéria pedia que elle nomeasse 
algum, ou alguns contemporâneos, ou ao menos dos 
tempos próximos, que nos revelassem aquelle tão igno- 
rado segredo, não achámos apontados senão os nomes de 
Yillaut-bellefond, e do Padre Labat. ambos posteriores 
trcs séculos e mais áquellas imaginadas cniprezas do sé- 
culo XIV, e cujas opiniões já ficão devidamente avaliadas 
no nosso Discurso (pag. He seguintes). 

De vocábulos Francezes, usados na cosia de Africa, não 
dão estes viajantes ou escriptores, nem podem dar, hum 
único exemplo ; ao mesmo tempo que nós os Porluguezes 
podemos apontar muitos, e ceitos vesligios, que lá licárão 
(como era natural), e ainda hoje se conservão do nosso 
idioma. O próprio escriplor, que refutámos, nos dá fre- 
quentes provas disso, tanto nos breves vocabulários que 
traz dos idiomas Fulo, Mandinga, e Gelofo, como nas in- 
terpretações, que a cada passo nos ollerece dos vocábulos 
daquelles paizes. 

Chamar para aqui os nomes bahia de França, pequeno 
Paris, pequeno Dieppe, sem indicai' hum só auctor, ou es- 
cripto dos séculos xiv, xv, ou xvi, em que se achem taes 
denominações, indica pobreza de provas, e he abusar de- 
masiadamente da boa fé, e sinceridade dos leitores, ou ter 
em pouco o seu juizo e discernimento. 

Nada porém nos parece mais extravagante, ridículo, e 
impróprio de hum escriplor serio e sizudo do que aífir- 
mar, que ainda hoje os tambores negros tacão hunta mar- 
cha Franceza! Nós convidámos o escriplor a nos dar 
(porque será certamente cousa curiosa, e grata aos ama- 
dores) em caracteres de musica alguma amostra das mar- 



39 

chas militares Francezas do século xiv, comparadas com 
a actual musica negra das costas de Africa! Emquanto 
elle porém se não prestar a este nosso innocente desejo 
e convite, concordaremos com elle em dizer, como elle 
diz, que he di/ficil crer que ficassem tão poucos (melhor 
dissera nenhuns) vestígios de tamanho poder j, e de tantas 
emprezas; e que esses mesmos suppostos vestígios se re- 
duzão a três nomes modernos, e á musica dos tambores 
dos negros! 

As ruínas do estabelecimento Francez da Mina, que 
Mr. de Avezac condecorou com o nome de igreja, e so- 
bre as quaes, diz o nosso escriptor, que os Portuguezes 
fundarão o castello de S. Jorge, estas ruínas, digo, nunca 
existirão senão na fantasia dos escriptores que copiarão, 
e ornarão as fabulas do Padre Labat. A historia da fun- 
dação do castello e cidade de S. Jorge da Mina pelos Por- 
tuguezes, de mandado do grande Rei D. João II, deve 
ler-se em Garcia de Rezende, escriptor contemporâneo e 
verídico, e no illustre Barros, dec. 4.% liv. 3.°, cap. 1.° 
e 2.°, onde se verá quaes forão as ruinas Francezas, que 
lá acharão os Portuguezes. Os testemunhos positivos des- 
tes dous escriptores não se refutão por huma simples afíir- 
niativa, destituída de fundamento, e de qualquer género 
de prova, que ao menos lhe dé alguma côr, e apparencia 
de verdade. 

Bem conhecia o escriptor toda a futilidade de suas opi- 
niões e argumentos; e por isso depois de tantas palavras 
inúteis, se encerra em dizer que parece provado que os 
Normandos hequentárão longo tempo as costas de Afri- 
ca (23), e tiverãíj ali feitorias: e como nem disto mesmo 

(23) A única eiupreza dus Nonnaiidos sobi'e as costas de Afritia 
liiiiHou-se á conquista das Canárias, muito d'antes conhecidas e vi- 
sitadas pelos Portuguezes, como dissemos, e provámos no nosso 
Discurso. Xa historia destes povos mo ha hum único indicio de que 
cllfs so dirijíissfiii j;iinais ás costas do confiMcnlo AlVicino, niuilo 



40 

podesse dar, nem desse prova alguiiui, tira por ultima 
conclusão, que ao menos he certo, que quando os Ingle- 
zes, primeiros depois dos Portuguezes, forão a Guiné, 
os Francezes se tinhão esquecido daquelk caminho! 

Mas até nestas poucas palavras, já tão reduzidas, he o 
nosso escriptor pouco sincero, e pouco verídico. Se elle 
quizera falar a verdade pura e clara , devera dizer : 1 .°, que 
os Portuguezes começarão os seus descobrimentos na costa 
de Africa nos princípios do século xv, quando nenhuma 
nação da Europa se lembrava de taes emprezas, nem ainda 
as julgava exequíveis; S."*, que por todo o século xv c xvi 
forão elles os únicos, que frequentarão aquellas costas, e 
nellas fizerão largos estabelecimentos; ii.", que só no ílm 
do século XVI, depois de dous séculos quasi inteiros de 
posse pacifica, e exclusiva dos Portuguezes, he que os 
Inglezes, e depois delles outros povos, começarão as 
suas emprezas para aquellas terras, com o hm de nos 
despojarem da posse e senhorio que nellas tinhamos, 
com o pretexto de estarmos então sujeitos a Castella; 
mas em realidade movidos da inveja da nossa gloi-ia. e 
da cobiça das nossas riquezas; 4." linalmente, que até 
então estiverão os Francezes, não esquecidos (como diz o 
escriptor), mas perfeitamente ignorantes daquelle cami- 
nho, que nunca tinhão visto, nem trilhado, nem frequen- 
tado (á4). 

menos das Canárias para o sul ; nem que elles, ou outro algum povo 
Europeo, antes dos Portuguezes, passasse além do caho de Nam. para 
a mesma handa. 

(24) He mui notável o modu com que se explica iMr. Moreri no 
seu Diceion. Histor.. seguindo o Padre Labat, c adoptanilo as suas 
fabulas. Diz elle no artigo Guiné, que os Francezes descobrirão esta 
região e fundarão nella colónias; íuas (\\\p sondo o reino de Franca 
(jracemente perturbado pelas guerras de Carlos VI e Vil, forão os 
Francezes expulsos de Guiné jielos Portucjuezes, Inglezes, Hollandc- 
zes, Dinainarquezes, e Suecos, qite todos ali tirerão estaheleciínentos! 
Assim se escreve ás vezes a historia em PVança ! A verdade he, que 



41 



P. S. 2." 

A outra obra que veio á nossa mão, e a que nos refe- 
rimos no principio desta nota, tem por titulo Notices sta- 
tistiques sur les colonies Françaises, imprimées par or- 
dre de Mr. VAmiral Baron Diiperré, Ministre Secrétaire 
VÉtat de la Marine et' des Colonies. Paris. Imprimerie 
lioyale, i839, 8.° 

Na 3.^ parte desta obra, intentando o Auctor dar a No- 
ticia estatística do Senegal, e suas dependências, começa 
por estas palavras, que aqui fielmente traduzimos: 

«As primeiras expedições dos povos modernos pela 
costa occidentalde Africa datão do meio do século xiv. 
Elias forão emprehendidas por Francezes, habitantes de 
Dieppe, e não (como por longo tempo se tem acreditado) 
por Portuguezes, e Hespanhoes. » 

Confessamos ingenuamente, que huma affirmativa tão 
dogmática, tão decretoria, e tão solemnemente enunciada 
em huma obra, que se pôde reputar official, nos poz em 
alguma perplexidade, receiando achar ali desmentidas to- 
das as nossas antigas Relações e Historias, todas as nossas 
crenças c tradições, e a opinião assentada e nunca con- 

os Portuguezes não expulsarão, nem podião expulsar de Guiné os 
Francezes, que nem lá estavão, nem nunca lá tinhão hido. A ver- 
dade he, que nenhuma nação Europea ousou fazer tentativa alguma 
sobre as nossas possessões de Africa occidental antes do anno de 1590, 
isto he, cento e cincoenta, ou mais annos, depois dos nossos desco- 
i)rimentos, e posse exclusiva. A verdade lie, que nenhuma das nações 
nomeadas por Moreri teve estabelecimento algum em (luiné, nem 
em outro (pialquer lugar das costas dtí Africa, senão depois que 
D. Filippe II se apossou violeida e tyrannicamentc de Portugal. 
Moreri, misturando todas aijuelhis nações sem distineção de épocas 
e de tempos, ten\ manifestamcnie cm vista: 1.", deprimir, ou escu- 
recej', ou confundir a gloria dos Portuguezes; 2.", exaltar a nação 
Franceza, quasi daniln a entender, tpie foi necessária huma conspi- 
ração geral da Europa para expulsai' os Francezes de Guiné! 



42 

testada de todos os escriptores nacionaes e estrangeiros, 
contemporâneos, ou próximos ao tempo daquelles nossos 
descobrimentos, e que delles falarão em seus escriptos. 

Mas a nossa perplexidade e receio não durou senão al- 
guns poucos momentos; porquanto, continuando a leitura 
da obra, logo observámos (cousa verdadeiramente notá- 
vel, e digna de séria reflexão) que o cscriptor nem liuraa 
só prova acceitavel nos dá da sua estranha e atrevida pro- 
posição; nem com hum só facto ou testemunho fidedigno 
a auctorisa. E por certo que nos fez isto a maior admira- 
ção em hiima obra impressa na Imprmsa Real de França, 
approvada, ou consentida, e mandada imprimir pelo Mi- 
nistro da Repartição da Marinha e Colónias, em cujos 
archivos deverião existir piovas (se as houvesse), ou ao 
menos algumas memorias, lembranças, ou indícios, que 
auclorisassem a crença (|ue se pretende estabelecer con- 
tra o manifesto, e innegavel direito primitivo, original, e 
único dos Portuguezes. 

Sabido he, e por todos reconhecido (e nós já o mostrá- 
mos no nosso Discurso) que quando os Portuguezes co- 
meçarão a grande empreza dos seus descobrimentos nas 
costas occidentaes de Africa, era o cabo de Nam o termo 
de todas as navegações Europêas para aquella banda; e 
que quando elles i)assárão além daquelle cabo, e mais 
depois, no fim de doze annos de tentativas infrucluosas, 
chegarão a dobrai- o temido Bojador, e se forão adian- 
tando passo a passu na costa paia o sul, não acharão hum 
só vestígio de outra alguma gente Europêa, que para ali 
tivesse navegado, achando aliás naquelles povos selva- 
gens tão profunda ignorância das cousas da Europa, e 
tão estranha admiração de tudo quanto vião, que até os 
navios dos Portuguezes lhes parecião grandes aves, que 
hião voando por cima das aguas. 

Sabido he (e nós também já o dissemos e provámos) 
que nenhuma nação da Europa pretendeo naquelle tempo 



43 

allegar, e ainda menos provar a sua prioridade na em- 
preza das navegações pela costa de Africa, antes geral- 
mente as tinhão por temerárias e insanas. 

Os próprios Portuguezes se oppunlião, ao principio, 
aos pianos e projectos do illustre Infante D. Henrique com 
os fundamentos que ficão apontados no nosso Discurso 
(a pag. 22j ; e lie inverosimil que se os Francezes ou Nor- 
mandos tivessem já frequentado aquellas costas, e fun- 
dado nellas feitorias, estabelecimentos, e até igrejas, como 
agora se quer afíirmar, lie inverosimil, digo, ou antes he 
absolutamente impossível, que os Portuguezes o ignoras- 
sem, ou que, sabendo-o, oppozessem ao Ínclito Infante 
os medos, receios, diíiiculdades, e contradicções, que já 
devião estar desvanecidas e dissipadas por essas navega- 
ções Francezas. 

Quando o Infante dirigio ao Papa Nicoláo V a supplica, 
de que falámos a pag. 19, não teve duvida em dizer-lhe, 
que nunca jamais desde a memoria dos homens houvera 
costume de navegar o mar Oceano para as regiões meri- 
dionaes e orientaes, setido o mesmo mar tão desconhecido 
a nós os occidentaeSj, que nenhuma certa noticia tínhamos 
das gentes daguellas parles. E poderia o Infante dizer isto 
com verdade, se os Francezes, já de cem annos atraz, 
tivessem navegado até Guiné, e costa da Malaguetta, e 
fundado por ali estabelecimentos, feitorias, e igrejas? 

O escriptor, que vamos refutando, até parece (sem em- 
bargo do apparato de aulhenticidade que quiz dar á sua 
obra) nãu ter idéa alguma justa e exacta dos successos 
relativos áquelles descobrimentos; porque copiando ou 
adoptando o erro palmar de Moreri, diz como elle. que 
sendo o commercio da costa de Africa abandonado pelos 
Francezes no século xv, vierão os estabelecimentos Fran- 
cezes a ser preza dos Portuguezes, dos Hespanhoes, dos 
Jnglezes, e dos Hollandezes, á excepção somente do esta- 
belecimento do Senegal! 



44 

NÓS já refutámos esta falsidade histórica, ou antes este 
doloso, e fraudulento modo de apresentar os factos da 
historia aos leitores desacautelados e menos instruídos. 
Já dissemos, e não cessaremos de repetir, que os Portu- 
guezes descobrindo as costas occidentaes de Africa palmo 
a palmo desde os princípios do século xv, as possuirão 
exclusivamente até aos fins do século xvi, por quasi dous 
séculos inteiros, sem que nação alguma da Europa ou- 
sasse perturbal-os naquella posse, senão hostilisando fur- 
tiva e piraticamente o nosso commercio, não nas costas 
de Africa, nem á força aijerta, mas esperando os nossos 
navios, para os roubarem, na paragem e altura dos Açores. 
Nenhum estabelecimento Francez encontrarão os nossos 
em Africa, em que podessem fazer preza. Em summa, 
nenhuma nação da Europa frequentou aquellas costas, se- 
não depois que o jugo de Castella pesou sobre nós, e que 
nós, os Portuguezes, abatidos, empobrecidos, desalenta- 
dos pelas desgraças publicas, ecommuns, e desamparados 
daquelle mesmo poder tyrannico, que nos dominava, e que 
até parecia comprazer-se nas nossas perdas, começámos 
a decahir dos brios nacionaes, e a experimentar os effeitos 
da antiga inveja, que as nações Europèas linhão á nossa 
riqueza, e á prodigiosa extensão de nossos domínios. 

Estas verdades são reconhecidas e confessadas por to- 
dos os escriptores, por todas as historias até aos princí- 
pios do século XVIII, em que o Padre Labat publicou as 
suas fabulas, adoptadas depois por alguns outros. E será 
bastante a auctoridade do Padre Labat para contrastar os 
factos, e historias de três séculos inteiros? Este he com- 
tudo o único testemunho apontado pelo nosso escriptor ! 
O leitor imparcial, e reflexivo julgará se elle merece a sua 
attenção, ou se a merece hum escripto, que nelle só se 
funda, apesar de vir tão auctorisado pelo Ministério da 
Marinha e Colónias de Franca. 



índice ghronologigo 

DAS NAVEGAÇÕES, VIAGENS, DESCOBRIMENTOS, 

E CONQUISTAS DOS POllTUGUEZES 

NOS PAIZES ULTRAMARINOS 

DESDE O PRINCIPIO DO SÉCULO XV 



PREFAÇÃO 



Damos á luz publica neste escripto o índice Chronolo- 
(jko das navegações, viagens, descobrimentos, e conquis- 
tas dos Portuguezes nos paizes ultramarinos, desde os 
principios do século xv. 

Este titulo não inculca, por certo, obra de grande valor 
e importância, nem nós o escrevemos com esse intento : 
mas pareceo-nos o mais accommodado á natureza e fins 
do nosso trabalho, e o mais próprio das circumstancias 
que o motivarão. 

Muito tempo havia que nós desejávamos, e procuráva- 
mos ter huma idéa geral, mas fiel e exacta, das grandes 
e gloriosas emprezas ultramarinas dos nossos compatrio- 
tas, que naquelle tempo derão tanto credito e fama á na- 
ção Portugiieza, e forão de tanta e tão reconhecida utili- 
dade para o mundo moderno, em todos os ramos do seu 
progresso, e civilisação. Mas ainda (jue para o conseguir 
não poupássemos nenhum dos meios, que esta vão ao nosso 
alcance, a cada passo comtudo nos viamos ou embaraçados 
no nosso estudo, ou frustrados nas nossas diligencias. 

Os escriptores nacionaes, que podíamos consultar erão 



48 

poucos, incompletos, ás vezes discrepantes em suas nar- 
rações, e sempre diminutos nas particulares noticias do 
século XV, que mais convinha indagar e apurar. 

Dos Roteiros, Relações e Memorias, que necessaria- 
mente se havião de escrever logo naquelle tempo de nos- 
sas primeiras navegações e descobrimentos, mui pouco 
nos resta hoje. salvo as Relações de Cadamosío, e essas 
mesmas impressas hum século depois em Itália, e em 
lingua Italiana, e não de todo isentas de imperfeições e 
erros (1). 

He natural que o prudente e cauteloso segredo, em que 
os nossos Príncipes, ao principio, reservavão aqnellas Me- 
morias e Relações; a perda de muitas delias nas mãos dos 
chronistas, ou nos próprios gabinetes dos Príncipes por 
occasião da sua morte; o descuido de recolher estes e ou- 
tros documentos ao Archivo geral do reino ; a dilíiculdade 
de multiplicar as cópias, por não haver ainda a arte ty- 
pograOca, ou por não ter chegado a Poilugal, logo nos 
primeiros annos da sua invenção; he natural, digo, que 
estas ou outras semelhantes causas produzissem a falta, 
que depois se experimentou, logo que se quiz escrever- 
em corpo de historia a serie de nossas emprezas ultra- 
marinas. 

O certo he que o illuslre Barros, quando tomnu sobre 
si esta difficil incumbência, já se queixava da falta de Me- 
morias antigas; e bem mostrou que as não tinha, pois tão 
breve e imperfeitamente falou dos successos que prece- 
derão á expedição do grande Vasco da Gama. 

Castanheda começou a sua Historia da índia por essa 
mesma expedição, e nada diz dos tempos anteriores. 

Nos outros nossos escriptores (pela maior parte mais 
modernos) achão-se na verdade algumas noticias do obje- 

(1) Quando isto escreviaraos ainda não tinha apparecido a edição 
da obra de Azurara, ha pouco publicada em Paris pelo Sj'. Visconde 
de Santarém. 



49 

cto de que tratamos; mas são ellas tão dispersas por diffe- 
rentes obras, tão apoucadas em suas circumstancias, e 
assim mesmo escriptas com tanta falta de coherencla, 
exacção e alinho, que lie de mui diílicil, e impeilinente 
trabalho reduzil-as a alguma ordem, e tirar delias hum 
resultado, qual se deseja, liquido, seguro, e aceitável. 

Nos escriptores estrangeiros não ha que procurar neste 
assumpto, nem a conveniente miudeza e exacção, nem (as 
mais das vezes) a devida imparcialidade. Omittem factos, 
e circumstancias substanciaes; alterão datas ; errão ou des- 
figurão nomes; e alguns deixão-se dominar de tão desar- 
razoado ciúme, que parece que ainda hoje lhe fazem som- 
bra os relevantes serviços, que os Portuguezes fizerão ao 
mundo naquelles antigos tempos, e o immenso louvor, 
que por elles merecerão, e lhes he devido. E não se tenha 
por apaixonado este nosso juizo, porque muito teríamos 
com que o justificar, se tanto fosse necessário. 

Em tal estado de cousas resolvemos começar a escre- 
ver, para nosso uso particular, o índice Chronologico, que 
agora damos á luz, apontando nelle mui summariamente 
os factos que nos parecerão mais importantes, e coUo- 
cando-os na sua ordem puramente chronologica, como 
para nos servirem de guia, quando quizessemos dar maior 
extensão ao nosso estudo, ou instruir-nos mais ampla- 
mente neste ramo da nossa historia, que reputámos de 
tanto interesse para o publico litterato, quanto glorioso 
para os Portuguezes. 

Com este intuito lemos as obras, escriptos, memorias, 
ou documentos, nacionaes, ou estrangeiros que se offe- 
recêrão á nossa indagação, combinando (quando nos pa- 
receo necessário) huns com outros, comparando os grfíos 
de credito que cada hum podia merecer, e tirando de to- 
dos, não sem grande trabalho, aquelles resultados que 
tivemos por bem assentados, ou que pelo menos se nos 
representarão fundados em maiores, e mais certas razíJes. 

TOMO V /, 



50 

Artigo ha no Índice, que conlendo-se em poucas linhas, 
nos levou algumas horas de leitura, e talvez alguns es- 
forços de reflexão : e nem por isso nos gloriámos de ha- 
ver evitado erros e defeitos, hoje inevitáveis em seme- 
lhante matéria. 

Decorrerão os tempos, e a nossa situação pessoal sof- 
freo por vezes graves e penosas mudanças, privando-nos 
de alguns dos meios, que podião concorrer para que o 
nosso trabalho fosse menos imperfeito. Por fim pareceo- 
nos, ou nos persuadirão, que assim mesmo seria útil a 
sua publicação, já por não se perder de todo o tempo que 
nisto tínhamos consumido, já porque o nosso trabalho 
poderia aproveitar a quem com o mesmo intento, e zelo, 
e com mais meios e capacidade quizesse levantar á gloria 
nacional, e ao século xv portuguez hum monumento único 
na historia das nações modernas. 

Começámos a escrever o Índice em 1832, e fizemos- 
Ihe depois retoques, correcções, e additamentos. A Me- 
moria sobre as viagens por terra foi escripta posterior- 
mente. Hoje ser-nos-hia impossível rever estes trabalhos, 
e dar-lhes mais algum aperfeiçoamento. O publico medirá 
pelo nosso zelo, e amor da pátria a sua benigna e favorá- 
vel indulgência. 



índice cíironologico 



período V 

DESDE o ANNO DE 1412 ATÉ AO DE 1460 

Aqdo de 1412 

Os nossos escriptores, que tratarão dos descobrimentos, 
e omprezas marítimas, de que foi primeiro auctor o grande 
e Ínclito Infante D. Henrique, filho de el-Rei D. João I, no- 
tão commummente este anno de 1412 como principio de 
seus úteis e gloriosos trabalhos; e dizem que então co- 
meçou este sábio Príncipe a mandar alguns navios ao des- 
cobrimento da costa Africana, desde o cabo Nam para as 
partes do sul, e pólo antárctico. 

João de Barros nas suas Décadas, e Faria e Souza, tanto 
na Azia Portugueza, aonde faz o extracto delias, como na 
Relação das armadas, que coUigio de listas, e memorias 
antigas, assignão a referida época. O mesmo seguirão 
muitos escriptores nossos; e muitos outros o suppõem, 
quando dizem, que depois da conquista de Ceuta (em 
1413), e das informações, que o Infante alii houvera dos 
Mounjs, viera muito mais animado a proscguir os seus 
projectos. 

Assim, postoque não tenhamos individual noticia dos 
navios, que enlão sahírão ao descobrimento, nem dos ca- 
pitães, ou pilotos que os governarão, não julgámos dever 



52 

por isso alterar a época estabelecida; antes havemos por 
mui pi'ovavel, que por aquelles annos he que os nossos 
navegadores passarão o cabo Nam, que era até então o 
termo das navegações Europêas, e chegarão ao Bojador, 
aonde por muito tempo encontrarão depois obstáculo a 
seus repetidos esforços. 

Se alguém comtudo duvidar de que o Infante já no re- 
ferido anno de 4 4 li começasse a executar os seus parti- 
culares projectos, ainda assim se pôde, e deve sustentar 
a mesma época, reflectindo-se que nesse anno se deo 
principio aos preparativos para a grande expedição de 
Ceuta, que foi sem duvida hum passo importantíssimo 
para os descobrimentos, não só pela ampla informação 
que ahi se houve das terras, costas, e gentes de Africa, 
mas também, e especialmente, porque sendo a praça de 
Ceuta como chave dos mares adjacentes, e abrigo das ar- 
madas berberescas, mal podião os nossos navios fre- 
quentar com segurança as costas, visitar os portos, e na- 
vegar para as partes do sul, emquanto Ceuta estivesse 
em poder dos Mouros. 

Notemos ainda mais, que na Bulia de Nicoláo V do anno 
de 145o, de que cm outro lugar falamos, se diz que o 
Infante começara de mui pequena idade (ab ejus ineunte 
aetate) as suas emprezas; e esta frase mais convém ao 
anno 4412, em que elle tinha dezoito annos, do que ao 
de 4447, em que já contava vinte e três. 

Anno de 1415 

Neste anno foi a gloriosa expugnação de Ceuta, con- 
cluida por el-Rei D. João I, acompanhado dos Infantes 
seus íilhos, em hum só dia, a 24 de Agosto. 

Alguns dos nossos escriptores se equivocarão, assigna- 
lando a esta conquista o dia 14 de Agosto. Outros muitos 
porém, mais bem informados, a poserão em 21, e este he 



53 

O dia que se collige do epitáfio de el-Rei, gravado solire 
o seu tumulo em tempo de el-Rei D. Duarte, seu filho e 
successor, aonde se nota que el-Rei, depois de tomada a 
praça de Ceuta^ a presidiara por dezoito aniios, menos 
oito dias, e que fallecêra a 14 de Agosto de 1433; por 
onde se vê que os dezoito annos serião completos, se elle 
vivesse mais oito dias, isto he, até 21 de Agosto. 

Em Ceuta procurou o Infante D. Henrique, e alcançou 
dos Mouros algumas importantes informações para a exe- 
cução dos seus desígnios, e teve mais certo e individual 
conhecimento do deserto, que os Árabes chamão Çahará, 
dos povos Azenegues, confinantes pelo sul com os Gelofos, 
do commercio que d'aqui se fazia para a costa septem- 
trional, e de muitas circumstancias daquellas terras, cos- 
tas, e gentes, com o que se animou muito mais (como já 
dissemos), e de todo se resolveo a proseguir a empreza 
que o seu grande espirito, auxiliado dos conhecimentos 
cosmograficos, lhe havia inspirado. 

A armada, que el-Rei levou á expedição de Ceiítaj, con- 
stava de 220 vasos de guerra e transporte ; a saber, 33 
náos, 59 galeras, e vários galeões, caravelas, e outros 
baixeis de differentes grandezas, em numero de 128. 

Logo depois desta conquista tomou el-Rei o titulo de 
« Rei de Portugal e do Algarve, e Senhor de Ceptay>. 

Annos de 1416 e 1417 

Por estes annos, logo depois da conquista de Ceuta, co- 
meçarão as tentativas, que o Infante mandava fazer para 
dobrar o caho Bojador, e passar avante para o sul, as 
quaes forão continuadas, mas sem fructo. por alguns 
annos. 

O grande lançamento que o cabo fazia ao mar, as cor- 
i'entes impetuosas das agoas, a sua apparcnte eflerves- 
cencia, c outras semelhantes circumstancias, forão causa 



de se mallograreni por muito tempo estas tentativas, te- 
mendo os ainda então inexpertos navegantes, que os ma- 
res os engolissem, ou que as correntes os não deixassem 
voltar ao rumo de norte. 

Anno de 1418 

Neste anno foi mandado Bartolomeu Perestrello, Ca- 
valleiro da Gaza do Infante D. João, á empreza de dobrar 
o Bojador; mas sendo assaltado da tempestade, perdeo a 
derrota que levava, e foi arrojado a luima ilha desconhe- 
cida, a que deo o nome de Porto Santo, por ter achado 
nella abrigo, e descanso de sua trabalhosa navegação. 

Damião de Góes, e Soares da Silva põem este descobri- 
mento no anno seguinte de 1419. 

Alguns negão que Perestrello fosse o descobridor desta 
ilha, e somente dizem que o infante lhe dera a Capitania 
delia; mas a pratica geral daquelle tempo nos parece per- 
suadir o contrario. 

Annos de UÍ9 c 1 i20 

No anno seguinte de 1419 voltou Perestrello com os 
outros dous navegantes João Gonsalves Zarco, e Tristão 
Vaz, Cavalleiros do Infante D. Henrique, cada hum em 
seu navio, á ilha de Porto Santo, levando Perestrello or- 
dem, e alguns preparos para começar a sua cultura. 

Dizem os escriptores antigos, que lançando-se na ilha 
huma coelha, que no mar havia paiido, fora a criação 
destes animaes em tanto augmento, que destruião as 
searas, e por algum tempo retardarão, ou embaraçarão 
o projecto da colonisação da ilha. 

O Perestrello voltou a Portugal: mas João Gonsalves, e 
Tristão Vaz. tendo observado huma espécie de nevoeiro, 
que constantemente se lhes offerecia no mar, e sempre 
no mesmo sitio, e direcção, suspeitarão o que poderia ser, 



55 

e dirigindo-se para aquella parte, descobrirão a ilha da 
Madeira, a que derão este nome pelo alto e basto arvo- 
redo, de que a acharão coberta. 

Algumas antigas Memorias dizem que Francisco Alco- 
forado, Cavalleiro da Gaza do Infante D. Henrique, fora 
neste descobrimento, e o descrevera em huma exacta Re- 
lação. 

De João Gonsalves Zarco se diz que foi o primeiro Por- 
tuguez, que usou da pólvora, e artilheria nos navios. Ma- 
noel Thomaz, na Insulana j liv. 1.°, est. 83.°, falando 

delle, diz: 

Bem he verdade, que este o Lusitano 
Primeiro foi, no mar com nome eterno. 
Que usou da dura fruta de Vulcano, 
E o salitrado aljôfar do inferno ; 

Anno de 1425 

Por estes annos começou o Infante a mandar povoar as 
ilhas da Madeira, e Porto Santo, e também a Dezerta, 
que sem duvida foi descoberta com as primeiras. 

Elle mesmo na doação que fez do espiritual destas ilhas 
á Ordem de Christo em 18 de Setembro de 1460, quasi 
dous mezes antes do seu íallecimento, diz: « Comecei de 
povorar ajuinha ilha da Madeira, haverá ora trinta e 
cinco annos, e isso mesmo a do Porto Santo, e deshi, pro- 
segiiindo, a Dezerta -a; por onde parece fazer-se verosí- 
mil, ao menos em parte, o que uniformemente referem 
os nossos escriptores, que lançando-se fogo aos bosques 
da ilha da Madeira, este se ateara de tal modo, que por 
alguns annos não fora possível povoal-a. Os annos devem 
neste caso contar-se desde 1419, anno fio descobrimento, 
até 14^i5. E dizemos, ao menos cm parte, porque algum 
tempo era preciso para se prepararem as famílias, e os 
mais objectos necessários ;i [(ovo.içíio c culdiia daquellas 
ilhas. 



56 

O Infante dividio a ilha da Madeira euíve os seus dous 
descobridores. Mandou vir da ilha de Cândia a preciosa 
planta da m;dvazia, que tanto ali prosperou, c tão ntil 
tem sido ao commercio e riqueza da Madeira. Mandou 
lambem vir da Sicilia a canna do assucar, e mestres, que 
a ensinassem a plantar e cultivar, e a fabricar o assucar. 
E foi esta cultura tão bem recebida do terreno, que em 
loOI se participava a el-Rei D. Manoel haverem-sc fabri- 
cado, nesse anno, na ilha 63:800 arrobas de assucar. 
Quando Barros escrevia as suas Décadas, diz elle, que 
huma porção de terra de Ires léguas dava ao quinto mais 
de 60:000 arrobas. E Bluteau, nos principios do século 
passado, escrevia que na ilha houvera algum tempo loO 
engenhos de assucar, os quaes rendião 400:000 arrobas. 

Da ilha da Madeira sahírão depois os mestres, que forão 
introduzir <» fabrico do assucar na ilha de S. Thomé, e de 
ambas estas ilhas se propagou mais depois no Brazil, por 
industria dos P(»rtuguezes, tanto a cultura da canna, como 
a factura do assucar. 

O grande Infante D. Henrique, postoque applicado á 
povoação e cultura da Madeira, Porto Santo, e Dezerta, 
nem por isso se esquecia de continuar, e promover a sua 
primeira, e principal empreza, da qual porém sabemos 
que por espaço de doze annos se não tirou fructo algum, 
não se conseguindo em todo este tempo dobrar o cabo 
Bojador. 

Ânuos de 1 i29 e iVM) 

Gil Eannes, natural de Lagos, dobrou emfim o formi- 
dável Bojador. 

Dizem os antigos escriplores Portuguezes, que esta 
passagem do cabo fora então reputada como huma faça- 
nha igual a algum dos trabalhos de Hercules: expressão 
que hoje parece nimiamente exagerada, mas que o não 
era tanto naquelles tempos, vistas as diíTiculdades. os 



57 

medos, e os perigos, que ou se tinhão experimentado, ou 
se imaginavão e suppunhão na mesma passagem, e que 
por tanfo tempo a liavião retardado. 

Parece-nos não se ter ainda determinado com bastante 
precisão e certeza a época deste notável acontecimento. 
Muitos dos nossos escriptores a referem ao anno de 1433; 
alguns ao de 1432; outros ao de 1434; e outros final- 
mente ao de 1428. 

Se nesta matéria pôde liaver lugar a conjecturas, nós 
temos por mui verosímil, que a passagem do Bojador se 
executou em 1429, ou quando mais tarde em 1430. As 
razões, em que nos fundámos, são as seguintes: 

1 .^ Que os nossos antigos uniformemente dizem, que 
o Infante D. Henrique, por mais de doze annos, fizera 
tentativas para dobrar este cabo, mandando a elle fre- 
quentemente os seus navios. E como estas tentativas co- 
meçarão logo depois da expedição de Ceuta, isto he, em 
141G, ou ao rnais tardar, em 1417, parece que a passa- 
gem do cabo seria em 1429, ou em 1430. 

2.'' Que o Papa Martinlio V perniittio por huma sua 
Bulia, que se pocíesse contratar e commerciar com os in- 
fiéis. Esta permissão, cuja verdadeira data ignoramos, 
não podia ser posterior a 20 de Fevereiro de 1431, em 
que aquelle Santo Padre falleceo. Tinha pois sido pedida, 
e pôde ser que concedida pelo menos em 1430. Por ou- 
tra parte he de presumir que o Infante somente a pediria 
depois de se ter vencido a grande diíTiculdade do Bojador; 
porque até então nem sabemos que os nossos navegado- 
res sahissem em terra a negociar, ou procurassem ter 
communicação e commercio com os habitantes; nem he 
verosímil que o intentassem a respeito dos Mouros, com 
que os Portuguezes eslavão em actual, e continua guerra. 
Donde se collige, que antes de 1430, ou quando muito 
nesse nií^smo anno, já se linha vencidíj o Bojador. 

3.'"^ Que na Bulia do Papa Nicoláo V (já citada) dos prin- 



cipios de Janeiro do anno da Encarnação de 1454, que 
he anno vulgar de 14o5, se diz que o Infante iiavia vinte 
e cinco annos (a viginti quinque annis citra, isto he, ha 
vinte e cinco annos a esta parte) não cessava de mandar 
navios ao descobrimento das terras e costas do Bojador 
para as partes do sul. Logo o Bojador já tiniia sido do- 
brado, e já se navegava além dolle para o sul vmte e 
cinco annos antes da data da Bulia, o que vem a dar em 
Janeiro de 1430, e mui provavelmente no anno antece- 
dente de 1429. 

Advertenoia 

Pareceo-nos aqui lugar próprio para notar em geral, 

que algumas das differenças (|ue se encontrão nos antigos 
escriplores a respeite» de datas, e que talvez parece que 
embaração a chronologia dos descobrimentos, se devem 
altribuir, segundo o nosso juizo, a que liuns tomavão por 
época de tal, ou tal exi)edi(;ão e descobrimento o anno 
em que os navegantes saliião de Portugal; outros o anno 
em que chega vão á costa de Africa, e eííecti vãmente to- 
cavão o ponto descoberto, o (jue muitas vezes succedia 
no anno seguinte ao da sabida; e outros finalmente o anno 
em que voltavão ao reino, e se divulgava a noticia. Por 
onde entendemos, que quando a differença das datas 
he pequena, e de annos immediatos, se não deve fozer 
conta com ella para d'ahi arguir alguma incerteza no acon- 
tecimento, ou alguma variação essencial na sua época. 

Annos de \'ÚV\ e 14112 

O Infante D. Henrique mandou no anno de 1431, que 
o Comraendador de Almourol na Ordem de Christo, Fr. 
Gonçalo Velho Cabral fosse correr os mares a oeste, em 
demanda de novas terras. O navegante encontrou os bai- 
xos das Formigas, situados entre as ilhas de Santa Maria, 



59 

e S. Miguel, mas não deo fé de nenhuma delias, e voltou 
a Portugal a informar o Infante do que tinha observado. 

Foi outra vez mandado no anno seguinte de 1432 a ex- 
plorar os mares, em que existião aquelles baixos, e então 
com melhor fortuna descobrio a ilha de Santa Maria, 
primeira descoberta no archipelago dos Açores alo de 
Agosto, e pela circumstancia da festividade do dia lhe deo 
aquelle nome. 

O Infante fez a' Gonçalo Velho Capitão donatário da ilha, 
e elle a começou logo a povoar, e cultivar com grande pro- 
veito e interesse. 

Annos de 1434 e 1435 

O mesmo Gil Eannes, que dobrara o cabo Bojador, vol- 
tou em 1434 áquellas paragens com Affonso Gonsalves 
Baldaya, Copeiro do Infante. Passarão obra de 30 léguas 
adiante do cabo, e descobrirão huma angra, ou bahia, a 
que poserão nome Angra de Ruivos, por acharem ali 
muitos dos peixes, a que os Portuguezes chamão ruivos. 

No anno seguinte ou estavão ainda nas mesmas para- 
gens, ou a ellas voltarão. Adiantarão mais 12 léguas pela 
costa, e sahindo em terra Heitor Homem, e Diogo Lopes 
de Almeida, encontrarão alguns bárbaros, que á vista dos 
nossos se poseião em fugida. 

Passarão ainda depois hum pouco mais adiante, e che- 
garão á foz de hum rio, aonde matarão muitos lobos ma- 
rinhos (espécie de p/iocas, segundo parece), cujas pelles 
trouxerão a Portugal. 

Este lugar he o que nas antigas Relações se ficou deno- 
minando o posto dos lobos marinhos; e o lio tomou logo 
depois o nome de Rio do Ouro, pelo resgate que ahi se 
fez deste metal. 

Sobre o Rio do Ouro, segundo a observação de hum 
antigo piloto Porluguez, corre a linlta do trópico de Can- 
cro, pelo (jue se vê ijue denotava o rio a 23° e 30' septem- 



60 

trionaes, que era a posição que algumas antigas cartas 
davão á linha do trópico. 

Annos de 1437 e 1438 

Em 4437 foi a infeliz expedição de Tangere, em que es- 
teve o Infante D. Henrique. E como além do desgosto que 
ella causou no reino, se seguisse logo em 4438 o falleci- 
mento do sábio, e virtuoso Rei D. Duarte, e após elie so- 
breviessem as perturbações publicas, occasionadas da tu- 
toria da Rainha D. Leonor; não parece verosimil que se 
tentasse nestes annos cousa alguma importante para adian- 
tar os descobrimentos. Comtudo o Infante nunca deixava 
de mandar os seus navios á costa de Africa. 

Ao mesmo anno de 1438 attribuem alguns a vinda de 
Mestre Jacome de Maiorca para Portugal, chamado pelo 
Infante para dar regularidade e direcção á sua Escola de 
Sagres. Delle diz hum douto geógrafo moderno, que era 
versadissimo na navegação, e na arte de fabricar instru- 
mentos, e de projectar Cartas náuticas, e que o immortal 
Infante o posera á frente da Academia, que havia fun- 
dado, com o jim de propagar tão úteis conhecimentos. 

Anno de 1 i39 on 1440 

Diniz Fernandes, Escudeiro do Infante D. João, chegou 
em algum destes annos a hum grande rio, que os naluraes 
da costa chamavão Quedec (2), e a que os nossos derão o 

(2) Damião de Gties na Clironica do Príncipe D. João, edição 
de 1724, em lugar de Quedec, escreve Sonedech. Manoel Corrêa, nos 
Commentarios a Camões, escreve Quedec, e diz que he o nome que 
os Mouros dão ao rio na entrada do mar. E Barros, liv. 1.°, 13. diz 
que o verdadeiro nome do rio. ali na sua foz, he Oucdech, segundo 
a lingua dos negros que habitão o paiz : e que subindo por elle acima 
toma differontes nomes. 



61 

nome de Sanagá, do nome de hum senhor da terra, com 
quem falarão, arrumando a sua foz a 10° de latitude se- 
ptentrional (3). 

Cadamosto, que fez a sua primeira viagem em 1445, 
diz expressamente, que o Senegal tinha sido descoberto 
cmco annos antes. 

(Navegações de Cadamosto, 1.^ Relação.) 

Addos de 1440 e 1441 

Nuno Tristão, e Antão Gonsalves, Criados do Infante 
D. Henrique, hindo ao posto dos lobos marinhos, toma- 
rão alguns bárbaros. 

Antão Gonsalves, que ainda era mancebo, foi ali ar- 
mado Cavalleiro, e por esta circumstancia se deo áquelle 
lugar o nome de Porto do Cavalleiro, que parece ser o 
mesmo que Ortelio em suas Taboas designa: «P. de ca- 
vallin ; alterando o nome, como faz outras muitas vezes, 
ou por ignorância do idioma Portuguez, ou por se ter já 
perdido de vista o facto, que motivara a denominação. 

O Gonsalves voltou a Portugal, e Nuno Tristão, prose- 
guindo, chegou ao Caho Branco, que os nossos arrumavão 
a 20° septemtrionaes, e lhe deo o nome. 

Anno de 1442 

Antão Gonsalves depois de armado Cavalleiro no posto 
dos lobos marinhos, voltando a Portugal, como dissemos, 
trouxe alguns bárbaros que ali captivára, dos quaes o In- 
fante não cessava de tirar novas informações sobre as 
costas, terras, e gentes que por ali habitavão. 

(.{) Ewieraldo, foi. 46, v., no principio, altribue o descobrimento 
do Setiegitl ;i Diniz Dias, Cavalleiro, e criado de ol-Rei D. João, pai 
do Iníaiite D. Henrique, e a Lançarote de Freitas, seus Cavalleiros 
e («ipitães, &c. 



62 

Como estes Mouros promettessem dar alguns negros de 
■ Guiné em seu resgate., cousa que o Infante muito dese- 
java, pelo que o vulgo fabulava ãaquellas terras, voltou 
o Gonsalves com elles a Africa neste anno de J442. 

Os Mouros cumprirão a promessa, e derão em preço 
da sua liberdade algum ouro, e dez negros de differe?ites 
terras. 

Este (dizem os nossos escriptores) foi o primeiro ouro 
que veio daquellas partes, assim como os negros forão os 
primeiros escravos, que da costa occidental de Africa vie- 
rão a Portugal. 

Addo de 1443 

Nuno Tristão, a quem ha pouco deixámos no Cabo Bran- 
co, proseguindo as suas explorações, descobrio a ilha de 
Adeger, e a das Garças (no golfo de Arguimjj á segunda 
das quaes deo o nome das muitas aves assim chamadas, 
que ali achou. 

Depois voltou a Portugal, trazendo mais de quarenta 
negros captivos, que cá se estimarão muito (diz hum an- 
tigo escriptor Portuguez) por sua estranha figura. 

Aimo de 1443 ou 1444 

Diniz Fernandes (de quem falíamos ao anno de 1439) 
descobrio o cabo, que forma o ponto mais occidental de 
Africa, denominado pelos antigos geógrafos Gregos hes- 
perion keras (occidentole cornu), e arrumado pelos anti- 
gos navegadores Portuguezes em pouco mais de 14° se- 
ptemtrionaes (hoje em 14°, 48'). 

A este cabo derão o nome de Cabo Verde, pelo aspecto 
que mostrava, todo coberto de verdura; e parece que era 
ornado, na sua maior elevação, da grande arvore baobab, 
a que alguns naturalistas chamão colosso do reino vegetal; 
a qual estendendo ao largo seus grandes ramos, desce 



63 

com as folhas até á superfície da terra, e a cobre de ver- 
dura mui agradável. O seu tronco cavernoso serve talvez 
de sala de assembléa n huma povoação inteira. 

Os nossos escriptores ^arião sobre a época deste des- 
cobrimento entre os annos 4440 e 1446. Nós adoptamos 
os annos de 1443 ou 1444, porque Cadamoslo diz que o 
cabo fora descoberto por Portuguezes hum anno antes da 
sua primeira viagem, e como esta foi em 1445, vem o 
descobrimento de Cabo Verde a cahir em algum dos ditos 
dous annos, conforme o maior, ou menor rigor em que 
tomarmos as palavras de Cadamosto. 

(Cordeiro, na Historia Insulana assigna o anno de 
1443. Vej. o Uv. 2.°, cap. 8.°, pag. 57; e liv. G.", 
cap. 1.°, pag. 241, aonde diz que as ilhas de Cabo 
Verde forão descobertas em 1443, e muito mais 
em 1445.) 

Anuo de 1444 

No anno de ,1 444 se organisou, e estabeleceo com au- 
ctoridade e aprazimento do Infante a Companhia de La- 
gos, destinada a' continuar os descobrimentos, e o com- 
mercio de Africa, debaixo da direcção do illustre Príncipe, 
e com certas condições, que elle lhe prescreveo. 

Esta Companhia aprestou logo algumas caravelas, em 
que sahírão ao mar Lançarote, Gil Eannes, Estevão 
Affonso, Rodrigo Alvares, João Dias, Martim Vicente, 
João Vasques. &c., os quaes descobrirão a ilha de Nar, 
a de Tider, e outias. 

(Barros: Faria e Souza: Vida do Infante D. Henri- 
que, á-c.) 

Açores 

Parece que neste mesmo anno o Commendador Gon- 
çalo Velho Cabral, mandado pelo Infante continuai' os des- 
cobrimentos nos mares de oeste, descobrio a segunda ilha 



64 

do archipelago dos Açoies, a que poz o uome de S. Mi- 
guei, pela ter tocado a 8 de Maio, dia da apparição do 
Santo Arclianjo. E como obtivesse do Infante a capitania 
desta nova ilha, assim como já tinha a de Santa Maria, 
passou no anno seguinte de 1445 a povoal-a, e cultival-a, 
como já tinha feito á primeira. 

Anuo de 1445 

Em 1445 a 2á de Março sahio de Portugal ao descobri- 
mento de novas terras em Africa huma caravela do In- 
fante D. Henrique, de que era Patrão Vicente Dias de La- 
gos, 6 nella, com licença e aprazimento do Infante, se 
embarcou o Veneziano Luiz de Cadamoslo, (jue para isso 
se offerecêra. 

Abordou á ilha de Porto Santo, que diz ter sido desco- 
berta haveria vinte e sete arinos. 

Passou á ilha da Madeira, da qual diz que o Infante a 
fizera povoar ha vinte e quatro annos para cá. 

D'ahi foi ás Canárias, e destas ilhas passou ao Cabo 
Branco, já descoberto pelos Portuguezes. 

Entrou no golfo de Arguim, aonde diz elle que erão já 
conhecidas quatro ilhas; a saber: a primeira chamada de 
Arguim, (jue deo nome ao golfo; a segunda que os Por- 
tuguezes tinhão denominado Ilha Branca, por ser toda 
arenosa; a terceira das Garças; e a quarta, que elle diz 
ter sido denominada dos Corações, todas pequenas, are- 
nosas, deshabitadas, e sem agua doce. excepto a pri- 
meira. 

Continuando a navegar chegou ao Senegal, que se- 
gundo elle diz, tinha sido descoberto cinco annos an- 
tes por três caravelas do Infante, que entrarão por elle 
acima. 

D'ahi passou á terra de Budomel, também já conhecida 
dos Portuguezes, aonde esteve em terra muitos dias. tra- 



65 

lando, e cummerciaiiclo com os senhores do lugar, e com 
os negros que ali concorrião. 

Estando para partir d'aqui, e navegar avante, teve o 
encontro de duas caravelas, em que liião António de N<>la, 
grande navegador e gentil liumem Genovez, e alguns Por- 
tuguezes criados do Infante; e accordando-se todos, re- 
solverão hir em conserva adiantar os descobrimentos. 

Chegarão ao Cabo Verde, que Cadamosto diz haver sido 
descoberto pelos Portuguezes hum anno antas, que elle 
fosse áquellas partes. 

Correndo pela costa para o sul, descobrirão a boca de 
hum rio, a que derão o nome de rio Barbacim, a 60 mi- 
lhas do Cabo Verde; e este foi o primeiro descobrimento 
novo, que fizerão as três caravelas. 

Passando ainda adiante, avistarão outro rio, que lhes 
pareceo não menor que o Senegal; mas não sendo bem 
recebidos dos negros, navegarão mais ao sul, e desco- 
brirão o paiz de Gambia, e o rio do mesmo nome, pelo 
qual entrarão algum espaço. Este era o paiz, que deter- 
minadamente buscarão por expressa ordem do Infante, 
que delle tinha informações pelos negros que já havia em 
Portugal. 

Os navegantes quizerão entrar mais acima pelo rio ; ma.s 
como a gente do mar repugnasse a este intento, resolve- 
rão voltar ao reino. 

(í." Relação de Cadamosto.) 



Neste mesmo anno hum criatlo do Infante, poi' nome 
Gonçalo de Cintra, descobrio adiante do rio do Ouro a 
angra, (jue do seu nome se ficou chamando Angra de Gon- 
çalo de Cintra, notada nas laboas de Orlelio com as pa- 
lavras: «G. de Goncintra »; querendo dizer, segundo pa- 
rece, golfo de Gonçah) de Cintra. 

Este infeliz navegante, entrando |)or hum esteiro na 

TOMO V :í 



66 

ilha de Aryuim, e ficando em sêcco á vasante da maré, 
foi acommettido pelos bárbaros, e morlo com alguns seus 
companheiros. 

Aiiiu» de 1446 

Neste anno fez Luiz de Cadamosto a sua segunda via- 
gem em huma caravela, acompanhado de outra em que 
hia António de Nola, e de oulia do Infante D. Henrique, 
tudo com licença e aprazimento deste Príncipe. Sahírão 
de Lagos no principio de Maio. 

Na altura de Cabo Verde descobrirão quatro das ilhas, 
que do mesmo cabo se denominão, e diz Cadamosto, que 
outros, que depois ali forão, as reconhecerão,, e acharão 
serem dez, entre grandes e pequenas, e todas deshahi- 
tadas. 

Das quatio que agora se descobrirão, derão â primeira 
o nome da Boa Vista, por ler sido a [)i'imeira que na- 
(juelles mares avistarão; a outra {que lhes pareceo a me- 
lhor das quatro), chamarão de Santiago. As outras duas, 
a que Cadamosto aqui não dá nume, serião provavelmente 
a de S. Filippe, e de S. Clnislovão, que também se cha- 
mou do Sal. Parece que todas forão descobeitas no dia 
2,H de Julho. 

Deixadas estas ilhas, vierão em demanda do (Mio Verde. 
Tocarão o lugai- das Duas Palmas (entre o Senegal e o 
cabo), assim chamado das que ali collocou ou designou 
Diniz Fernandes, como marco para denotar o sitio em 
que os povos Azenegues se apartão dos negros idolatras. 
Forão ao Gambia, e entrarão por elle mais de 60 milhas, 
até o senhorio de Batiimanza, aonde estiverão onze dias, 
permutando as fazendas, que levavão, por ouro e es- 
cravos. 

Do Gambia, navegando ao sul, descobrirão o rio que 
chamarão de Cazamanza, do nome do senhor que ali 
governava, o qual ficava 25 léguas ou 100 milhas além 



67 

do Gambia. O seu nome, segundo Damião de Góes, 
era Rha. 

D'aqui, correndo sempre a costa no rumo do sul, des- 
cobrirão, a cousa de 20 milhas de distancia, hum cabo a 
que derão o nome de Cabo Vermelho^ pela apparencia da 
côr da terra (ou Cabo Roxo). 

Pouco adiante chegarão a hum rio, que denominarão 
de SanCAnna. 

D'aqui navegando descobrirão outro rio, a que derão 
o nome de S. Domingos, e por estimativa julgtárão distar 
do Cabo Vermelho obra de 55 a CO milhas. 

Continuando a navegar mais \\wm^ jornada pela costa, 
descobrirão outro lio grandissimo, que tinha na boca 
mais de 20 milhas de largura. Este se ficou chamando o 
Rio Grande. Defronte delle avistarão ao mar algumas ilhas, 
que estarião a cousa de 30 milhas de distancia da terra. 

Desta paragem voltando ao reino, fizerão caminho por 
aquellas ilhas, e observarão que duas delias erão grandes, 
e habitadas de negros, e as outras duas mais pequenas; 
mas não se podendg entender com os habitantes, conti- 
nuarão viagem para Portugal. 

Vè-sepois, que nas duas viagens, emqiiefoiCadamosto, 
se descobrio a costa desde o no Barbacim, 60 milhas ao 
sul de Cabo Verde, até o Rio Grande; e no mar as quatro 
ilhas de Cabo Verde, e as outras quatro, de que acabámos 
de falar, e que são sem duvida as que formão o archipe- 
lago dos Bissangos. 

Os nossos navegadores denotavão a embocadura do Rio 
Grande em IT de latitude septemlrional, e parece que o 
remontarão por espaço de algumas 90 léguas até chega- 
rem a huma calaracta, que os não deixou hir avante. Pelo 
tempo adiante se fundarão nas suas margens alguns esta- 
belecimentos Porluguezes. 

f2." Relação das navegações de Cadamosto. — Cor- 
deiro, Historia Insulana, ác.) 



68 



Aimos de 14'iG e 1447 

No anno de 1446 achámos mencionada a expedição de 
três navios, em que forão Antão Gonsalves, Diogo AíTonso, 
e Gomes Peres, encari-egados de propor aos habitantes do 
Hiu do Ouro a sua conversão ao christianismo, e alhança 
de commercio com os Porluguezes. 

Nesta occasião veio hum daquelles habitantes, por sua 
própria vontade, a Portugal; e lá quiz íicar, também es- 
pontaneamente, hum Poituguez, por nome João Fernan- 
des, que aprendeo a hngua do paiz, observou os costu- 
mes dos povos, e veio depois informar de tudo o Infante 
D. Henriíjue, com inexplicável gosto e satisfação deste 
grande Principe. 

Em 1447. entrandft Nuno Tristão pelo Rio Grande, e 
sendo acommettido de grande numero de bárbaros, foi 
morto no conflicto. 

Álvaro Fernandes, que tinha descoberto o Cabo dos 
Mastos, passou adiante do Uio Grande, e descobrio o rio 
de Tabitc. 

Já a navegação dos Portuguezes para aquellas partes 
era tão hequenle, que por estes annos chegáião a achar- 
se lá reunidos alguns vinte e sete navios, sabidos de Por- 
tugal, e da ilha da Madeira. 

No mesmo anno em que Nuno Tristão foi morto no 
Rio Grande, ou no antecedente de 1446, descobrio elle o 
rio que se ticou chamando Rio de Xuno, a poucas léguas 
do Rio Grande ao sueste. 

AuDO de 14 Í8 

Neste anno foi mandado Fernando Affonso como Em- 
baixador a hum Hei chamado Farim, na costa, ao sul de 
Cabo Verde, convidando-o a abraçar a religião christãa, 
e assentar commercio com os Portuguezes. 



69 

Notão os antigos escriploies, que d'aqui vierão a Por- 
tugal os primeiros dentes de elefante, trazidos daquellas 
regiões. 

Notâo também, que Diogo Gil Homem, encarregado de 
estabelecer commercio com os Mouros, passando além do 
cabo dl' Gi(i'\ ti"0uxei'a a Lisboa o primeiro Irãit que veio 
de Africa. 

Anno de liií) 

Soeiro Mendes foi neste anuo de 1 i49 lançar os funda- 
mentos ao castello de Arguim, de que ficou sendo Capi- 
tão ou Governador. Foi o primeiro castello, que levantá- 
mos naquellas conquistas, para segurança do commercio 
e da navegação. 

Açores 

A este anno se attribue com grande probabilidade o 
descobrimento da ilha Terceira, que no anno seguinte de 
1450 se dizia ter sido descoberta pouco tempo antes. 
O nome que se lhe deo ao principio foi o de ilha de Jesu 
Christo; mas pelo tempo adiante tomou, e hoje conserva 
o de Terceira, que parece allusivo á ordem do descobri- 
mento. 

A capitania desta ilha foi dada pelo Infante em 1450 a 
.lacome de Bruges, Cavalleiro Flamengo, que tendo vindo 
para Portugal, entrou no serviço do Infante, e cazou com 
huma dama da Infanta D. Brites. Elle a povoou com al- 
guns cazaes que levou do reino, e da Madeira, e assim 
começou a sua cultura. 

A este.íacome de Bruges, e a este mesmo anno de 1449, 
se attribue também o descobrimento da ilha de S. Jorge, 
que se julga ser a quarta que se descobi'io no archipelago 
dos Açores, postoque aiginis dão a |)reíerencia do desco- 
brimento á Graciosa. 

A do Corvo, he íóra de (luvida que estava descoberta 



70 

em 1453; porque nesse anno a doou el-Rei D. AÍTonso V 
ao Duque de Bragança por Carta de 20 de Janeiro, dada 
em Évora. E parece verosímil, que ao mesmo tempo 
se descobrio a das Flores, situada a tão pequena dis- 
tancia. 

Das duas que restão, e pertencem a este archipelago. 
chamadas do Faynl, e do Pico, nlio temos noticia exacta 
de quando fossem descobertas; mas parece provável que 
o serião dentro do periodo em que forão achadas todas 
as mais. 

Neste próprio anno em que estamos, de 1449, siicce- 
deo a fatal catástrofe de Alfarrobeira, em que perdeo a 
vida o illustre e infeliz Infante D. Pedro, Duque de Coim- 
bra, irmão do nosso Infante D. Henrique. He natural que 
os desgostos, de que foi acompanhado e seguido este in- 
fausto successo, causassem alguma interrupção no pro- 
gresso dos descobrimentos, maiormente atlendendo-se á 
idade já adiantada do Infante, aos seus assíduos e inces- 
santes trabalhos, e aos muitos e variados objectos que 
dividião, e demandarão a sua attenção, já para os estabe- 
lecimentos do commercio, já para a colonisação, povoa- 
ção e cultura das ilhas novamente descobertas, já para o 
seu bom governo e administração, de. 

Anno de 1458 

Em 1458 conquistou el-Rei D. AíTonso V a praça de 
Alcácer- Cegiter, na Mauritânia Tingitana, levando a esta 
facção huma armada de mais de duzentos baixeis de to- 
dos os portes. 

Em consequência desta conquista tomou logo o dictado 
de (íRei de Portugal e do Algarve, Senhor de Ccpta, e de 
Alcácer em Africa. » 

(Dissertações Chronologicas e Criticas, tom. â.", 
pag. 207.) 



71 



Anno de liGO 

Neste anno, a 13 de Novembro, falleceo o Ínclito, im- 
mortal Infante D, Henrique, aiictor destes descobrimen- 
tos, na sua villa (ViUa Nova rio Infante), por eile mesmo 
fundada no promontório de Sagres, aonde fizera sua or- 
dinária habitação. 

Alguns escriptores, e entre elles .Toão de Barros, alar- 
garão a vida deste grande Príncipe até o anno de 1463, 
mas com manifesta equi vocação, como se poderia provar 
(se necessário fosse) por documentos aulhenticos. Bas- 
tará porém lembrar aqui somente a doação que el-Rei 
D. Affonso V fez a seu irmão o Infante D. Fernando de 
varias ilhas, que tinhão sido de D. Henrique, a qual doa- 
ção o suppõe já fallecido, e he datada de 3 de Dezembro 
de 1460, como adiante notaremos. 

Além dos grandes serviços que o Infante D. Henrique 
fez á Coroa de Portugal, principalmente na expugnação 
de Ceuta^ e nas guerras de Africa, trabalhou incessante- 
mente, e com admirável perseverança, por mais de qua- 
renta annos contínuos, na gi^ande e gloriosa empreza dos 
descobrimentos marítimos, deixando descoberta em seu 
tempo toda a costa occidental de Africa desde o cabo Bo- 
jador em 26" e 23', quasi até Serra Leoa em 8- septem- 
Irionaes, e além disso as muitas ilhas, que deixamos refe- 
ridas, cuja povoação, cultura, e commercio fundou e pro- 
moveo com grande intelligencia, e com incríveis despezas 
da sua fazenda. 

Fundou também a Escola mathematica, cosmografica, 
e náutica de Sagres, aonde se fazião as observações astro- 
nómicas úteis e applicaveis á navegação; se projectavão 
Cartas hydrograficas; se fabrica vão instrumentos pró- 
prios para observar o sol e os astros; se trabalhava em 
aperfeiçoar a construcção navnl, cVc. : e d'onde s^aliírão os 



72 

hábeis navegadores Portuguezes, que neste e no seguinte 
século admirarão a Europa, e levarão o nome Portuguez 
até ás mais remotas extremidades do mundo. 

He muito para sentir que os nossos antigos nos não con- 
servassem escripto algum deste grande Príncipe, nem os 
commentarios, que necessariamente havia de fazer acerca 
do resultado de seus utilíssimos trabalhos^ e sabias fa- 
digas. 

O elegante clironista dominicano Fr. Luiz de Souza diz 
que vira em Valença de Aragão hum livro dos descobri- 
mentos do Infante D. Henrique que parecia ser obra sua, 
mandado pelo Infante a hum Rei de Nápoles, d'onde pas- 
sara ao poder do Duque de Calábria, ultimo descendente 
da linha masculina daquelles Príncipes, e vice-Reí de Va- 
lença de Aragão. Na portada (continua ainda o chronista) 
se vião debuxadas hiimas pjjramides, e a conhecida letra 
do Infante ataletií de hien faire», letra que este heróico 
Príncipe tão completamente desempenhou. Esta preciosa 
obra perdeo-se como muitas outras, que servirião para 
illustrar as épocas de nossos primeiros descobrimentos, 
firmar, e augmentar a gloria da nação, e arguir o affectado 
e ingrato silencio dos estrangeiros. 

Apezar disso não se poderá jamais negar que todas as 
viagens procedidas do descobrimento de huma boa parte 
de Africa, e das índias oriental e occidenlal, e todas as 
que delias se derivarem até ao fim dos séculos, bem como 
os progressos da geografia, das sciencias, e das artes, e 
em fim o estado actual da civilisação Europêa se deve em 
grande parte ao génio deste Príncipe, e á sua infatigável 
diligencia, e constância. 



PERÍODO 2." 

DESDE O ANNO DE 1460 ATÉ AO DE 1495 



r.OMPREHE.NDE O RESTO DO REINADO DE EI.-REI II. AFFOXSO V 

DESDE O FALLECIMENTO DO INFANTE D. IIENRIQITE, 

E TOnO O REINADO DE EL-REÍ 11. .II)\(J 11 



RFIWnO Í)E RlrHEI n. AFFONSO V ATR AO ANNO IIK l«l 

Anno de iifiO 

No anno de 14G0, a 3 dè Dezembro, estando el-Rei 
D. Affonso V em Évora, fez doação a seu irmão o Infante 
D. Fernando, para elle, e para o seu fdho maior varão, 
de varias ilhas para as possuir (diz el-Rei) do mesmo 
modo, corno as de nós havia o Infante D. Henrique meu 
Tio, que Deos haja. 

Fazemos aqai lembrança deste documento, para noti- 
cia das ilhas, que nelle vem expressamente nomeadas, e 
são pela ordem do texto, as seguintes: 



1.^ Madeira 


10.'' 


Graciosa 


±^ Porto Santo 


11.^ 


S. Miguel 


3.^ Dezerta 


1^2.=^ 


Santa Maria 


4.^ S. Luiz 


la.'^ 


S. Jacobe 


5.=» S. Diniz 


14.^ 


S. FUippe 


6.* S. Jorge 


15.^ 


De las Mayaes 


1.^ S. Thotnaz 


40/^ 


S. Christomo 


8.^ Santa Eyrêa 


\1.' 


Ilha Lana 


9.^ Jesu-Christo 







Aqui achamos as três ilhas piimeii'0 descobertas, Ma- 
deira, Porto Santo, e Dezerta, 



74 

'Aqui achámos cinco das do archipelago dos Açores, 
S. Jorge, Jesii-Chrisío, Graciosa, S. Miguel, e Sa7iln 
Maria. 

Aqui achamos quatro das de Cabo Verde, a saber: S. Ja- 
cobe, S. Filippe, das Mayaes, (de Maio), e S. Christovão 
(ou do Snl). 

E achamos finalmente algumas outras, cuja situação 
não temos podido averiguar, como slio: S. Luiz (que 
pôde ser a do Senegal/, S. Diniz, S. Thomaz, Santa Ey- 
rêa, e ilha Lana. 

(Vej. o documento que citámos no tom. 1.° dasPro- 
vas da Historia Genealógica da Caza Real Por- 
tugueza.) 

Anuo de JiGO ou 1461 

Depois da morte do Infante D. Henrique, despachou 
el-Rei D, Affonso Va Pedro de Cinlra, dando-lhe por re- 
gimento correr a costa dos negros, e descobrir novas 
terras. 

O primeiro descobrimento deste navegador foi o rio de 
Bessegue, a 40 milhas do Rio Grande por costa. 

D"ahi a mais 140 milhas descobrio o cabo, que se cha- 
mou da Verga. 

D'ahi a 80 milhas descobrio outro cabo muito alto, e 
coberto de arvores viçosas, a que deo o nome de Cabo 
de Sagres de Guiné. 

Defronte deste cabo, ao mar, (\es.cohr\o duasilhas, des- 
habitadas, e sem nome. 

Do mesmo cabo a 40 milhas descobrio o rio, que se 
chamou de S. Vicente: e mais adiante 5 milhas o rio que 
se denominou Rio Verde. 

A 24 milhas do Rio Verde achou o cabo, a que deo o 
nome de Cabo Ledo, por ser mui viçoso. 

Por esta costa se estende em longura de mais de 50 
milhas huma altissima montanha cheia de verde, e co- 



75 

pado arvoredo, a que se deo o nome de Serra Leda, pelo 
grande rugido, que continuamente fazem as trovoadas, 
de que está cercado o seu cume. 

Defronte da extremidade meridional desta serra esta- 
vão Ires ilhotas, que os navegantes denominarão Selva- 
gens. 

A 30 milhas adiante da ponta da montanha descobrirão 
u Rio Vermelho (ou Roxo), a que derão este nome, por- 
que a sua agua, correndo por terreno avermelhado, mos- 
trava a mesma côr. 

Além deste rio está hum caho, que também denomi- 
narão Vermelho; e defronte delle, ao mar, huma ilhota 
deshabitada, que igualmente ficou com o nome de ilha 
Vermelha. 

Passado o cabo Vermelho descobrirão hum rio grande, 
que chamarão de Santa Maria das Neves, pelo avistarem 
a 5 de Agosto. 

Além deste rio está huma ponta, e defronte delia a ilha 
que chamarão dos Bancos, pelos muitos que ali faz a 
arêa. 

Além desta ilha descobrirão hum cabo grande, que cha- 
marão caho de Santa Anua, pelo avistarem a 30 de Julho. 

Do caho de Santa Anna a (50 milhas, descobrirão hum 
rio, a que derão o nome das Palmas, por haver ali muitas. 

Navegando ainda outras GO milhas, acharão o rio, a que 
pozerão o nome dos Fumos, por verem muitos na costa 
quando ali passarão. 

Mais adiante 24 milhas descobrirão o cabo do Monte, 
assim denominado porque o cabo entrando muito ao mar 
mostra hum elevado monte. 

D'ahi a (30 milhas acharão outro cabo, e outro ntonte 
mais pequeno, a ijue por isso chamarão Caho Mesurado. 

Navegando ainda mais IG milhas, notarão hum bosque 
grande com arvores mui verdes, que vinhão até ao mar, 
e lhe chamarão o Bosque de Santa Maria. 



76 

D'aqui voltou Pedro de Cintra ao reino, trazendo da 
ultima terra hum negro, conforme a ordem de el-Rei, que 
depois o mandou restituir ao seu paiz. 

A Relação desta viagem foi escripta por Cadaraosto, e 
delia se vê : 

l.° Que Pedro de Cintra, passando além dos últimos 
descobrimentos, explorou mais de 6i9 milhas de costa 
para o sul. 

2." Que a sua viagem foi executada logo depois da 
morte do Infante D. Henrique, e provavelmente no anno 
de 4461, ou quando mais tarde em 14G2, porque Cada- 
mosto, concluindo a narração, diz: <.(E deste ultimo lugar 
(que era o Bosque ou Mata de Santa Maria) não tinha 
passado navio algum até d min/ia partida de Hespanha, 
que foi no primeiro dia do mez de Fevereiro de 1463 » . 
(Vej. Navegação do Capitão Pedro de Cintra, es- 
cripta por Cadamosto, impressa na Collecção de 
JSoticias para a historia e geografia das nações ul- 
tramarinas, da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa, tom. ^.°, n.° 1). 

Adiio (Ic li6í) 

Neste anno de 1469 mandou el-Rei arrendar o com- 
mercio da costa de Africa a Fernam Gomes por cinco 
annos, e por 500 cruzados em cada anno, ficando reser- 
vado para a Coroa o marfim, e impondo-se ao arrenda- 
tário a obrigação de descobrir cada anno cem léguas de 
costa. 

Fernam Gomes encarregou o descobrimento a João de 
Santarém, e Pedro de Escobar, criados de el-Rei, os quaes 
partirão em dous navios, levando hum delles por piloto 
Marlim Fernandes de Lisboa, e o outro Álvaro Esteves 
de Lagos, hum dos homens mais entendidos e acreditados 
em sua arte por ai/uelles tempos. 



77 

Estes navegantes descobrirão o resgate do ouro, a que 
chamarão a Mina, e dizem alguns escriptores, que che- 
garão ao cabo de Santa Calliarina, que os nossos antigos 
punhão a 2° de latitude austral. Outros porém dizem, que 
o cabo fôra descoberto por hum N. Sequeira, hum pouco 
mais tarde em 1471 (4). 

Fernam Gomes, por conta do qual se faziam estes des- 
cobrimentos, teve depois o appellido da Mina, e por ar- 
mas hum escudo em campo de prata, com três meios cor- 
pos de Ethiopes, ornados de collares de ouro ao pescoço, 
e arrecadas nas orelhas, e narizes. Estimavão então os 
Portuguezes este género de prémios, com que os Prínci- 
pes honravão e perpetuavão o seu nome, e a memoria de 
seus serviços, e por isso erão tão frequentes entre elles 
as acções generosas, grandes, e úteis. 

Adiios de líGO e 1471 

Parece, que a algum destes annos, com pouca diôe- 
rença, se deve. referir o descobrimento do cabo, que do 
nome do seu descobridor se chamou de Lopo Gonsaives, 
o qual fica ao norte do de Santa Catharina, a pouco me- 
nos de 1° austral, á boca do rio Gabam. 

Também alguns põem no anno de 1469, e outros em 
1471 o descobrimento da ilha, que se chamou Formosa, 
no golfo de Guiné, e que depois tomou o nome de ilha 
de Fernando Pó, que foi o seu descobridor. 

Finalmente as outras ilhas do Corisco, Anno Bom, 
S. Thomé, e Príncipe, i»arece natural terem sido desco- 
bertas pelos mesmos tempos, visto serem situadas na- 
quelles mares, tão frequentados então dos navegantes 

(4) O cahu de Sanla Cathariíui íui do^coberlo pur Uiij th' Sc- 
iiueira. Cavallciro, criado de el-Rei D. AlVonso V, que o doscobrio 
em dia de Santa Calliarina. (hJsiiirnihJn d<' Duarte Pacheco, foi. 79.) 



78 

Portugutízes. He certo porém, que todas forão achadas 
em tempo de D. Aííbnso V (5). 

N. B. As duas ilhas úe Fernando Pó, e Anno Bom foi'ão 
cedidas a CasteHa pelo artigo 13." da Convenção ou Tra- 
ctado de 1 1 de Março de 1778, e parece que o Gabinete 
de Madrid tinha em vista, por este meio, livrar-se da de- 
pendência dos estrangeiros, que, por os Castelhanos não 
terem possessão alguma na costa de Alrica, erão os que 
fornecião de negros as colónias Hespanholas da America, 

.\nno de Ii71 

Neste anno conquistou el-Rei D. Aííonso V Arzilla, e 
Tangere na Mauritânia, levando a esta expedição mais de 
300 vasos de todos os portes, e cousa de 30:000 homens 
de guerra, e marinhagem. 

Depois destas conquistas alterou elKei o seu dictado, 
e se intitulou: « Rei de Portugal e dos Algarves., draguem 
e d'ah'm mar em A/rica » (G). 

Este Príncipe entretido nas conquistas da Mauritânia, 
e embaraçado depois com a mal fadada guerra de Cas- 
tella, e com os outros pouco felizes successos que delia 

(ò) Cabo Formoso, serra a ilha descobertas por bVrnanclo Pó, Ca 
valleiro, criado de AUbnsoV, foi. 76, v. (e ella tomou o nome do 
descobridor). 

Rio do Giiahinii, ibl. 77, v.. e illia do Corisco. 

Cabo de Lopo Gonmhes, tomou o nome do Capitão que o desco- 
brio, e está pontualmente debaixo da linha, foi. 1^. 

Ilhas de S. Thomé, e do Príncipe, descobertas por D. .loão II, e 
povoadas, foi. 79. 

O cabo de Santa Calharina, descoberto por Kuy de Sequeira em 
tempo de D. AÍTonso V, foi. 79. 

(6) Yej. as Dissertações Chronologicas e Criticas do Sr. João Pe- 
dro Ribeiro, aonde trata dos Tittilos ou Diclados dos Soberanos de 
Portugal, tom. 2.°, pag. 207; e Ruy de Pina, ahi citado, Chronica 
de el-Rci D. Affonso V, cap. 167." 



79 

se originarão, não adiantou mais os descobrimentos. Os 
nossos escriplores dizem uniformemente, que no seu 
tempo se não passou do cabo de Santa Catharina. 

El-Rei lalieceo em 1481, e em seu lugar subio ao tlirono 
seu fllho D. João II, cujo reinado se pôde reputar como 
huma das épocas mais gloriosas dos nossos descobrimen- 
tos, e sem duvida a mais gloriosa deste periodo. 

KEINADO DE EL-RKI D. JOÃO II, IlESDE liSl ATÉ OOTIIBRO DE 149S 

Aiiuos de 1481 e 1 í82 

El-Rei D. João II (denominado com razão pelos Portu- 
guezes o Príncipe Perfeito) concebeo toda a extensão, e 
grandeza das idéas, e projectos de seu tio, o immortal 
Infante D. Henrique, e conheceo a fundo as grandes van- 
tagens, que Portugal, e o mundo inteiro havia de tirar da 
sua execução. Assim, foi este hum dos principaes cuida- 
dos, e empenhos do seu saudoso, postoque infelizmente 
pouco dilatado governo. 

Logo no anno de 1481, ein que subio ao Ihrono, mandou 
acosta de AfricaDiogo de Azambuja, Commendador de Cas- 
tello de Vide na Ordem de Aviz ; o qual sahindo de Portugal 
em lá de Dezembro com 10 caravelas e 1 urcas. aportou 
em Guiné a 19 de Janeiro do anno seguinte de 148:2. 

Sahio em terra a "ÍQ, e começou logo a levantar o cas- 
teilo, que el-Rei quiz se denominasse de S. Jorge da Mina, 
cujos materiaes hião appai'e!hados de Portugal. 

Em roda deste castello se ajuntou logo huma povuação 
notável, a que el-Rei deo o nome, e foro de cidade, por 
Carta de 15 de Março de 148G. 

O Azambuja assentou jjaz e commercio com Cazaman- 
za, Rei daquella costa, e tentou (postoque sem effeito) 
persuadil-o a abraçar o chrislianismu. 

(Garcia de Resende, Chronica de el-liei D. João II.j 



80 



Anno de liSo 



Neste anno despachou el-Rei a Diogo Cam aos desco- 
brimentos da costa de Africa, aonde já tinha hido outra 
vez de seu mandado, no anno anterior de 1484, ou pouco 
antes. 

O illustre navegador chegou na primeira viagem aos 
13" latitude austral: descobrio o grande rio Zaire, e o 
reino de Congo, e collocou nessa paragem hum dos pa- 
diões, que para isso levava preparados. 

Na segunda viagem adiantou até os 22° auslraes, e col- 
locou segundo padrão não longe do Cabo Negro. 

Os padrões erão delineados por el-Rei. Constava cada 
hum de huma columna de pedra com 14 ou 15 palmos 
de altura, e em cima delia huma cruz: tinha esculpidas 
as armas de Portugal, e dous letreiros, hum em lingua 
Portugueza, e outro em Latim, nos quaes se declarava o 
nome de el-Uei, a data do descobrimento, e o Capitão que 
o fizei"a, e ali collocára aquelle padrão. 

Diogo Cam, e os Portuguezes que o acompanhavão, e 
com elle sahírão em teria no Congo, houverão-se de tal 
modo com o Rei que governava aquellas terras, que elle 
não só ficou inclinado a favorecer a rehgião christãa, mas 
também quiz que logo viessem a Portugal alguns dos 
seus para se instruírem, e doutrinarem na lingua, nos 
costumes, e nas artes dos Portuguezes; e pedia a el-Rei, 
que lhe mandasse ministros da religião, officiaes de al- 
gumas artes mecânicas, lavradores que lá ensinassem a 
amansar os bois, e a cultivar, e aproveitar as terras, mu- 
lheres que ensinassem a arte de amassar, e fabricar o 
pão, ác. 

Os moços Conguezes, que o Rei mandou, chegarão a 
Portugal,, e estiverão a aprender as primeiras letras na 
Caza de Santo Eloy até Dezembro de 1490, em que vol- 
tarão ao Congo, hindo juntamente alguns religiosos, va- 



81 

nus oíiiciaes para a coiisti'ucção de huma igreja, e i)aia 
os exercícios de algumas artes, muitos ornamentos, e va- 
sos sagrados, livros, de. 

Esta missão chegou ao Congo a 29 de Março de 1491. 
O Hei, a Rainha, e muitos dos grandes, e povo receberão 
o baptismo. Lançárão-se os fundamentos ;i igreja a 6 de 
Maio de 1491. Hum dos negros, (jue tinha vindo a Por- 
tugal começou logo a ensinar a ler, e escrever, ác. Final- 
mente a armada Porlugueza voltou ao reino em 1492, 
ficando lá muitos Portuguezes, huns para o tracto do com- 
mercio, e para a defensão da fortaleza, que se levantara 
no paiz, e outros destinados particularmente por el-Rei 
para descobrirem o interior das terras; passarem, se pos- 
sível fosse, até o Preste João (de que aqui parecia te- 
rem-se achado novos indícios); indagarem os caminhos 
daquelle império, de. 

Por estes tempos, ou pouco depois, acrescentou el-Rei 
ao seu dictado o de Senhor de Guiné, intílulando-se: aRei 
de Portugal, e dos Algarves, d' aquém, e d' alem mar em 
Africa, Senhor de Guiné. 

(Vej. a respeito deste Titulo, ou Diclado, o que diz 
o Sr. João Pedro Ribeiro nas Dissertações Chro- 
nologicas e Criticas, tom. 2.°, pag. 207.) 

Auno de líSC) 

No anno de 1486 descobrio João Affonso de Aveiro o 
leino, e terras de Benin, subindo pelo lío Formoso. D'ahi 
veio a \)r\me'\idi pimenta de Guiné, que sendo levada pelos 
Portuguezes a Flandres, foi muito bem acolhida, e esti- 
mada no commercio. 

Os Governadores, e habitantes de Azamor na Mauritâ- 
nia, se mand.iião suhmeller ;'i obediência de el-Rei de Por- 
tugal, obrigando-se a hum tributo annual. 

TOMO V 6 



Anuo de liSH 

Neste mesmo anno de 1486 sahio do Tejo a fausta, e 
íeliz expedição mandada ao descobrimento do grande 
caboj, que termina a Africa ao sul, arrumado por alguns 
dos nossos antigos em 35", e por outros em 34" e 30' de 
latitude austral. Da qual expedição diz hum moderno 
geógrafo esti^angeiro, que foi « a mais delicada, e a mais 
dilficil que se tem tentado nos tempos modernos». 

Encarregou o grande Rei D. João II esta tão importante, 
como arriscada empreza a Bailholomeu Dias, em cuja com- 
panhia forão seu irmão Pedro Dias, e Lopo Infante (que 
alguns chamão João Infante), cada hum em seu navio. 

Correrão os illustres, e ousados navegadoi"es a costa 
Occidental desde o Cabo Negro, aonde tinha chegado 
Diogo Cam (como ha pouco dissemos), para ò sul. 

Aos 24" assentarão o padrão Santiago no lugaj' cha- 
mado Serra Parda. 

A 29° descobrirão â Angra das Voltas (7), assim de- 
nominada das muitas voltas que os navegantes andarão 
dando nessa paragem por espaço de cinco dias. 

Apaitados deste lugar navegarão ao sul treze dias; e 
como começassem a sentir grandes frios, e tivessem já 
corrido por tanto tempo naquelle rumo, mandou Bartho- 
iomeu Dias demandar a terra pelo rumo de leste, cui- 
dando que a costa ainda ali correria norte-sul. 

Passados dias, e não se encontrando terra, mandou ve- 
lejar ao norte, e nesta direcção foi ter á Angra dos Va- 
queiros, a que deo este nome pelos que ahi vii-ão pasto- 
reando seus gados. Já os navegantes estavão além do 
grande cabo, que hião Ijuscando, e que muito por largo 
tinhão i'odeado sem o avistarem. 

(7) E csla Angni das Voltas descobrioBarllioloiuea Dias por man- 
dado de el-Rei D. João, que Deos tem. Está (segundo este esciiptor) 
em 29° e 20'. (Esmeraldo, foi. 87.) 



83 

CoiTcndo ainda avante pela costa na mesma direcção, 
ciiegárão a hum illiéo, que denominarão da Cruz, pelo 
padião que nelle collocárão a 33° e 45' austraes (8). 

Barlholomeu Dias mandou ainda navegar avante, obra 
de 25 Ipguas, e chegarão com eíieito ao Rio do Infante, 
a que derão este nome do appellido de hum dos navega- 
dores. Os nossos antigos marinheiros arrumavão este rio 
em 32° e 20' austraes. 

Nesta paragem foi Bartliolonieu Dias obrigado (com 
grande magoa sua) a retroceder, por a isso o forçarem os 
clamores da gente dos navios. 

Retrocedeo com efleito, avistou o grande cabo, a que 
chamou das Tormentas^, pelas que nelle experimentara, 
e ahi collocou o padrão S. Filippe. 

Entrou linalmente em Portugal em Dezembro de 1487, 
havendo dezeseis irtezes e dezesete dias que tinha sabido. 

Dando conta da sua viagem a el-Rei, este grande Prín- 
cipe, com admirável penetração de espirito, quasi presa- 
giando o futuro, quiz que o cabo se chamasse da Boa Es- 
perança, nome qi,ie conserva até ao dia de hoje, e que 
será em todas as idades, paia o Monarca Portuguez, e 
para toda a nação, hum titulo incontestável de gloria, su- 
perior ao despeito, ao baixo ciúme, e á inveja dos es- 
trangeiros. 

Aiiiio de 1487 

Quando el-Hei D. João II mandava por mar descobrir 
o cabo da Boa Esperança, despachava também por teria, 

(8) O padrão (iiif iJarlliolomeu Dias collocou no illico da Cruz 
era de pedra, pouco ntais alto que hum lioiueiii, com liuma cruz em 
cima, e esle padrão lem três leheiros, hum em Lalim, e oulro em 
Arahiíjo, e o outro em nossa lin(jua(jem Portmjueza, e todos três di- 
zem huma cousa: « 1 como el-Rei Dom João no anuo N. S. Jesu Ch\ 
de mil e cccc. e oitenta e oito annos, e em tantos annos da criação do 
mundo, mandou descobrir esta costa per Bcrllioldiiicn Dias capitão 



84 

e por dilfereiíles vias, vários descobridores, que tentas- 
sem chegar â índia, penetrar até os estados do Preste 
João, indagar a possibilidade de navegar para aquellas 
partes, examinar os caminhos por onde vinhão as espe- 
ciarias, e drogas orientaes, informar-se de alguma passa- 
gem pelo interior de Africa para a costa oriental, ác. 

Entre estes viajantes descobridores são dignos de es- 
pecial memoria os dous João Peres da Covilhãa, e Affonso 
de Paiva. 

Pelo mesmo tempo, e annos seguintes entretinha el-Rei 
correspondência com alguns Príncipes e Senhores de Afri- 
ca, e mandava estabelecer feitoria Portugueza em Huadem. 

Ent!-e os descobridores, que forão ao interior, e virão 
reinos e gentes até então desconhecidas, ficarão em lem- 
brança da historia os nomes de Pedro de Évora, e Gon- 
çalo Annes mandados a Tucurol, e Tombiicutu; Rodrigo 
Rebello, Pedro Reynel, e João Collaço a Maudimanza, a 
Tamala dos Fulos, ao Rei de Songo, e dos Moses, á-c. 

Em huma nota particular ajuntaremos as noticias, que 
se conservão nos escriptores, acerca destas viagens. 

Aunos de 1Í.S7 e 1488 

No mesmo anno de 1487, estando alguns Portuguezes 
na foz do Sanagd (Senegal), por elles mandou Bemohi, 
Rei negro de Gelofo, embaixada a el-Rei, com hum rico 
presente, de que fazião parte cem escravos negros. 

No anno seguinte de 1 488 veio o mesmo Príncipe em 
pessoa a Portugal, implorar o auxilio de el-Rei D. João II 
contra alguns seus vassallos rebeldes. Em Lisboa recebeo 
o baptismo elle e outros senhores, que o acompanhavão; 
e quando quiz voltar a Africa, mandou el-Rei huma frota, 

de setts navios », c esto padroin parece do mar, quando homem está 
perto deste ilhéo, &c. (Duarte Pacheco. — Esmeraldo, de sitii orbis.) 



85 

que o escoltasse, auxiliasse, e restituísse aos seus esta- 
dos, e nella ecclesiasticos, que ensinassem e pregassem 
o Evangellio, e a doutrina cliristrui; obreiros, que edifi- 
cassem lium templo, de. E ordenou ao mesmo tempo, 
que na foz do Sauagd se levantasse liuma fortaleza, por 
ser informado, que este rio passava por Tomhucutu, e 
Mnmbarco, que erão as maiores feiras do interioi-, de que 
toda a Berbéria de levante e poente se provia, e abastecia. 
Como el-Hei tinha em diversas partes do levante pes- 
soas encarregadas de o infoi-marem, e avisarem de tudo 
quanto podesse sei- conducente á execução das suas vas- 
tas idéas, o Santo Padre Innocencio VIII lhe enviou por 
estes annos hum Sacerdote Ethiope, recém- chegado da 
Ethiopia, e residente no Collegio de Santo Estevão dos In- 
dianos em Roma, para dar informação a el-Rei das cousas 
do Preste João, de que tanto desejava noticias. Este Sa- 
cerdote se chamava Lucas Marcos, e tinha vindo a Roma 
de mandado do Imperador da Ethiopia sobre o Egypto, 
isto he, do próprio Príncipe a quem se applicava o nome 
de Preste João. El-Rei o recebeo, e acolheo com grande 
prazer, e depois de haver delle muitas importantes noti- 
cias, o despedio contente, e lhe deo cartas suas para o 
Imperador. 

Anno de U90 

Em 1490 chegou .Toão Peres da Covilhãa (vid. anno de 
1487) á corte da Abyssinia, sendo Imperadoí' Escander 
(Alexandre), a quem entregou as cartas de el-Rei de Por- 
tugal. 

El-Rei, logo que teve noticias certas daquellas partes, 
começou a preparar huma armada para hir ao descobri- 
mento da índia; ordenou o Regimento prtr que ella havia 
de governar-se; e designou piir;i (;a[)itã()-.Mór da expedi- 
ção o grande Vasco da Gama. como refere o seu chro- 
njsta Garcia de Rezende. A moilc pi-eveiiio este Príncipe 



86 

no meio de seus gloriosos traballios, e o descobrimento 
ficou reservado para o seu successor. 



No mesmo anno forão expugnadas na Mauritânia as viiias 
de Targa, e Camice. 

Anno de 1Í94 

A este anno, e aos nove seguintes até o de 1500, se 
devem referir as grandes viagens do Dr. Martim Lopes, 
Jurisconsulto, Filosofo, e Medico, pelas terras do norte 
da Europa, até aos confins desta parte do mundo, aonde 
confronta com a Ásia. Destas viagens dá elle mesmo suc- 
cinta noticia a el-Rei D. Manoel em carta que llie escreveo 
de Roma no 1.° de Fevereiro de 1500, e que existe ori- 
ginal no Archivo da Torre do Tombo, Corpo Chronolo- 
gico, part. 1.% maç. 3.^, doe. 5.** 

Anno de im 

Neste anno aportou a Lisboa Christovão Colombo, já 
de volta do seu primeiro descobrimento, a que fora de- 
baixo dos auspicios dos Reis Catholicos. 

Foi opinião mui corrente entre os nossos antigos, e re- 
ferida por muitos escriptores nacionaes e estrangeiros, 
que o primeiro descobrimento do Novo Mundo fora feito 
por hum piloto Portuguez, arrojado pelo temporal até ás 
terras occidentaes, o qual communicára a Colombo as 
suas cartas, notas, e derrota. 

Pareceo-nos pois que esta memoria se devia aqui con- 
servar tal como a recebemos dos antigos, sem comludo 
ser nosso animo roubar ao navegador Genovez a sua glo- 
ria, ou diminuir bum só ponto da honrosa fama, e nome 
illustre, que tão justamente adquirio, e a historia lhe con- 
serva. 



87 

No mesmo anno de \ 493 mandou el-Rei povoar a ilha 
de S. Thomé, dando a capitania delia de juro e herdade 
a Álvaro de Caminha, Gavalleiro da sua Gaza, por Carta 
de 11 de Dezembro. 

Anno de 1 Wi 

A i de Junho deste anno se assignou o celebre Tractado 
de Toriesilhas entre el-Rei de Portugal, e os Reis Catho- 
licos, pelo qual se ajustou, que contando 370 léguas desde 
as ilhas íe Cabo Verde para o occidente, e tirando por 
esse ponto huma linha imaginaria, que passasse pelos 
pólos da te-ra, e dividisse o globo em dois hemisférios, 
ficasse o occidental pertencendo aos Reis Catholicos. e o 
oriental aos Portuguez»s, para nelles continuarem livre- 
mente os seus (>scobrimentos. 

Anno de liOii 

A 25 de Outubrc deste anno de 1495 falleceo el-Rei 
D. João II, com o que terminámos o 2." período do ín- 
dice dos nossos descolrimentos. 

Não he aqui lugar proorio para fazer o elogio deste So- 
berano, a quem os Portiiguezes, mui avisadamente, de- 
nominarão o Grande, e derão a qualificação de Prwcipe 
Perfeito. Lembraremos tão somente pelo que toca ao 
nosso assumpto: 

Que em seu tempo se descobrio toda a costa Occiden- 
tal de Africa desde o cabo de Savta Catharina para o sul : 
se dobrou o grande cabo da Boa Esperança, e se passou 
ainda além delle até o rio do Infapte: 

Que no seu reinado se fundou o casíeilo e cidade de 
íi. Jorçie da Mina. e se lançarão os prineiros fundamentos 
aos estabelecimentos do Congo. pIantan<lo-se ali a religião 
catholica, que depois foi em lanio cresLimento, e intro- 
duzindo- se naquelles bárbaros paizes as aites, os olFícios, 
e huma parte da civilisação eiu^^ipea: 



Que este grande Rei não poupou diligencias algumas, 
nem despezas para obter por meio de viagens terrestres 
o conliecimento dos paizes orientaes, e das terras do in- 
terior da Africa, deixando por este modo ao seu successor 
as informações, e planos que tão úteis lhe forão para o 
progresso de nossas emprezas : 

Que no tempo deste Príncipe, por sua ordem, t com 
auxilio de suas próprias luzes, e instrucção, os dous As- 
trónomos Portuguezes Mestre Rodrigo, e Mestre iosé He- 
breo, e o outro lambem hábil Astrónomo Martiíi Behaim 
conseguirão melhorar o instrumento náutico, de que usão 
os navegantes para tomar a altura do sol, zom o que se 
facilitou muito a navegação pelo alto mar, e poderão os 
navios desviar-se das costas, que até entío seguião com 
grandes delongas, e inconvenientes: 

Que elle mesmo, com a grande inteligência que tinha 
em, todos os officios, e em particular nas artelherias (como 
se explica Rezende), achou, e invent/)u o modo de trazer 
mui grossas bombardas em pequenas caravelas, cousa até 
então desconhecida, conseguindo com isto defender as 
costas, 6 a navegação dos seus ;iavios com menos des- 
peza, e mais segurança: 

Que foi elle o primeiro, qub poz no mar huma não de 
1:000 toneladas, a maior, reais forte, e mais bem aca- 
bada, que até áquelle tempcse havia construído, armada 
de grossas bombardas, e oJlras artelherias, e de tão forte, 
e basta liança, e tão grcsso taboado, que a artelheria a 
não podia passar (Rezeíide). 

Também não parecerá impróprio deste lugar, referir 
como este illustre Príncipe, já pelos annos de 1483, orde- 
nara que seu prime D. Manoel, ainda então muito moço, 
e apenas com direito muito eventual ao throno Portuguez, 
a que depois sub/o, tomasse por diviza a esfera do mundo, 
que com effeitp começou logo a usar, e conservou ainda 
depois de Re»'. O que nos parece ser grande prova da 



89 

perspicácia, e penetração de el-Rei, tias suas vastas idéas. 
e esperanças, e do presenlimento que linha dos futuros 
gloriosos feitos dos Portuguezes. 

Este Príncipe, diz hum geógrafo estrangeiro moderno, 
fixou a soberania de l*ortugal em Guini', região fecunda 
em ouro, marfim, e outras ricas producções; e legou á 
sua nação huma grande herança de gloria, abrindo cami- 
nho ás acções heróicas, que depois delle se praticarão na 
conquista marítima das índias orientaes. 

Finalmente ao tempo do seu fallecimenlo deixou quasi 
prompta a armada, que havia de hir ao descobrimento da 
índia (como já dissemos), e muitas importantes memo- 
rias para ulterior execução de seus vastos projectos. 



período ^: 

DESDE O ANNO DE 1495 ATÉ AO DE 1578 



coMpnFiiniNnE os reinados de EL-ni;i d. manoel, de el-iíei n. ,ioão iij, 

E DE EL-REr D. SEBASTrÁO 



REINADO DE El-REI D. MANOEL. U9r)-|!5'>l 

Anno de I i!)7 

El-Rei D. Manoel, achando quasi prompta a armada, 
que seu antecessor apparelhára para o descobrimento da 
índia, cuidou lopro em expedil-a, tendo em pouco os obs- 
táculos, que a ignorância, e o timido receio lhe quizerão 
ainda oppor. 

Constava a armada de três ncáos, a saber: 

i.* A náo S. Gabriel, capitania, em que foi Vasco da 
Gama, Capitão-Mór da expedição: Piloto, Pedro de Alem- 
qner, o mesmo que tinha hido com Bartholomeu Dias ao 
descobrimento do cabo da Boa Esperança. 

i2.* A náo S. Rafael, Capitão, Paulo da Gama, irmão de 
Vasco da Gama: Piloto, João de Coimbra. 

'^.^ A náo Berrin, Capitão, Nicoláo Coelho: Piloto. Pe- 
dro de Escobar. 

Hia mais huma barca com mantimentos: Capitão. Gon- 
çalo Nunes. 

Todos estes vasos levavão não mais que 160, ou 170 
homens, tanto de armas, como de marinhagem, entre os 
quaes se nomêão Fernam Martins, e Martim AíTonso. lín- 
guas, e também pilotos. 



91_ 

Esta pouco numerosa, mas ousada e feliz companha, 
saliio do Tejo em hum sabbado 8 de Julho de 14Í)7. 

Ao quinto mez de sua navegação, a 4 de Novembro, 
também dia de sabbado, descobrirão huma bahia, que de- 
nominarão Angra de Santa Helena, situada ainda na costa 
Occidental, pouco antes de se chegar ao rosto do cabo. 
Aqui se demorarão doze dias, e na quinta-feira 16 de No- 
vembro continuarão viagem. 

A 22 de Novembro dobrarão o cabo da Boa Esperança. 

A 25, dia de Santa Catharina, cliegárão ao lugar, a que 
se deo o nome de Âgoada de S. Braz, d'onde partirão a 
8 de Dezembro. 

A 23 de Dezembro avistarão a terra, a que se deo o 
nome de terra de Natal, com respeito á festividade do 
nascimento de .Tesu-Christo. As antigas cartas Portugue- 
zas punhão o principio desta terra de Natal em 32 Va" 
austraes. 

A 40 de Janeiro de 1498 descobrirão o Bio dos Beis, a 
que derão este nome, por ser então o oitavario da festa 
da Epiphania. Este rio se chamou também Bio do Cobre, e 
â terra se deo o nome de terra da boa gente. Os antigos 
a denotavão a 25". O Gama deixou neste lugar dous de- 
gradados dos que levava para exploradores das terras 
barbaras, e continuou viagem a 15 de Janeiro. 

A pouca distancia do Bio dos Beis denotarão a Agnada 
da boa paz em 24 7-2° austraes. 

A 25 de Janeiro descobrirão hum rio grande, que de- 
nominarão dos bons signaes, pelos bons auspícios, que o 
Gama tirou de algumas circumstancias favoráveis á sua 
empreza. Aqui se deo pendor aos navios, e se collocou 
o padrão S. Bnfacl, e teve o Gama o desgosto de lhe 
morrer alguma gente por efrciío de huma terrível, e as- 
corosa doença. Passados trinta e dois dias, e deixando em 
terra outros dous degradados, continuarão a navegar a 
24 de Fevereiro. 



92 

No \ .° de Março descobrirão quatro ilhas, e tomarão terra 
na de Moçambique, aonde collocárão o padrão S. Jorge. 
Levantarão ferro a 13 de IMarço, terça-feira. 

No l.° de Abril, hindo em demanda de Qnilôa, a não 
poderão tomar, pelo que navegando avante, chegarão a 
Mombaça a 7 de Abril, véspera de Ramos, e lançarão ferro 
á sua entrada. D'aqui sahirão a 13. 

No dia 15 de Abril, que foi nesse anno dia de Páscoa, 
fundearão em Melinde, aonde assentarão o padrão Sa?2to 
Espirito. Está esta cidade em 3" austraes. 

De Melinde, tomando piloto da terra, navegarão a 24 de 
Abril no rumo de nordeste, atravessando aquelle grande 
golfo. 

A 20 de Maio de 1498 surgirão a duas léguas da cidade 
de Calecut, termo de sua navegação, e logo depois pas- 
sarão ao próprio surgidouro da cidade, aonde collocárão 
o padrão S. Gabriel. 

A 29 de Maio se avistou o grande Gama com o Çamori, 
entregou as cartas de el-Rei, e deo a sua embaixada. 

Á volta de Calecut descobrirão ainda a ilha de Anclie- 
diva, e os ilhéos de Santa Maria, assim denominados do 
padrão, que ahi se collocou. 

A 5 de Outubro de 1 498 sahirão de Anchediva para Me- 
linde; mas experimentando grandes calmarias, somente 
chegarão a Magadoxo a 2 de Fevereiro, e a 7 surgirão 
em Melinde, anno de 1499. 

A 20 de Março de 1 499 dobrarão o cabo da Boa Es- 
perança. 

A 29 de Julho (alguns dizem de Agosto) entrou Vasco 
da Gama no Tejo, aonde já o esperava Nicoláo Coelho, 
que tinha chegado a 10 de Julho. Paulo da Gama ficou 
sepultado na ilha Terceira. 

Foi o tempo da viagem e ausência desta companhia de 
heroes dous annos e vinte e hum dias; e somente che- 
garão vivos 55 homens. 



93 

O graiidiuso templo e mosteiro de Belém, erigido por 
el-Rei D. Manoel em acção de graças ao Céo pela felici- 
dade do descobrimento da índia, lie hum monumento im- 
mortal da piedade do Monarca, e da gloria da nação Por- 
tugueza. Foi levantado no próprio lugar, em que o Ínclito 
Infante D. Henrique havia fundado huma ermida para 
d'ahi se administraiem os Sacramentos aos mareantes, e 
hum hospital para o tratamento dos enfermos. Ainda hoje 
se vê a estatua do illustre Infante sobre a porta principal, 
e as de el-Rei D. Manoel e da Rainha D. Maria em lugares 
mais secundários. 

El-Rei, logo que o Gama entrou em Lisboa, accrescen- 
tou o seu dictado, e denominou-se: iRei de Portugal e 
dos Algarves, d'aqiiem e d'além mar em Africa, Senhor 
de Guine, e da Conquista, Navegação, e Commercio da 
Ethiopia, Arábia, Pérsia, e Índia y>, de. Titulo tão hon- 
roso (diz Damião de Góes), quanto o he a mesma con- 
quista! Com elle se achão lavrados documentos poste- 
riores a Agosto de 1499. E nesse mesmo anno mandou 
el-Rei lavrar os portuguezes de ouro com a legenda : 

«Emanuel fíe.r Portugaliae, Algarbioriim citra et ul- 
tra in Africa, et Dominus Guinae.y> 

E ao redor das armas : 

« Conquista, Navegaçam, Commercio, Aethiopiae, 
Arabiae, Persiae, Indiae. » 

Anno de loOO 

Pedro AlvaresCabral, mandado á índia com huma grande 
armada de treze náos, sahio de Lisboa a 9 de Março deste 
anno ; e engolfando-se mnilo com o fim (ao que parece) 
de se desviar da costa de Africa, e evitar as calmarias 
de Guiné, foi arrojado a huma costa desconhecida ao su- 
doeste, a qual avistou a 2t2 de Abril, quarla-feira da oi- 
tava da Páscoa, e nesse dia surgio a cousa de G léguas da 



94 

terra. Ahi deo o uome de Monte Pascoal a hum alto monte 
fjiie se avistava, e á terra chamou a terra da Vera Cruz. 

A 23 navegou para a terra, e lançou ancora em frente 
de hum pequeno rio, que Nicoláo Coelho foi examinar, 
achando gente mansa, e tratavel. 

A 24 correrão a costa para o norte em busca de alguma 
boa abrigada, e achando lugar seguro para as nãos, ahi 
lançarão ancora. Este he o que depois se chamou Porto 
Seguro, arrumado pelos nossos navegadores em 16'' e 30' 
austraes, ou em 16° e 40'. 

A 26 de Abril, domingo, oitava da Páscoa, fez Cabral 
que houvesse missa, e pregação em terra, a que elle as- 
sistio com a gente da armada, e muitos dos naturaes, que 
íizerão grandes festas, e folias ao seu modo; e para esta 
solemnidade mandou levantar na praia huma grande cruz 
de madeira. 

Estando aqui alguns dias, em que a armada se proveo 
de agoa e lenha, despachou Cabral hum dos seus navios, 
Capitão Gaspar de Lemos, para vir trazer a el-Hei a noti- 
cia daquelle novo descobrimento, e pondo em terra dous 
homens, que no reino tinhão sido condemnados á morte, 
e que levava para exploradores, seguio viagem paia a Ín- 
dia a 2 de Maio. 

No cabo da Boa Esperança soffreo a armada súbita, e 
horrível tempestade, perdendo-se logo quatro nãos, huma 
das quaes era commandada pelo illustre Bartholomeu 
Dias, que descobrira, e dobi'ára o mesmo cabo, e na- 
quelles mares ficou sepultado, verificando-se á risca a 
profética ameaça do fero Adamastor, quando disse: 

Aqui espero luuiar. su não uie engano. 
De quem me descobiio summa vingança.- 

Na costa oriental de africa, esteve a armada em Mo- 
rambique, Quilóa, e Meliride; e na costa da Arábia, e Pér- 
sia observou Magadaxo, Socotora, Julfar^ Ormuz, d-c. 



95 

Chegado a Índia saliio em Anchediva, passou a Calecut, 
entrou em Cochim, e Cananor, e voltando a Portugal 
em 1501, trouxe Embaixadores destes dous últimos 
reinos. 

Á volta lançou em Melinde dous Portuguezes, que tra- 
balhassem por peneti'ar até á Abyssinia, e encarregou a 
Sancho de Toar de reconhecer Çofala, e infoimar-se do 
resgate do ouro, que ali se íiizia. 

Em Besenegue, junto a Cabo Verde, encontrou a expe- 
dição de três navios, em que Américo Vespucio fazia a sua 
primeira viagem á Terra de Santa Cruz por ordem de 
el-i\ei D. Manoel. 

A Relação desta viagem de Cabral, escripta por hum 
piloto Portuguez, que nella hia, foi traduzida em latim 
poi' Ai'changeIo JMadi'ignano, e inserida no Novm orbis . 
regionnm ac insidarum, de Grineo, tendo já sido vertida 
em Italiano, e meltida na collecção de Ramusio com o ti- 
tulo: (í Navegação do Capitão Pedro Alvares Cabral, es- 
cripta por hum piloto Portuguez. » 

(Vej. esta Relação na Collecção de Noticias para a 
historia e geografia das nações ultramarinas da 
Academia Real das Sciencias de Lisboa, tom -i.", 
num. 3; e a Carta de Pedro Vaz Caminha a el- 
Rei D. Manoel, na mesma Collecção, tom. 4.", 
num. 3.) 

-Neste mesmo anuo de 1500, Gaspar Corte Real,' nobre 
Portuguez, tentou investigar o ultimo termo da America 
septenitrional, e descobrir caminho para a índia pelo pólo 
árctico. 

Sahio do Tejo, na primavera, com dous navios, e che- 
gou em sua navegação ainda além dos GO" de latitude 
noite. Descobrio, e correo toda a terra de Labrador, que 
também se licou chamando terra de Corte Real, e acima 
delia a costa, que corre até o Rio das Malvas: descobrio 



96 

também a que chamou terra, ou ilha dos Bacalhaus, e 
algumas outras a ella próximas, que os antigos denomi- 
narão Cortes Reaes, e mui provavelmente a pequena ilha 
á entrada do estreito de Hadson, que se chamou de Ca- 
ramilo, corrompido este nome do Portuguez caramelo 
(neve congelada). 

O illustre navegante, voltando ao reino, repetio a mesma 
viagem a lo de Maio de 1501, e como não houvesse noti- 
cia delle, foi no anno seguinte de 1502 seu iimão Miguel 
de Corte Real em busca delle, mas aconteceo-lhe a mesma 
má fortuna. 

Em 1503 despachou el-Rei D. Manoel duas náos em 
busca de ambos, as quaes voltarão sem resultado algum. 

Preparava-se ainda para repetir a mesma diligencia ou- 
tro irmão mais velho, que os dous, por nome Vasco Ean- 
nes Corte Real, do Conselho de el-Rei, Alcaide-Môr de 
Tavira, e Governador das ilhas de S. Jorge e Terceira; 
mas el-Rei não consentio que elle cumprisse o seu pio, e 
fraternal propósito. 

Vasco Eannes, comtudo, teve o senhorio da Terra Nova, 
ou o titulo de Capitão Donatário da Terra Nova de Cortes 
Reaes, o qual passou a D Margarida Corte Real, herdeira 
da caza, e por ella a seu marido D. Christovão de Moura, 
Conde, e depois Marquez de Castello Rodrigo, que lam- 
bem se chamou, e seus descendentes, Senhor da Terra 
Nova. 

As cartas geográficas modernas não têem querido con- 
servar a memoria do illustre Portuguez no nome de Corte 
Real, dado ás terras por elle descobertas: mas Pinkerton, 
no seu Compendio de Geografia moderna, edição de 1811, 
não só diz, que no anno de 1500, Corte Real, Capitão Por- 
tuguez, buscou huma passagem, ao norte, é descobrio o 
Labrador; mas acrescenta em outro lugar, que <í a vasta 
extensão das costas, comprchendidas entre os 57 e 77" de 
longitude oeste de Paris, e entre os 52 e 62" de latitude 



97 

septemtrional, foi chamada terra do Labrador por Corte 
Real, navegador Porttigiiez, que a descobria em lõOOt. 
E iMalte Briin. Histaire de la Géografie, liv. 32.", não du- 
vida dizer, que a. idéa de hum estreito ao norte da Ame- 
rica, parece ter tido origem nas Relações, ainda mal co- 
nhecidas, de Gaspar Corte Real, navegador Portuguez. 

Anuo de loOl 

Neste anno, João da Nova, mandado á índia por Capi- 
tão de quatro nãos, c [)artindo de Lisboa a o de Março, 
descoljrio a ilha da Ascensão a 20 V-2° austraes, e a cousa 
de 120 léguas da costa do Brazil, e a outra, que se ficou 
chamando ilha de João da Nova, ao oriente da Africa. 
Barros, dec. 1.% hv. 5.°, cap. 10.", ediç. de 1628, diz que 
João da Nova, passados 8° além da linha para o sul, achara 
huma ilha, a que poserão nome de Concepção. 

Voltando a Portugal, já no anno seguinte de 1502, des- 
cobrio a ílha de Santa Helena (tão famosa nos nossos dias) 
a 16^ ou 10 -/a" de latitude austral, a 4oO léguas do Cabo 
Negro em Africa, e a 750 do cabo de Santo Agostinho, 
ponto mais oriental do Brazil, segundo Malte Brun. 

Os Portiiguezes nunca povoarão esta ilha; mas hum 
Portuguez, por nome Fernam Lopes, que por especial 
graça obteve viver ali em desterro, a povoou de vários 
animaes domésticos, como [)orcos, cabras, coelhos, per- 
dizes, Ac.;^ e fez algumas i)lantações. Acerca deste Fer- 
nam Lopes, e suas circumstancias, pode ver-se Casta- 
nheda, na Historia da índia, liv. 3.", cap. 69." e 94." 



Ncst(! mcsnu) anno de iridl joi ;i |)ri!i)eira \iag(,'m, que 
Américo Ves[iucio, Fldrciilino, fez (lor mandado dccl-Bei 
de Portugal. 

TOMO V 7 



98 

Sahio de Lisboa a 10 de Maio; correo a costa de Africa 
até Cabo Verde, e passando d'ahi a reconhecer as costas 
da Terra de Santa Cruz, que era o seu particular des- 
tino, navegou por ellas até ao Rio da Prata, cliegando 
ainda á terra, que depois se chamou dos Patagões, d'onde 
voltou a Lisboa em Setembro de 1502. 

(V^ej. a 1." Carla de Américo Vespucio na Collecção 
de Noticias para a historia e geografia das nações 
ultramarinas da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa, tom. 2.°, num. 4.) 

Aniio de 4502 

O grande D.Vasco da Gama voltou segunda vez á índia 
com huma armada constante de vinte Ucâos em três divi- 
sões, parte das quaes havião de lá ficar em guarda dos 
mares. 

Na sua passagem pela costa oriental de Africa fez tri- 
butário o Rei de Qiiilôa, primeiro Príncipe daquellas re- 
giões, que pagou páreas a el-Rei de Portugal. 

Na índia assentou tratos de commercio com os Reis de 
Cochim, e Cananor, aonde já havia feitorias Portuguezas: 
e em Cochim recebeo embaixada dos Chiistãos de Man- 
galor, e de muitos outros lugares, que espontaneamente 
quizerão render vassallagem a el-Rei de Portugal, e se 
poserão debaixo da sua protecção, dizendo que haveria 
em todos os ditos lugares 30:000 Christãos, regidos por 
hum senhor. 

Castigou severamente a perfídia, e trato doble do Im- 
perador de Calecut, e voltando ao reino em 1503, apre- 
sentou a el-Rei, em acto solemne, o ouro do tributo de 
Qiiilôa, que o pio Monarca dedicou a Nossa Senhora de 
Belém n'huma rica Custodia. 

Hum Portuguez, por nomeThomé Lopes, que Barbosa 
diz ser natural da cidade do Porto, escreveo esta viagem 



99 

com o titulo: « Navegação ás índias Orientaesr), de que 
foi parte e testemunha ocular. 

(Vej. as Noticias para a historia e geografia das na- 
ções ultramarinas da Academia Real das Scien- 
cias de Lisboa^, tom. 2.°, num. o.) 

Anuo de 1o03 

António de Saldanha, hindo neste anno para a índia, 
deixou o seu nome á Agnada do Saldanha, próxima ao 
cabo da Boa Esperança, tendo ahi pelejado com os bár- 
baros. Neste mesmo lugar foi depois morto por elles o 
illustre Almeida, primeiro Vice-Rei da índia, como em 
seu lugar notaremos (anno de 1510). 



No mesmo anno navegarão para a índia duas armadas, 
commandadas pelos dous Albuquerques, Francisco, e 
Affonso. 

Na primeira hia Antão Lopes, mandado por el-Rei com 
embaixada ao Rei, ou Imperador dos Abexins; mas per- 
dendo-se a náo, em que hia, ficou a embaixada sem 
eíTeito. 

Francisco de Albuquerque restituio el-Rei de Cochim 
aos seus estados, de que havia sido expulso pelas armas 
de Calecut: fundou fortaleza em Cochim, e foi a primeira 
que levantámos na índia; e quando d'ali se retirou, dei- 
xou em defeza daquelle reino o invicto heroe Duarte Pa- 
checo Pereira, cujas espantosas façanhas são bem conhe- 
cidas na historia, 

A segunda armada, commandada por Affonso de Albu- 
querque, teve hum successo semelhante ao de Pedro Al- 
vares Cabi"al; porque de Cabo Verde, engolfando-se ao 
mar, avistou a ilha da Ascensão, e tocou a costa da Terra 
de Santa Cruz. 



100 

Chegado á índia, entrou em Coulam, rJdade ainda não 
conhecida dos Portuguezes, assentou paz, e amizade com 
o Rei, eslabeleceo feitoria, e trato de commercio, o fez 
alguns ajustes em beneficio, e para protecção dos nume- 
rosos christãos que ali habitavão. 



Neste mesmo anno despachou ainda el-Rei D. Manoel 
outra armada de seis náos, e nella fez sua segunda via- 
gem Américo Vespucio. 

As náos navegarão a Cabo Verde, e logo depois fazen- 
do-se ao largo, pelo rumo de sudoeste, aos 3° da equi- 
noccial para o sul, avistarão huma ilha, á qual foi man- 
dada a não, em que hia Américo, com o fim de examinar, 
se nella haveria porto, em que a armada ancorasse, e 
neste meio tempo soçobrou a não capitania, salvando-se 
a gente. 

A armada dividio-se nesta paragem, e Américo, que se 
mostra na sua Relação mui descontente do Capitão Por- 
tuguez, acaso porque este se não sujeitava á sua orgu- 
lhosa presumpção, nada mais diz do resto das náos. Elle 
porém na sua, com outra de conserva, navegou em de- 
manda da Terra de Santa Cruz. 

No fim de dezesete dias descobrio hum porto, a que 
púz o nome de Bahia de todos os Santos, aonde sahio em 
terra, e esteve sessenta e quatro dias. 

D'aqui resolverão estas duas náos correr a costa, e che- 
garão a hum porto em 18" austraes. 

Neste lugar estiverão cinco mezes, fundarão huma forta- 
leza, e a deixarão guarnecida com 24 homens, armas, 12 
bombardas, e mantimento para seis mezes. E diz Amé- 
rico, que neste lugar, e acompanhado de 30 homens, en- 
trara pelo sertão a distancia de 40 léguas da costa. 

D'aqui voltou a Lisboa, e entrou no Tejo em Junho 
de 1504. 



101 

N. B. Sobro esta, e a precedente viagem de Américo 
Vespucio, que notamos ao anno de 1501, devem ver-se 
as « Recherches hisloriqacs, critiques et hibliographiques 
stir Améric Vespuceyy, pelo Sr. Visconde de Santarém. 
Paris, 18'i2, 8." 

Aníio de 450i 

Ruy Loarenço Ravasco, que fora na armada do Salda- 
nha, fez tributários a Portugal os Reis de Zanzibar, e de 
Mombaça. 

Diogo Fernandes Peteira (ou Pereira), que da mesma 
armada se desgarrou, foi invernar a Çocíjío/y/, aonde ainda 
não tinhão hido os Portuguezes. 



El-Rei D. Manoel mandou ao Congo homens letrados, 
mestres de ler, e escrever, músicos, livros de doutrina 
christãa, paramentos sagrados, e outras cousas necessá- 
rias para se continuar a instrucção religiosa, e a civilisa- 
ção daquelles povos. De lá vierão também muitos moços 
nobres a Lisboa para estudarem a religião, as letras, e os 
costumes Portuguezes. 
(Osório, MaíTei, á-c.) 



Por estes tempos o Soldão do Egypto cemeçou a pu- 
blicar, que havia de destruir a Casa Santa de Jerusalém, 
o Sepulchro de Jesu-Christo, e o Mosteiro do Monte Sinay, 
e obrigar os Christãos dos seus estados a se fazerem Ma- 
humetanos, se os Portuguezes não desistissem de suas 
emprezas na índia. Estas ameaças vierão a ter o resul- 
tado, que se verá no anno de 1513. 

Anno de loOli 

El-Rei D. Manoel, informado das maquinações occultas, 
e })õm'n leacs da Republica de Veneza, e da manifesta 



102 

opposição do Snlclão do Egypto, ligado com os Reis de 
Calecut^ e de Camhaija, lesolveo mandar á índia lium 
grande Capitão, que com o titulo de Vice- Rei, dirigisse, 
promovesse, e defendesse os negócios da navegação, e 
commercio daquellas partes. E escolheo para este impor- 
tante cargo o illustre D. Francisco de Almeida, o qual, 
acompanhado de liuma poderosa armada de vinte e duas 
velas, sahio do Tejo em Março deste anno. 

Na sua passagem pela costa oriental de Africa expugnou 
Qiúlôa; dethronisou o Rei que recusava pagar as páreas 
estipuladas, e se mostrava inimigo dosPortuguezes; deo 
á cidade novo Rei, que elle mesmo coroou com grande 
solemnidade; e fundou a fortaleza, a que deo o nome 
de Santiago. El-Rei D. Manoel mandou depois debuxar 
o acto da coroação em ricas tapeçarias, que por muito 
lempo se conservarão. 

Chegado á índia fundou as fortalezas de Ánchediva, e 
Cananor. Coroou solemnemente o Rei de Cochim, a quem 
el-Rei D. Manoel mandava huma rica coroa de ouro. Re- 
cebeo Embaixadores do Rei de Narsinga, e de outros 
Príncipes, e assentou com elles paz, amizade, e alliança. 

Seu valeroso filho D. Lourenço de Almeida descobrio 
Ceilão (que Góes escreve Zeilnnd), de que osPortuguezes 
já tinhão noticia. Entrou no porto de Gale, e prometteo 
ao Rei defensão e protecção, com elle se obrigar ao tri- 
buto annual de 400 babares de canella para el-Rei de Por- 
tugal. 

Pedro de Anhaya fez vassallo, e tributário de Portugal 
o Rei de Çofala, e lançou ahi os fundamentos de huma 
fortaleza aos 21 de Setembro deste anno. 
(Castanheda, liv. 2.'\ cap. 11. °) 



No mesmo anno se lançarão os fundamentos ao castello 
de Santa Cruz. no cabo de Aguer, na Mauritânia, aonde 



103 

logo se formou liuma notável villa, que se denominou 
Villa de Saitla Cruz no cubo da Aguer. 

Anno (Ic liiOfi 

João Homem, Capitão de huma caravela, pertencente 
á armada do Vice-Rei D. Francisco de Almeida, descobrio, 
antes de chegar ao Cabo da Boa Esperança, três ilhas, a 
dez léguas hnmas das outras, a que pôz nomes Santa 
Maria da Graça, S. Jorge, e S. João. 

(Damião de Góes, Chronica de el-Rei D. Manoel, 
part. ±\ cap. 3.°) 

Tristão da Cunha, hindo para a índia, e tomando muito 
ao sul para dobrar o cabo da Boa Esperança, descobrio 
humas ilhas despovoadas, que do seu nome se ficarão 
chamando as ilhas de Tristão da Cunha. 

Ruy Pereira Coutinho descobrio pela parte de dentro 
(occidental) a grande ilha de Madagáscar, e pôz o nome 
de Bahia Formosa, á bahia em que primeiro entrou. 
Dando parte do descobrimento a Tristão da Cunha, par- 
tio este a reconhecer a terra. Tocou vários pontos da 
costa occidental, e chegando ao cabo da ilha em dia de 
ISatal, lhe deo esse nome. A não de João Gomes de Abreu 
dobrou este cabo, e correndo pela costa oriental foi dar 
na boca de hum rio, na província de Matatana, aonde 
descendo em terra, e sendo necessário apartar-se a não, 
ficarão alguns Portuguezes em terra. 

(Castanheda, llv. ±°, cap. 30.° e 31.°) 

Ao mesmo tempo que as nãos do commando de Tristão 
da Cunha descobiião Madagáscar pela banda occidental, 
outras nãos, que vinhão em frota i)ara o reino, Capitão 
Fernam Soares, a descobiião pela píule oriental, avis- 
tando-a no 1.° de Fevei'eiro. Correrão á vista delia deze- 
sete dias, e tendo feito agoada e lenha, a passarão a 18 
do mesmo mez. A esta ilha derão o nome de S. Lourenço^ 



104 

por ser achada a 10 de Agosto pelos descobridores da 
parte occidental. 

A 6 de Fevereiro de \ 507 escrevia Affonso de Albu- 
querque a el-Rei D. Manoel com data de Moçambique, e 
já lhe falava do descobrimento da ilha de S. Lourenço. 
(Real Archivo, Corpo Chronologico, part.l.^, maç.6.°, 
num. 8.) 

Affonso de Albuquerque voltou neste anno á índia, en- 
carregado de tomar o cargo de Governador, logo que 
D. Francisco de Almeida acabasse o tempo do seu vice- 
reinado. Na passagem para a índia embocou o Estreito 
do golfo Arábico. 

No mesmo anno sahio da índia para Portugal o pri- 
meiro elefante, que de há veio, mandado a el-Rei pelo il- 
lustre Almeida. 

No mesmo anno finalmente fundou Diogo de Azambuja, 
por ordem de el-Rei, o Castello Real (Mazagão) na Mau- 
ritânia. 

Anno de lo07 

Neste anno descobrio D. Lourenço de Almeida as ilhas 
Maldivas. 



Tristão da Cunha poz em Melinde hum Portuguez, por 
nome Fernam Gomes o Sardo (Castanheda diz João Go- 
mea ho jardo), hum Mourisco Christão, chamado João 
Sanches, e hum Mouro de Tunes, por nome Cide Maha- 
mede, mandados por el-Rei D. Manoel com cartas suas ao 
Imperador Abexi. O bom Rei de Melinde encarregou-se 
de lhes dar aviamento para a viagem; mas como o não 
podesse fazer com a segurança, que desejava, ficou a via- 
gem sem effeito por aquelle caminho. 



105 

Tristão da Cunha, correndo a costa de Aja??, expugnou, 
e destruio Oja e Brava, e fez tributaria Lamo. Em Brava 
foi armado Cavalleiro pelo grande Albuquerque, que o 
acompanhava nestas expedições. D'ahi passou a Çoco- 
torrí, cuja fortaleza tomou, e reformou, dando-lhe o 
nome de S. Miguel, e deixando-a guarnecida de Portu- 
guezes, e tendo ordenado o governo da ilha, partio para 
a índia. 

(Castanheda, liv. 2.", cap. 36.° e 38.°; Góes, Chro- 
nica de el-Rei D. Manoel.) 



Duarte de Mello fundou a fortaleza de Moçambique, e 
nella huma igreja, e hum hospital. 



Affonso de Albuquerque correo a costa da Arábia, e 
Pérsia: assentou paz com Calaiate; expugnou Curiale 
e Mascate; fez tributaria Soar; mandou saquear Orfa 
çam, que achou despejada de habitantes; e entrando em 
Ormuz fez o seu Rei vassallo, e tributário de Portugal, e 
começou a 24 de Outubro a levantar ali a fortaleza, a que 
pôz o nome Nossa Senhora da Victoria. 

(Castanheda, liv. 2.°, cap. 53.° e seguintes; Góes, 
Chronica de el-Rei D. Manoel.) 



No mesmo anno de io07 os Porluguezes, commanda- 
dos por Diogo de Azambuja, entrarão na cidade de Azaafi 
(que nós chamámos Çafim), na Mauritânia Tingitana, da 
qual se assenhorearão completamente no anno seguinte 
de 1508. 

Guerra que o Rei de Cananor faz aos nossos. Cerco da 



106 

nossa fortaleza, defendida valerosamente pelos Portiigue- 
zes, Capitão Lourenço de Brito. 

(Castanheda, liv. 2.°, cap. 45.° e 52.°) 

Annos de io08 c 1509 

No anno de 1508 foi Diogo Lopes de Sequeira mandado 
por el-Rei a reconhecer a ilha de Madagáscar, e a des- 
cobrir Malaca. 

Chegou á ilha a 4 de Agosto. A 10 avistou na parte 
oriental hum cabo, a que pòz nome de S. Lourenço. To- 
cou algumas ilhas, aonde achou Portuguezes, que ali tl- 
nhão naufragado. Entrou no porto de Toramhaia, aonde 
se vio com o senhor da terra, e achou outro Portuguez. 
D'aqui navegou a outras ilhas, que denominou de Santa 
Clara, e nellas fez provisões. Passou ao reino de Mata- 
tana, aonde sahio em terra, e chegando ao rio que tem, 
o mesmo nome, também ahi achou Portuguezes. Correo 
ainda ao longo da costa, por onde vio muitas povoaçijes, 
até chegar a huma grande bahia, que denominou de S. Se- 
bastião, pola ter descoberto a 20 de Janeiro de 1509. 
D'aqui partio para a índia, e chegou a Coe/rim a 21 de 
Abril de 1509. 

Em Agosto do mesmo anno de 1509 navegou ao des- 
cobrimento de Malaca, conforme as ordens que tinha de 
cl-Rei D. Manoel. Passadas as ilhas de Niçuar, foi ter a 
Pedir, e a Pacêm, na ilha de Çamatra, e em ambas ci- 
dades levantou padrões, depois de ter assentado capitu- 
lações de paz com os seus Reis. D'ahi navegando foi sur- 
gir a 1 1 de Setembro em Malaca, cidade principal da 
peninsula do mesmo nome, e grande empório de todo o 
oriente, ari'umada pelos escriptores Portuguezes em 2 '2° 
latitude septemtrional. Em Malaca assentou artigos de 
paz e commercio com o Rei, e estabeleceo feitoria. Nesta 
expedição hia Fernam de Magalhães, 



107 

Os três mensageiros de el-Rei, que Tristão da Cunha 
pôz em Mel ilide para passarem á Abijssmia, c que por 
ali não poderão penetrar (vej. anno de 1507), forão em 
1 508 ter com Alíjuquerque, que andava no cabo de Guar- 
da fai. EUe os pôz em hum kigar a três léguas do cabo, 
d'onde, levando também carias de Albuquerque, pene- 
trarão com effeito até á corte do Abexi, aonde i-einava 
David, e por sua menoridade governava sua avó Helena. 
Desde então resolverão estes Principes mandar hum em- 
baixador a Portugal, e derão este cargo ao Arménio Mat- 
theus, de que a seu tempo se dirá (anno de 1514). 
(Castanheda, liv. ±^, cap. 85.°) 



Em dia de S. Braz, 3 de Fevereiro de 1 509, foi a grande 
batalha naval, em que o insigne Vice-Rei D. Francisco de 
Almeida venceo a armada do Soldão do Egypto, combi- 
nada com a de Calecut, e de Camhaya, e afugentou da 
índia os Rumes destroçados. xVssentou então pazes com 
Melique-As, senhor ás Diu: confirmou as que tínhamos 
com o Rei de Chaul, de quem recebeo as páreas, dando- 
Ihe carta de vassallagem : avistou-se com o Rei de Onòr, 
e augmentou o tributo, que já pagava a Portugal : fez vas- 
sallo de Poi'tugal o Rei de fiaficnla, e lhe inipoz também 
tributo. Finalmente recolheo-se a Cochim, e pouco depois 
entregou o governo da índia a Affonso de Albuquerque, 
que para elle fora nomeado, como já indicámos ao anno 
de 150(5. 

De volta para Portugal, já no anno de 1510, e no 1.'' 
de Março, foi este insigne Capitão morto cruelmente pelos 
bai'baros na Agoadn do Saldaufia, aonde sahíra em (erra: 
verilicando-se nellc também aquella terrível ameaça do 
implacável Adamastor: 

E do primeiro illiislrc, que a ventura 
Com fama alta fizer locar os ceos 
vSerei eterna, e nova sepultura. 



108 

Additamento 

Em 1308 partio Tristão da Cunha de Moçambique, de 
volta para Portugal, a 17 de Janeir-o, e de caminho desco- 
hrio a ilha da Ascensão, diz Castanheda, liv. 2.^ cap. 84," 

N. B. Duas ilhas tèem o mesmo nome da Ascensão, 
huma em 20 72'' sul, a 120 léguas da costa do Brazil, 
descoberta por João da Nova em 1501, de que falámos 
a esse anno; outra no mar da Elhiopia a 8** sul, e a 6°, 48' 
longitude da ilha do Ferro, que deve ser esta de que fala 
Castanheda. 

(Pimentel, Arte de navegar.) 

Anno de 1510 

Mandou el-Rei três armadas ao oriente, constantes todas 
três de quatorze náos. 

Huma destas armadas, de que era Capitão João Serrão, 
hia encarregada de assentar paz, e amizade com os Reis 
de Matatana, e Toriimbaia na illia de S. Lourenço (Ma- 
dagáscar), e fazer ajustes de commercio. 

João Serrão entrou no porto de Antepara, no reino de 
Toriimhaia; foi aos ilhéos de Santa Clara, entrou no rio 
de Monaiho, e tomou outros portos da ilha; mas não 
achando as especiarias que buscava (diz Góes), partia 
para a Índia. 

Neste anno, a 25 de Novembro, dia de Santa Catharina, 
expugnou, e conquistou AlTonso de Albuquerque a cidade 
de Gôa, na costa occidental da índia áquem do Ganges, 
reino do Dekham. 

(Castanheda, Barros, Góes, ác.) 

Ahi levantou logo fortaleza: bateo moeda de ouro, 
prata, e cobre: cazou muitos Portuguezes com moças na- 
turaes da terra, fazendo a todos mercês, e distribuindo- 



109 

lhes l6ri'as, e pnlinares: orgaiiisou o governo municipal, 
e deo sabias providencias para conservação, augmento, 
l)ovoação, e policia de hiima cidade, que no seu pensa- 
mento era já destinada para assento do governo Portu- 
guez, e capital do império lusitano oriental. 

Os Reis de Baticala, de Chaid, de Narsinga, o Çamori 
de Calecut, o Rei de Cambaija, e outros Príncipes lhe 
mandarão por seus embaixadores os emboras da victoria. 

No muro da nova fortaleza mandava o Ínclito Capitão 
metter huma lapida, em que fizera gravar os nomes dos 
Capitães, que foifio com elle na empreza d"aquella con- 
quista. Como porém os próprios Capitães entrassem em 
discórdias, e ciúmes sobi'e as preferencias dos nomes, 
Albuquerque mandou voltar a face da pedra para o inte- 
rior da muralha, e ordenou, que na face exterior se gra- 
vassem aquellas palavras: 

LAPIDEM QUEM RÉPROBA VERUNT EDIFICANTES. 
PEDRA REPROVADA PELOS EDIFICADORES. 

Anuo (Ic 1511 

No mez de Agosto deste anno expugnou, e conquistou 
Aflbnso de Albuquerque a grande cidade de Malaca, cujo 
Rei havia intentado perfidamente dar a morte a Diogo Lo- 
pes de Sequeira, depois de ter assentado com elle paz, e 
commercio, como dissemos ao anno de 1509. 

Levantou logo fortaleza; bateo moeda de ouro, prata, 
e estanho; e ordenou as cousas do governo, e adminis- 
tração publica com singular prudência, e discrição. 

Immediatamente despachou embaixadores, c descobri- 
dores para differentes partes daquelle remoto oriente, 
para Sião, Malaco, Pcgú, Jaliua, e China. 

I." Para assentar o trato de Maliicn mandou Ires nãos, 
e hum junco. Nas nãos hião António de Abreu, Caiiitão- 
iMór da armada, e Francisco Serrão, e Simão Aííbnso: no 



110 

junco hia por Capitão hum Mouro, que costumava nave- 
gar para Maluco, e era vassallo de Portugal. Huma das 
náos se perdeo através de Jao. As mais forão ter á ilha 
de Banda, onde estiverão quatro mezes, voltando a Ma- 
laca, sem hirem ao seu destino, tanto pela demora da 
monção, como porque ali mesmo receberão de Maluco 
cravo, com que se carregarão as náos, e ali mesmo to- 
marão maça, e noz. Abreu porém enviou ao Rei de Ma- 
luco as cartas de Albuquerque. 

Nesta viagem, e já no anno de 1512, descobrio António 
de Abreu a ilha de Amboino, e Francisco Serrão passou a 
Ternate, huma das Molucas. 

2.° Ao Rei de Siom mandou Albuquerque cartas, e re- 
cados seus por Duarte Fernandes; e como o Rei rece- 
besse bem o cumprimento, e mandasse embaixada a Al- 
buquerque com ricos presentes, e com carta para el-Rei 
de Portugal, Albuquerque lhe correspondeo, enviando a 
Hodiá, corte de Siam, por embaixadores António de Mi- 
randa de Azevedo, e Duarte Coelho. 

3." Ao Pcgú foi mandado Ruy da Cunha (que outros 
chamão Gomes da Cunha), o qual assentou ajustes de 
paz com o Rei, ác. 

Pelo mesmo tempo recebia Albuquerque em Malaca 
embaixadores de hum Rei da Jahua, do Rei de Campar, 
de hum dos Reis da ilha de Çamatra, e de outros Reis, e 
senhores do sertão, e das ilhas vizinhas, parte dos quaes 
se íizerão vassallos, e parte amigos, e confederados de 
el-Rei de Portugal. 

(Castanheda, liv. 3.° da Historia da Índia: e Goes^ 
na Chronica de cl-Iiei D. Manoel.) 

Ao tempo, que Albuquerque sahio de Malaca para a 
Índia, encommendou muito ao Capitão que ali deixou, e 
depois ao seu successor, qne não partisse navio de mer- 
cadores daquella cidade, onde não fosse lunn Porlnguez, 
homem de bom espirito, e discrição, para trazer infor- 



Hl 

viação do que visse, e ouvisse daquellas regiões, e tantas 
mil ilhas como aquelle mar oriental tem. 
(Barros, dec. 3.% liv. 2.°, cap. 6.°, de.) 

Annos de 1512 e Ial3 

Albuquerque voltando á índia, recebeo embaixadores 
do Rei de Visapor (ou Vigapor), do Çabaimdolkan, do 
Rei de Cambaya, de. 

Recebeo também o Arménio Maltheus, embaixador do 
Ahexi, que vinha para passar a Portugal com cartas, e re- 
cados daquelle Príncipe; e outro embaixador do Réi de 
Ormuz, que vinha com o mesmo destino. 

Nos fins de lolá, e principies de 1513, ajustou capi- 
tulações de paz com o Çamori de Calecut, o qual con- 
sentio que ali fundássemos logo fortaleza, e despachou 
dous embaixadores seus a Lisboa. 

Restituio o Rei das Maldivas á posse de algumas ilhas, 
que lhe andavão usurpadas, e o Rei se fez vassailo, e tri- 
butário de Portugal. 

Navegou depois para o golfo Arábico, e entrou as suas 
portas pela parte da Arábia: tomou a ilha de Camaram: 
collocou hum padrão na ilha de Mehum, ás portas do Es- 
treito, com a denominação de Vera-Cruz; e mandou Ruy 
Galvam, e João Gomes a descobrir Zeila. 

No mesmo anuo de 1513 foi enviado ao Albuquerque 
hum Judeo Portuguez do Cairo, morador em Jernsalvm, 
mandado pelo Guardião do convento de S. Francisco da 
Santa Cidade, para o avisar das ameaças que fazia o Sol- 
dão do Egypto, das quaes já falámos no anno de 1504. 
Albu(juerque dirigio este mensageiro a Portugal, aonde 
el-Rei recebeo, ou tinha recebido outros semelhantes 
avisos por via de Roma, e por cartas do Santo Padre, que 
parecia mui assustado daipiellas ameaças. El-Rei D. Ma- 
noel respondeo com a dignidade que devia, desprezando 



H2 

OS feros, e ameaças do Soldão. Dizia ao Papa, que sentia 
muito não ter dado ao Soldão mais, e maiores motivos 
de seu desgosto, e queixumes, á-c. E foi continuando em 
seu plano. 

(Góes, Chronica de d-Rei D. Manoel, part. 1/'', 
cap. 93.°, Ac.) 

A este anno de 1513 reduzimos o descobrimento da 
ilha de Mascarenhas, a este de Madagáscar ; porque con- 
stando que ella fora descoberta por Pedro de Mascare- 
nhas, de cujo appellido tomou o nome, não sabemos que 
este fidalgo passasse á índia senão em 15 U, chegando a 
Moçambique em 1512; pelo que ou nesse mesmo anno, 
ou no de 1513 a descobiiiia, segundo nossa conjectura. 
Comtudo alguns geógrafos estrangeiros a suppõem des- 
coberta em 1505, e Malte Brun assigna ao descobrimento 
o anno de 1545, no que parece haver manifesto engano. 

Esta ilha he a mesma, que os Francezes chamarão de 
Bourbon, quando delia se apossarão; mudança de nome, 
que somente pôde servir para escurecer a memoria do 
descobridor; mas não nos admiremos. Esta mesma ilha, 
a que os Francezes tirarão o nome de Mascarenhas, e 
derão o de Bourbon, foi por elles mesmos, e no espaço 
de poucos annos, chamada ilha da Reunião; logo depois 
ilha Bonaparte; mais depois outra vez ilha de Bourbon; 
e ao presente deverá admirar, que se Ihenão teiiha dado 
o nome de ilha de Orleans! Os Portuguezes a povoarão 
de animaes domésticos, e muitas vezes hião ali as nãos 
prover-se de refresco. 

Aimo de 1513 

Os Portuguezes commandados pelo Duque de Bragança 
D. Jayme, conquistarão neste anno Azamor, Tite, e Alme- 
dina, na Mauritânia Tinçiitmia, sobre a costa do Atlântico. 

Diz Damião de Góes, que a armada constava de mais de 



li;} 

qiialroceritas véins do lodos os porles, o (jiio liião ludla 
18:000 iiilaiites, e t2:500cavallos, alóni da gente da iiiario- 
bra e serviço do mar. Esta grande armada apromptoií-se 
em quatro mezes e meio. . 

Anuo de lol4 

Mandou el-Rei ao oriente duas náos, Capitães Luiz Fi- 
gueira, e Pedro Yanes Francês, com o determinado in- 
tento de concertarem ajustes de commercio com os habi- 
tantes da ilha de S. Lourenço, e levantarem fortaleza em 
Matata/ia. Os dous Capitães estiverão cousa de seis me- 
zes neste porto; mas relirai'ão-se sem outro eííeito. 



Em Fevereiro deste anno recebeo el-Uei em Lisboa o 
Arménio Mattheus, embaixador de David, Rei da Ethiopia 
sobre o Egijpto, com cartas deste Príncipe, e de sua avó 
Helena. Mattheus, tinha precedentemente chegado a Gôa 
para d'ali vir a Portugal, e dava noticia de Ires Portu- 
guezes, que esta vão na Ethiopia, hum, por nome João, 
que havia muito tempo tinha sido maruiado por hum Rei 
de Portugal, e os outros dous, que de pouco tempo ti- 
nhão lá chegado, 

Recebeo também el-Hei o embaixadoí' do Rei de Ormuz. 

Veio a Lisboa hum Naire mandado a el-Rei [lelo Ça- 
mori de Calecut para aprender a lingua Porlugueza, e 
andar na còrle, e ver os costumes Porluguezes. Este Naire 
recebeo o baptismo, e tomou o nome de D. João. 

Neste mesmo anno, em hum domingo, \^1 de Março, 
Jbi apresentado ao l'apa Leão X, em nome de el-Rei de 
Portugal, hum ri(|uis.sinií) presente (iusoiiia ac prorsus 
iiuigiri/ica niunera), em (|U(í liirio iniiiliis cousas i'icas e 
preciosas da Azia, e algumas cniiosidades daijucllas ter- 

TuMO V « 



H4 

ras, como era, por exemplo, hum elefante governado por 
hum índio, e hum cavallo Pérsio com sua onça de caça, 
dadiva do Rei de Ormuz, &c. Foi embaixador de el-Rei a 
Roma Tristão da Cunha, assistido dos Doutores Diogo Pa- 
checo, e João de Faria, e levando por Secretario da em- 
baixada Garcia de Rezende. 

\iiii() (Ic Kilo 

Neste anno o grande Albuquerque pôz definitivamente 
á obediência de el-Rei de Portugal a importante cidade 
de Ormuz: recebeo nella com grande solemnidade o em- 
baixador do Scbach Ismael, Rei da Pérsia; e mandou com 
o mesmo caracter á corte de Ispalian Fernam Gomes de 
Lemos, senhor da Trofa. 

Fernam Gomes já estava de volta na índia em 1517, e 
de Cnchim mandou a el-Rei hum livro em que dava conta 
da sua embaixada, e do caminho que fízera. 



Neste mesmo anno, o grande Affonso de Albuquerque, 
este não menos homem de estado, que insigne Capitão, 
vindo de Ormuz para Góa, faileceo no mar á vista de 
Gôa, em domingo 16 de Dezembro, aos sessenta e três 
annos de sua idade. 

Nos seis annos do seu governo fundou, e íirmou o im- 
pério Portuguez do oriente pela conquista dos três im- 
portantes pontos de Gôa, Malaca, e Ormuz, que na sua 
vasta idéa abrangião todo o commercio do oriente, e fa- 
zião os Portuguezes senhores de seus mares, e de suas 
ricas, e variadas producções. 

Malaca era o empório geral a que concorria o cravo 
das Molucas, a ?wz de Banda, o sândalo de Timor, a cân- 
fora de Borneo, o ouro de Çamalra, e do Leguio, e as 



il5 

g( munas, aioinas, c mais mercadoiias preciosas da Chtna, 
do Japão, de Siam, de Pegú, ác. 

Gôa reunia ao que liie vinha de Malaca os estofos de 
Bengala, as pérolas de Knlckar, os diamantes de Nar- 
singa, a canella, e rubis de Ceilão, a pimenta, gengibre, 
e outras especiarias do Malabar, que até então enrique- 
cião Calecut, Cambaya, e Ormuz. 

Ormuz finalmente era como entreposto, aonde se de- 
positavão todas as producções da índia, e mais paizes 
orientaes para d'ahi passarem pelo golfo Pérsico a Bas- 
sora, e logo em caravanas á Arménia, Trebisonda, Alepo, 
Damasco, de. 

Já dissemos muito em summa, como este grande ho- 
mem, estendeo, e ampliou em lodo o oriente o nome 
Portuguez, mandando embaixadores, e descobridores aos 
paizes mais remotos, ajustando pazes, e commercio com 
muitos Príncipes, e recebendo de todos elles testemunhos 
de respeito. Muitos delles derão mostras de grande sen- 
timento pela sua morte, e alguns tom;irão luclo por ella. . . 
Nunca a inveja, e 9 ingratidão sacrificarão mais illustre 
victima ! 

Albuquerque era mui douto nos estudos astronómicos, 
cosmograficos, e náuticos, como educado, que fora na 
escola Portugueza daquelles felices, e saudosos tempos; 
e frequentes vezes propunha difficeis problemas nestas 
sciencias ao grande geometra Portuguez Pedro Nunes. 

Alguns escriptores estrangeiros lhe attribuem o pensa- 
mento, e projecto de derivar o Nilo para o golfo Arábico, 
com o lim de dar hum grande golpe no poder do Soldão 
do Egi/pto. 

Hum filho deste illustre Capitão, por nome Braz de Albu- 
(|uerque, a quem el-Uei D. Manoel mandou tomar o nome 
de Álfotiao em memoria de seu pai, escreveo: « Comnien- 
tarios de Afjonso de Albuquerque », que se imprimirão em 
Lisboa em líJTO, em Ibl. 



116 



Aiiiio de liiKi 

O primeiro Portuguez (diz iium escriptor antigo), que 
descobrio o reino da Canc/unchina foi Duarte Coelho, aos 
dezoito annos da nossa entrada na índia, deixando em me- 
moria disso liuni padrão com o seu nome, e tempo do 
descobrimento. Este íidalgo teve depois em remuneração 
dos seus serviços da índia as terras da capitania de Per- 
nambuco no Brazil, tjue começou a povoar, quando se re- 
solveo a colonisação daquelle grande continente, como em 
seu lugar tocaremos. 



Neste anno de 151(1 acabou de escrever o seu liiro 
Duai'le Barbosa, descrevendo nelle a maior parte de nossos 
descobrimentos, e os lugares, e portos desde o cabo de 
S. Sebastião até aos Lcqnios, á-c. 

(Vej. a edição da Academia Heal das Sciencias, que 
o imprimio em 1813.) 



Não se nos estranhará, que façamos aqui menção de 
Ires nobres Sarmatns, que movidos da grande fama, que 
corria do nome de el-Ilei D. Manoel entre aquelles povos, 
vierão a Lisboa com o único intento de verem hum tão 
grande Principe, e de receberem delle a Ordem da Caval- 
laria. El-Rei os armou Cavalleiros neste anno de 1310, e 
com generosas dadivas os despedio contentes. Isto prova 
(a nosso parecer) o brado, que davão pela Europa os 
nossos descobrimentos, e navegações, que os esciiptores 
estrangeiros tratão hoje com tanto desdém, e qnasi des- 
prezo. 

(Góes, C/n (miai de el-Hei I). Manoel.) 



117 



Aiiiu» de 1ÍÍI7 

Fernam Peres de Andrade, mandado á China, tocou 
Pacrm na ilha de Çainatra, onde os Porliigiiezes já linhão 
commercio: assentou pazes c(»m o Hei de Palane, e neste 
anno de 1517 passou ;i China, a])orlando primeiro á iltia de 
Tamcu, a pouca distancia do continente daquelle grande 
imperid. Ciiegando ao continente fez ajustes de paz, e 
commercio com os Governadores de Cantam, e lançou 
em terra o embaixador, que levava com esse destino, i)or 
nome Tliomé Pires, o qual depois de quatro mezes de ca- 
minlio entrou na corte úe Nanquim. Fernam Mendes Pinto 
ainda encontrou na China huma filha deste embaixador, 
e hum Vasco Calvo, que o tinha acompanhado na sua in- 
feliz missão. 

(Vej. as Peregrinações de Fernam Mendes Pinto, 
£ap. 91.'^elI6.°) 
Fernam Peres de Andrade voltou da China com Si- 
mão de Alcáçova, e Jorge Mascarenhas, e chegou á índia 
em loI9. 

(Vej. Castanheda, liv. 4.°. cap. 27. ° e seguintes, e 
hv. r}.". cap. 80.". de.) 



Neste mesmo anno foi expugnada, e destruída a cidade 
de Zeila ás portas do esti'('ito do ç/olfo Arábico, da parte 
de Africa. 

(Livro de Duarte Barbosa, art. Zeila.) 



O Schá da Pérsia mandou embaixador a Portugal pe- 
dindo a el-Uei a sua amizade, e annunciando as disposi- 
ções, em que estava, de ligar-se com Sua Alteza contra 
os Turcos inimigos de ambos. Pelo mesmo tempo chega- 
vão avisos dos Cavalleiros de IíIkxIps. prevenindo a el-Hei 



Ii8 

da armada, que se aprestava no Egijptu contra os Porlu- 
guezes da índia. 

No mesmo anno falleceo na ilha de Gamaram., dentro 
do golfo Arábico, Duarte Galvão, mandado por el-Rei 
D. Manoel como seu embaixador á Ahysswia, onde não 
chegou a entrar. 

Depois de Fernam Peres estar em Cantam, foi .lorge 
Mascarenhas, de seu mandado, descobrir /í?<ma terra mui 
grande ao sueste, que se chamava Lequia. 

(Castanheda, Historia da Índia, liv. 4.", cap. 40.° — 
Vej. adiante anno de 1544.) 

Anil» dl' 15 IS 

Duarte Coelho de Albuquerque (de quem já falámos 
aos annos de \d\\ e 1516) assentou paz, e commercio 
com o Rei de Siam, e levantou na côrle de Hodiú hum 
padrão com as quinas Porluguezas. 
(Barros, dec. 3.^ liv. 2.°, cap. 1.") 
Passou depois ao reino de Pam, cujo Rei se fez tribu- 
tário a Portugal, como d'antes o era ao Rei de Malaca. 
(Ibidem.) 
Fundou-se em Columbo fortaleza. 

(Castanheda, liv. 4.", cap. 42.° e 43.^') 
O Papa Leão X concedeo por hum seu Breve, que se 
podessem ordenar de Sacerdotes os Ethiopes, e índios, 
que concorrião em Lisboa, a fim de serem úteis á leli- 
gião, quando voltassem a suas pátrias. 

Em Dezembro deste anno de 1518 foi despachado 
D. Tristão de Menezes a Maluco com cartas, e presentes 
de el-Rei de Portugal para os Reis daquellas ilhas, e para 
assentar com elles o trato do cravo. 
^Castanheda, liv. 4.°, cap, 47.°) 



119 



Anuo de lol9 



António Corrêa ajiistfni [)az. c amizade conn o Rei de 
Peçiá. 

(Breve discurso em que se conta a conquista de Pegn 
pelos Portuguezes, edição de 1829, 12.) . 



AIO de Agosto deste anno começou a sua famosa via- 
gem o illustre Cavalleiro PorluguezFernam de Magalhães, 
que por desgosto se desnaturalisou de Portugal, e foi 
offerecer seus serviços a Gastei la. 

A derrota, e os vários successos da armada podem 
ver-se no Roteiro, ha pouco impresso na Collecção de 
noticias para a historia, e geografia das nações ultrama- 
rinas, da Academia Real das Sciencias de Lisboa, vol. 4.°, 
num. 2, que nos dispensa de aqui repetirmos a sua des- 
cripção. 

Das cinco náo:í, de que constava a armada, huma só 
voltou á Europa, e a Sevilha, a náo Victoria, a primeira 
que fez hum giro inteiro á roda do globo da terra. O in- 
signe, e intrépido Capitão foi morto em huma das Filippi- 
nas, sem ter o gosto de ver o fim á sua arrojada empreza. 

Duarte Resende, que então servia de Feitor de Portu- 
gal em Ternate, e que teve em sua mão os papeis, e ro- 
teiros da viagem, esci'eveo hum Tratado da navegarão 
de Fernam de Magalhães, que oifereceo a João de Barros. 

\iiiio (Ic 11)20 

O Governador da índia, hindo w golfo Arábico, sondou, 
e médio o porto, e ilha de Macuá, aonde el-Rei mandava 
levantar fortaleza. Ajustou paz, e amizade com o liarn/i- 



120 

gaes, que pelo Abexi govei'nava aquella província, e en- 
tregou o embaixador de Ethiopia Mattheus, que em 151 5 
tinha saliido de Lisboa em companhia de Duarte Galvão, 
e que só agora pôde ser restituído á Ahyssinia no porto 
de Arquico. 

Ahi mesmo sahío em terra D. Rodrigo de Lima, man- 
dado embaixador de el-Rei á Abf/ssínia, por ter fallecído 
Duarte Galvão, como notámos ao anno de 1517. 

Com D. Rodrigo foi, entre outros Portuguezes, o Padre 
Francisco Alvares, que havia sahido de Portugal com Gal- 
vão, como Capellão da embaixada, e depois escreveo: 
« Verdadeira informação das terras do Preste João das 
índias r>j obra que se imprimio em Lisboa em 1540, e se 
traduzio em varias linguas. 

Anno de 1521 

Neste anno despachou el-Rei tresnáos. Capitão Môr Se- 
bastião de Sousa de Elvas, com ordem de hir á ilha de 
S. Lourenço, e levantar fortaleza no porto de Matatana. 
Este projecto não teve execução, por se haver desgarrado 
o navio, que levava os materiaes da obra. 

O Rei de Pacêm, restituído pelas armas Portuguezes 
aos seus estados, que lhe andavão usurpados, fez-se tri- 
butário a Portugal, e consentio que os Portuguezes le- 
vantassem fortaleza no seu porto. Foi Capitão desta ex- 
pedição Jorge de Albuquerque. 

António Corrêa, com alguns Portuguezes, restiluio a 
ilha de Baharem, no golfo Pérsico, â vassallagem do Rei 
de Ormuz, matando em guerra o Rei usurpador. Por esta 
expedição teve António Corrêa o appellido de Babarem, 
e no seu escudo de armas huma cabeça de Mouro co- 
roada, cortada em vermelho, com coroa de ouro. 
(Castanheda, liv. 5.", cap. 59.°; Góes, ác.) 

Fundon-se a fortaleza de ChauJ. 



121 

Neste mesmo anno de |y21, querendo el-Rei D. Manoel 
executar hum projecto, que muito d'antes tinha meiHtado, 
mandou ao Congo Gregório de Quadra com ordem de in- 
vestigar o caminliode Congo pai-a Abi/ssima, atravessando 
a Africa. O Quadra achou no Coítgo embaraços ordidos 
pehi inveja, e malevolencia, e como voltasse a Portugal 
para os remover, soube que el-HtM linha fallecido, e o 
projecto desvaneceo-se. 

(Góes, Clironica de el-Iiei D. Manoel, part. 4.% 
cap. o4.°) 

Neste anno de 1521, a 13 de Dezembro, falleceo el-Rei 
D. Manoel, appellidado entre nós o Venturoso. Delle di- 
zem alguns escriptores, que deixara de sua própria com- 
posição : « Commentarios dos successos da índia » . Succe- 
deo-lhe no throno el-Rei D. João III, seu filho. 

Ao tempo do faílecimento deste feliz Monarca, erão tri- 
butários á Coroa de Portugal muitos Reis, e Príncipes do 
oriente, e tínhamos fundado na índia muitas fortalezas 
em differentes portos. 

Em Africa na Mauritânia, ás cidades, e fortalezas ga- 
nhadas por seus antecessores, acrescentou Çafim, Aza- 
mor, e outras, e fez tributarias algumas províncias até 
além de Marrocos. 

N. B. Nas primeiras ordens de el-Rei D. João III. que 
chegarão á índia, mandava elle, qnc nenliinna fortaleza, 
das que el-Rei seu pai mandava fazer de novo, se fizesse, 
porém que as que estivessem começadas se acabassem. 
(Castanheda, Historia da índia, liv, Ij.", cap. 79.") 

REINADO DE EL-REI D. JOÃO III, r.21-i:M7 

Anuo <!)' 11)22 

Neste anno lançarão os Portuguezes os primeií-os fun- 
damentos ;i cidade de S. T/nnní-, a pnuca dislaiicia da aii- 



122 

tiga Meliapôr, na costa de Coromandel, aonde já tinlião 
algum commercio desde o anno de 1514. 

António de Brito fundou a fortaleza de Ternate nas Mo- 
hicas, e ajustou artigos de paz, e commercio com a Rai- 
nha, que por seu íilho menor governava a ilha. Come- 
çou-se a fortaleza a á4 de Junho de 1522. 
(Castanheda, liv. 6.°. cap. 12.°) 



N. B. Antes deste anno, e depois delle, já os Portugue- 
zes tinhão descoberto, e continuarão a descobrir muitas 
das illias daquelle vastissimo archipelago, postoque igno- 
rámos as datas precisas de muitos dos descobrimentos. 
Estes porém forão em tanto numero, que já hum antigo 
escriptor Portuguez queria que se lhes desse o nome de 
Ásia Insular, e que se distribuíssem em cinco províncias, 
a saber: província de Maluco, de Amboino, do Moro, dos 
Papitds, e das Cclehes, ou Macassar. Pelo que não parece 
de todo original a lembrança dos modernos geógrafos, 
que tem feito de todas aquellas terras, e mares huma 
quinta parte do mundo, a que dão o nome de Oceania, 
dividindo-a em Auslralasia, Polinésia, e Ásia Insular. 



A este mesmo anno se deve referir o principio das 17a- 
f/ens de António Tenreiro. Sahio este Poituguez de Or- 
muz em companhia de Balthazar Pessoa, que de mandado 
do Governador da índia D. Duarte de Menezes hia por em- 
baixador á Pérsia. Esteve na Pérsia, passou á Arménia, 
veio á Syrittj, ao Cairo, a Alexandria, á ilha de Chipre. 
De Chipre voltou ao continente, e logo a Ormuz por terra, 
e ficando ahi cinco, ou seis annos (como elle mesmo diz), 
tornou a sahir para vir por terra a Portugal, com recados 
a el-Rei, sobre a armada do Turco, sendo Governador da 
índia Lopo Vaz de Sampaio, e Capitão de Ormuz Christo- 



123 

vão de Mendonça, Sahio de Ormuz nos fins de Setembro 
de 1528, e chegou a Portugal no anno seguinte, com al- 
guns mezes de viagem. Elle mesmo escreveo o seu Iiine- 
rario, que se imprimio em Coimbra em 1560, e depois 
de outras reimpressões, sahio novamente á luz em Lis- 
boa, em 1829. 

Anno de 1323 

Fez el-Rei D. João lII doação do reino de Ormuz a 
MahumfiJe Xaa, tilho mais velho de el-Rei Çafadím Aba- 
nader, em 19 de Agosto deste anno de 1523, e na carta 
de doação usa do dictado: <íRei de Portugal e dos AUjar- 
ves d' aquém e d^além mar em Africa, Senhor de Guiné, e 
da Conquista, Navegação e Commercio da Ethiopia, Ará- 
bia, Pérsia, e Índia, c Senhor do reino e senhorio de Ma- 
laca, e do reino e senhorio de Gôa, e do reino e senhorio 
de Ormuz ^í, d-c. 

(Dissertações Chronologicas e Criticas, tom. 3.", 
part. 2.% pag. 203.) 



Expughárão os Portuguezes a cidade de Xael. 

Anno de 1521 

Foi terceira vez á índia com o titulo de Vice-Rei o Al- 
mirante D.Vasco da Gama, já então Conde da Vidigueira; 
porém aos três mezes, e vinte dias da sua estada na ín- 
dia, falleceo em Cochim, a 25 de Dezembro deste anno. 
Os seus ossos vierão para Portugal, e forão sepultados no 
convento cai-melitano da Vidigueira, na igreja, ao lado do 
Evangelho. 



lleiloi' da Silvcjjra ajustou pazes com o Rei de Adem, 
que se fez tributário a Portugal. Estas pazes não durarão 
muito. 



124 
Aiino lie IÍÍ25 

António de Brito, Capitão de Ternale, arntiou iiuma 
fusta cora 2o Portuguezes, piloto Gomes de Seijueira, e 
a mandou c<jm fazendas ás illias Celebes, aonde se dizia 
que havia muito ouro. Os Porluguezes forão ao principio 
liem recebidos dos insulares ; mas sendo depois obrigados 
a sahir d'ali, e navegando com grandes tormentas, foi a 
fusta arrojada a lium mar largo, e desconhecido, e ha- 
vendo corrido obra de trezentas léguas a leste, achou-se 
em frente de huma grande, e formosa ilha, que do nome 
do piloto (diz a Relaí^fio que seguimos) se ficou chamando 
ilha de Gomes de Sequeira, e aonde os Portuguezes acha- 
rão bom acolhimento. 

Aqui (diz a mesma Relação) acharão homens mais al- 
vos, que morenos, cabellos corredios, barbas estendidas, 
presença agradarei, corpos enxutos, e grande candura, 
e simplicidade no trnto, de maneira, que a ilha se poderia 
bem chamar nilha da simplicidade», pela mansidão, e 
bondade de seus habilanles. Veslião humas túnicas inte- 
riores de esteira mui fina, e outras sobre-rest^s tecidas 
em tranças mais grossas, sem talho algum, e cobrindo 
tão somente da cintura até aos pés. Sustentavão-se de 
inhames, legumes, cocos, bananas, de. 

Os Portuguezes demorárão-se quatro mezes nesta bella 
ilha, 6 o piloto a demarcou na sua carta; mas logo que 
tiverão monção, sahírão delia (a 20 de .laneiro de 1520), 
e voltarão a Ternate. 

Parece-nos haver alguma analogia entre o caracter, cos- 
tumes, e usos destes insulares, e os da ilha, que os Cas- 
telhanos depois denominarão «/Mo da bella naçãoy>, si- 
tuada a 13° austraes, e descripta na Relação de Fernando 
de Queiroz, citada por BulTon. na Histoire naturelle de 
thomme. 

íVej. Andi'adt\ Chronica do el-fíei D. João J1J, 



125 

pari. \:\ cíip. 9i."; e o Oriente CniKjaiíitado, do 
P. Sousa; e veja-se tambiiii Castanheda, liv. G.", 
cap. 127.°) 

Alguns escriptoies estrangeiros dizem, que nesie anuo, 
uít ainda antes, fora descoberta pelos Portuguezes a 
grande, terra, que depois se chamou Nova Ilollanda; a 
qual licando por então em esquecimento, fora depois re- 
conhecida pelos Hollandezes desde 1G16 em diante por 
varias vezes. Pôde ver-se o que diz a este respeito o il- 
lustre geogralo Malte Brun no Hv. 23.° da Historia da 
Geografia, pag. 630, aonde não duvida affirmar, que os 
direitos dos Portuguezes á honra deste descobrimento vem 
de receber nova luz por duas antigas cartas, que se achão 
no Museu Britanwico (9), d-c. 

Aimo de 1o2() 

Neste anno hindi > D. Jorge de Menezes para Maluco, 
foi mandado tomar o caminho de fíorneo, e descobrir 
esta navegação, como mais commoda, que a que se cos- 
tumava fazer por Banda. 

Com este desígnio foi dar através das ilhas do Moro, e 
em hunia noute, que o vento foi calma, escorreo tanto 
com as grandes correntes que ha por entre aquellas illias, 
que foi pai^ar ao grande golfo do estreito de Magalltães, 
aonde com rijo lem[)oral ibi arrojado ;i terra dos Popuás. 
Aqui, lbi\'ado dos ventos de oeste, invernou, e deniorou- 
se tanto tempo, que só pôde chegar a Maluco em Maio 
de 'lo27. 

(Andrade, C/ironica de D. João II í, pnit. 2.'', 
cap. 19.°~ Vej. Barros, dec. i.", liv. 1 .". cap. 16.") 

(9) Yej. a Memoria suhre a prioviúndc dos descohi-imciilos Por- 
tuguezes lui resta de Africa orcidental, pelo Sr. Viscmide de Saiita- 
mii, I8il, pag. 80. 



126 

Neste mesmo anno entrou effectivamente em Borneo 
Vasco Lourenço, achando já nesta ilha outro Capitão Por- 
tuguez. 

No golfo x\rabico se fizerão tributarias a Portugal as 
ilhas de Macuá, e de Dalaca. 



Sahio da Ethiopia D. Rodrigo de Lima (veja-se anno 
de 1520), e o Imperador David enviou a el-Rei por seu 
emhmxu\ov Zagaia- Ah, sacerdote, e bispo (que os nossos 
escriptores commummente chamão Zagazabo), com cartas 
para el-Rei D, João III, e para o Papa Clemente VII, da- 
tadas do anno de 1524. Com este embaixador voltou ao 
reino o Padre Francisco Alvares; de quem fizemos menção 
ao referido anno de 1520. 



'(Neste atino despachou el-hei a primeira armada, que 
foi em seu tempo ao Brazil; Capitão Môr Christovão Ja- 
cqties. Foy correr aquella costa, alimpal-a de corsários, 
que com teima a continuamo, pollo proveito que Unhão 
do pão Brazil. E erão os mais dos portos de França do 
mar oceano. » 

(Annays de D. João III, pag. 178.) 

Anno de io27 

Neste anno Diogo Garcia, Portuguez, que andava no 
serviço de (>astella, navegando para o sul, aportou hum 
pouco afastado da boca do Uruguaij; e achando ali os na- 
vios de Sebastião Caboto, e sabendo que este linha subido 
pelo Paraguaij, subio também com as suas lanchas até 
muito acima da coníluencia do Parannd, aonde o encon- 
trou acabando de construir o Fortim de Santa Anna, e 
ahi derão ambos ao Paraguay o nome de Rio da Prata, 



i27 

por verem alguns pedaços deste metal nas mãos dos in- 
dígenas. 

(Gaetb, Heirera, ác.) 
Henrique Gomes Leme eulrou na ilha da Smulaj cujo 
Rei offereceo lugar para huma fortaleza, e dar de tributo 
350 quintaes de pimenta em cada anno. Este ajuste po- 
rém não teve effeito. 

O Rei de Bintão restituído pelas armas Portuguezas 
aos seus estados, fez-se tributário a Portugal. 
Nuno da Cunha fez tributário o Rei de Mombaça. 
(Barros, dec. 4.^ liv. 3.", cap. o.") 



Belchior de Sousa Tavares foi em auxiho do Rei de Bá- 
cora contra o de Gizaira, e foi o primeiro Portuguez, 
que entrou pelos rios Tigre, e Eufrates. 

Aono de 1529 

Neste anno, a ^2 de Abril, foi celebrada a capitulação 
de Saragoça entre Portugal e Hespanha, pela qual o Im- 
perador Carlos V, Rei de Castella, vendeo a el-Rei de Por- 
tugal o domínio, propriedade, posse, ou quasi posse das 
Molucas por 350:000 ducados de ouro, com condição, 
(lue pagando el-Reí de Castella integralmente esta quan- 
tia, ficarião as partes contratantes cada huma com o di- 
reito e acção, que ao tempo do contrato linha, ou pre- 
tendia ter naquellas ilhas. Vem este notável conti'ato por 
integra na Collecção das Viagens e Descobrimentos dos lles- 
panlioes, por D. M. F. de Navarrele, tom. 4.°, pag. 389. 

Anno de 15)30 

A 20 de Novembro deste anno são datadas as carias 
regias, pelas quaes el-Rei mandou, (|ue Martim Alfonso 



1-28 

de Sousa sahisse com huma armada a investigar as costas, 
e terras do Biazil, auctorisando-o para repartir terrenos 
áquelles que nellas quizessem habitar. 

(Vej. o Diário desta navegação, ha pouco publicado 
pelo Sr. Francisco Adolfo de Varnhagen com mui 
eruditas, e interessantes notas.) 

Aqui se deve fixar (a nosso parecer) a época da colo- 
nisação do Brazil, que logo depois se continuou com re- 
gularidade. 

iMartim Aílbnso reconheceo nesta viagem o liio de Ja- 
neiro, chegou ao liio da Prata, descobrio a .'30" austraes 
o rio que do seu nome se ficou chamando liio de Marlim 
Affonso; e a 22 de Janeiro de 1532, dia de S.Vicente, 
surgio no porto de S. Vicente, aonde lançou os funda- 
mentos á primeira colónia Portugueza do Brazil. 

Aiino de 1533 

Nos princípios deste anno foi Nuno da (^unha com huma 
armada de cousa de oitenta velas sobre Baçaim, e alcan- 
çando gloriosa victoi'ia, tomou, e destruio a fortaleza que 
ali tinha levantado o Bei de Cambaya. 
(Castanheda, liv. 8.°, cap. o9.<' e 62.'') 

Aiinos (Ic 153 i c lo3a 

O Bei de Cambaya, implorando o auxilio das armas Por- 
tuguezas contra os Magores, cedeo a Portugal Baraim 
com todas as suas terras, e portos marítimos. 

Permittio também que os Portuguezes fundassem em 
í)iii a fortaleza, que tanto desejavão, e que dejjois lhes 
foi tão pertinazmente disputada. Fundou-a o Governador 
da índia Nuno da Cunha. E como lodos sabião quanto el- 
Bei de Portugal era empenhado em ter ali fortaleza, hum 
Diogo Botelho, querendo adian(ar-se a lhe trazer tão grata 



1129 

noticia, veio, quasi furtivamenlo, da índia a Lisboa em 
huma fusta de \S pés de comprido, 6 de largo, e 4 de 
alto, trazendo a el-Rei a planta de Diu, e os artigos da 
capitulação: viagem que maravillioii a todos, c que cer- 
tamente merece esta memoria. 

(Annaes da Marinha Portugueza, ao anno de '1535.) 



Em 1534 navegou para a Indta Garcia de Horta, Por- 
tuguez, que lá escreveo, e imprimio em Gôa em 1563 o 
CoUoquio sobre as drogas e simplices do oriente, obra que 
deve ser conhecida dos naturalistas. 



No mesmo anno de 1534 chegou á índia Martim Aflonso 
de Sousa com o cargo de Capitão Mór do mar da índia, 
levando armada em que também hia Diogo Lopes de 
Sousa seu irmão. 

(Barros, dec. 4.'\ liv. 4.', cap. 21.°) 

Mandou arrazar, a fortaleza de Damam, c correo a costa 
até Diu, fazendo grande guerra a Camhaya. 

Addo (Ic lo36 

Francisco de Castro, mandado pelo illustre Capitão das 
Mohicas António Galvão a Macassar, foi levado pelos 
ventos 100 léguas ao norte das Molacas, e aportou á illia 
Santigano, donde passou ás outras ilhas Soligano, Min- 
danáo, Buticano, Vimilarano, e Camizino. 

Desta viagem resultou fazerem-se muitos Christãos por 
aquellas ilhas: e como concorressem a Térmite em grande 
numero, pedindo o baptismo, fundou o insigne, e vir- 
tuoso Galvão ahi hum seminário, cm que se recolhessem, 
e instruíssem os meninos, que daquellas diversas gentes 
viessem a doutrinar-se na religião christãa. Fundação me- 

TOMO V '.1 



i3a 

moravel f que foi a primeira de nossas conquistas, e hon- 
rará em todo o tempo a memoria do fundador. 

Anno de 1537 

Começou o celebre Fernam Mendes Pinto as suas ex- 
tensas peregrinações, em que gastou desde a saiiida até 
á volta de Portugal vinte e hum annos, recolhendo-se ao 
reino em 1559. Imprimirão-se estas Peregrinações em 
Lisboa em 16 1 4, e depois de varias reimpressões, sahírão 
novamente á luz em Lisboa, 1829, 4 vol. 12. 

Fernam Mendes, sendo mandado a Çamatra, pelos an- 
nos de 1540, ou 1541, e voltando a Malaca, informou o 
Capitão Portuguez de tudo que lhe succedêra na viagem, 
tratando miudamente do descobrimento dos rios, portos, 
e angras, que novamente achara na ilha Çamatra, assim 
da parte do mar mediterrâneo, como do oceano, e do 
trato da gente que habitava aquellas terras. E arrumou 
por suas alturas toda aquella costa, com seus portos, e 
rios, ác. 

(Vej. Peregrinações, cap. 20.°) 

Anno de 1538 

Por este tempo vierão a Lisboa quatro principaes Ma- 
labares, ou Paravas da costa da Pescaria com o fim de 
aprenderem a lingua Portugueza, e poderem ser melhor 
instruídos na doutrina da religião. El-rei os mandou re- 
colher na Gaza de Santo Eloy, com os Ethiopes nobres 
do Congo, que nella também estudavão. Para elles com- 
pòz João de Barros a sua Grammatica da Lingua Portu- 
gueza, que se imprimio em 1539. 



No mesmo anno de 1538 foi o primeiro cerco da for- 
taleza de Diu, defendida heroicamente por António da Sil- 



131 

veira contra as forças reunidas dos Guzarates, e Turcos. 
Quando o illustre Capitão chegou a Lisboa recebeu o pa- 
rabém de alguns Soberanos da Europa por seus embai- 
xadores, e refere a historia, que el-Rei de França Fran- 
cisco I mandou tirar o retrato do heroe, e o fez collocar 
era huma sala do seu palácio entre outros de famosos 
varões, que tinhão merecido a mesma honra. Lopo de 
Sousa Coutinho escreveo a historia deste cerco, que se 
imprimio em Coimbra, em 1556, e he obra rara. 

Anno de 4540 

A este anno referem Diogo de Couto, e Lucena o des- 
cobrimento das ilhas Celebes pelos Portuguezes: o que 
se deve entender de hum mais largo conhecimento, ou 
trato daquellas ilhas, porque os Portuguezes já as tinhão 
achado, e tocado em 1525, como dissemos a esse anno. 



O Rei de Cota em Ceilão, não tendo filho que lhe suc- 
cedesse, mandou embaixadores a el-Rei D. João III ro- 
gando-lhe houvesse por bem, que a successão passasse 
ao neto. Os embaixadores trazião a estatua deste futuro 
successor, de ouro; e el-Rei o coroou solemnemente em 
Lisboa, impondo huma preciosa coroa sobre a cabeça da 
estatua. 

Fundou Fr. Vicente de Lagos, frade menor de S. Fran- 
cisco, o collegio de Santiago de Cranganor, para nelle 
serem educados oitenta mancebos, filhos de gentios con- 
vertidos. Este collegio foi depois dotado por el-Rei de 
Portugal. 

Anno de 154i 

Foi neste anno a expedição, em que o Covernador da 
índia D. Estevão da Gama navegou com huma grande ar- 



132 

mada todo o golfo Arábico até Sues, com o intento de des- 
truir a armada dos Turcos, que ali estava ancorada. 

Em frente do monte Sinai sahio em terra, e armou al- 
guns cavalleiros, entre elles D. Álvaro de Castro, filho de 
D. João de Castro, e D. Luiz de Athaide, que depois foi 
Vice-Rei da índia. A isto alludia o letreiro, que se escre- 
veo sobre a sepultura de D. Estevão da Gama : 

o QUE AKMOU CAVALLEIROS 
NO MONTE DE SINAI 
VEIO ACABAR AQUI. 

O grande D. João de Castro, que hia na expedição por 
Capitão de hum dos navios da armada, sondou, exami- 
nou, e arrumou os portos, enseadas, rios, costas, e lu- 
gares daquelie mar, e escreveo o Roteiro do mar verme- 
llio, com huma exacção, miudeza, e verdade, que não tem 
sido excedida dos modernos. Este Roteiro imprimio-se em 
Paris no anno de 1833, 8." 



No mesmo anno foi a outra expedição de D. Christovão 
da Gama com 500 Portuguezes em auxilio do Abexi, os 
quaes D. Estevão da Gama lançou em terra no porto de 
Maçuá. Miguel de Castanhoso, que hia nesta expedição, 
escreveo os successos delia, dos quaes também tratou 
D. João Bermudes, Patriarcha da Ethiopia, na sua Rela- 
ção oílerecida a el-Rei de Portugal D. Sebastião. 



Fundou-se neste mesmo anno o Seminário de Santa Fé 
de Gôa, para nelle serem educados, e instruídos os neó- 
fitos gentios, e os meninos Christãos, filhos de gentios 
convertidos dos vários reinos daquelie oriente. Nos pa- 
peis primitivos da fundação se nomeavão os meninos dos 
Canarins, Decanis do norte. Malabares, Chingalas, Ben- 
galas, Pegús, Malaios, Jáos, Chinas, e Ábexis, por onde 



133 



se vê quantas, e quão vastas regiões, e povos tinhão já 
então trato com os Portuguezes. 



Anno de i542 

António da Motta, Francisco Zeimoto, e António Peixo- 
to, navegando para a China, forão arrojados pelo tempo- 
ral ás costas do Japão, onde tomarão porto. Pelo mesmo 
tempo aportarão também a Japão Fernam Mendes Pinto, 
Christovão Borralho, e Diogo Zeimoto. 



Neste mesmo anno entrou na índia o Santo Xavier, 
appellidado o novo Apostolo do oriente. 



El-Uei D. João III mandava ao descobrimento da ilha 
do Ouro, que se dizia estar no oceano oriental a 5° lati- 
tude austraes, e ;1 150 léguas de Çamatrq. Esta expedi- 



ção não chegou a eífeituar-se. 



Por este tempo tinhão já os Portuguezes hum conside- 
rável estabelecimento, a que davão o nome de cidade, 
em Liampó (ou Limpo), ou antes Ním-pó), na costa orien- 
tal da China a 30" septemtrionaes. I)'aqui passarão a fazer 
outro estabelecimento em Chinchéo pelos annos 1549, e 
ultimamente vierão a fundar o de Macáo, na ponta do sul 
da ilha de Gaoxam (ou Yanxam) em 1557, de que adiante 
se falará (10). 



(10) Vej. as Carias escriplaa da Índia r da Cliiiia, por José Igna- 
cio de Aiidrado. Lisboa, 1843, lom. 1.". caria xxx c seguintes. 



134 



Anno de 1544 



António de Paiva entrou na ilha de Macassá, e passou 
á de Sian (ou Siang), aonde se fizerão muitas conversões 
ao Gtiristianismo. 

Fernam Mendes Pinto, e outros Portuguezes aportarão 
ás ilhas Léquias (de Lieu-Kieu), ao nordeste da ilha For- 
mosa, e ao oriente da costa da China. Delias fala o mesmo 
Fernam Mendes em suas Percfjrinações, cap. 138.°e 143.° 



O Rei de Ternate Tabarija (que depois do baptismo se 
chamou D. Manoel), fallecendo em Malaca, deixou os 
seus estados a el-Rei de Portugal. 



Martim Affonso de Sousa fez tributários a Portugal os 
Reis de Jafanapatam, e de Travancor. 

Anuo de 154o 

Passando neste anno o illustiv D. João de Castro a go- 
vernar a índia, escreveo de Moçambique a el-Rei, e lhe 
annunciava o recente descobrimento da bahia, e rios, que 
do seu descobridor se íicárão chamando de Lourenço Mar- 
ques. O principal rio linha a sua entrada no mar, segundo 
as cartas Portuguezas, a 25'- e 15' latitude sul. As cartas 
modernas demarcão a bahia a 26" na costa oriental de 
Africa. 

El-Rei, respondendo a D. João de Castro no anno se- 
guinte de 1546, recommendava a continuação do mesmo 
descobrimento. 

(Collecção de Cartas urigitiaes.) 



135 



Addo de 1546 

A 13 e 15 de Março deste anno são datadas duas cartas 
de el-Rei D. João III, huma para o Rei dos Ahexis, e ou- 
tra para os Portuguezes, que ainda lá estavão, e tinhão 
íicado da expedição de D. Cliristovão da Gama. Nellas re- 
commendava el-Rei com muito encarecimento, que por 
pessoas para isso idóneas se mandasse indagar, e desco- 
brir hum caminho, que da Abyssinia viesse ter á costa 
de Melinde, ou a alguma outra parte daquella banda: 
e porque pôde ser (diz el-Rei) que a terra do Abexi venha 
tanto para oeste^ eado Manicongo vá tanto para o leste, 
que não seja grande distancia de huma torra a outra: 
queria que também se tentasse este caminho do Abexi 
para Manicongo, ou para qualquer outro rio, do cabo da 
Boa Esperança para cá, de. 

(Carta original, na minha collecção.) 

Neste anno de 1546 foi o segundo cerco de Diu, de- 
fendido heroicamente por D. João Mascarenhas, e ultima- 
mente rematado com huma assignaladavictoria por D. João 
de Castro. 

Este grande homem falleceo em Gôa em 1548, tendo 
recebido pouco antes a mercê do titulo de Vice-Rei da 
índia para com elle continuar a governal-a. Delle diz 
hum escriptor, que era no mar soldado, piloto, e geó- 
grafo, como mostrão seus escriptos. Nós somente acres- 
centaremos, que foi no mar, c na terra hum exemplar 
das grandes virtudes, e eminentes qualidades, que con- 
stituem o verdadeiro heroísmo, e fazem o homem digno 
da immortalidade. 

(Vej. as Historias do cerco, (3 a Vida de Castro.) 

Anno de VòV) 

Thomé de Sousa lançou os fundamentos ;i cidade de 
S. Salvador da Bahia, na Terra de Santa Cruz (Brazil), 



136 



a qual cidade mandava el-Rei fundar para capital de todo 
aquelle estado. Ordenou o governo da justiça, e fazenda, 
fundou igreja, fortificou o lugar, d-c. 



Neste anno navegou o Santo Xavier para Japão, aonde 
já as náos Porluguezas hião coramerciar. Eritrou em Can- 
fjoxima, Exiando, Firando, Amanguchi, Meaco, e Figcm, 
demorando-se nesta sua apostólica expedição dous annos, 
e quatro mezes. Em 15o'2 falleceo na ilha de Sanchoan, 
ás portas da China, aonde se dirigia. 

Anuo de 155-i 

Tomarão os Portuguezes a cidade de Geilôlo, capital 
da ilha do mesmo nome no archipelago das Molucas. 
O Rei ficou continuando o governo com o titulo de San- 
gage (Governador), sujeito, e tributário a Portugal. 

(Historia da índia no tempo em que a governou o 
Viso-Rei D. Luiz de Athaide, por António Pinto 
Pereira, liv. i.*", cap. IM.°) 

Adiios de K>o2 a looO 

Em 1552 no galeão, cm que naufragou Sepúlveda, vi- 
nhão a el-Rei de Portugal cartas de Nautaquim, Príncipe 
de Tanixumaa, ilha do Japão, pedindo o auxilio de 500 
Portuguezes para conquistar a ilha Lequia (de Lieu-Kieu), 
e offerecendo em reconhecimento o tributo annual de 
5:000 quintaes de cobre, e 1:000 de latão. 



Em 1554 teve o Vice-Rei da Índia cartas dos Reis Ja- 
ponezes de Firando, Amanguchi, e Biingo. 



137 

Em 1536 fundarão os Portuguezes em Funay, capital 
do Dungo no Japão, hum hospital para os leprosos, que 
aquella gente costumava abandonar como feridos do Ceo, 
e para meninos, que muitos pais engeitavão, e talvez ma- 
tavão por pobreza, ou por outros semelhantes motivos. 
O Rei de Bimgo commovido desta humanidade dos Por- 
tuguezes, favoreceo o estabelecimento, e prohibio que 
d'ahi em diante os pais matassem, ou expozessem os 
filhos. O estabelecimento teve consideráveis progressos, 
e el-Rei D. Sebastião mandava concorrer para as suas des- 
pezas. 



Neste mesmo anno de 1556 pregava a fé Christãa na 
China o dominicano Fr. Gaspar da Cruz, que tinha pas- 
sado á índia em 1548, e que depois escreveo: « Tratado 
das cousas da China com suas particularidades, e assi 
do reino de Ormuz», d-c, que se imprimio em Évora 
em 4570, e ha pouco se reimprirnio em Lisboa em 1829. 

Aiino de lo57 

Por este tempo alcançarão os Portuguezes, que os Man- 
darins de Cantão lhe concedessem o porto da peninsula 
de Macáo, para nelle viverem, e commerciarem. (Vej. o 
anno de 1542). Ahi fundarão huma colónia independente, 
que por tempo cresceo, e chegou a constar de algumas 
setecentas famílias Portuguezas, quasi todas ricas com o 
trato da China, Japão, Manilha, e outros reinos, e terras 
orientaes. Pelos annos de 1022, começando a ser inquie- 
tados pelas esquadras hoHandezas, pedirão soccorro, e 
defeza ao Vice-Rei da Índia, e então se sujeitarão ás leis 
de Portugal, tiverão Governador Porluguez, e a colónia 
teve o nome de cidade, que se chamou do Nome de Deos 
de Macáo. 



138 

Falleceo el-Rei I). João III a H de Junho de 1557, e 
succedeo-lhe no throno seu neto el-Rei D. Sebastião ainda 
muito menino. 

REINADO DE EL-REI D. SEBASTIÃO, 18S7-1S78 

Addos de 4559 e 1560 

O Vice-Rei D. Constantino de Bragança tomou em 1559 
a cidade de Damam, e em 1 560 a ilha de Manar, principal 
pescaria das pérolas de Ceilão, aonde levantou fortaleza. 

Em 1560 navegando a não S. Paulo (que depois veio 
a naufragar em Çamatra) pelos mares do sul, em que 
chegou aos 42° austraes, avistou em 37° e 45' huma for- 
mosa ilha, que os mareantes desenharão, encantados da 
sua bella apparencia. O [»iloto lhe quiz dar o seu nome, 
chamando-lhe ilha de Amónio Dias; mas hoje a achamos 
denotada nas cartas com o nome de ilha de S. Paulo. 
E diz a Relação do naufrágio, que estava norte-sul com 
a dos Romeiros, e as Sete Irmãos. 



No mesmo anno foi a missão do Padre Gonçalo da Sil- 
veira á Cafraría. Entrou por Inhamhane até á corte de 
Otongue: veio aos rios de Cuama, entrou pelo Quilimane 
até Giloa, á boca do Zambeze, a Inhamoi, á corte de Sim- 
baoe, ócc. No anno seguinte de 1561 foi morto pelos bár- 
baros. 

Duarte de Albuquerque Coelho donatário da capitania 
de Pernambuco no Brazil, com .Torge de Albuquerque 
Coelho seu irmão, andando na conquista, e defeza das 
terras da capitania, descobrirão o rio de S. Francisco. 

Aiinos de 1562 a 1566 

Em 156á tomando o Cardeal Infante D. Henrique a tu- 
toria de el-Rei D. Sebastião, ainda menor, lhe apresentou 



139 

Lourenço Pires de Távora huns apontamentos sobre vá- 
rios objectos do governo. Em hum delles recommendava 
o descobrimento de Tomhuctu, no interior de Africa, e a 
escolha de pessoas aptas para esta empreza. 



Entrarão os Portuguezes nas ilhas de Goto, as mais occi- 
dentaes do Japão, em 1 566 : e el-Rei de Portugal mandou 
hum rico presente a D. Bartholomeu, Rei de Omurá no 
mesmo Japão. 

Achámos escripto, que a celebre mina de mercúrio de 
Guanca-Velica , a 30 léguas ao norte de Guamanga no 
Peni, fora descoberta pelo Portuguez Henrique Garcez, 
ao qual se attribue também o descobrimento de outra 
mina do mesmo metal em Paraz em 1564. 

Anno de lo66 

Quando Gonçalo Pereira hia á conquista de Âmboino 
em 1566, sabendo da estada dos Castelhanos era Cebii, 
e determinando hir em busca delles, como os seus pilotos 
não tinhão muita noticia daquellas partes, não passou da 
ponta de huma ilha, que chamão Terra dos Negros, 25 
léguas atraz de Cebu, aonde ficou bordejando em 9" da 
banda do norte, mandando d' ali navios a descobrir por 
todas as partes, de. 

(Historia da índia no tempo em que a governou o 
Viso-fíei D. Luiz de Athaide, por António Pinto 
Pereira, liv. í.°, cap. 29.*^) 

AuDO de 1567 

Mem de Sá, Governador Geral do Brazil, lançou os fun- 
damentos á cidade do Rio de Janeiro, da qual foi primeiro 



140 

Capitão Salvador Correia de Sá. Deo-lhe o nome de cidade 
de S. Sebasiião em memoria de el-Rei. 

Addo de 1569 

Tendo el-Rei D. Sebastião dividido o império Lusitano- 
oriental em três governos, o 1.° desde o cabo das Cor- 
rentes até o de Giiardafui; o 2.° desde Guardafui até 
Ceilão; e o 3.*^ desde Ceilão até á China: deo o governo 
da primeira divisão a Francisco Barreto, que neste anno 
partio para a costa oriental de Africa. D'ahi capitaneou a 
expedição ao Monomolapa, e minas de Çofala: ajustou 
pazes com os Reis de Chicanga, e Quiteve: passou a Sene^ 
capital das possessões Portuguezas na Cafraria: e man- 
dando Embaixadores a Simhaoe, obteve do Imperador as 
minas de prata de Chicova, de Rutroque, e de Mocarás. 
Foi a Chicova, e vindo a Tete, estabelecimento Portuguez, 
ahi falleceo em 1573. O seu successur Vasco Fernandes 
Homem ainda continuou a commandar a expedição, e pe- 
netrou até ás minas de Chicanga, de Manhico, Ac. 



No Malabar rendérão-se ás armas Portuguezas Ouôr, 
6 Barçalor: e Gonçalo Pereira Marramaque fundou forta- 
leza emAmboino, e descobrio naquellc mar algumas ilhas, 
ainda não conbecidas dos Portuguezes. 

(Historia da índia no tempo em que a governo/t o 
Viso-Rei D. Luiz de Athaide, por António Pinto 
Pereira, liv. {.\ cap. 30.'') 
Parece-nos digno de louvada memoria o honrado des- 
interesse do insigne Capitão D. Luiz de Athaide, o qual 
sahindo da índia para o reino a 6 de Janeiro de 1572, 
quiz trazer quatro vazilhas com agoa dos rios Indo, Gan- 
ges, Tigre, e Eufrates, as quaes depositou, e se conser- 
varão por muito tempo no seu castello de Peniche, como 



141 

testemunho das únicas riquezas, que trouxera daquelies 
estados. 

António Pinto Pereira escreveo a Historia da índia no 
tempo em que a governou D. Luiz de Alhaide, offere- 
cida a el-Rei D. Sebastião, e impressa em Coimbra em 
1610, foi. 

Addo de 1570 

No mez de Setembro começou a desenvolver-se a grande 
liga dos Reis da índia contra os Portuguezes, favorecida 
pelo Turco, e Persa. Notável defeza de Chaul, e de Gôa, 
e outras fortalezas do Malabar' contra o Nizamaluco, 
Hidalkan, e outros Reis e Príncipes coUigados. 

Addos de 1574 e 1575 

Ilavendo-se já. em 1559 e 1560 feito as primeiras ten- 
tativas para a fundação do estabelecimento Portuguez em 
Anf/ola, mandou el-Rei D. Sebastião renoval-as neste anno 
de 1574. Foi o Capitão da empreza, e fundador, conquis- 
tador, e Governador daquelle nascente reino Paulo Dias 
de Novaes, neto, e digno descendente de Rartholomeu 
Dias, descobridor do cabo da Boa Esperança. Sahio de 
Lisboa em 1574, e chegou a Africa em 1575. Construio 
logo o forte de S. Miguel, fundou a primeira povoação, 
e igreja, ordenou as cousas do governo civil, e intitula- 
va-se a Capitão, e Governador do novo reino de Sebaste, 
na conquista da Ethiopiaf>, dando-lhe o nome de Sebaste 
em memoria de el-Rei de Portugal. Este nome foi logo 
esquecido, como era de presumir, e o reino tomou o 
nome de Angola, que era o de hum Rei do paiz, a cujas 
instancias se linha emprendido ao principio aquelle esta- 
belecimento. 

Pelos annos adiante, e por differentes circumstancias 



142 

se forão os Portuguezes alargando pela costa, e pelo ser- 
tão; e em 1784 erão pertenças do reino de Angola: 

O presidio de Massangano, fundado em 1583 

O presidio de Muxima ? 

O presidio de Cambambe 1603 

O presidio de Ambaca 1614 

O presidio de Benguella 1617 

O presidio das Pedras de Pungo Andondo 1671 

O presidio de Caconda 1682 

O presidio de Novo Redondo ? 

O presidio de Encoge 1 759 

Annos de 1578 e 1579 

Em 1578 concorrião á pescaria dos mares da Terra 
Nora, pelo menos, cincoenta navios Portuguezes, que im- 
portavão cousa de 3:000 toneladas. Os navios Hespanhoes 
que ahi concorrião ao mesmo tempo erão cem ; os Fran- 
cezes cento e cincoenta ; os Inglezes trinta I 



Em 1579 se entregou ao Capitão Portuguez de Amboino 
a ilha do Bouro Grande, no archipelago das Molucas. 



PEEIODO 4." 

DESDE O ANNO DE 1578 ATÉ AO PRESENTE 

Aedos de iim a 4399 

Em 1 580 o Rei de Ceilão Preá Pandar fez doação de 
seus estados a el-Rei de Portugal D. Henrique por não 
ter filhos que lhe succedessem. 



Era 1582 se submetteo aos Portuguezes, acceitando a 
rehgião Christãa, a ilha de Labtca, situada no archipelago 
das Malucas a pouca distancia de Ternate. 



Em 1583 o Rei de Chalé, se fez tributário, e os Portu- 
guezes levantarão ali fortaleza. 



Em 1587 ou 1588 levantarão os Portuguezes fortaleza 
em Mascate. D. Paulo de Lima expugnou a cidade de Jor, 
e entrou triunfante em Malaca. 



144 

Em 1590 foi tomada pelos Portuguezes Cândia, capital 
do reino do mesmo nome em Ceilão. 



Em 159o levantarão os Portuguezes fortaleza em Soloi' 
(vej. anno de 1509). 



Em 1597, por fallecimento do Rei de Columbo, sem 
successão, foi acclamado Rei o de Portugal, a quem elle 
doara os seus estados. 



Em 1599, D. Fr. Aleixo de Menezes, Arcebispo de Gôa, 
visitou a Christandade das Serras do Malabar, e celebrou 
Synodo. Fr. António de Gouvêa, augustiniano, escreveo 
1 Jornada do Arcebispo de Gôa-», ác. Coimbra, 1606. 

Anuo de 1600 

O celebre Portuguez Salvador Ribeiro de Sousa fundou 
neste anno huma caza forte no Pegíi, na foz de Serião, e 
depois de vários casos, e extraordinárias façanhas, chegou 
a ser acclamado Rei de Pegú em 1603. Acha-se a Relação 
deste notável facto impressa com o Itinerário de Tenreiro 
em algumas edições de Fernam Mendes Pinto, e determi- 
nadamente na ultima de 1829. 

Anno de 1602 

Bento de Góes, Jesuita Portuguez, que tinha bom co- 
nhecimento da língua Persiana, e de outras orientaes, foi 
mandado ao descobrimento do Gran-Cataio. Viajou mais 
de três annos pelos sertões da Ásia, caminhando sempre 
pelo norte do império do Mogol, desde o paiz dos Usbegs 
para o oriente até á China, tirando em resultado que o 



i45 

Gran-Cataio era o próprio império da China. Na China 
falleceo em 1607. 



No mesmo anno de IG02 passou da índia á Pérsia o 
augustiniano Fr. António de Gouvêa, mandado pelo Go- 
vernador da índia como Embaixador ao Schach-Abbas. 
Este Príncipe o enviou em companliia de outro Embai- 
xador seu a Roma, e a Hespanba. Voltou á Pérsia, e d'ahi 
á Europa, atravessando os desertos da Arábia. Chegado 
a Alepo, e embarcando para Marselha, foi tomado por 
corsários Argelinos, e esteve captivo em Argel, á-c. 

Anuo de 1606 

O Governador de Angola D. Manoel Pereira Forjaz, in- 
tentando a communicação com a contra-costa, nomeou 
para o descobrimento deste caminho a Balthazar Rebello 
(ou Pereira) de Aragão, homem capacíssimo para a em- 
preza, assim pelo valor, como pelos conhecimentos que 
tinha do sertão. Começou, e tinha já penetrado no inte- 
rior do paiz, quando se vio obrigado a retroceder, para 
acudir á fortaleza de Cambambe, sitiada por hum Sova 
visinho, e pelos negros do Mosseque. 

Annos de 1606 e 1607 

Nicoláo d'Orta, natural de Santo António do Tojal, sa- 
hio de Gôa em 1 OOG com destino de vir a Portugal por 
terra. Nos princípios de Agosto estava na fortaleza de 
Comorom: d'ahi \nivl\o para Lara, Xirds, liomus, Ba- 
gadet, Ana. Taibe, e Alepo, aonde entrou a IO de Janeiro 
de 1G07; d'ahi veio por Alexaridrela, e por lim chegou 
a Marselha, e logo a Madrid, d'onde el-Rei D. Filíppe o 
mandou de novo ;'i índia. Ksci'eveo o seu Itinerário, que 
deo a Pedro de Mendonça Furtado, e do (|ual existe huma 

TOMO V 10 



146 

cópia incompleta (de que fala Barbosa Machado) na Bi- 
bliotheca Publica de Lisboa (B-4-8, numeração provi- 
sória). Parece que segui o o mesmo caminho que trouxe 
Fr. Gaspar de S. Bernardino, e he provável que o mesmo 
trouxesse D. Álvaro da Costa em 1611 por ser o das ca- 
ravanas, que tinhão roteiro determinado. 

Anno de 1607 

O Imperador Monomotapa, tendo sido auxiliado pelos 
Portuguezes, fez doação a el-Rei de Portugal das minas 
de ouro, prata, cobre, ác, que houvesse nos seus es- 
tados. Esta doação foi acceitada, em nome de el-Rei pelo 
Capitão de Tete Diogo Simões Madeira. 

D. Estevão de Athaide foi no anno seguinte de 1608 ao 
exame, e posse destas minas, e especialmente das de 
ouro, e prata de Chicova. E escreveo a Relação do seu 
trabalho, e exame. 

Por occasião da exploração destas minas se fundarão 
em 1614 as fortalezas de Massapa, e Chicova. 

Addo de 1609 

Conquistarão os Portuguezes a ilha de Sundiva, a pouca 
distancia da terra firme de Bengala, e dependente do reino 
de Arracan. Sebastião Gonsalves Tibao a governou com 
poder independente; tomou ao Rei de Bacalá as ilhas de 
Xavapiir, e Patelavanga, e a outros Príncipes varias terras 
naquellas paragens. 

Addos de 1610 a 1612 

Em 1610 publicou Pedro Teixeira as suas « Relaciones 
dei origen, descendência, y succession de los Reis de la 
Pérsia^, y de Hormuz, e de ttn viage hecho des de la índia 



147 

Oriental hasta líaiia por terra». Ambeies, 1610. 8." 
Este celebre Portuguez passou de Lisboa á hidia, veio a 
Ormuz, cori'eo a Pérsia, esteve nas Filipinas, e ]^ova 
Hespanha, e aportou a S. Lucar em liíOi. Voltou depois 
á Índia, e de Gôa veio a Baçorá, Bagdad, Alepo, A-c. 
D'ahi passou a Veneza, e de Veneza a Anvers, aonde re- 
sidio, e falleceo. 

Em 1612 apossarão-se os Poi'tuguezes de Bender-abasi 
(Gomroun), entre Ormuz e Kismish, celebre porto no 
golfo Pérsico, aonde levantarão dous fortes para defeza. 
(Godinho escreve : « Bandel Abassi, e Comorom » .) 

Amos de 1613 a 4620 

Em 1613, e nos annos seguintes mandou o Vice-Rei da 
índia algumas expedições á ilha de S. Lourenço com o 
fim de (ixaminarem os seus portos, e se informarem da 
gente, costumes, e producções da terra, e de indagarem 
se por ali existião olguns dos Portuguezes, que por vezes 
havião naufragado naquellas costas. 

Em huma destas expedições tocou hum dos Pilotos a 
bella ilha do Cirnc, descoberta em outro tempo pelos Por- 
tuguezes. Esta ilha he a que os Hollandezes depois deno- 
minarão ilha Mauricia, e os Francezes ilha de França. 

Desta jornada de exploração, ordenada pelo Vice-Rei 
D. Jeronymo de Azevedo, nos ficou huma Relação ma- 
nuscripta por Paulo Rodrigues da Costa. 



Em 1614 e 1615 Jeronymo de Albuquerque Coelho ex- 
peilio do Maranhão os Francezes, que ali eslavão havia 
perlo de três annos com grandes forças: e fundou a nova 
colónia, que deo principio áquellc Estado. Teve grande 
parte nesta honi-ada facção o Sargerito-Mór do Estado do 



•148 



Brazil Diogo de Campos Moreno, que escreveo a relação 
do successo com o titulo « Jornada do Maranhão por or- 
dem de Sua Magestade feita o anno de 1614y>. 



Em 1615 e 1616 se começou a povoação do Pará, 
sendo fundador da cidade, e seu primeiro Capitão-Mór 
Francisco Caldeira de Castello Branco. 



O Rei de Siam mandou fazer proposições de alliança 
ao Vice-Rei da índia, oíTerecendo lugar para a fundação 
de huma fortaleza no porto de Manavam. 



O porto, e fortaleza de Soar, na costa da Arábia foi 
expugnado, e tomado pelos Portuguezes. 



Pelos annos de 1619 e 1620 avassallárão os Portugue- 
zes o Rei de Dongo, no sertão de Angola, ficando elle tri- 
butário a Portuííal com o reconhecimento de 100 escravos 
cada anno. 

\niift de 1622 

Em 16á2 ciiegou a Gôa o Padre Jeronymo Lobo, Jesuita 
Portuguez, mandado ás missões da índia. Veio a Moçam- 
bique em 162i, e entrando no paiz dos Galas, passou á 
Abyssinia, aonde viveo muitos annos. Depois de largos, 
e perigosos successos voltou a Portugal, aonde falleceo 
em 1658. Escreveo o ^pm Itinerário geralmente estimado 
dos eruditos. 

Aimo de mi 

Estabelecimento do governo do Estado do Maranhão, 
e Gran-Pard como separado do governo geral do Estado 



149 

(lo Brazil. He seu primeiro Governador, e Capitão General 
Francisco Coelho de Carvalho, que toma posse, e realisa 
a separação em Setembro de 1G26. 

Addo de i624 

Por estes annos sahio do Dely o Padre António de An- 
drade, Jesuíta Portuguez, com o intento de descobrir a 
Christandade do Tibet. Conseguio com efíeito, depois de 
huma longa, e trabalhosa peregrinação, chegar á corte de 
Caparanga, capital do reino. Recolhendo-se a Gôa, fez 
ainda segunda viagem, levando em sua companhia o Pa- 
dre Gonçalo de Sousa : e quiz fazer terceira, que os seus 
superiores lhe não permittírão. De ambas ha Relações im- 
pressas, que se traduzirão em varias linguas. O epitáfio 
da sepultura do Padre Andrade o denomina aprimus 
missioms Thibetensis explorator et funâator^K Falleceo 
em 1 634. 

Auiio de 10251 

D. Fr. Miguel Rangel, Bispo de CocJtim, visitando a ilha 
de Solor, habitada por Portnguczes, fez reparar a mura- 
lha, e melhorou a povoação, deixando ahi por Governador 
o valeroso Nuno Alvares Botelho. 
(Memoria contemporânea.) 

Anuo de l()3o 

Depois da morte do Padre Andrade (vej. anno 1624), 
foi mandado á missão do Tibet o Padre João Cabral, tam- 
bém Jesuita, natural de Celorico da Beira, que escreveo 
« Relação copiosa dos trabalhos, que padeceo na missão 
do Tibet » . 

(Vej. Barbosa Machado, biblioí/icca Lasilana.) 



150 



Annos de J637 a 1639 

Pedro Teixeira, Portuguez, fez neste anuo, por ordem 
do governo do Pará, a grande viagem desde o Pará até 
Quito. Remontou o rio Maranham, ou das Amazonas, 
até onde se lhe ajuntão as agoas do rio Napo. Entrou 
pelo Napo, que mais acima tem o nome de Coca, e na- 
vegou por elle até mui perto de Quito, aonde finalmente 
chegou por terra. 

Sahio Teixeira dos confins do Pará a i8 de Outubro 
de 1637, com 47 canoas de bom porte, levando 2:000 
pessoas, entre ellas 70 soldados, todos Portuguezes, 
1:200 índios, e os mais mulheres, e rapazes. Comman- 
dava huma vanguarda o Coronel Bento Rodrigues de Oli- 
veira, nascido no Brazil. Chegou a Quito em fins de Se- 
tembro de 1038. Voltou ao Pará em Dezembro de 1039. 
(Vej. Nuevo descubrimionto dei gran rio de las Ama- 
zonas, por el P. Christoval de Acunã. Madrid, 
1641,4.") 

Em 1039, o Capitão Pedro da Costa Favella, Portuguez, 
he o primeiro, que entra no Rio Negro. 

Anuo (Ic I(>4o a 1648 

Pelos annos de 1645 e seguintes andavão na corte de 
Portugal dous Príncipes orientaes, vassallos de el-Rei. 
Hum era o Rei das Maldivas, (jue tinha vindo pedir au- 
xilio contra hum seu irmão, que lhe usurpara o throno. 
Este Príncipe sérvio na campanha de Além-Tejo. O outro 
era D. Martinho, Príncipe de Arracan, que tendo sido ba- 
ptizado, e creado em Gôa, e tendo servido nas armadas 
Portuguezas da índia, obteve de el-Rei a capitania de Gôa 
por Alvará do anno de 1040. 



151 

Em 1647 sahio de S. Luiz do Maranhão Bartholomeu 
Barreiros de Athaide, mandado por el-Rei ao descobri- 
mento das minas do rio Agnarico, ou do Ouro, e foi acom- 
panhado do religioso Carmelitano Fr. José de Santa Te- 
reza, que por ter sido muitos annos captivo do gentio 
sabia a lingua de varias nações daquelle sertão. Desta ex- 
pedição parece que não liouve resultado algum. 



Em 1648 se recobrarão os Estados de Angola do poder 
dos Hollandezes. Foi o illustre fidalgo Salvador Correia 
de Sá e Benavides, Governador que então era do Rio de 
Janeiro, o que executou esta gloriosa empreza com pou- 
cos meios, mas com grande valor, industria, e ardideza. 
Todas as dependências de Angola ao sul e ao norte ficarão 
limpas de tão perniciosos inimigos. O Rei de Congo, que 
com elles se tinha alliado, obteve a paz, cedendo á Coroa 
de Portugal a ilha de Loanda. 

Anuo de 1651 

Princípios da povoação da ilha dos Patos (hoje ilha de 
Santa Catharina) sobre a costa do Brazil, por Francisco 
Dias Velho Monteiro, com a sua família, e 500 índios do- 
mesticados. 

(Resum.o Histórico de Santa Catharina, pelo Vis- 
conde de S. Leopoldo. Paris, 1839.) 

limo de 1(»0(I 

A este anno se faz memoria de hum Portuguez appel- 
lidado Melgueiro, que sendo mestre, e piloto de hum na- 
vio Hollandez, sahio do Japão em Março; dirigio-se aos 
mares do pólo árctico,, subindo até 84*^; passou entre a 



152 

antiga Groenlândia, e Spitzbcrg, e deixando á esquerda 
a Scotia, viera a Portugal. 

O escriptor, que nos subministrou esta noticia, cita 
Mr. de Buaclie, no Parallélc des Flcuves, Historia da 
Academia das Sciencias de Paris, anno 1753, e Memo- 
riai da mesma Academia, pag. 885. E acrescenta por tes- 
temunho de Mr. de Buache, que os Batavos tinhão, e 
occultavão com recato o Diário desta navegação, única 
até áquelle tempo. 

O mesmo escriptor nos dá ainda outra noticia, que diz 
ser sabida: aiSotum etiam est (diz ellej Marlinum Chack 
Lusitamitn...y> ác; isto he, que hum Portuguez, por 
nome Martim Chack, governando huma não em conserva 
de outras duas pelo mar pacifico, íôra correndo os mares, 
arrojado por huma violenta tempestade, e ventos occiden- 
taes, achando-se por fim á parte meridional da Irlanda, 
d'onde viera a Lisboa. 

Anuo de tOfíS 

O Padre Manoel Godinho, natural da villa de Montalvão, 
egresso da Companhia de Jesus, Prior de S. Nicoláo de 
Lisboa, e depois de Loures, estando nas missões da índia, 
veio por terra a Portugal, de mandado do Yice-Rei Antó- 
nio de Mello de Castro, e segundo parece com alguma se- 
creta, e importante commissão. Escreveo « Relação do 
novo caminho que fez por terra, e mar, vindo da índia 
para Portugal no anno de 1663 y>, impressa em Lisboa, 
em 1665. 

Aniios de i6(»8 e Um 

Sobre o descobrimento do Rio Negro na America Por- 
lugueza deve vêr-se o Diário da Viagem, que fez pela ca- 
pitania de S. José do Rio Negro, Francisco Xavier Ribeiro 
de Sampaio, impressa pela Academia Real das Sciencias 
de Lisboa em 1825. 



lo3 

Mandou el-Rei de Portugal Embaixador á China, o qual 
foi recebido do Imperador com grandes mostras de be- 
nevolência, e obteve algumas liberdades para a religião, e 
para o commercio. 

Annos de 1H76 a 1680 

Ayres de Saldanha, que por estes annos governava An- 
gola, intentou abrir communicação por terra a Benguella, 
e d'ahi á contra-costa de Sena. Offereceo-se para esta em- 
preza o (lapitão José da Rosa, mas sahindo de Massan- 
gano, a poucas jornadas encontrou tantas difficuldades, 
e tanta opposição em muitos Sovas, que lhe impedião a 
passagem, que se vio forçado a retroceder. 

Anno de 1682 

Em 1G82, pouco mais ou menos, Bartholomeu Boeno 
da Silva, natural de Pernahiba, com hum seu filho do 
mesmo nome, chegarão a Goiazes. O filho foi pouco de- 
pois o principal descobridor das terras daquella capitania. 
(Vej. a Memoria sobre o descobrimento, gonerno, po- 
pulação, e cousas mais notáveis da capitania de 
Goiaz, no Jornal de Coimbra, num. 76, part. 1,*, 
art. 1 .°, pelo Padre Luiz António da Silva e Sousa, 
natural do Serro do Frio, capitania de Minas Ge- 
raes.J 
Parece que em 1726 he que se fez ali estabelecimento 
de povoação Portugueza, de que foi primeiro Governador 
o de S. Paulo Rodrigo Cezar de Menezes até 1728. 

Anno de 1696 

Por estes annos descobrirão os Portuguezes o aljôfar, 
e as pérolas nos mares de Çofala, a cousa de trinta léguas 
da barra de Luabo. 



154 

Também se descobrirão as minas de prata no reino de 
Mocranga, na terra chamada Nhanace, quasi confmante 
com as nossas terras de Tete, junto do Zambeze. 

Anuo (Ic 1719 

Notaremos aqui, que, segundo hum antigo escriptor 
Portuguez, até os últimos annos de el-Rei D. Sebastião 
não se tinhão descoberto no Brazil minas de ouro, nem 
de prata, nem outras riquezas, e pérolas, ác. 

Em 1059 achámos a i)rimeira noticia (ainda duvidosa) 
de huma rica mina descoberta ha pouco tempo no Brazil. 

Em tempo de el-Rei D. Pedro II se começarão a des- 
cobrir as minas do ouro, sendo Governador do Rio de 
Janeiro Artur de Sá. Nas exéquias que se fizerão a este 
Soberano em Roma, se ha, entre outras letras, que ador- 
navão o tumulo, esta: 

NOVIS IN BRASÍLIA INVENTIS AURIFODIXIS 
MUNIFICENTIJi PETRI H SKRVIT NATURA. 

Em 1719 se descobrirão as novas minas de ouro de 
Cuiabá, Goiazes, e outios disliictos, sendo a mais pre- 
ciosa a do Serro do Frio, por delia sahirem também dia- 
mantes. 

Em 1727 e 1728 se descobrirão os diamantes no Bra- 
zil, e achámos em memoria, que a ft^ota, que viera do Rio 
de Janeiro em 1730, trouxera a Portugal 4146 onças. 

Annos de 1722 a 172Í) 

Em 1 722 vierão a Poi'tugal Embaixadores de hum Rei 
poderoso da ilha de S, Lourenço, offerecendo a el-Rei os 
portos do seu reino para nelles mandar levantar fortalezas. 



Em 1723 foi despachado pelo governo do Pará o Ca- 
pitão Francisco de Mello Palheta com huma tropa de ex- 



155 



pioração a correr, e examinar o rio Madeira no Brazil, 
aonde já tinha hido em 1716 outra expedição Portugueza . 



Em 1 725 mandou el-Rei Embaixador ;i China a cumpri- 
mentar o Imperador pela sua exaltação ao throno. O Em- 
baixador Alexandre Metello entrou em Pekin em 1727. 



Em 1726, primeiro estabelecimento de povoação Por- 
tugueza em Goiaz. 

(Vej. o anno de 1682.) 



Em 1729 recebeo o Vice-Rei da índia huma embaixada 
do Principe de Agra, e outra do Raja de Amber, que pe- 
dia que de Portugal lhe fosse enviado algum hábil ma- 
thematico, com quem podesse conferir certos pontos as- 
tronómicos. Este Embaixador veio a Lisboa com cartas e 
presentes do mesmo Principe, e do Gran-Mogol Mahamad 
Shea, que se intitulava Imperador do Indostan. 

Annos de 1735 a 4737 

António Ribeiro Sanches, sábio Portuguez, primeiro 
medico dos exércitos da Rússia, correo nestes annos. por 
ordem daquelle governo, a Vkrania, as margens do Don 
até ao mar de Zabache, e os confins do Cuban até Azojf: 
atravessou os desertos entre a Crimêa, e Backmtit: vi- 
sitou os Calmucos desde o reino de Cazan até ás mar- 
gens do Don: e os Tártaros da Crimêa, e de Nogai, e os 
Tártaros de Kergisse, e Tcheremissi ao norte de Astracan 
desde 50 até 68^ de latitude, d-c. 

(Buffon. Histoire natiircUe de Ihomme.j 



156 

Nos mesmos annos foi povoado no Brazil Mato-grosso 
pelos moradores de Cuiabá. 

Annos de 1741 a i743 

Foi neste anno a primeira exploração do rio Aporé, e 
do celebre sitio do Corumbijara por alguns moradores 
de Mato-grosso. 

(Vej. Navegarão desde o Pará até Mato-grosso, im- 
pressa pela Academia Real das Sciencias, em 1 826.) 

Anno de 1719 

Neste anno sahio do Gran-Pard por ordem de el-Hei 
de Portugal huma escolta, que navegou pelo Amazonas 
até ao Madeira, seu confluente. Começou-se a viagem a 
14 de Julho, e a 25 de Setembro chegou a escolta á em- 
bocadura do Madeira. Navegou por este rio até 17 de De- 
zembro, em que chegou ás Cachoeiras. Vencidas dezenove 
Cachoeiras, navegou pelo Aporé, que os Hespanhoes cha- 
mão Ithenes, e a 14 de Abril de 1750 chegou ás minas de 
Malo-grosso, que era o seu destino, com nove mezes com- 
pletos de viagem. Escreveo a Relação delia José Gonsal- 
ves da Fonseca, e a Academia Real das Sciencias tie Lis- 
boa a imprimio em 1826. 

Annos de 1768 a 1775 

Entre os annos de 1768 e 1774 foi escripto o Roteiro 
da viagem da cidade do Pará, até as ultimas colónias dos 
dominios Portuguezes, em os rios Amazonas, e Negro, 
illustrado com algumas noticias, que podem interessar a 
curiosidade dos navegantes, e dar mais claro conheci- 
mento das duas capitanias do Pará, e S. José do Rio Ne- 
gro. Escreveo-o o Reverendo José Monteiro de Noronha. 



137 

Em 1774 e 1775 foi a viagem pelo Amazonas, e Rio 
Negro, feita por Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, 
ouvidor da capitania de S. José do Rio Negro, impressa 
pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, em 1825. 

Anno de 1783 

Ordenando a Rainha D. Maria I, que se despachassem 
viajantes aos sertões da America para coUegirem noticias 
dos vários productos da natureza, foi hum delles o Doutor 
Alexandre Rodriges Ferreira, levando por desenhadores a 
Joaquim José do Gabo, e a José Joaquim Freire. 

{Memorias da Academia Real das Sciencias de Lis- 
boa, tom. 5.°, pag. 65.) 

O gravador Manoel Marques de Aguilar, tendo hido a 
Inglaterra aperfeiçoar-se na sua arte, foi depois, pelos 
annos de 1794, pouco mais ou menos, encarregado de 
abrir as estampas pertencentes áquellas viagens. 

O naturalista Manoel Galvão da Silva foi mandado para 
Moçambique em execução das mesmas ordens regias, e 
para o mesmo íim, levando em sua companhia o dese- 
nhador António Gomes. 
(Ibidem, pag. 63.) 

Auuo de 1787 

O Tenente Coronel Manoel da Gama visitou neste anno 
o Rio Branco por ordem da corte, e o descreveo com pro- 
lixa investigíição, fazendo levantar a carta respectiva pelo 
Engenheiro, Houlor em mathematica. José Simões de 
Carvalho. 

Annos de 17% a 1798 

Vicente Fei reira Pií-es. natural da Bahia, partio desta 
cidade a ^9 de Dezembro de 1796 como enviado de Sua 



i58 

Alteza o Príncipe Regente, em companhia de D. João Car- 
los de Bragança^ Embaixador Eihiope do Rei de Dahomé. 
Foi a Dahomé, e voltou á Bahia, aonde chegou a 5 de Fe- 
vereiro de 1798. Escieveo, e offereceo ao Príncipe em 
1800 a « Viagem de Africa em o reino de Dahomé», ma- 
nuscripta, em 4.°. que está na Bibliotheca Real da Ajuda. 



Em 1 797 partío o Major Francisco Nunez com huma ex- 
pedição ao descíjbrinienlo da communicação do rio Capim 
para o Piauhy. Voltou, e deo conta da viagem em 4798. 

Anuo de 179K 

Estando D. Rodrigo de Souza Coutinho (depois Conde 
de Linhares) no Ministério dos Negócios da Marinha e Do- 
miJiios Uhramarinos, (juiz renovar a empreza (outras ve- 
zes teniada) da communicação entre as duas costas Occi- 
dental e oriental de Africa por terra. Designou para isto 
a Francisco José de Lacerda e Almeida, Doutor em ma- 
thematica, nomeando-o, com este intento, (lovernador 
dos Rios de Sena, (Vonde havia de partir a expedição. 
Lacerda partio para o seu governo, munido de instru- 
mentos, e meios adequados; procurou informações e no- 
ticias, e poz-se a caminho para o interior. Chegando ás 
terras do Rei Cazembe (que parece ser o ponto central 
entre as duas costas) ahi falleceo. Os seus companheiros, 
a quem elle, â hora da morte, recommendou a continua- 
ção da empreza, nã(t aiinuírão a esta recommendação, e 
a empreza ficou sem o seu completo eífeito. 

(Vej. os extractos da obra publicada em Londres, na 
lingua Ingleza, em 18^4, com o titulo « Relação 
dos descobrimentos feitos pelos Portuguezes no in- 
terior de Angola e Moçambique, tirada de manns- 
eriptos originaes, por F. E. Bowdich ».) 



159 



Auno de 179Í) 

Ao mesmo tempo que da parte oriental de Africa se 
tentava a empreza da communicação das duas costas pelo 
interior, de que falámos no artigo antecedente, tentava-se 
também da parte occidental, por ordem do Capitão Ge- 
neral de Angola D. Fernando de Noronha, que encarregou 
deste descobrimento o Tenente Coronel, Gommandante, 
e Director da Feira de Casange Francisco Honorato da 
Costa. 

Os exploradores chegarão ao sitio de Cazembe, aonde 
tinha fallecido o Doutor Lacerda; mas ahi acharão emba- 
raços, que por alguns annos os detiverão. 

Em 1807, sendo Governador o Capitão General de An- 
gola António de Saldanha da Gama (depois Conde de Porto 
Santo, e ha pouco fallecido), renovou este a mesma ten- 
tativa, mandando huma expedição á contra-costa. a qual 
com effeito se executou, voltando a Loancla em 1809, e 
trazendo embaixada dos Molluas, nação que já commer- 
ciava com Moçambique. 

Enviou ainda o mesmo Governador e Capitão General 
segunda expedição com ordem expressa de hir até Mo- 
çambique, a qual voltou a Loanda estando já no governo 
de Angola José de Oliveira Barboza, e trazendo cartas do 
Governador de Moçambique. 

Auno de 1810 e 1811 

Em 1810 levantou o Capitão-Tenente José Joaquim da 
Silva a carta hydrograíica da costa do Pará até o Ma- 
ranhão. 

Em 1811 sahírão da capital do Brazil por ordem do 
governo exploradoi^es da navegação do Guaporé, Mamoré, 
Madeira, Arinos, Tapajóz, e Xingu, rios ([ue todos entrão 
no Amazonas. 



NOTAS 



ACERCA DE ALGUNS DOS DESCOBRIMENTOS 
APONTADOS NO ÍNDICE CHRONOLOGICO 



TOMO V 



NOTA SOBRE AS ILHAS CANÁRIAS 



Anno de 1430? 

As ilhas que se chamão Canárias forão conhecidas dos 
antigos, não só por este próprio nome, mas tannbeníi pela 
denominação de Afortunadas. Ptolomeu as mencionou 
nas suasTaboas, e expressamente poz no numero delias 
a Canária, d'onde veio a todas as outras este nome 
geral. Plinio igualmente fez delias memoria, e até tomou 
á sua conta indicar-nos a origem do nome de Cavarias di- 
zendo que provinha da multidão de grandes cães que ali 
se achavão (I). Santo Isidoro também falou delias, e quiz 
explicar a razão por que se lhes altribuia a denominação 
de A for Uma (ias. 

Parece que no século xn se conservava ainda alguma 
memoria destas ilhas e do seu nome. Em Santo Antonino 
de Florença (2.'' part., Historia, lit. 12.°, cap. 8.", § 5.") 
lemos estas palavras: 

(t) Plinio, liv. 6.», cnp. .32.°, faz delias mpmoiia del)aixo rio ti- 
tulo de ilhns Alnrliiiuidds : iioiiií^a: Oníhrion. Junonia uuiior, ,luno- 
nia rniuor, Capmria, Niviiria, e Canária, (lizoiíilo dt'sta ulliiiia, 
que lhe vinha o nome ; a muUiludim canum ingentis magnUudiniíi. 



164 

«Eo tempore, ut ait Sigebertus, in Scotia Brendanus (2) 
claruit, qui Fortunatas insulas seplennali navigatione per- 
quirens multa miraculo digna vidit, a quo Macbutes, qui 
et Maglovius, regulariter educatus, et ipsius navigationis 
socius, in Britannia sanctitate, et miraculis claruit», á-c. 

O Machiites, ou Maglovius, de que fala o Santo, he o 
mesmo que os Francezes chamão S, Maclou, ou S. Malô, 
que floreceo no século vi, a cujo tempo se deve conse- 
quentemente referir a navegação de Brendano em busca 
das ilhas Afortunadas. E postoque alguns escriptores du- 
vidão desta navegação, e a suppõem fabulosa, comludo 
Santo Antonino referindo-se ao testemunbo de Sigeberto, 
que escrevia no século xii, mostra, pelo menos, que neste 
tempo se não havia ainda perdido de todo a memoria da- 
quelles ilhas, nem se julgava temerária a sua indagação. 

Como (juer que seja, temos por mui verosímil, que as 
Caixarias fossem conhecidas dos Árabes da Mauritânia. 
Estes povos erão navegadores. As suas frequentes pas- 
sagens á Hespanha desde o principio do século viíi, as 
suas emprezas sobre as costas da Gallia, da Itália, e Sicí- 
lia, da Grécia, c fora do Estreito sobre as da Galliza, e 
Astúrias, á-c, mostrão, que elles linhão huma numerosa 
e exercitada marinha (3). Por outra parte as ilhas Canárias 

(2) Deste Brendano conjecturámos haver-se forjado a fabula da 
ilha encoberta, chamada de S. Borondon, ou Blandon (como outros 
dizem), sobre a qual se pôde ver Moreri, e outros muitos escriptores 
e geógrafos. 

(3) Pouco depois do fallecimento de el-Rei de Castella o Leão 
D. AfTonso VI (em 1109), sendo Haii Rei de Marrocos, tinha na sua 
corte Alimemon, perito marinheiro (sapiens nauta) que presidia ás 
cousas maritimas. Este, com grande cópia de navios corria o Oceano 
contra a Galliza, e mar Britânico, e o mediterrâneo até Constanti- 
nopla, combatendo os Barcelonezes, Francezes, Sicilianos, e outros 
Christãos, e levando muitos captivos para Marrocos. Hali e seu lilho 
Texufm favorecião muito os Christãos que tinhão captivos em seu 
poder, e ok enipregavão tanto na guerra, como nos cargos e officios 



165 

íicavão tão próximas, e quasi fronteiras á Mauritânia Tin- 
gitana, aonde erão situados os reinos de Fez, e de Mar- 
rocos, que difficilmente se acreditará, que os Árabes as 
não conhecessem, e visitassem, bem como alguns dos 
Christãos que no século xiu frequentarão o reino de Mar- 
rocos, e assistirão por algum tempo na cidade do mesmo 
nome, sua capital (4). 

O certo he que no século xiv, e ainda antes delle, forão 
as Canárias visitadas por vários navegantes, e entre elles 
pelos Portuguezes. 

Os escriptores da Historia da Republica de Génova re- 
ferem, que em 1291, Auria e Viraldo navegarão em duas 
triremes o Atlântico com o intuito de descobrirem as Ca- 
nárias; mas que destes aventureiros não houvera depois 
mais noticia alguma (5). 

Dos Normandos nos consta, que pelos annos 1329 na- 
vegarão até áquellas ilhas : e o auctor do Mundo Primi- 
tivo menciona (se a memoria nos não engana) sobre a 

da sua caza, e desde então ficarão muitos Christãos naquella còrlo. 
(Chronica de D. Affonso Vll^ edição de Fiorez.) 

(4) Nos princípios do século xiii mandava o Rei João de Ingla- 
terra Embaixadores a Marrocos. Pelos annos de 1219 estava em Mar- 
rocos o Infante D. Fedro de Portugal, irmão de el-Rei D. Aífonso II, 
e nesse mesmo tempo partirão de Sevilha para aquelia cidade os 
cinco Frades menores, que lá forão martyrisados, e sabemos que 
muitos outros Christãos existião então na mesma cidade. Em 1237 
nomeou o Santo Padre Gregório IX, e consagrou Fr. Agnello, Frade 
menor, para Bispo de Marrocos, aonde havia muitos Christãos. 
O Santo Padre Alexandre IV o fez seu Legado em toda a Africa 
i'm 12iio: e finalmente o Santo Padre Nicoláo IV no anno de 1290 
lambem nomeou Bispo para Marrocos. Tud(j isto, e muitos outros 
senjclhantes argumentos provão quanto a(iuelles reinos erão frequen- 
tados de Christãos no século de que tratámos. 

(o) Se este facto he verdadeiro, vé-se que não he bem fundada 
a conjectura de hiuu geógrafo moderno, que ])resume, que de lodo 
se havia perdido a idéa das iUufs Afortunadas, quando os Norman- 
'■^os de novo as descobrirão no século xiv. 



166 

auctoridade de hum escriplor Árabe, que sahirão de Lis- 
boa para as Canárias algumas famílias Portuguezas (6j. 
Nada porém a este respeito he mais decisivo e incon- 
testável, que o facto de D. Luiz de Hespanha. descendente 
do Infante de Lacerda, de que faz larga menção Raynaldo. 
Refere este historiador annalista, que D. Luiz liindo a Avi- 
nhão como Embaixador de el-Kei de França, alcançara do 
Santo Padre Clemente VI o senhorio das Canárias (7) de- 
baixo de certas condições, e com reconhecimento feudal 
á Santa Sé, e que imi)loran(lo. para a conquista, o auxilio 
de vários Principes, e entre elles o de el-Hei de Portugal, 
com cartas e recommendações do Papa, respondera el- 
Rei U. AlTonso IV ao Santo Padre, que elle se considerava 
com direito áquellasilhas. pois as havia descoberto, rman- 
dado a ellas seas vassallos, e que as teria conquistado se 
lho permitlissem as gxerras, que linha com os Sarracenos. 
Acrescentava, porém, que em reverencia da Santa Sé, e 

(6) Alffuns geógrafos citão Cartas Geográficas dos annos 1326, 
1367, e 138'i:, em que se nolão estas illias com a sua graduação, e 
por aqui se \è taml)pm que sem fundamento diz Moreri, que as Ca- 
nárias crão incojjnitas no secnio xiv. 

(7) Se alguém perguntar qu" direito tiulia Ciemenle VI a dar o 
sentiorio das Canárias a D. Luiz, responderemos, que os Pontifices 
Romanos já em tempo de Url)Hno ti tinhAo para si, que todas as 
iilias perleiícião por direito á Sé Romiiua. Assiu) o suppuuha este 
Papa quando dava a Cnrsega ao ({ispu de l^iza em 1092. Adriano IV, 
mandando itie el-Rei de Inglaterra pedir licença para se apossar da 
Hiljernia á força de armas, com o pretexto de restituir ali ao seu 
esplendor a religião Clu'islãa, concedeo-lhe a licença, impondo-ltie 
a obrigação de pagar liuma pensão annual á Santa Sé por cada caza. 
E na Bulia, que lie de lloO, diz: «Sane liiherniam, et omnes in- 
snlas, quae doncinenta christianae fulei ceperunt, ad jus B. Petri, 
et Ecclesiae Romanae, qiiod tua Regia ISobititas ipsa cot/noscit, non 
este duhium pertinere ». 

E no anno de H87, Henrique II de Inglaterra pedio ao Papa Ur- 
bano III, e obteve delle licença para fazer Rei de Hibernia hum de 
seus filhos, cousa que precedentemente lhe fora denegada por Lú- 
cio m. 



167 

por ser o Príncipe Luiz seu p;ii'erite, cedia deste seu di- 
reito, sem comludo lhe podei' dar o auxilio pretendido 
pela indicada razão da guerra, que estava sustentando 
contra os Africanos. 

Este facto, que aconteceo pelos annos de I3it, e a res- 
posta que el Rei de Portugal D. Affonso IV deo ao Santo 
Padre, são testemunhos irrefragaveis de que as ilhas Ca- 
nárias, ou Afortunndas erão já conhecidas pelos Euro- 
peos antes do meio do século xiv, e que os próprios Por- 
tuguezes as linhão reconhecido e visitado nessa época. 

Cieza (no seu Trai. Rer. Indirnr.) faz ainda menção 
de certos aventureiros, que em 1393 invadirão, e sa- 
quearão as estiarias: e Zurita querendo (ao que parece) 
referir o mesmo facto, postoque com alguma diííerença 
na data, diz que em 1393 alguns navegantes Guipuscoa- 
nos, e Andaluzes forão ao descobrimento daquellas ilhas, 
e effectivamente se apossarão de algumas delias. E acres- 
centa, que finalmente el-Kei de Castella Henrique ill fa= 
cultára a Roberto de Braquemont no anno de 1401 o 
reconhecel-as e conquistal-as; e que cominettendo Bra- 
quemont a expedição a seu parente João de lieltcncourt, 
este com eíTeito conquistara algumas, e levantara forta- 
leza na Lançarote no anno de 1417 (8). 

(8) Florez, Rainhas CathoUcns, tratando da Rainha D. Calfiatina, 
viuva de Henrique líl (que lalleceo em 1406), a qual governava na 
menoridade de sen íiitio D. João ti, diz (jue eila praspgnio com bom 
governo, e dando providencias sobre a conquista das Canárias. Por 
onde se vê que estas providencias forão posteriores ao armo de 1406, 
em que falleceo U. Henrique, e subio ao Ihrono o pupillo D. João H. 
E anula se deve dizer, que lorão dadas pelo íini da regência da 
Hainlia; porquanto Klorez referindo aqueilas providencias em gerat. 
acrescenta logo: «Porém a este tempo achando-se (a Rainlia) em 
Valladolid, lhe sobreveio a morte, quinta feira, 2 de Junho de 14l8;w 
quando el-Rei seu íillio tintia já cumprido treze aiuios, e ainda não 
governava o reino. As providencias lorão dadas pela Rainha depois 
que liceu tutora m soHihtm por morte de D- Fernando, irmão de 



168 

Do que tudo se manifesta: i.° Que as Canárias eião 
bem conhecidas no século xni, e muito mais no século xiv, 
e que quando el-Rei Henrique III concedeo a Braquemont 
a faculdade de a» conquistar, estava desde muito tempo 
vencida a difíiculdade do descobrimento. 2.° Que sendo 
a conquista de Bettencourt eííectuada em 1417, como diz 
o escriptor citado, e como reconhece Pinkerton, e muitos 
outros modernos, mal se pode d'ahi inferir que os des- 
cobrimentos Portuguezes tivessem origem nesse facto 
de Bettencourt, visto ser muito provável que o Infante 
D. Henrique já em 141^2 havia formado os seus projectos, 
e começado a execução delles, e ser de indubitável cer- 
teza, que no propri(t anno de 1417 mandava elle os seus 
descobridores a dobrar o Bojador, o que não faria tão in- 
tempestivamente, se houvesse de esperar o successo das 
Canárias para se resolver a executar o seu plano. 

O que parece fora de duvida, segundo as antigas Rela- 
ções, he que Bettencourt se apossou eífeclivamente de 
três daquellas ilhas, que hum escriptor nosso diz serem 
Lançarote, Fortaventura, e Ferro: e que retirando-se al- 
gum tempo depois, as deixara encommendadas a seu so- 
brinho Maciot de Bettencourt, o qual conquistara mais a 
Gomeira, largando-as logo todas ao Infante de Portugal 
D. Henrique, ou por determinado preço de dinheiro, como 
dizem alguns, ou por certos rendimentos, ou terras, que 

D. Henrique, e tio do pupiilo, que licára nomeado por D. Henrique 
tutor com ella, e foi Rei de Aragão, fallecido em 1416. 

Pedro de Medina, Grandeza» de Hespanha, diz (jue as (AUiurius 
forão aciuidas pelos Hespanlioes em tempo de D. João 11 de (]as- 
tella, sendo menino, e debaixo da tutela de sua mãi a Rainha 
D. Catharina. E que depois, em tempo dos Reis Cattiolicos, forão 
por seu mandado conquistadas por Pedro de Vera de Xeres de la 
Frontera, e Miguel de Moxica, excepto Palma, e Tenerife, que con- 
quistou Alonso de Lugo, tamijem por ordem dos mesmos Monarcas, 
que depois as povoarão de Hespanhoes, e mandarão Sacerdotes que 
instruíssem os indieenas na religião Christãa. 



169 

O Infante lhe assignou na ilha da Madeira, onde Betten- 
court fora viver, como querem outros (9). 

(9) Esta segunda opinião nos parece mais verosimil, e he certo 
que ainda hoje se conservão na ilha da Madeira algumas familias 
do appeilido de Bettencourt. 

Cândido Lusitano, Vida do Infante D. Henrique, liv. 2.", diz que 
Bettencourt, com licença de el-Rei de Castella Henrique III, tomou 
as ilhas Lançarote, Fortaventiira, e Ferro, e ausentando-se, deixou 
estas ilhas encominendadas a seu sobrinho Maciot de Bettencourt, 
o qual as conservou era obediência, e ainda auxiliado de alguns Cas- 
telhanos se apossou da Gomeira. Como porém seu tio não voltasse, 
e a eile faltassem os cabedacs, e forças necessárias para manter a 
conquista, veio em largar as quatro ilhas ao Infante D. Henrique, 
recebendo delle em troca as Saboarias da ilha da Madeira, e outras 
rendas, de que ficou satisfeito. 

Passou Maciot a viver na Madeira, e fez caza tão rica, que cazou 
sua filha herdeira, D. Maria de Bettencourt, com o Capitão da ilha 
de S. Miguel, Ruy Gonçalves da Camará, íilho 2.» do descobridor 
João Gonçalves Zarco. 

Não sabemos em que anno foi feita por Maciot Bettencourt a 
cessão, ou venda das Canárias ao Infante D. Henrique ; mas presu- 
mimos que seria pouco antes, ou pouco depois do anno 1430, não 
só porque he forçoso^ que desde 1417 decorressem alguns annos, 
em que podesse caber o dominio do primeiro conquistador, a sua 
retirada para a Normandia, o governo de seu sobrinho Maciot, e a 
conquista da Gomeira; mas também porque achámos que el-Rei 
D. Duarte pedira ao Santo Padre Eugénio IV a confirmação da con- 
quista de Ceuta, e a acquisirão das Canárias, que não pertenciuo a 
Principe algum (^hristão: no que parece referir-se, ou á acquisição 
que havia feito pela compra, ou á acquisição que em consequência 
da compra intentava fazer das outras ilhas, que ainda erão possuídas 
dos bárbaros. 

As Letras Apostólicas, em (jue u Santo Padre delerio á supplica 
de el-Rei, não tem data noBuilario; mas devem suppor-se passadas 
entro o anno de 1433 e o de 1438, que forão os do i-einado de el- 
Rei D. Duarte, a quem o Papa as dirige. 

Por estas mesmas Letras Apostólicas consta, que el-Rei de Cas- 
tella se queixara ao Santo Padre destas acquisiçues concedidas aos 
I'õrtuguez('s, pretendendo, que tanto a conquista das (danarias, como 
a de Africa pertencia a sua coroa : ao que o Santo Padre rcspondeo, 
que não tora, neni era da sua intenção ollender direitos alheios, e 



170 

O Infante preparou e expedio em 1447 hnma frota em 
que hia bom numero de soldados Porlugiiezes comman- 
dadus por D. Fernando de Castro, destinados á conquista 
das oito ilhas das Conarins, que parece não linlião até 
então sido entradas de Europeos, a saber: Gran-Cana- 
ria. Palma, Graciosa. Inferno (que parece ser Tenerife), 
Alegrança, Santa Clara, Itoche, e Lobos; mas não sabe- 
mos mais cousa alguma do resultado desta expedição, e 
somente dizem os nossos escri piores, que vendo o In- 
fanle que os Reis de Castella prelendião sempre ter algum 
direito, ou dominio naquellas ilhas, e não querendo im- 
plicar-se em questões que o desviarião de seu principal in- 
tento, as largara outra vez, ou as vendera aos Castelhanos, 
flcando deíinitivamente áquella Coroa pelo Tratado de paz 
celebrado em tempo de el-Uei D. Ailonso V com os Reis 
Catholicos no anuo de 1479 (10). 

A cessão ou venda das Canárias pelo Infante D. Hen- 
rique, parece ler sido concluída logo depois da expedição 

assim o parlicipav;i a cl-líei D. Duarte, recommendaiulo a paz entre 
as duas n ições. 

(10) Diz o escriptor Canrlido Lusitano, que mandando o Infante 
tomar posst^ das quahv^ illias, coimo aimla restarão dozp por ron- 
quistar. e entre ellas a Gran-Cnnarin, aprestara a armada com 2:500 
homens de pé. e 120 de cavallo. genie escolliida e biiosa, e nomeara 
por Capitão desta expedição a D. Fernando de Castro, Governador 
da Caza do Infante. E atlritme esta enipreza ao anno de 1424, no 
que, se não lia erro lypogiafico, pôde liavei- equivocação do escri- 
ptor, porque es!a expcíJiçãD parece que devia ser mais tarde. 

Cailainosto. hindo á sua piimcira viaj;en) em lli.j, clietrou ás Ca- 
nárias. Diz que são scto, quaUo liaíjitadas porCtiristãos, que são Lan- 
çarote, Fortaoentura . a Gomeira, e Ferro; e três por idolatras, que 
são a Gran-Canaria, Tenerife, e Palma. Diz mais, que o Senhor 
das habitadas por Christãos se chama Ferreira. Gei.til-liomem, e 
Cavaileiro de Sevilha, e vassallo de eIRei de Hespaniia. E que as 
três por serem habitadas por gente de defeza, e terem montanhas 
altíssimas, e perigosos desfiladeiros, ainda, não poderão ser subju- 
qadas pelos ChristiJm. 



171 

que acima dissemos; porquanto em 1449 foi S. Diogo, 
Andaluz, Frade menor, mandado â ilha Forfaventura, 
aonde converleo muitos idolatras íí fé Christãa, e come- 
çou a fundar convento da sua onjem: mas pretendendo 
passar também á Gran-Canaria, aonde (diz Hibadeneira) 
ainda se não tinha pregado o Cliristianismo, vio-se obri- 
gado a voltar á Europa, sem entrar na dita ilha, e a re- 
colher-se á Hespanha em 1 i49. 

O continuador de Fleury ao anno 1495 faz menção de 
huma expedição Castelhana ás Cnnarias, de que foi Cabo 
ACfonso de Lugo, e diz, que tomara Tenerife, e Palma: 
que Tenerife se chamava antigamente Ninaria: que o Rei 
de Tenerife passara a Veneza, e que Affonso de Lugo fora 
nomeado Governador da ilha, e encarregado de descobrir 
as outras que ainda não fossem descobertas. 

Manoel Correia, Commentario ao cant. 5.°, est. 8.' de 
Camões, diz. que as Canarins, ou Afurtimnilas, são doze, 
scil.: Gran-Canaria, Palma, Graciosa, Inferno, Ale- 
grança. Santa Clara, S. Roque, a dos Lobos, Lançarote, 
Fortavenliira, Fexro, e Gomeira. « Das quaes (diz) Lan- 
çarote, Fortarentnra, e Ferro descobrio hum cavalleiro 
Francez, por nome João de Bettencourt; e a Gomeira 
hum seu sobriníio chamado Maciot Bettancor, no tempo 
de el-Rei D. Henritjue III de Casteila. As outras forão 
descobertas por mandado do Infante D. Henrique, lilho 
de el-Rei D. João I de Portugal. Depois que MaciOt Be- 
tancor, por concerto que fez com o Infante, lhe largou o 
direito que tinha nas quatro ilhas descobertas, a troco de 
outras cousas que lhe deo, com que viveo muito honrada- 
mente. Estas ilhas se chamão hoje todas as Canárias » , ác. 



NOTA SOBRE AS ILHAS DOS AÇORES 
OU TERCEIRAS 



Annos de 1444 e 1449 

Ilhas dos Açores 

O descobrimento das ilhas dos Açores he hum dos acon- 
tecimentos, que temos achado referido com mais incer- 
teza e variedade, tanto no que respeita á sua época, como 
ao seu auctor, ou auctores. 

Emquanto â época, huns dizem com Bolero, que estas 
ilhas forão descobertas, e começarão a ser povoadas em 
1439 (H). Outros reduzem o seu descobrimento ao meio 
do século XV, sem determinação precisa de anno. Outros 
com Luiz dei Marmol marcão o anno de 1455 (12). Outros 
as suppõem descobertas em 1 448 ou J449. E outros final- 
mente dizem que ellas forão avistadas, ou tocadas antes, 
e finalmente reconhecidas ou achadas em 1449. 

Emquanto ao auctor, ou auctores do descobrimento, 
dividem-se os escriplores em dons partidos, hum que o 
attribue aos Portuguezes, outro aos Flamengos. Huma 
terceira opinião [)orém parece querer concilial-os, já 
suppondo que os Flamengos tinhão tocado estas ilhas, 

(H) Moreri, Dictionnaire Universel. 
(12) Ortel. Theatr. Orb.. òic. 



173 

quando os Portuguezes as descobrirão; já dizendo que 
ellas roi'ão descobertas por Portuguezes, e colonisadas 
por Flamengos. 

No meio da incerteza, que parece resultar de tamanha 
variedade de opiniões, julgámos que merecem attenção 
algumas probabilidades que fazem os Portuguezes au- 
ctores do descobrimento, e são as seguintes, que expo- 
mos ao prudeíite juizo dos leitores: 

1 .^ Que naquelles tempos, a que se attribue o desco- 
brimento das ilhas dos Açores, erão os Portuguezes os 
únicos, que corrião os mares com o designio de achar 
novas terras, ou de hir traficar ás que já erão descober- 
tas, succedendo talvez serem arrojados pelo temporal a 
diíTerentes rumos, e acharem algumas ilhas, que ainda 
não erão conhecidas. 

2.=* Que os Príncipes Portuguezes zelavão com grande 
cuidado, que os estrangeiros não navegassem aquelles 
mares, e tinhão a este ílm alcançado Bulias dos Papas 
(segundo as opiniões e praticas dos tempos) encarre- 
gando aos seus capitães e oííiciaes do mar n vigilância 
sobre este ponto. 

3.''^ Que o nome geral dado a estas ilhas, que se cha- 
mão dos Açores, e os nomes particulares de cada huma 
delias, a saber: S. Miguel, Santa Maria, Terceira, ou de 
Jesu-Christo, Graciosa, S. Jorge, Pico, Fayal, Flores, e 
Corvo; são todos nomes Portuguezes^ e alguns somente 
próprios da lingua Portugueza. 

4."^ Que também são Portuguezes os nomes das capi- 
tães, villas, lugares, ác, como Angra, Ponta Delgada, 
Praia, Prainha, Villa da Horta, Villa Franca do Campo, 
Villa do Nordeste, Villa das Lagoas, Lagoinha, Porto For- 
moso, Villa do Topo, á-c, á-c. 

5.^ Que entre os escriptores Poi-tuguezes, alguns di- 
zem positiva e expressamente, que Gonçalo Velho desco- 
brira cm 1 Vii a ilha de S. Miguel, a 8 de Maio, dia da 



174 

Apparição do Santo Archanjo, dando por esse motivo o 
nome á ilha, segundo a pratica mui frequente dos Portu- 
guezes daquelle tempo. Outros dizem que Gonçalo Velho 
fora mandado em 1449 povojr aquellas ilhas, já desco- 
bertas nos annos antecedentes, e nas quaes o mesmo Gon- 
çalo Velho tinha já lançado algum gado^ por ordem do 
Infante D. Henrique. 

Todas estas razões nos inclinão a ler por mui provável 
que Gonçalo Velho foi o que descobrio as primeiras ilhas 
(dos Açores) de Sa?ita Maria em í^.il, e de S. Miguel 
em 1 444 : que nos annos seguintes continuaria elle mesmo, 
auxiliado de outros navegadores Portngiiezes a descobrir 
as mais ilhas, e hiria lançando nellas os animaes domésti- 
cos, que depois servissem aos povoadores : e que em \ 449 
se começou a obra da [íovoação, sendo elle mesmo encar- 
regado, como cumpria, desse trabalho. 

Três razões aponta hum escriptor douto em contrario 
da nossa opinião. A primeira he que os escriptores, que 
attiibiiem o descobrimento destas ilhas aos Flamengos, 
são desapaixonados, e devem como laes preferir aos es- 
criptores Portuguezes. A segunda he que as mesmas ilhas 
se chamarão Flamengas. E a terceira he que ainda nellas 
subsiste a posteridade das famílias Flamengas, que as 
descobrirão. Nós não achamos estas razões bastantes a 
nos fazerem mudar de sentimento. 

Não a primeira: ponjue líendo os Flamengos os que se 
attribuírão o descobrimento destas ilhas, tão apaixonados 
se devem reputar, pelo menos, como os Portuguezes. Os 
estrangeiros, que depois repetíião o mesmo, ou seguirão 
sem exame o que achavão nos escriptores Flamengos, ou 
se inclina vão mais a essa parle, levados do ciúme com 
que se vê que muitos delles falarão dos descobrimentos 
Portuguezes. 

Acresce que os Portuguezes, tendo tantos factos inques- 
tionáveis, com que exaltar a gloria da sua nação, no que 



175 

lespeita aos descobrimentos maritinjos daquella época, 
nem costumavão servir-se de nolicias falsas em tal ma- 
téria, nem riecessilavão de apropriar-se sem fundamento 
a pequena gloria de haverem acidado mais algumas ilhas 
em mares que elles havião franqueado, e frequentado 
com seus navios. 

Quando dizemos que os Flamengos forão os que attri- 
buirão aos seus navegadores este descobrimento, falámos 
com a auctoridade de Ortelio, que lambem era Flamengo, 
o qual diz que os seus nacionaes he que darão ás Açores 
a denominação de ilhas Flamengas: aNostrates (diz este 
benemérito e verídico geógrafo) Vlaemsche cyladen vo- 
cant, quasi Flandricas insulai » . 

E por aqui se vê que a segunda razão acima apontada 
contra o nosso sentimento padece o mesmo defeito que 
a primeira: isto he, que o nome de Flamengas dado ás 
ilhas, de que tratamos, tinha origem nos mesmos Fla- 
mengos, que porventura querião assim sustentar a sua 
opinião. 

Mas nós não nos atrevemos a pôr esta nota aos Flamen- 
gos sem maior fundamento, e conjecturámos que elles 
darião o seu nome ás ilhas por haverem sido chamados, 
ou admittidos a povoar algumas, ou alguns lugares delias. 
E esta nos parece a verdadeira explicação da diííiculdade, 
e a natuial solução do nó que embaraça esta controvérsia. 

Os Porluguezes erão poucos para acudir á povoação 
de tantas ilhas, como tinhão descoberto. Os Flamengos 
tinhão a protecção da Senhora D. Isabel, Duqueza de Bor- 
gonha, e irmãa do infante D. Henrique. Haveria famihas 
que pretendessem melhorar de situação, vindo auxiliar a 
povoação de tantas ilhas, e o Infante facilmente viria em 
lh'o conceder. D'aqui he que nós conjecturámos que se 
originou a opinião do descobrimento FJamengo, e a de- 
nominação de Flamengas, que se ficou dando algumas 
vezes áquellas ilhas. 



176 

Nem isto he mera conjectura. Tarapha refere que o In- 
fante D. Henrique mandara povoar varias ilhas, e que 
dera a povoar a de S. Jorge, e a do Pico a Flamengos. 

O moderno geógrafo Pinkerton diz que estas ilhas forão 
descobertas em 1449, e colonisadas por alguns Flamen- 
gos com licença, ou de mandado de el-Rei de Portugal. 

Pelo que Oca também resolvida a terceira razão, que 
se nos oppunha, de se acharem nas ilhas dos Açores fa- 
mílias Flamengas: o que podia acontecer ainda que os 
Flamengos não fossem seus descobridores. Na ilha da 
Madeira se achão os Achioles, illustres Florentinos, e os 
Bettencouris, Normandos, e ninguém dirá que os Flo- 
rentinos ou Normandos descobrissem aquella ilha. Esta- 
belecêrão-se nella, ou no tempo em que foi povoada, ou 
pouco depois, e assim se forão conservando até ao dia 
de hoje. 

Cândido Lusitano, na Vida do Infante D. Henrique, 
liv. 4.", pag 317, e seguintes, tratando do descobrimento 
e povoação das ilhas dos Açores, diz em resumo que: 

Em 1431 Gonçalo Velho Cabral, fidalgo, Commendador 
de Almourol, mandado pelo Infante navegar ao poente, 
avistou huns penedos, em que o mar se mostrava in- 
quieto, e como fervendo, e lhe deo o nome de Formi- 
gas, voltando a Portugal sem mais resultado algum. 

Em 1432 tornou a ser mandado na mesma direcção, e 
aos 15 de Agosto descobrio a ilha, a que pôz o nome de 
Santa Maria. Voltando a Portugal, o Infante o fez Capitão 
donatário da ilha descoberta, e elle a começou logo a po- 
voar, hindo a povoação, producção, e commercio delia 
em grande crescimento por alguns annos. 

Em 1444 o mesmo Gonçalo Velho fni de mandado do 
Infante continuar os descobrimentos, e não sendo bem 
succedido na primeira viagem, descobrio na segunda, e 
neste anno, a 8 de Maio, a ilha de S. Miguel, a que deo 
este nome allusivo á festividade do dia. 



177 

Kin 1'i-iri, luiido o dcscol)i'idor alcançado do Infaiilt.' a 
capitania da nova ilha, i)assou a povoal-a neste anno. 

L)'aqui em diante diz o escriptor, (jue lhe fallavão as 
luzes da historia e da chronologia; mas que seguindo a 
escassa luz de algumas conjecturas prováveis, parecia que 
no anno de 1449 se descobrira por diligencias do Infante 
a Terceira, a que se deo este nome por ser terceira na 
ordem das descobertas, mas que se ignorava o seu des- 
cobridor, postoque era provável ser algum dos muitos 
navegantes, que naquelle tempo hião a Cabo Verde, á-c, 
os quaes hião ou vinhão buscar a altura da Terceira. 

Acrescenta porém o escriptor, fundado em lestemiinho 
autJwitico, que em 1450 estava a Terceira descoberta 
de pouco tempo, e que o Infante fizera delia Capitão a 
Jacome de Bruges, cavalheiro Flamengo, que tendo vindo 
a Portugal, entrara no serviço do Infante, e este o cazára 
com huma Dama da Infanta D. Brites. Este virtuoso ho- 
mem levantou logo huma fgreja da invocação de Santa 
Beatriz, que foi a primeira freguezia de toda a ilha, e 
para povoal-a levou do reino, e da Madeira (com apra- 
zimento do Infante) alguns cazaes. .Tacome de Bruges vi- 
veo alguns annos na ilha, e fazendo viagem a Flandres 
para apurar a herança de hum seu parente, lá falleceo. 

Duvida-se se a ilha de S. Jorge foi a quarta descoberta; 
mas diz o escriptor, que está a favor delia a tradição dos 
antigos, segundo a qual fora esta ilha descoberta em 1449 
a ^;j de Abril, pelo (|ue tomou o nome do Santo desse 
dia. Diz mais. que a fama attribue o descobrimento a Ja- 
come de Bruges, c o cargo de povoal-a a GuHlterme Van- 
dagara, que se chamou da Silveira, o qual, segando Me- 
morias antigas, sendo na sua pátria (era Flamengo) pouco 
favorecido da fortuna, viei"a tental-a em Portugal, e pedira 
e alcançara do Infante licença para povoar S. Jorge. Fun- 
dou a villa do Topo; mas escaceando a terra em i)oucos 
annos na producção, o Capitão se vio obrigado a passar 

TOMO V lá 



178 

á illia (,1o Fayah já conhecida, mas quaai deserta. Alii 
acliou já a Jorge de IJtra, Flamengo illustre, que enlão 
lançava os primeiros fundamentos á povoação do Fa/jal. 

Silveira não se unindo bem com Ulra voltou a S. Joige. 

O Infante deo a Utra a capitania do Pico, que segundo 
alguns fora descoberta por hum Fernani Alvares, que ali 
fora arrojado por tormenta, e nella vivera solitário obra 
de hum anno. 

A ultima ilha que se povoou, diz o escriptor, que ajuiza 
ser a Graciosa, se bem que alguns põem o seu descobri- 
mento em quarto lugar, e outros em terceiro, e elle por 
conjectura a suppõe descoberta pelos annos 1453. Mas 
dá como certo que o Infante a dividira em duas capi- 
tanias, e dera huma a Vasco Gil Sodré, de Montemor o 
Velho, homem nobre e rico, que vivia na Terceira : e ou- 
tra a Duarte Barreto, seu cunhado, dos Barretos do Al- 
garve. 

O Barreto foi assaltado no caminho, e preso pelos Cas- 
telhanos, pelo que passou a capitania a Pedro Corrêa da 
Cunha, fidalgo illustre, e também parente de Vasco Gil 
Sodré. 

E nada mais diz o escriptor a respeito das ilhas dos 
Açores. 

Ao extracto que fizemos de Cândido Lusitano reflecti- 
remos : 

Parece que não pôde haver duvida prudente em dar 
credito ao escriptor no que respeita ás duas primeiras 
ilhas, porque notando elle sinceramente as variedades 
que achara a respeito destes descobrimentos, e a falta de 
noticias exactas de alguns dellcs, parece que se deve ter 
por averiguado o que elle mesmo nos dá como certo e 
indubitável, como he o que diz do descobrimento e po- 
voação de Santa Maria em 1432, por Gonçalo Velho, de 
S. Miguel em 1444 (no que concordão outros escriptores 
nossos), e sua povoação, pelo mesmo Gonçalo Velho. 



179 

Das Ires seguintes Terceira, Graciosa, c S. Jorge, o 
mesmo escriptor confessa que lhe faltavão noticias indi- 
viduaes e certas, e que só por conjecturas prováveis de- 
terminava as épocas dos seus descobrimentos. 

Comtudo ellas estavão sem duvida descobertas antes 
de 1400, e mui provavelmente povoadas, porquanto o In- 
fante D. Henrique as possuio, e logo immediatamente á 
sua morte as doou el-Rei D. Affonso V ao Infante D. Fer- 
nando, seu irmão, que era sobrinho e filho adoptivo de 
D. Henrique. 

O nosso escriptor attesta sobre a fé de testemunho 
authentico, que a Terceira estava descoberta de pouco 
tempo, em 1450, e que então a fora povoar Jacome de 
Bruges, como deixámos referido. 

A esta se seguiria logo a Graciosa, que alguns põem 
em quarto lugar na ordem dos descobrimentos, e o es- 
criptor a suppõe achada em 14-j3. E logo depois, ou 
pouco antes, a de S. Jorge, que os antigos su[»punlião 
descoberta em 1449, altribuindo o seu descobrimento a 
Jacome de Bruges, povoador da Terceira. 

Das ilhas do Corvo, e Flores, não faz menção o es- 
criptor (]ue seguimos; mas he fora de duvida que a do 
Corvo estava descoberta em 1453, porque nesse anno, 
a ^0 de .laneiro, a doou D. Affonso V ao Duque de Bra- 
gança. E parece crivei que não taidasse muito a ser lam- 
bem descoberta a das Flores, que fica a pequena distan- 
cia (13). 

(13) Fleuricux diz, ou suppue, (juo o Corço o Flores apenas Ibrão 
descobertas em 1460 (Roteiro rjeral de Lopes, part. 1.", pag. 63); 
mas III! equivocação, porque a ilha do Corvo já ein 1453 foi doada 
ao Duque de Braganra, e a das Flores não ficaria por descobrir 
quando a do Corvo, supiiosla a proxiinidadi' de audjas. 

Lopes suppõe eslas ilhas descobertas desde 1431. 

A ilha do Corvo foi doada por D. Aironso V ao Duque do Bra- 
gança com mero e mixto império, por caria dada cm Évora a 20 



180 

Das (luas illias, Faval c Pico, que são as que restão 
entre as nove chamadas dos Açores, não temos noticia 
alguma exacta sobre o seu descobrimento, nem o nosso 
escriptor nos dá indicação alguma, sobre que possamos 
fundar o nosso juizo. 

Elle diz, na verdade, que o Infante (D. Henrique) dera 
a capitania do Pico a Jorge de Utra, e que este já estava 
\\o Faijal quando lá aporlou Guilherme da Silveira, obri- 
gado da esterilidade da sua ilha de S. Jorge. 



Annos de 1449 a 1453 
O descobrimento dos Açores, scginuio Marlini IJeliiiiiii 

Lê-se no famoso Globo de Nuremberga de Martim Be- 
haim, a seguinte nota: 

« As ilhas dos Açores forão habitadas em 1466, quando 
el-Rei de Portugal as deo d Duqucza de Borgonha sua 
irmãa. Havia então em Flandres guerra, e grande fome, 
e a Duqueza mandou para essas ilhas homens e mulhe- 
res, e tudo o necessário para subsistirem, de. Em 1490 
ainda ali havia Allemães, e Flamengos, que tinhão liido 
com Job de Huerter, meu sogro, a quem as ilhas forão 
dadas, e para seus descendentes j^e/a dila Duqueza. Em 
;'.43l, reinando o Infante 1). Pedro, armarão-se dous na- 
vios por ordem do Infante D. Henrique para hirem ao des- 
cobrimento de terras além do cabo de Finis-terrae, os 
quaes na distancia de 500 leguaes descobrirão estas ilhas, 

de Janeiro de 1453. (Historia Genealógica, liv. 6.°, cap. i.°, e Pro- 
vas ao mesmo liv., num. 20.) 

O mesmo Rei, em 3 de Uezemhro de 1460, fez aò Infante D. Fer- 
nando (que era seu irmão, o sobrinho e filho adoptivo do Infante 
D. Henrique), a amplissima doação de muitas ilhas que este até á 
sua morte possuíra, e entre ellas se nomeão a de Jesu-Chrislo (Ter- 
ceira), Graciosa, Saída Maria, S. Migiiel, e S. Jorqe. 



ISl 

o UmkIo clesembarcado, não achárno vosligios de liomoiis, 
nem de quadriipedcs. Depois para cumprii' as ordens do 
Rei de Portugal, mandarão no cmno scguinlc Jezrscis na- 
vios com toda a espécie de animaes, que lançarão em cada 
illia paia multiplicarem. » 

A desordem com que está escripta esta nota, e as ma- 
nifestas falsidades, que nella se encerrão, quasi que nos 
desviarião do trabalho de a refutar. Diremos sempre al- 
guma cousa, e hiremos notando summariamente as im- 
posturas mais obvias. Vamos pela mesma ordem. 

« As ilhas dos Açores forão habitadas em 1466 j, quando 
el-Rei de Portugal as deo d Diiqueza de Borgonha, sua 
irmãa. » 

Se estas ilhas forão habitadas em 1466, quando el-Rei 
as deo d Duqueza, como diz a nota, que em 1432 forão 
dezeseis navios com animaes para multiplicarem em cada 
Inima delias? Estarião ellas trinta e quati'0 annos a po- 
voar-se de toda a espécie de animaes, para só no fim de 
tanto tempo hirem os homens comêl-os? 

A doação destas ilhas á Duqueza de Borgonha (tia, e 
não irmãa de el-Rei), he huma manifesta fabula: 

1.° Pelo geral e absoluto silencio de todos os nossos 
escriptores a este respeito, e porque se não mostra, nem 
pôde mostrar titulo algum desta doação. 

2.° Pela inverosimilhança, que melhor chamáramos 
impossibilidade do facto: porquanto huma tão conside- 
rável alienação, totalmente gratuita, de tantas ilhas des- 
cobertas pelos Portuguezes, e á custa de seus trabalhos, 
feita á Duqueza de Borgonha sem preço, sem indemnisa- 
ção, sem allegação de relevantes serviços, e de mais a 
mais sem o consentimento das Cortes, excede toda a cre- 
dibilidade, e não pôde merecer o assenso de quem tenha 
uso de razão (14). 

(14) A Diiquoza, (iiiando o DiU[Uo lallccoo om 1405, oslava dosde 
muito leiíipo retirada i'iii lium convento por desf^ostos que tivera 



183 

3." Porque dado, por hum momento, que estas illias 
fossem doadas á Duqueza, não sabemos, nem se nos diz 
quando, por que modo, e por que titulo reverterão á Co- 
roa Porlugueza, havendo a este respeito o mesmo geral 
e absoluto silencio, que já notámos a respeito da doação. 

4.° Porque cinco destas ilhas dos Açores (a Teixeira, 
Graciosa, S. Miguel, Santa Maria, e S. Jorge) tinhão 
sido doadas em 1460 ao Infante D, Fernando, irmão de 
el-Rei, e filho adoptivo do Infante D. IIenri(|ue, para as 
ter e possuir do mesmo modo que este as havia possuido 
até áquelle anno, cm (pie falíeceo. Do qual Infante D. Fer- 
nando (fallecido em 1470) passarão a seu filho o Duque 
de Viseo D. Diogo, e depois da morte deste a seu irmão 
o Duque de Beja D. Manoel, que depois foi Rei. 

A sexta ilha (a do Corvo), tinha também sido doada cm 
i453 por el-Rei D. Affonso V ao Duque de Bragança por 
carta dada em Évora a 20 de .laneiro do mesmo anno. 

E as duas, que reslão (do Fagal, e Pico), as vemos 
doadas a Jooz de Utra pelo dito Senhor D. JManoel, ainda 
antes da nova doação, e foral, que já como Rei lhe fez 
em lí)09, sem que neste amplissimo titulo se diga huma 
só palavra da Duqueza de Borgonha, nem de algum do- 
minio que jamais tivesse tido nas referidas ilhas (15). 

«Em 1431 (diz pouco depois a nota), reinando o Jn- 

com o Duque, e fallecoo {l'ahi a quairo annos, sem ler parle alguma 
nos negócios do governo. 

(iS) Existe no Real Archivo ila Torre do Tombo huma sentença 
proferida no anno de 1571, em demanda, que teve Jeronymo de Utra 
Corte Real com a Coroa solire a successão da capitania das ilhas do 
Faval e Pico. 

Delia consta que Joz de Utra, avó de Jeronymo, a instancias do 
Infante D. Fernando, Mestre de Christo, viera povoar aquellas duas 
ilhas, pertencentes á mesma Ordem, ficando as capitanias delias para 
o dito Utra e seus descendentes : e que isto mesmo foi confirmado 
por el-Rei D. Manoel, passando consequentemente a capitania das 
duas ilhas por morte de Joz, a seu filho JManoel de Utra. 



fantp D. Pedro, armárão-se dons navios por ordem di» 
Infante D. Henrirjue. p;u;i liirem ao descobrimento de 
terras ohnn do caho de Finis-terrae, os quacs na distan- 
cia de 500 léguas descobrirão estas ilbas. » 

A este periodo pode notar-se: 

1.° Que o Infante D. Pedro nunca reinou: e se o es- 
criptor quer falar da tutoria e regência, que elle teve na 
menoridade de el-Rei D. Affonso V, seu sobrinlio, tam- 
bém erra; porque esta regência começou em 1438, por 
morte de el-Rei D. Duarte, e não existia em 1431, em 
que ainda vivia el-Rei D. João I. 

2.° Pôde notar-se também a frase « para hirem ao des- 
cobrimento de terras além do cabo de Finis-terrae y) , na 
qual parece suppor-se, que o cabo mais septemtrional da 
Galliza era o ponto geogi^afico d'onde partião os navios 
Portuguezes para os descobrimentos: e se o escriptor 
confundio o dito cabo com o de Sagres, he negligencia, 
ou inadvertência pouco desculpável. 

3.° Pôde notar-se que as ilhas dos Açores não forão 
todas descobertas em 1431, ou 1432, mas sim successi- 
vamente em diversos tempos, nem íicão a 500 léguas do 
cabo de Finis-terrae, de qualquer modo que se contem 
as léguas, ác, d-c. (16). 

Escusado parece lembrar aqui, que el-Rei D. Duarte em 1433 fez 
mercê das ilhas ao Infante D. Henrique, de quem passarão a seu 
filho adoptivo o Infante D. Fernando. Em virtude desta doação os 
Infantes he que nomeavão os donatários. Esta nomeação esteve na 
Infanta D. Beatriz como tutora de seu filho menor D. Diogo, por 
fallecimento do Infante D. Fernando. Por morte de D. Diogo vierão 
as ilhas a D. Manoel seu irmão, e este vindo a ser Rei, as unio á 
Coroa, e fez passar novas Cartas aos donatários, como tudo se colhe 
da sentença acima dita. 

(IG) Em ^larço de liíiO fez o Infante D. Henrique doação da Wia 
de Jesii-Cliristo. tprcciru dox Arorfs. a Jaconic de Bruges, scii xer- 
vidor, natural do Condado de Flandres, a qual se não sabia ter sido 
povoada, e ao presente estava erma e inhainlada, ôir.. (Vej. Cordeiro, 
ílutoria Inaulnva, png. 2'i-3.) 



iS4 

Aniio de 1453 
A cslatua equestre da ilha do Corvo 

Imprimiu-se lia pouco temi)0 em Lisboa um follieto de 
14 paginas em 12, com este titulo: Resumo de observa- 
ções geológicas feitas em huma viagem ás ilhas da Ma- 
deira^ Porto Santo, e Arores nos ânuos de 1835 e 1836, 
pelo conde Vargas de Bedemar, Camarista de el-Rei de 
Dinamarca, Director do IMuseu Real de Historia Natural, 
e Sócio da Academia Real das Sciencias em Copenhagen. 
Lisboa, 1837: na impressão de Galhardo e Irmãos. 

Logo no principio desta pequena obrinha, diz o auctor: 

«... A tradição, a credulidade, e o gosto das maravi- 
lhas, apoiados [)ela dilíiculdade que ha em chegar a estas 
ilhas em todos os tempos, e na communicação entre ellas, 
tinhão envolvido a sua hisloria, e a natureza da sua cori- 
síituição, em hiun véo tecido de fados singulares, que 
occupárão por muito tempo a imaginação dos sábios, em 
consequência da falta de observações locaes, que submi- 
nistrassem hmna informação completa e decisiva. 

«A presente viagem, abrangendo o exame de todas as 
ilhas, sem excepção, contribuio para fazer desapparecer 
essas illusões. Ella sérvio para verificar que lie huma 
pura f/uimera a estatua equestre, que se dizia ea-istir 
rni ilha do Corvo com a mão estendida para o lado da 
America yy, de. 

Postoqueao ler este folheto se nos offerecêrão natui-al- 
mente algumas reflexões sobre o seu principal objecto, 
e sobre a nimia brevidade, com que o escriptor trata hum 
assumpto tão importante, abstemo-nos comtudo de as 
produzir aqui, e deixámos aos sábios geólogos o exame 
das matérias que são da sua competência, e de que nós 
não podemos ser juizes. 

Abstemo-nos também de interpellar o sábio escriptor 



185 

para que nos diga (juo fados singulares, que ilhisões ío- 
rão essas que por tanto tempo occiípárão a imaginação 
dos sabias, e cobrirão de tenebroso véo a historia, e a 
natureza da constituição daquellas ilhas, por falta de ob- 
servações locaes, e de inloruiarões completas e decisivas. 
Elle, que teve a felicidade de vencer as difíiculdades que 
até agora se oppunhão ao conhecimento geológico das 
ilhas, e de romper o véo de (]ue estavão envolvidas, não 
deixará por certo de nos dar mais ampla idéa de seus 
scientiOcos trabalhos, e de desvanecer completamente as 
falsas apprehensões, de que tem estado occupada a ima- 
ginação dos sábios. 

O nosso objecto no presente escripto he tão somente 
rebater a decisão dogmática com que o auctor aííirma, 
que pela sua viagem se verificou ser pura quimera a es" 
tatua equestre, que se dizia existir na ilha do Corvo, com 
a mão estendida para o lado da America. 

E primeiramente reílectiremos, que nos não he possí- 
vel entender, como o sábio auctor, pelo exame geológico 
da ilha do Corvo (que na sua obra se encerra em só oito 
linhas de impressão, apag. 13), conseguio, no século xix, 
verificar de quimérica a existência de huma estatua, que 
ali estava, e foi desmontada e destruída no século xvi, 
sem ao menos nos dar algum indicio do caminho que 
tomou para chegar a este resultado; a não ser que pre- 
venido contra as tradições, credulidades, e gosto das ma- 
raviliias, a que se mostra tão avesso, metteo nestas ca- 
tegorias, ou em alguma delias, a historia daquella estatua, 
e peremptoriamente a julgou quimérica, sem ouvir as 
partes interessadas, e sem admittir (ao que parece) appel- 
lação, nem aggravo. 

Nós não julgámos prudente desprezar de todo as tra- 
dições, nem mesmo as credulidades populares; e em- 
quanto a maravilhas, achámos tão cheio delias o mundo 
fysico. que nos pareceria grave temei'ida(le rejeitar algii- 



186 

ma, sem nos darmos ao tral)allio de examinar a sua natu- 
reza, e as provas com que se acha abonada nas historias. 

IMas ainda bem(!) que o nosso caso não he de meras tra- 
dições, ou de credulidades populares, que nos seja ne- 
cessário defender, nem Ião pouco de cousas de tal modo 
maravilhosas, que se tornem por isso de difficil exame e 
prova, ou pouco dignas de crença rasoavel. Não ha no 
facto de que tratámos contos absurdos de gigantes e 
monstros, de thesouros encantados, de mágicos, fadas 
e vampiros, de ap[)ariçues ou visões espantosas, emíim 
de fabulas inverosímeis, criadas em alguma desordenada, 
e delirante fantasia. Trata-se de hum facto natural, visivel, 
palpável, puramente histórico, e na historia he que deve- 
mos buscar as provas que o abonão, ou o rejeitão. 

O Padre António Cordeiro, que tira grande parte das 
suas noticias da obra de Gaspar Fructuoso, escriptor do 
século XVI, diz que huma das cousas (hgnas de admiração 
na ilha do Corvo he, que não se achando nella ao tempo 
do seu descobrimento vestígios de gente que a habitasse, 
se achou comtudo cm huma alta rocha, que cde sobre o 
mar, e em huma giande higem huma faial e grande es- 
tatua de pedra, que consta de hum cavallo em osso e de 
hum homem vestido, e posto no cavallo, com a mão es- 
querda pegando-lhe na coma, e com o braço direito es- 
tendido, apontando com o dedo Índice para o poente, e 
mais direitamente para o noroeste. (Historia Insulana, 
liv. 9.°, cap. 5.-^) 

O escriptor geólogo não ignorava a relação de Cordeiro, 
e de Fructuoso, pois os cita a ambos sem lhes fazer a 
honra de os refutar, sendo que nem elles, nem a relação 
do facto merecião este desprezo. Mas não parece ter tido 
igual conhecimento do que ao mesmo respeito refere Da- 
mião de Góes na Chronica do Príncipe I). João, cap. 9.° 
Nós lhe daremos as formaes palavras deste sábio chro- 
nista: 



I 



187 

«Destas ilhas (diz ello falanflo dos Açores) a que mais 
está ao norte he a do ( lorvo, que terá huma légua de terra : 
os mareantes llic ehaiuão Ilha do Marco, porque com ella, 
por ler huma serra alia, se demarcão, quando vem deman- 
dar qualquer das outras. No cume desta serra, da parte 
do noroeste, se achou huma estatua de pedra posta sobre 
huma lage, que era hum homem em cima de hum cavallo 
em osso, e o homem vestido de huma capa, como bedèm, 
sem barrete, com huma mão na coma do cavallo, e o 
braço direito estendido, e os dedos da mão encolhidos, 
salvo o dedo segundo, a que os latinos chamão index, 
com que apontava contra o ponente. Esta imagem, que 
toda sabia mocissa da mesma lage, mandou el-Rei D. Ma- 
noel tirar pelo natural por hum seu criado debuxador, 
que se chamava Duarte Darmas, e depois que viu o de- 
buxo, mandou hum homem engenhoso, natural da cidade 
do Porto, que andara muito em França e Itália, que fosse 
a esta illia, paia com apparelhos que levou, tirar aquella 
antigualha; o qual quando de lá tornou disse a el-Rei, 
que a achara desfeita de huma tormenta que fizera o in- 
verno passado; mas a verdade foi que a quebrarão por 
máo azo, e trouxerão pedaços delia, a saber, a cabeça 
do homem, e o braço direito com a mão, e huma perna, e 
a cabeça do cavallo, e huma mão, que estava dobrada e 
levantada, e lium pedaço de huma perna, o que tudo es- 
teve na guarda-ronpa de el-Rei alguns dias; mas o que 
se depois fez destas cousas, ou onde se pozerão, eu o não 
pude saber.» 

Temos pois a favor da existência desta antigualha o 
testemunho de hum escriptor tão douto, tão pouco cré- 
dulo, e tão judicioso, como sabemos que era Damião de 
Góes, e o moslrão as suas obias; de juim escriptor que 
não se contenta com repetir o que porventura terião crido 
outros antes delle, mas o atlesla e confirma com fados 
positivos e públicos, acontecidos no seu tempo, citando 



488 

possnns doterniinadas, mandadas por el-Rei D. Manoel 
para debuxarem, e depois para desmontarem a estatua, 
e a trazerem a Portugal, referindo o successo destas di- 
ligencias, notando os fragmentos da estatua que vierão 
ao reino, e finalmente indicando o lugar em que se guar- 
darão e estiverão depositados, isto he, a guarda-rotipa 
de el-Rei, da qual era encarregado naquelle tempo Fru- 
ctuoso de Góes, irmão do próprio clironista. 

E não pára só nisto a miudeza e exacção histórica de 
Damião de Góes, senão que nos dá noticia do letreiro en- 
talhado na rocha, abaixo do lugar em que estivera col- 
locada a estatua; aponta a pessoa que o mandou exami- 
nar e copiar, o anno em que isto se fez, e o pouco fructo 
que resultou desta investigação; passando ainda depois 
a expender a sua opinião e juizo conjectural acerca da 
gente que em tempos antigos poderia ter aportado á ilha 
do Corvo, e deixado nella aquella memoria; e lembrando 
por ultimo, que bem se poderia acaso tirar a limpo al- 
guma boa conjectura a tal respeito, se á ilha fossem, ou 
se mandassem pessoas instruídas nas Hnguas da Norue- 
ga, Gothia, Suécia ou Islândia, donde elle julga verosí- 
mil, que tivessem vindo os auctores de tão notável mo- 
numento. 

Á vista de tudo isto quereríamos nós agora perguntar 
ao ilouto geólogo, se com eíTeito ainda julga verificada dr 
pura quimera a estatua equestre da ilha do Corvo; e no 
caso que elle insistisse na sua opinião, lhe pediríamos 
muito de mercê, que nos dissesse os fundamentos que 
tinha, ou tivera, para assim tão ligeiramente a adoptar, 
e tão decisivamente a dar por certa. 

Elle nem ao menos pôde allegar a seu favor alguma 
presumida inverosimilhança do facto, fundada na sua sin- 
gularidade ou raridade. 

Já Góes parece ter querido occorrer de algum modo a 
huma semelhante lembrança, quando, para mostrar a pos- 



189 

sibilidade de ser aijiieila memoria obra da gente do norle, 
reflecte e prova, que todas as nações daquellas partes 
costnmavão fazer entalhar, e esculpir os seus feitos, acon- 
tecimentos e façanhas em rochas de pedra viva, para mór 
lembrança e perpetuidade dos casos que lhe acontecião, 
como iiaqueUas provindas todas (diz o chronista) hoje 
cm dia se vê, e achão em muitas partes delias imagens 
e historias entalhadas, abertas, esculpidas, e escriptas 
em rochedos, e outras pedras altas, e de maravilhosa 
grandeza. 

E isto que o chronista escrevia, ha perto de tresentos 
annos, receberia hoje muito maior luz das indagações, 
viagens, trabalhos, e escriptos de tantos sábios, e de tan- 
tas sociedades litterarias, que nos tem dado, e estão cada 
dia dando a conhecer varias riquezas da antiguidade de 
todas as partes do mundo, e os admiráveis monumentos, 
que a industria e o trabalho humano por cilas espalhou 
desde os mais remotos tempos. De maneira que seria 
hoje huma bem miserável e bem insensata preoccupação 
suppor que as obrais das artes somente fossem conheci- 
das e praticadas pelas nações e povos da índia, do Egypto, 
da Phenicia, da Grécia, ou de Roma, e totalmente desco- 
nhecidas ou estranhas ás nações, que nós chamamos bar- 
baras, quando a historia moderna tem desvanecido esta 
mesquinha idéa, publicando collecções copiosas dos mo- 
numentos archeologicos de todas as idades, e de todos 
os povos. 

Esperamos pois que o nosso auctor nos deixe na posse 
pacifica desta antigualha, que nenhuma relação tem com 
a constituição geológica daquclla ilha; e que se limite a 
empregar os seus abalisados talentos no verdadeiro ol»- 
jecto, (pie ali o conduzio, e que por cei'to devêia mere- 
cer-lhe mais anqilo desenvolvimento. 



NOTA SOBRE O DESCOBRIMENTO DO CONGO 



Annos de 1484 e 1485 

Ví<i{]em de Mariím Uehaini (ou de Bolieuiía) 
com Diogo Cam 

Esta viagem he huraa das que se attribuem a Martim 
Behaim (ou df Bohemia, como escreve Barros), e se diz 
notada no famoso Globo de Nuremberg. As palavras do 
Globo sã(i estas: 

«Em 1484 João II fez armar duas caravelas, o mandou 
navegar para o sul. Sahimos para a ilha da Madeira, e 
tendo dobrado as ilhas Fortunadas e as Canárias, che- 
gámos a Gambia, e depois passámos a Farfar, distante 
do reino 1:200 léguas, ou milhas. Mais longe está outro 
paiz, aonde achámos a casca da canella; e tendo^nos as- 
sim afastado 2:300 léguas, voltámos, e no decimo nono 
mez chegámos ao reino. » 

Antes de entrarmos na analVse desta nota, parece-nos 
digno de reflexão, que nenhum dos escriptores Portugue- 
zes, que tratarão de nossos descobrimentos: que falarão 
da viagem de Diogo Cam ao Gongo; que nomearão a ou- 
tros respeitos Martim Behaim; e que não occultárão a 
parte que elle teve com outros malhematicos Portugue- 
zes no aperfeiçoamento do astrolábio; que nenhum delles, 
digo, falasse da sua viagem ao Congo com Diogo Cam, 



191 

nem lhe allribiiisse influxo algum no descobrimento do 
rio Zaire, e do reino do Congo por este illustrc Capitão. 

Feita esta breve, e genérica reflexão, vamos ao exame 
da nota. 

« Sahimos (diz) para a ilha da Madeira, e tendo dobrado 
as ilhas Fortunados c as Canárias», d-c. 

Não parecem dictadas por lium tão hábil cosmógrafo, 
e viajante maritimo estas palavras: porquanto, se elle jul- 
gava as Canárias idênticas com as Fortunadas, como 
muitos julgão, não devia nomeal-as como diversas, di- 
zendo (ias Fortunadas e as Canárias». E se julgava que 
as antigas Fortunadas erão as de Cabo Verde, nesse caso 
devia nomear primeiro as Canárias, e depois as Fortu- 
nadas, segundo a ordem da sua posição geográfica, que 
he a que seguem os escriptores geógrafos em suas nar- 
rações, e descripções. 

« Chegámos (continua a nota) a Gambia, e depois passá- 
mos a Furfm\ distante do reino 1:200 léguas, ou mi- 
lhas.» 

Não sabemos que, paiz he este de Furfur, que o es- 
criptor quiz aqui denotar: mas ainda menos entendemos 
que calculo elle seguio para marcar a distancia, em que 
se achava de Portugal. 

Se as 1:200 léguas se entendem de 20, ou de 18 ao 
gráo, suppõe GO, ou mais gráos de distancia de Lisboa, 
o que vai dar em 22° meridionaes, aonde Diogo Cam pôz 
o ultimo padrão, e não fica lugar para o outro paiz ainda 
muito mais longe, de que logo fala, e que suppõe a 
2:300 léguas de Portugal. 

Se aquelle numci^o he de milhas, vem a ser a distancia 
do reino de oOO, ou 400 léguas (a 4 ou 3 milhas por lé- 
gua), e então diremos que o paiz de Furfur eslava pouco 
mais ou menos na ali ura de Cal)o Verde, ou (juamioniiiilo 
na de Scri'a fiCôa, sisudo (|ue a nola parece su[)[)or os na- 
veiíanles muito mais lon'íe. 



11)2 

Finalmente se o numero l:iOO exprime milhas, que 
também se chamão léguas de Allemanha, de 15 ao grão, 
vem a dar-nos em resultado para a distancia de Lis- 
boa 80", que nos porião muito além do cabo da Boa Es- 
perança para o sul ! 

« Deste Furfur, continua a nota a dizer, que forão a 
outro paiz mais longe, aonde acharão a casca da canella, 
e .que ficava afastado do reino 2:300 léguas. » 

Aqui torna o calculo a refutar a nota, ou a pôl-a em 
grande confusão e duvida, como he fíicil mostrar pelo que 
já deixámos dito: e acresce de mais, que a casca da ca- 
nclla, que o escriptor diz terem achado naquelle paiz, pa- 
rece que se não acha na costa occidental de Africa, e de 
certo nenhuma menção fizerão delia os nossos mais an- 
tigos escriptores, que alguma cousa disserão das plantas 
daquelles paizes. 

Pôde ainda notar-se aqui, que sendo Martim Behaim 
bom mathematico, cosmógrafo, e navegador, não desi- 
gnasse com alguma especificação de nomes, posições, e 
distancias os lugares, rios, c cabos que tocou, ou desco- 
brio, nem os gi-áos em que estavãí» arrumados, nem o 
lançamento e direcção das costas, á-c, contentando-se 
com dizer que chegou a 1:200 léguas, ou milhas, e de- 
pois a 2:300 de distancia do reino, o que he summamcnte 
vago, tanto [)ela differença que ha de léguas a militas, c 
pela variedade com que os differentes povos da Europa 
determinão a longura destas medidas itinei'ai'ins; como 
poi"que a própria distancia de dous pontos geográficos, 
cerbigralia, de Lisboa a Cabo Verde, pôde ser mui varia, 
se se designar por gráos, ou pelos rodeios da navegação 
junto ás costas, A-c. 



NOTA SOBEE O BE8C0BK1MENT0 DA AMKRICA, 
E 1)0 ESTREITO DE MAGALHÃES, 

ATTRIBUIDOS A MARTIM BEHAIM 



Annos de 1493 a 1519 

Também se tem attribuido a Martim Behaim o desco- 
brimento da America, e do Estreito, a que depois se deo 
a denominação de Magalhães: chegando alguns dos seus 
panegyristas a dizer que Martim penetrara até áquelle 
continente. 

Já o Sr. Trigoso 'refutou esta impostura, notando que 
o Globo de Nurcmberg não traz designada a America, nem 
parle alguma da sua costa, e que o celebre Sipango lie 
o paiz mais avançado para leste, que abi vem desenhado. 

Pôde reílectir-se mais, que lendo-se na inscripção da 
orla do globo, que tudo fora extrabido dos livros de Pto- 
lomeu, Plinio, Estrabão, e Marco Paulo, não se podia la- 
zoavelmente esperar que o globo indicasse senão as terras 
conhecidas destes geógrafos. E i)OStoquc abi se diz tam- 
bém d conforme os descobrimentos, e apontamentos de 
Behamy>, não sabemos, nem se nos diz, que descobri- 
mentos estes forão; nem o da America era tão insigni- 
ficante, que não merecesse especifica menção, e que ao 
menos se traçasse no globo algum sigiial do seu lança- 
mento, e posição geográfica. 

TOMO V 13 



194 

Acresce contra estes presumidos descobrimentos de 
Betiaim o profundo silencio de todos os nossos escripto- 
res, e ainda o do próprio Behaim, que certamente nem 
havia de querer encobrir hum facto, que lhe dava tanta 
honra, nem havia de consentir que outrem lhe roubasse 
a prioridade e preferencia. 

O descobrimento de Colombo, sabido na Europa em 
1493, quando elle voltou da primeira viagem, excitou a 
admiração geral, como era de esperar. 

Quando Cabral em 1500 achou o continente da Ame- 
rica meridional, mandou immediatamente hum dos na- 
vios da sua frota a Lisboa participando a el-Hei huma 
cousa tão nova e desconhecida. 

A tudo isto ficaria Behaim em silencio, sem vindicar a 
prioridade dos seus descobrimentos, e deixando levar a 
outros a gloria que só a elle competia, ou reservando-se 
para hir consignal-a no seu Globo em Allemanha, aonde 
só podia ser vista pelos seus compatriotas? 

Como he pois possível, que se Behaim tivesse tido tão 
rara felicidade antes dosdous navegadores Colombo, e Ca- 
bral, guardasse hum tão estranho silencio, até no mesmo 
globo, aonde nada ha que nos indique a America, e ainda 
menos o Estreito? 

Acrescentão os panegyristas de Behaim: \°, que em 
1493 estava Martim em Lisboa; 2.", que pouco depois es- 
tava no Fayal; 3.°, que d'ahi o mandara chamar el-Rei 
D. João II pai'a intervir na pretenção ou negociação que 
tinha com seu primo o Imperador Maximiliano, a fim de 
fazer passar o sceptro de Portugal a seu filho D. Jorge; 
4.", que foi varias vezes aprisionado por corsários, e 
que entretanto morreo el-Rei, que já tinha passado or- 
dens para que Martim se recolhesse a Lisboa, á-c, e que 
desde então cessarão as suas peregrinações, e viveo no 
Fayal, A-c. 

El-Rei D. João II morreo em Outubro de 1495. Con- 



195 

sequentemente dado que a estada de Martim em Lisboa 
fosse no principio de 1493, deve arranjar-se em pouco 
mais de trinta mezes a sua hida para o Fayal, a sua volta 
a Lisboa a chamamento de el-Rei, a viagem a Allemanha, 
e os vários aprismmmentos de corsários, d-c. O que nos 
parece muita obra para tão pouco tempo ! 

Também nos custa muito a crer, que el-Rei D. João II, 
Príncipe tão cheio de prudência e circumspecção, que ti- 
nha particular amizade com o Imperador seu primo, e 
que tinha (como consta da sua historia) tanto no reino, 
como em varias partes da Europa homens da sua maior 
confidencia, e tão hábeis como elle os sabia escolher, cha- 
masse do Fayal hum estrangeiro, provavelmente estranho 
ás negociações politicas, para o enviar a huma das mais 
dehcadas, que el-Rei podia tentar. 

Seja-nos permittido (ainda que alheio pareça do as- 
sumpto) dizer aqui alguma cousa acerca desta pretendida 
negociação de el-Rei com o Imperador, que sempre nos 
tem parecido duvidosa. 

Que pretendia el-Rei D. João II do Imperador Maximi- 
liano seu primo? Dizem que possuído el-Rei do pensa- 
mento de fazer seu filho bastardo, D. Jorge, Rei de Por- 
tugal, empenhava o Imperador para que da sua parte 
cedesse dos direitos que podia ter a este reino. 

Sempre (tornamos a dizer) nos pareceo duvidosa esta 
pretenção, não obstante fazerem delia menção alguns es- 
criptores Portuguezes : 

I." Porque he diíficii acreditar, que o grande juizo de 
el-Rei D. João II (reconliecido e confessado pelos seus ini- 
migos) não avaliasse a diííicuklade, que encontraria em 
seu primo, o Imperador, para fazer cessão de hum reino 
tão bello, e naqueile lem])0 tão rico, tão afíunado, e tão 
florente, se julgasse ter a elle algum direito. 

2.° E ainda mais principalmente, porque el-Rei, com 
essa pretendida cessão não fazia melhor a sua causa, ou 



iOf) 

a de seu filho. O Imperador Maximiliano era primo de 
el-Rei; mas o Duque de Beja D. Manoel também o era, e 
estava em melhor condição, porque vinha por linha mas- 
cuhna, e o Imperador por feminina, que he inquestiona- 
velmente menos nobre, e secundaria nas successões. Por 
onde, caducando a linha da primogenitura de D. Affonso V 
por morte do filho único legitimo de el-Rei D. João II, 
naturalmente se devia hir buscar a segunda linha na des- 
cendência do Infante D. Fernando, irmão de D. AíTonso V, 
e só extincta esta he que podia passar o reino á terceira, 
da Senhora D. Leonor, cazada com Frederico III, de quem 
vinha Maximiliano. 
Isto se faz mais palpável pela seguinte taboa: 



D. João I 



1). Duarte D. Isabel, Duqueza 

-" — •—— — - -^ jg Borsouha 

D. Affonso V D. Fernando D. Leonor ,' 

III 

I I ' Carlos, o Atrevido 

1). João II 1). Manoel Maximiliano , 

' Maria, herdeira, ca- 

^- •'°'"f zada com Maxi- 

(bastardo) ,j^^^ 

Aqui se vêem três irmãos, filhos de D. Duarte, e por 
consequência em igual grão ; mas dous varões, e huma 
fêmea. 

E se vêem os filhos destes três irmãos, primos huns 
dos outros, e consequentemente também em igual gráo; 
mas os dous primeiros vindos por linha varonil, e o ter- 
ceiro por linha feminina. 

A Imperatriz Maria, mulher do Imperador, não podia 
entrar á competência, porque estava em gráo mais re- 
moto: era prima segunda. 

Logo D. Manoel preferia indiihitavelmente a Maximi- 
liano. E isto he tanto verdade, que o próprio Rei D. João II 
em seu testamento declarou por herdeiro do reino a D. Ma- 



l'J7 

noel sen primo, sem fíizer menção alj^uma (l(j Jmpeiadoí-; 
e em Portugal não havia outra opinião, senão que D. Ma- 
noel era o legitimo successor ao llirono. 

Os andores da Historia Universal dizem que D. Manoel 
subio ao throno em boa paz, não obstante haver outros 
pretendentes d coroa: mas não nos dizem quem erão estes 
pretendentes, e nós completamente o ignoramos. 

Falão sim de liiim deUes, que era Maximiliano, e di- 
zem que estando em igual grão com D. Manoel, preten- 
dia a preferencia por mais velho. Também isto nos pa- 
rece pouco crível; porque o Imperador sabia mui bem 
que estava em igual grão, mas em differente linha, e 
menos nobre. Nem consta da historia que houvesse da 
parte delle reclamação alguma, nem demonstração de ser 
oppoente ao throno, como os citados auctores referem 
com a aucloridade de Faria e Sousa (17). 

O que nós temos por certo, he que depois da morte do 
grande Rei D. João II alguns escriptores, que querião li- 
songear a el-Rei D. Manoel, e a Caza de Bragança, assa- 
carão áquelle illustre Príncipe alguns pensamentos que 
elle acaso não teria; despojárão-no da gloría de alguns 
•projectos, que sendo seus, somente se executarão no se- 
guinte reinado; e pintarão com cores mais carregadas al- 
gumas acções suas, que parecerão, ou parecião menos 
justas. 

Como (juer que fosse, e voltando ao nosso ponto: te- 
mos por cousa inverosímil que Martim Behaim fosse es- 
colhido para aquella missão (se a houve), e julgamos ser 
esta huma das imiiosturas que se introduzíi'ão na nota do 
(Hoíio lie Xineuiber;/, acaso |)oi'(iue Martim julgou (|ue lá 

(17) l''r. Fr;mi-isc(>|{raii(lâo. uoDisrnrsofirdtulotoriosobvrA aciila- 
luação de el-lici I). João IV, paj^. 77, diz (iiic Maxiiiiiliaiio, escrevendo 
a el-liei D. 1'ei'iiuiido, o Catliollri), em 141)8, lhe dizia «Que cl tenta 
por hnrna In succession dei //'// I). Manoel, po)-(jue descendia de Va- 
rones», e cila Ziirita. 



i98 

no centro da Allemanha podia alardear não só de grande 
descobridor, mas também de atilado politico, e de gosar 
a intima confiança de el-Rei de Portugal. 

Deixando porém já o facto do positivo descobrimento 
da America, e do Estreito de Magalhães, diz o Sr. Trigoso 
que i(he fora de toda a duvida, que Marfim estava per- 
suadido, que podião existir novas terras naquella parte 
do globo D . 

Nós atrevemo-nos a negai- esta mesma possibilidade, 
não absoluta e metafysicamente, mas sim com relação 
aos conhecimentos e meios que então havia, explicando 
primeiro o que querem dizer aquellas frases « novas ter- 
ras y>, e 1 naquella parte do globo )). 

Se por novas terras se entendem ieiias até então a nós 
desconhecidas, fácil he de crer que Martim estivesse per- 
suadido da sua existência, assim como estava Colombo, e 
eslarião outros muitos. Bastava lembiarem-se que o globo 
era redondo; que havia hum extensíssimo continente das 
terras da Ásia, e que navegando da Eui'opa para o occi- 
dento, se havião de encontrar estas terras, ou mais perto 
ou mais longe. 

Se porém por novas terras se querem entender terras 
de hum novo continente, além dos já conhecidos, duvidá- 
mos muito que Martim se lembiasse sequer de tal possi- 
bihdade. 

Embora Aristóteles, Plinio, e outros antigos falassem 
da redondeza da teria, da existência de anlipodas, A-c. ; 
embora se supponlia que estas verdades erão coiiliecidas, 
tidas por certas, e não duvidadas naqu(Mle tempo. 

A única cousa que d'aqui se podia deduzir, he ([ue na- 
vegando-se ao occidente, se havião de achar emlim as 
terras e costas orientaes da Ásia; mas wTxoi novas terras, 
isto he, lium novo continente, huma nova parte do mundo 
totalmente diversa, e separada d;i Ásia. da Africa, e da 
Europa, como he a America. 



199 

Colombo mesmo não teve idéa alguma deste novo con- 
tinente ainda depois de descobrir as Antilhas. 

O moderníssimo escriptor Washington Irving, que es- 
creveo a historia de Colombo, e das suas viagens (em 
1828), nota que forão precisamente dous erros deste na- 
vegador que fizerão descobrir o novo mundo. 

1,° Que este grande homem queria chegar á Ásia pelo 
mar occidental, ou pelo Oceano Atlântico: para o que ti- 
nha examinado os auctores antigos, e até a Biblia e os 
Padres da Igreja, com o fim de achar a confirmação desta 
idéa dominante, que nunca de todo se desvaneceo: de 
maneira que tudo quanto se lhe referia da existência de 
alguma ilha ou terra a oeste do antigo mundo, o appli- 
cava elle á Ásia, não presumindo jamais a existência de 
huma terra intermediaria, da qual parece que nem chegou 
a convencer-se, ainda depois de a ter descoberto e tocado. 

2.° Erro. Julgava Colombo que a terra era muito mais 
pequena do que na verdade he, e presumia que bastarião 
alguns dias de navegação pelo Oceano para chegar ás ilhas, 
que esta vão a leste, da Ásia. 

E não se diga que o escriptor que citámos, e seguimos, 
falasse deste modo sem fundamento, ou imputasse a Co- 
lombo erros que elle não teve. O escriptor vio documen- 
tos originaes, e entre elles as cartas de Colombo aos Reis 
de Castella; e delles coUigio, e disse: 

1." Que forão aquellas falsas idéas as que Colombo in- 
culcou sempre a Fernando e f sabei para os determinar a 
emprender a expedição a oeste. 

2.° Que Colombo estava tão persuadido de tocar na 
Ásia, que se encarregou de huma carta de Fernando para 
o Gran-Kan dos Tártaros, esperando dentro de pouco 
tempo saiidal-o em pessoa da parte de el-Rei Calholico. 

3." Que sempre em suas cartas insiste na idéa de locai- 
na Ásia [)elo oeste, e ainda depois de ter descoberto as 
Antilhas. 



200 

4." Que lijclas as vezes que os selvagens encontrados 
por Colombo falavão de algum poderoso Soberano, que 
íicava mais longe a sul, ou a oeste, imaginava o grande 
homem que querião designar o Kan dos Tártaros: e que 
falando-lbe de minas de ouro, julgava ser o Ophir, que os 
antigos situavão na Ásia. Que os arbustos aromáticos lhe 
paredão as arvores da especiaria ; e que a menor seme- 
lhança de nomes lhe fazia crer que estava perto do Ca- 
thay, ou mesmo do Ganges. 

5.° Que Colombo hindo acompanhado de hum inter- 
prete, que entendia algumas linguas da Ásia, se admirava 
de que os selvagens não entendessem nada do que elle 
lhes dizia. 

E finalmente, 6.", que nunca Colombo abandonou de 
todo esta idéa dominante; e que vendo-se mil vezes en- 
ganado na sua expeclaliva, voltava comtudo sempre ás 
mesmas idéas, e sempre com ellas entretinha o Rei de 
Caslella, de, d-c. 

Ora se estas erão as idéas de Colombo depois de tantas 
meditações, que diremos das de Behaim? Aonde hiremos 
buscar a possibilidade de que elle imaginasse hum couli- 
nente novo, e totalmente ignorado? 



NOTA SOP,RE A TERRA DE CORTE REAL 
NA AMERICA SEPTEMTRTONAL 



Anno de 1500 

A noticia que damos ao anno 1500, do descobrimento 
da Terra de Curte Real pelos Portuguezes irmãos deste 
appellido, parece ler sido esquecida de alguns dos nossos 
escriptores, e muito mais dos estrangeiros, que não só, 
pela maior parte, a não mencionão, mas até tem suppri- 
mido em suas cartas geográficas o nome da mesma terra, 
fazendo assim escurecer a gloriosa, e perpetua lembrança, 
que merecem aquelles illustres aventureiros. Comtudo o 
facto vem commemorado na Historia de el-Rei D. Manoel 
do elegante e verídico Osório, Bispo de Silves, donde a 
tomarão os auctores Inglezes da Historia Universal^ no 
com[)endio da Historia de Portugal. Ortelio na sua Taboa 
da America demarca a mesma teri'a com o nome de Terra 
Corte Realis, que se lhe ficou dando em memoria dos seus 
descobridores, e Pinkerton, no Compendio de Geografia 
moderna, edição de 1811, reconhece que « No anno lõOO 
Corte Real, Capitão Portagnoz, baseou liuma passagem 
ao norte, e descobria o Labrador ». E em outro lugar torna 
a dizer: « Fsta vasta e.iiensão das costas comprehendidas 



202 

entre os õ7 e 77" de longiliide oeste de Paris, e entre os 52 
e 62" de latitude septemtrional, foi chamada Terra do La- 
brador por Corte Real, navegador Portuguez, que a des- 
cohrio em 1500 » . 

Jeronymo Girava, na sua Cosmografia^, descrevendo a 
Terra de Labrador, que diz ser a ultima para o norte, 
explica-se nestes termos, que aqui traduzimos em Por- 
tuguez: 

« Muitos tem hido costear esta terra, primeiramente 
Castelhanos, e depois Portuguezes, com o íim de desco- 
brirem passagem mais breve para asMolucas; mas nunca 
acharão esta passagem, e somente a 60° acharão hum rio, 
a que chamarão dos Três Irmãos, do qual não passarão 
avante por causa das neves e gelos. . . Gemma Frisio se 
engana muito, pensando que este Rio dos Três Irmãos he 
hum estreito de mar, por onde os Portuguezes quizerão 
passar ás Molucas, denominado Estreito Septemlrional. 
Sabe-se o contrario i)elas navegações dos modernos Por- 
tuguezes, e Castelhanos. » 

Pondo de pai1e algumas reflexões, que se podião fazer 
sobre este lugar do Girava, limitâmo-nos a notar, pelo 
que diz respeito ao nosso assumpto, que nelle se men- 
cionão as viagens que os Portuguezes antigos Unhão feito, 
e que os modernos continuavão a fazer áquellas paragens; 
e que o nome dos três irmãos, que se ficou dando áquelle 
rio, parece allusivo aos três irmãos Cortes Reaes, de que 
fazemos menção no nosso índice. 

O mesmo Girava acrescenta ainda, lalando da terra de 
Bacalhaos: 

« Tem esta terra algimias ilhas visinhas, que pela maior 
parte são senhoreadas dos Francezes, como são as ilhas 
Corte Real, Baye, Duxchasteaux, Cabo de Spoir», á-c. 

Por onde vemos que os illustres aventureiros Por- 
tuguezes não só descobrirão a Terra de Corte Real, 
que ora chamão de Labrador; mas também algumas 



203 

das ilhas adjacentes á Terra de Bacalhaos, que da pes- 
caria, que ali se faz, tomou o nome: o que auctorisa a 
conjectura que fizemos no nosso índice ao referido anno 
de 1500 (18). 

Confirmão-se estas noticias com o que escreve o Doutor 
Francisco Lopes de Gomara na sua Historia Geral das Ín- 
dias, de que vem extractados alguns lugares na Cosmo- 
grafia de Pedro Aplano, impressa em 1575. Descrevendo 
pois o escriptor as costas da America Septemlrional, diz 
assim: 

« De Cabo Delgado, que cahe em 54°, segue a costa du- 
zentas léguas por direito de poente, até hum grande rio, 
chamado de S. Lourenço, que alguns tem por braço de 
mar, e tem sido navegado mais de duzentas léguas agoa 
acima: pelo que muitos o chamarão o Estreito dos Três 
Irmãos. Aqui se forma hum golfo, como quadrado, e boja 
de S. Lourenço até á ponta de Bacolhaos, muito mais de 
duzentas léguas. Entre esta ponta e Cabo Delgado estão 
muitas ilhas bem povoadas, que chamão Cortes Reales, 
as quaes cerrão, e encobrem o golfo quadrado, lugar mui 
notável nesta costa, tanto para baliza, como para ancora- 
douro^), á-c. 

Apontaremos ainda as palavras do celebre geógrafo 
Flamengo do século xvn Pedro Bertio, o qual descre- 
vendo o périplo Americano diz, que nas regiões mais se- 

(18) Hum escriptor I^ortugucz diz, que os moradores da villa (hoje 
cidade) de Aveiro tinhão pelos annos iSíiO mais de cento e cincoenta 
embarcações suas próprias empregadas no commercio; e acrescenta, 
(juc Ibrão elles o.s descobridores da Terra Nova, e pescaria dos haca- 
Ihaos, que por incúria (diz) larijárão aos luglezes. (Descripção de 
Porluijal, por António de Oliveira Freire.) 

«Por Alvará de 14 de Outubro de 1506 so mandou arrecadar o 
dizimo da pescaria do bacalhao pela fazenda. « (Citado por Lacerda 
Lobo na Memoria sobre as pescarias Portugnezas, e sua decadência, 
entre os da Academia.) Abi diz que João e Sebastião Cnliol, pni e 
filtio, descobrirão a ilha da Terra Nova em 1497. 



204 

ptemtrionaes nos são conhecidos os estreitos de Davis e 
de Forbrissers, e que d'alii al6 o Cabo Breton se acha a 
Eslotilandia, e a Terra de Corte Beal (19). 

«In ora maxime septemtrionali nobis cognita sunt freta 
Davis, et Forbrisseri, a quibus ad promontorium Breton 
est EstotUandia cum Terra Corte Reali. » 

Pelo que tudo se vê, que a Terra de Corte Real (ou 
de Labrador), o rio de S. Lourenço, ou dos Três Ir- 
mãos, e algumas ilhas adjacentes á Terra Nova, e cha- 
madas lambem Cortes Reaes, forão descobertas, e visi- 
tadas pelos Portuguezes irmãos do mesmo appellido, no 
anno de 1500, e seguintes, e que a historia e a geografia 
devem conservar ou restituir aos nobres navegadores Por- 

(19) Acho no Apparato á Historia Genealo(jira da Caza Real Por- 
ttigueza, num. 89 : « Que Vasque Annes Côrle Real fôra Capitão do- 
natário das capitanias da ilha Terceira, da parte do Angra, da de 
S. Jorge, e da Terra ISova tios Cortes Reaes. Sua filha herdeira, 
D. Margarida de Corte Real, cazou com D. Christovão de Moura, 
primeiro Conde e Marquez de Castello Rodrigo, bem conhecido na 
nossa historia. Vasques Eannes parece ter sido o irmão mais velho 
dos Cortes Reaes, que forão ao descobrimento, porque acliámos que 
assim se chamava, e que era Vedor da Caza Real, do Conselho de 
el-Rei, Capitão das Terceiras (da Terceira), e Alcaide Mór de Ta- 
vira». A este daria el-Rei o titulo de Capitão da Terra JSova dos 
Cortes Reaes em memoria do descobrimento, e como para conser- 
vação do direito, que por elle podião pretender. 

« D. Christovão de Moura, que foi Conde e depois Marquez de Cas- 
tello Rodrigo, cazou com D. Margarida Corte Real, Senhora herdeira 
de vários morgados, e das capitanias de algumas das ilhas Terceiras, 
e da Terra Nova de Corte Real. D. Francisco de Moura Corte Real, 
terceiro Marquez de Castello Rodrigo, segundo Conde de Lumiarcs, 
também foi Capitão General de algumas das Terceiras, e SenJwr da 
Terra Nova. » (Moreri, art. Castel Rodrigo.) 

« Ortelio denota desde 43 até GO" a ilha Redonda, o Cabo Razo, a 
ilha da Aréa, o Cabo da Boavista, a ilha dos Demónios, a ilha dos 
Crimes, e na boca da bahia de Hudson a ilha de Caranielo, que Jie 
certamente do Caramelo, tudo nomes Portuguezes, e lambem de- 
nota a Terra de Corte Real. » 



20o 



tuguezes o nome, que naquellas terras e ilhas lhes ficou, 
e que certamente não vale menos que os de ilha Bourbon, 
ilha Mauricia, bahia Bonaparte, e muitos outros seme- 
lhantes, que com muito menos fundamento, e talvez por 
mera e baixa lisonja se tem imposto a outros paizes. 



NOTA SOBRE AS ILHAS LEQUIAS 
OU DE LIEU-KIEU 



Anno de 1516 

«A este e nordeste da ilha Formosa (diz Mr. la Croix) 
estão as ilhas de Lieou-Kieou, cujo Rei he tributário da 
China. Estas ilhas são hum novo descobrimento oriental, 
de que somos devedores ao Padre Gaubil, Jesuíta. Póde- 
se ver a circumstanciada descripção delias na carta que o 
dito Padre escreveo a 3 de Novembro de 1752 ao Padre 
Berthier, seu confrade», ác. (20). 

Só por huma bem grosseira equivocação, ou indiscul- 
pavel inadvertência, he que Mr. la Croix podia escrever 
as palavras, que deixámos copiadas, e nas quaes parece 
não ter tido outro fim mais que dar a humFrancez a glo- 
ria do descobrimento das Lequias. 

As ilhas, de que elle fala, e que denomina de Lieoii- 
Kieou, são indubitavelmente, tanto pela sua situação 
geográfica, como pela semelhança material do nome, as 
mesmas, que os Portuguezes chamão Lequias, ou ilhas 

(20) Compendio de Geografia moderna, edição de 1777, 



207 

do Lequio, ou Leqiieio, como reconhece Pinkerton, e ou- 
tros geógrafos (21). 

O Livro de Duarte Barbosa, que foi escriplo duzentos 
trinta e seis annos antes do Padre Gaubil, no artigo ul- 
timo, já trata das Lequeos (22), dizendo que stío defronte 
da terra da Cliina ao mar. E postoqae confessa que ainda 
então não liavia muita informação das gentes que as lia- 
bitavão, por não terem vindo a Malaca, depois que esta 
cidade fora tomada pelos nossos; comtudo mostra que já 
o nome e a situação erão conhecidos, e dá-nos a con- 
jecturar, que assim como antes da conquista de Malaca 
vinhão a esta cidade, também depois da conquista não 
tardarião muito a continual-a, como fizerão todas as na- 
ções, que por causa do commercio frequentavão o seu 
porto. 

Nas mesmas ilhas esteve no anno de 1544 (isto he, du- 
zentos e oito annos antes do Padre Gaubil), Fernam Men- 
des Pinto, que as descreve com alguma individuação nos 
cap. 438. '^, e 143." das suas Peregrinações, aonde nos in- 
forma não só da situação da principal Lequia, que elle 
denota em 29° de latitude septemtrional, mas também 
das suas principaes producções; e até inculca a facili- 
dade com que os Portuguezes poderião apossar-se delias, 
e as grandes vantagens que tirarião das ricas minas de 
cobre, que ahi se achão. 

No mesmo lugar nos diz também, que em 1556 chegara 
a Malaca Pedro Gomes de Almeida, com cartas de Nauta- 



(21) O nome destas illuis aclui-se nos escriptores com variedades 
accidentaes. A principal lie algumas vezes denominada Lekco, e o 
grupo todo, ora se chama de Lieovtcheov, ora de Lieou-Tcheou, ora 
de Likeujo, Lieut-cheux, &c. 

('J2) O Livro de Duarte Bítrlrnsa foi acabado de escrever em lol6. 
Vem na Cullecção de 7ioticins para a historia e çicografia das nações 
ultramarinas, publicada pela Academia Ucal das Sciencias de Lis- 
boa, tom. 2.°, num. 7. 



208 

quini, Príncipe de Tanixuma, dirigidas a el-Rei D. João III, 
pedindo-Ihe o auxilio de 500 Portuguezes para conquistar 
a ilha Lequia, e offerecendo-lhe em reconhecimento o tri- 
buto annual de 5:000 quintaes de cobre, e 1 :000 de latão : 
e acrescenta, que este Portuguez, vindo para a Europa na 
náo em que naufragou Manoel de Sousa de Sepúlveda, se 
perdera com elle no cabo da Boa Esperança, ficando as- 
sim inutilisada a sua commissão (23). 

Das mesmas ilhas falou João de Barros nas suas Dé- 
cadas, impressas duzentos annos antes do Padre Gaubil, 
quando notou que antes das emprezas dos Portuguezes, 
e de suas primeiras expedições na Ásia, era trazido do 
mercado geral de Malaca « o cravo das Mohicas, a noz de 
Banda, o sândalo de Timor, a cânfora de Borneo, o ouro 
de Samatra, e do Lequeio, e as gommas, perfumes, e ou- 
tras preciosas mercadorias da China, do Japão, de Siam, 
e de outros muitos reinos daquelle vastíssimo oriente». 

As mesmas ilhas forão denotadas pelo Portuguez Luiz 
Teixeira no seu Mappa do Japão, impresso em J584 
(cento sessenta e oito annos antes do Padre Gaubil), c 
copiado por Ortelio a num. 120. 

O mesmo Ortelio as denota em outras das suas Taboas 
com os nomes de Lequio, ou Lequejo, ou Lcquiho. E nas 
breves notas, que escreveo a num. 19, antes da Carta de 
Portugal de Fernam Alvares Secco, conclue assim : « Lu- 
sitanorum imperium hodie quam latissime patet; nam 
ab Herculis columnis usque ad Ghinam, et Lequios, per 

(23) A edição de Fernam Mendes Pinto, que temos á mão, he muito 
incorrecta. Nós suspeitámos, que hum de seus erros he a data de 
1556, a que attribue a commissão de Pedro Gomes de Almeida, por- 
quanto o naufrágio de Sepúlveda aconteceo em 1552, como consta 
da Relação que delle temos; e se Pedro Gomes vinha na mesma náo, 
não podia estar em Malaca para vir á Europa em 1656. Assim, se 
não houve lapso de memoria no escriptor, deverá acaso ler-se anno 
de 1546, em lugar de 1556. 



2()<t 

omnes províncias marilimas, insulasque adjacentes, ex- 
lenditur » . 

Finalmente Fr. Jacinto de Deos no seu Vergel de plan- 
tas e flores, escripto pelos annos de I07Í), e impresso em 
Lisboa, em 1090, também faz menção das Z-cvy^/as, quando 
fala das ilhas adjacentes á China, dizendo: «Tem o reino 
da China muitas ilhas adjacentes, como são maior e menor 
Lieu-Kieu, Taina, grande enseada que os Portuguezescha- 
mão ilha Formosa », ác. 

Pelo que tudo se vê que estas ilhas forão conhecidas, 
vistas, e até descriptas pelos Portuguezes mais de duzen- 
tos annos antes do Padre Gaubil, e que sem erro gravís- 
simo se não pôde attribuir a este Padre o novo descobri- 
menlo oriental, que lhe attribue Air. laCroix, com prejuízo 
dos Portuguezes, e contra os testemunhos, que deixamos 
apontados. 



TOMO V 



NOTA SOBRE A BAHIA E EIO 
DE LOURENÇO MARQUES 



Anno de 1545 

Alguns geógrafos estrangeiros, falando da Bahia da 
Alagôa, na cosia orienlal de Africa (24), notão, que he lu- 
gar iioje frequentado dos navios Européos, que andão nos 
mares do sul á pesca da baleia ; e Mr. Aynès acrescenta, 
que he excellente local para hum novo estabelecimento. 

Esta aptidão, que na bahia se considera, pôde acaso ter 
suscitado o pensamento de hum governo estrangeiro, que 
(segundo ouvimos dizer) tem feito algumas tentativas di- 
plomáticas para desapossar-nos daquelle posto, que ha 
perto de três séculos exclusiva e pacificamente senhoreá- 
mos, disputando a origem, e certeza da nossa posse, e 
pretendendo porem duvida, ou em esquecimento, o nome 
de Lourenço Marques, que primeiro descobrio o rio as- 
sim denominado, que vem desaguar na mesma Alagôa, 

(24) Pinkertoii, no Compendio de Geografia moderna, edição de 
1811, chama a esta bahia, bahia de Delagoa. A cada passo achámos 
nos escriptores estrangeiros erros semelhantes, e ás vezes de muito 
maior consequência, nascidos da ignorância da hngua Portugueza, 
e de quererem aquelles escriptores servir-se dos livros Portuguezes, 
som os entenderem. 



211 

e d'onde se originou a posse e dominio, que ali temos. 
Pareceo-nos pois conveniente illustrar esta matéria, e de- 
terminar quaes sejão os rios e bahia, que tem o nome de 
Lourenço Marques, e que indubitavelmente pertencem 
aos domínios de Portugal. 

No anno de 1545, quando o grande D. João de Castro 
hia governar a índia, escreveo de Moçambique a el-Rei 
D. João III, e então lhe dava parte do novo e recente des- 
cobrimento de Lourenço Marques, o qual, por consequên- 
cia, se deve referir áquelle mesmo anno, ou a hum tempo 
anterior pouco remoto. El-Rei lhe respondia no anno se- 
guinte de 1546, em carta que possuímos original, e re- 
commendava a D. João de Castro, que mandasse prose- 
guir naquelle descobrimento, ou pelo mesmo Lourenço 
Marques, ou por outrem, se assim o julgasse conve- 
niente. 

He de crer que o próprio Lourenço Marques fosse o 
encarregado de continuar o que havia começado; pois em 
differentes escriptores antigos achámos constantemente 
nomeados com só o seu nome os rios e bahia, que elle 
descobrio e frequentou, ainda sem embargo de haver elle 
mesmo dado ao principal rio o nome particular de Santo 
Espirito, como logo veremos. 

No anno de 1554, vindo Lourenço Marques da índia 
com direcção a estes seus rios, fez naufrágio na costa, 
antes de nelles entrar, e naquellas ondas ficou sepultado, 
como consta dn Relação do naufrágio da náo S. Bento, 
que também no niesm<t anno aconteceo naquellas para- 
gens, e foi escripla por hum PorUiguez, que do naufiagio 
se salvou. 

Por esta Relação consta : 

1." Que a bahia da Ala<jóa era a própria, aonde vinhão 
desagoar ires grandes rios, e entre elles hum que mais 
particularmente se chamava de Lourenço Marques. 

2.° Que o primeiro destes rios. para a parte do sul, se 



chamava mar do Zembe, do nome de hum Cafre, que ahi 
dominava. Que o segundo tinha d'antes o nome de rio da 
Alagôa, e então se denominava Santo Espirito, ou tam- 
bém de Lourenço Marques, que primeiro descobria (diz 
o escriptor) o resgate do marfim, que ali veniler. Final- 
mente que, o terceiro, e ultimo rio para o norte se cha- 
mava do Manhica, por outro Cafre assim chamado, que 
ah reinava (25). 

Adverte mais o escriptor, que em algumas cartas Por- 
tuguezas se achava demarcado o rio do Santo Espirito 
com erro, confundindo-o com o da Agoada da Boa Paz, 
que ficava mais avante para o norte em altura de 24 V-^"» 
sendo que o verdadeiro rio do Santo Espirito, ou de 
Lourenço Marques estava em altura de 25 */4°, e entrava 
na hahia da Alagôa, como fica dito (20). 

(2o) PJnkerton, descrevendo a sua bakia de Dclagoa, somente faz 
menção de hum rio, que diz ser hum dos principaes, que nelia en- 
ti-ão, e lhe dã o nome de Mafumo: passa depois a tratar mui breve- 
mente dos costumes dos povos, que liabitão as suas margens, ])elo 
norte e sul, de algumas das pruducções do paiz. de alguns olijectos 
do commercio, &c., e nem huma só palavra diz dos outros rios, nem 
do do Santo Espirito, que aliás vem demarcado na sua carta, nem 
do nome de Lourenço Marques, que não podia deixar de lhe ser co- 
nhecido, ao menos pelas Relações Portuguezas, c até pelas preten- 
ções do governo Inglez. 

(i26) O erro e confusão, que aqui nota o escriptor, observa -se, por 
exemplo, na Relação do navfruíiio do galeão S. João, de Manoel de 
Sousa de Sepúlveda, que se perdeo no cabo da Boa Esperança em 
1552, aonde se diz que o rio de Lourenço Marques he o mesmo da 
Agoada da Boa Paz, fundando-se provavelmente o escriptor na 
auctoridade de algumas das cartas, em que se havia introduzido 
aquelle erro. Este galeão naufragou em 31", e os Portuguezes que 
se salvarão, resolverão caminhar por terra até ao rio que descobria 
Lourenço Marques, o qual, segundo a sua estimativa, lhes ficava a 
180 léguas por costa, para o norte. Moreri parece ter-se guiado por 
alguma destas antigas carias erradas, quando diz que a bahia de 
Lourenço Marques está a 24" e 4o' austraes, e a 70 léguas do Cabo 
das Correntes. 



213 

Copiaremos aqui as próprias palavras da Relação, por- 
que ellas nuctorisão tudo o que deixamos referido, e ii- 
lustrão consideravelmente a matéria de que vamos tra- 
tando. Diz assim: 

«Chegámos á boca da bahia do rio Santo Espirito, que 
na carta, que levávamos, estava nomeado por seu nome 
antigo de rio da Alagôa, a qual (alagôa) será de 15, ou 
20 léguas de comprido, e a lugares pouco menos de largo. 
Entra o mar nella por duas bocas, huma da parte do su- 
doeste, que não he muito grande, e outra da de noroeste, 
que será de 7, ou 8 léguas; e entre huma e outra jaz 
huma ilha. que terá 3 léguas em redondo. 

Nesta bahia se recolhe agua de três rios assas grandes, 
que de muito pelo sertão dentro vem ali acabar, por cada 
hum dos quaes entra a maré 10, e 12 léguas, além do 
que a bahia alcança. 

« O primeiro, para a parte do sul, se chama mar do 
Zembe, que divide as terras de hum Rei, assim chamado, 
das de outro, que he o Jn/ieca, com quem nós ao depois 
estivemos. 

«O segundo se chama Santo Espirito, ou de Lourenço 
Marques, que primeiro descobrio o resgate do marfim, 
que ali vem ter; por cuja causa he frequentada a nave- 
gação delle de alguns annos a esta parte, que d'antes 
muitos passarão, que ali ninguém foi. Este aparta as ter- 
ras do Zembe das de outros dous Senhores, cujos nomes 
são o Rumo, e Mena Lobombo. 

«O terceiro e ultimo rio, para o norte, se chama do 
Manhica, por outro Cafre assim chamado, que ali reina, 
com o qual visinhão muitos outros Senhores: e ao longo 
deste foi o desbarato de Manoel de Sousa de Se[)ulveda, 
aonde elle, e sua mulher, e filhos acabarão (27). 

(27) Na llelaçõo do nnnfmfiio da nm Santo Alberto, Cícripta por 
João Baptista Lavanlia em i'ò\)7, so descreve esta baliia ^ rios com 



214 

«E como a caria, por que nos hiamos regendo, cha- 
masse erradamente rio do Santo Espirito ao da Agoada 
da Boa Paz, que está em 24 * 2°, e avante dest'oulro 18 
léguas (postoque este, em cuja foz estávamos, assim pelo 
nome, que já disse, da bahia da Alagóa, como pela al- 
tura dos 2o * i°, em que jazia nos mosti-asse ser o próprio 
de Lourenço Marques, que hiamos desejando); o nome 
de Santo Espirito, que claramente estava posto no outro, 
nos fez a todos cahir em erro de cuidar que elle era, 
onde levávamos propósito de parar, e esperávamos achar 
navio. D 

Fica pois fora de duvida : 

1.° Que a hahia da Alagôa he a pro[>ria bahia de Lou- 
renço Marques (28). 

2.° Que hum dos três grandes rios, que nella entrâo, 
a saber o do meio, he também o próprio rio de Lourenço 



alguma pequena differença. « Faz o mar (diz o escriptor) nestas terras 
do Inliaca Imma grande bailia de íi) ou 20 léguas de comprido, e 
a partes pouco menos de largo: e nella esbocão quatro grandes rios, 
pelos quaes entra a maré 10 e 12 léguas. O primeiro, da parte do 
sul, se chama Melengana, ou Zembe, que divide as terras de hum 
Rei assim chamado, das do Inhaca. O segundo, Ansate, e dos nossos 
de Santo Espirito, ou de Lourenço Marques, que primeiro descobrio 
nelle o resgate do marfim, de quem tomou a hahia o nome. O tere.eiro. 
Fumo, por passar pelas terras de hum Senhor deste nome : e o quarto, 
e ultimo do Manhiça, que he da parte do norte. Fica na boca desta 
bahia (a qual a lugares tem 14 e lo braças de fundo), junto da sua 
ponta austral huma ilha grande de três léguas de circuito, a qual 
faz nella duas entradas, huma pela parte do nordeste, de 7 ou 8 lé- 
guas de largo, e outra do sul, estreita, e de pouca distancia. Chamão 
os nossos a esta ilha do Inhaca, e nella traz o Rei muito gado, pela 
abundância do seu pasto. De huma ponta desta ilha faz o mar huma 
ilheta, á qual se passa de baixamar com a agua pelo joelho : tem 
de altura 2o° e 40', e chamão-lhe hoje dos Portuguezes, pelos muitos 
que nella estão enterrados, dos que .se salvarão da náo S. Thomé», &c. 
(28) Mr. Aynès a denota na sua carta com este mesmo nome «7?. 
de Laurent Marques». 



215 

Marques, arrumado nas nossas cartas antigas mais exactas 
em 25° e 15' de latitude austral (á9). 

3." Que este rio era conhecido nas cartas Poriuguezas, 
anteriores ao descobrimento de Lourenço Marques, pelo 
nome de r.io da Alagòa. Que depois teve o nome Santo 
Espirito, imposto pelo descobridor, como nos informa 
lium escriptor antigo, dizendo: « /??o da Alagôa, que 
agora se chama do Espirito Santo, o qual nome lhe pôz 
Lourenço Marques seu descobridor y> (30). E que final- 
mente se ficou chamando também 7Ío de Lourenço Mar- 
ques. De maneira que rio da Alagôa (nas cartas ante- 
riores aos annos 1545), rio do Santo Espirito, e rio de 
Lourenço Marques são três nomes do mesmo rio. 



(29) Não so deve confundir com este rio o hahia da Atagóa outra 
bailia do mesmo nome, notada pelos geógrafos muito mais ao sul, om 
quasi 33", e designada por I^inkrrfon ('om a palavra errada "Al()(')a». 

(30) Manoel Corrêa, nos Commentarios aos Lusíadas de Camões. 



NOTA SOBRE O TIBET 



^ Anno de 1624 

Tendo notado no nosso índice Chrotiologico ao anno 
1624 o moderno descobrimento do Tibet, não podemos 
deixar de ler com alguma admiração as palavras de Mr. la 
Croix, que na sua Geografia mndrrna, da edição de 1777, 
no artigo em que trata da Tartaria independente, falando 
do Tibet, diz assim: 

«O Tibet he hum grande paiz. que Mr. De Tlsle come- 
çou a fazer apparecer nas nossas cartas, e que antes 
delle não era conhecido. » 

Se este escriptor geógrafo quiz falar precisamente das 
Cartas Francezas, não lhe impugnaremos a primeira 
parte da sua proposição, pois não temos presente al- 
guma daquellas cartas, anterior aos annos de 1699, em 
que apparecêrão as primeiras de Mr. De Tlsle. He porém 
fora de duvida, que o Tibet era conhecido, notado nas 
cartas geográficas, e viajado e explorado muito tempo 
antes de Mr. De Tlsle. 

1.° Marco Paulo, que fez as suas viagens pelos fins do 
século xni, e princípios do século xiv, fala da província 



217 

do Tibet, notando, que se compunha de oito reinos, e que 
produzia ouro, espécies, huma bella raça de cães, e ex- 
cellentes falcões (31). 

2." Do B. Odorico do Friul, Frade menor, que viajou 
ao Oriente nos princípios áo século xiv, consta, que sa- 
tiindo em 1314, com licença de seus superiores, a annun- 
ciar o Evangelho nas mais remotas regiões da Ásia, em- 
barcara no Mar Negro, passara a Trapizonda, á Arménia 
Maior, a Tauris, e Sultania, d'onde viera a Ormuz; e que 
embarcando-se ahi novamente, visitara o Malabar, o cabo 
Comori, as ilhas de Ceilão, e Java, e que finalmente pe- 
netrara na China, e no Tibet, aonde achara outros Frades 
da sua Ordem, e muitos Christãosrecem-convertidos, vol- 
tando em 1330 â Itaha, depois de dezeseis annos de pro- 
lixa peregrinação (32). 

3.° Gcmma Frisio, nas Addições á Cosmografia de Pe- 
dro ApiaiiOy impressas em 1575, na part. 2.% foi. 47, 
tratando das províncias e cidades do Oriente, denota os 
reinos e cidades da provimia de Mangi, e logo o Tibet, 
provinda e cidade. 

4.° Ortelio no seu Theatr. Orh. ferrar., impresso em 
1612, mais de oitenta annos antes de Mr. De Tlsle, na 
taboa 3.^^ da Ásia. demarca o Tibet cidade, e com letras 
maiúsculas THIBET, província, ou reino. 

Por onde jcá se vê, que o Tibet era conhecido, e apon- 
tado nas cartas geográficas, muito antes da época a que 
Mr. la Croix attribue esta novidade. 



(31) Pinkerton. Geografia moderna. 

Ratnusio, no vol. 2." da Collecç.ão de navefiações e viagens, diz 
<\\\o M;irco Paulo desde 1270 esteve ao serviço de Cublai. Kan de 
toda a Tartaiia (lliiiia c Tihet, e deste diz: «Que os de Tibet tem 
linc;ua própria, e perfencpiii á província de Tihet, que conlina com 
Mangi. Esta dita província está sujeita ao Gran-Kan. 

(.32) Bollnnd. Act. SS., 14 de Janeiro; Fleurí, Historia ecclesias- 
tica. liv. 94.", § 7." 



218 

Deixando ora as mais antigas noticias do Tibet, que só 
por si baslarião para desmentir o que diz o geógrafo Fran- 
cez: bem sabido he, que no anno de I62i, mais de se- 
tenta annos antes que apparecessem as primeiras cartas 
de Mr. De l'Isle, foi aquelle celebre paiz visitado, e explo- 
rado pelos Portuguezes, como dissemos summariamente 
no nosso Indicp ao referido anno. 

O Padre António de Andrade, Jesuita Portuguez, natu- 
ral da \illa de Oleiros, na comarca do Crato, foi o que 
emprendeo e executou esta diíScil empreza. 

Sendo este religioso varão mandado ás missões do 
Oriente, e estando a governar o coUegio do Mogor, re- 
solveo hir visitar a chrisíandade do Tibet, de que muito 
se falava, e aonde os Portuguezes não havião ainda pe- 
netrado. 

Partio effectivamente com este desígnio no anno de 
1624, e depois de mui longa, e trabalhosa peregrinação, 
entrou em Capar anga, corte daquelle reino. Vindo de- 
pois a Gôa buscar novos operários, que o ajudassem na 
missão, que já com grande fructo deixava plantada, vol- 
tou ao Tihet em 1626. Tornou ainda a Gôa, e querendo 
terceira vez repetir a viagem ao Tibet, os seus lhe emba- 
raçarão este pio intento, e o nomearão Provincial da pro- 
víncia de Gôa, aonde falleceo a 19 de Março de 1634, aos 
cincoenta e três annos de sua idade. Depois da sua morte 
^e estampou o seu retrato com esta inscripção: 

P. ANTON. DE ANDRADE, SOCIETAT. JESU, PROVINCIAE 
" GOANAE XVII. PROVINCIALIS, MISSIONIS THIBETENSIS PRIMUS 
EXPLORATOR, ET PUNDATOR, OBIIT AN. DOM. 1634. 

Escreveo o Padre Andrade a Relação da sua viagem, 
que logo sahio á luz com o titulo: 

Novo descobrimento do Gran-Catayo, ou dos reinos do 
Tibet. Lisboa, 1626, 4.'' 

E foi traduzida em Castelhano, Italiano, Flamengo, Po- 
laco, de. Delia extrahio Theodoro Rhay, Jesuita, natural 



219 

da cidade de Rees no ducado de Cleves, parte das noti- 
cias, que se lêem na sua Descrípção do reino do Tibet, 
escripta em lingua Latina, e impressa em Paderborn, no 
anno de 1658, em.4.° 

Escreveo mais o mesmo Padre António de Andrade: 

Carta, em que relata como voltou ao Tibet a 15 de 
Agosto de 1626. 

A qual parece ter sido impressa em 1628, e traduzida, 
ou dada por extracto em Francez com o titulo: 

Histoire de ce qiii s'est passe au royaume de Tibet en 
Vannée 1626. Paris, 1629, em 8.° 

Em Roma se imprimirão também no anno de 1828: 

Lettere annue dei Tibet, dei 1626, e delia China dei 
1624, scritte ai P. Muzio Vitelleschi. 

As quaes vem commemoradas no Additamento d His- 
toria Ecclesiastica, de Natal Alexandre, aonde se trata 
dos progressos do Christianismo no Oriente, durante os 
séculos XVII e xviii. 

Finalmente, tanto a Relação, como a Carta do Padre 
Andrade forão novamente estampadas no tom. 4.° da 
ImageM da Virtude em, o Noviciado da Companhia de 
Jesus na corte de Lisboa, impresso em 1717, nocap. 31.°, 
a pag. 375 e 400. 

Acrescentemos ainda, que Fr. Jacintho de Deos, na sua 
Historia da província da Madre de Deos dos Capuchos de 
Gôa, que intitulou Vergel de plantas e flores, á-c, escripta 
pelos annos 1679, c impressa em Lisboa em 1690, in foi., 
descrevendo o império da China, e os vários nomes com 
que era nomeado, diz : 

«O reino de Tumet, ou Tibet, que cerca muita parte das 
províncias de Xancij, e o reino de Unzagué, que confina 
com a província de Sic-choen, corrupto o nome Kitat/, 
dizem Catay. Os mercadores, que do Indostnn, o outros 
reinos da índia vem a este, lhe chnmão Caiai/o. ITaqui 
fica bem claro, que o reino de Catayo, de que o Padre 



2^20 

António de Andrade fala na sua Relação, he China, que 
em grande parte confina com o reino de TibetD. 

De tudo o que até agora temos dito se segue: 

1.° Que o Tibet era conhecido muito antes de M. De 
risle. 

2.° Que já desde o século xiv tinha sido notado pelos 
viajantes e geógrafos. 

3." Que ficou muito mais determinado, e conhecido, 
desde o anno 1624, pelas indagações, e escriptos do Pa- 
dre António de Andrade, Portuguez, os quaes sendo logo 
espalhados em differentes línguas por toda a Europa, não 
devião ser ignorados por hum geógrafo de profissão, como 
Mr. la Croix. 

4." Finalmente, que procedeo com mais justiça Pin- 
kerton, quando no seu Compendio de Geografia moderna, 
edição de 1811, reconheceo que aforão os Portuguezes 
os primeiros, que penetrarão nos vastos paizes do Tibet, 
os quaes (diz) nos não são ainda conhecidos, senão muito 
imperfeitamente y> . 



MEMORIA 

SOBRE AS VIAGENS DOS POETUGUEZES Á ÍNDIA 

POR TERRA, E AO INTERIOR DE AFRICA 

DESDE OS princípios DO SÉCULO XV 



Sund quorum ingenium nova tantum crustula promit ; 
Nequaquam satis ín re una consumere curam. 

HORAT., liv, 2.», saU 4.» 



I 



Anno de 1839. 



MEMORIA 

SOBRE AS VIAGENS DOS PORTUGUEZES Á ÍNDIA 

POR TERRA, E AO INTERIOR DE AFRICA 

DESDE OS princípios DO SÉCULO XV 



El-Rei D. João II, inspirado pelo seu grande animo, e 
não vulgar instrucção, e munido dos planos, informações, 
e notas de seu tio o immortal Infante D. Henrique, logo 
que subio ao throno de Portugal em 1481, tomou tanto 
a peito o descobrimçnto da índia e terras orientaes, como 
he constante da historia do seu reinado : e não se conten- 
tando de continuar as emprezas marítimas na costa Occi- 
dental de Africa, que originariamente se dirigião áquelle 
fim, resolveo mandar por terra viajantes exploradores, 
que trabalhassem por descobrir aquelias apartadas re- 
giões, e por se instruir da situação das terras, das suas 
producções, do seu commercio, e dos caminhos por onde 
os Portuguezes poderião a ellas conduzir-se, e finalmente 
de tudo quanto fosse em utilidade do piano geral, cuja 
execução se havia emprendido, e elle desejava concluir. 

Havia na Euroi)a desde o século xu a idéa vaga e con- 
fusa de hum Príncipe mui poderoso daquelle oriente, que 
seguia e professava a religião Christãa, e que se designava 
commummente com o nome de Preste João. 

O primeiro, que parece haver trazido á Europa a noti- 



cia deste potentado, foi hum Bispo da Syria, que vindo 
pelos annos de 1145 implorar a protecção do Papa Eu- 
génio III, falava de hum Príncipe Chrístão, nestoríano, 
chamado Preste João, que reinava no oiiente, o qual ti- 
nha alcançado algumas victorias contra os Persas, e não 
duvidaria vir em auxilio dos Christãos de Jerusalém con- 
tra os infleis (1). 

No século seguinte, e no anno de 1:237, escrevia o Prior 
dos frades pregadores da Terra Santa ao Papa Gregório IX, 
referindo-lhe os serviços, que os seus religiosos tinhão feito 
ao Christianismo em diííerentes regiíjes da Ásia, e nesta 
carta dizia entre outras cousas: iTetnos recebido muitas 
cartas do Patriarcha nestoriano, a quem obedece a grande 
Índia, o reino do Preste João, e as terras visinhas do 
oriente », onde vemos o nome do Preste João unido ao da 
grande índia, e descobrimos a razão provável porque de- 
pois se foi dando áqueile tão nomeado, e tão inculcado 
Príncipe a denominação de Preste João das índias. 

No século XIV forão muitas as expediçíjes de missioná- 
rios Christãos, mandados pelos SummosPontiíices á Pér- 
sia, á Tartaria, á China, e a outras terras orientaes, os 
quaes todos fizerão não pequenos serviços ao Christia- 
nismo naquellas remotas regiões, chegando a fundar es- 
tabelecimentos religiosos em Cambalu, e Caiton na China 
septemtrional, em Vsbeck, em Sultania, em Ceilão, na 
Java, ác. E postoque nas Relações destes missionários, 
ou nas memorias, que delles, e dos seus trabalhos nos 
tem dado os escriptores ecclesiasticos, não achamos ex- 
pressamente repetido o nome de Preste João, he comtudo 

(1) Fleuri, Historia Ecclesiastica, liv. 69.°, § 10.», ao anno 1145. 
Natal Alexandre também menciona huma carta do Papa Alexan- 
dre III, escripta em 1177, e dirigida «illnsíri et magnifico Indorum 
Regi, sacerdotnm sunctissimo», &c., e diz o historiador que era en- 
dereçada « Oto Rei dos Ethiopes, a quem chamámos Preste João » ; esta 
carta vem na CoUeccão de Concílios do Padre Labbe, no tom. 10." 



verosímil que elle se conservasse junlo com a lembrança 
das primeiras, e mais anti.i^as noticias; e como por outra 
parle constava, (jue em alguns daquelles paizes se encon- 
travão Christãos da seita, ou rito nestoriano, fácil era ligar 
6 confundir estas idéas, que a ignoranc|p da geografia não 
permittia ainda rectificar, e apurar (2). 

Ainda no século xv, pelos annos de 1 46 1 , se faz menção 
de certos Legados orientaes, que tendo vindo a Itália solli- 
citar do Santo Padre Pio II auxilio contra os Turcos, pas- 
sarão a França a empenhar o Rei Carlos VII em seu favor, 
sendo acompanhados de hum, que se dizia prelado dos 
frades menores, e talvez tomava o titulo de Patriarcha 
de Antioquia, nomeando-se Orador, ou Legado do Preste 
João. A enfermidade de Carlos VII, de que logo falleceo, 
não permittio que estes Legados fossem por elle ouvidos; 
e o Santo Padre tendo entretanto podido averiguar que 
erão insignes impostores, mandava reter em Veneza o 
falso Patriarcha, que houve por bem retirar-se a tempo 
com os seus companheiros. 

Este facto, bem como os precedentes, mostra quanto 
na Europa era aci'editada desde antigos tempos a exis- 
tência do Preste João, isto he, de hum Príncipe Christão, 
muito poderoso, que reinava na índia, ou nos paizes orien- 
taes: crença que nUio nasceo da ignorância dos Porlugue- 

(2) No Atlas em lonjna Cuddãa, delineado, e escriplo cm 1374, 
e publicado de liuiii exemplar da Bihliotheca do Rei de França pelo 
Sr. J. A. C. Buchon, no anno passado de 1838, se vô entre as duas 
palavras «Affricha» e «Núbia» a figura de hum Jujperador coroado, 
com sceplro na mão, e ao lado a legenda «... de Sarrayus, ciutat 
do .. . est . .. de Niibia. Está toa íemps en (fiierra e av^nes con eres- 
tiana de Nidiin, qni f.on so sripioria de l'ei)ipei-adur de Etiópia de la 
terra do jireste Joiínv »: isto lie «... de Sarracenos, cidade do ... 
est . .. da Núbia. Está sempre em guerru e armas com (christãos da 
Núbia, que estão debaixo do senJwrio do Imperador de Etlnopia, da 
terra do Preste João-. Nova prova do (|ue vamos dizendo sobre a 
antiguidade do nome do Preste João na Kuropa. 

TOMO V l."i 



226 

zes, como dizem alguns ignorantes, ou mal intencionados 
escriptores estrangeiros; mas que tinha tido a sua pri- 
meira origem nas antigas relações, e que foi recebida em 
outros paizes antes que chegasse a Portugal. 

El-Rei D. João li pois, dirigido nesta parle pelas idéas, 
que erão communs em toda a Europa, e sempre possuido 
do grande pensamento de descobrir a índia, desejava 
muito abrir alguma communicação com aquelle Príncipe, 
confiando que elle, pela qualidade de Christão, se pres- 
taria a huma fácil e amigável correspondência; e como 
senhor de grandes eslados na índia, não só traria consi- 
deráveis interesses ao commercio dos Portuguezes, mas 
também concorreria para que elles viessem a conhecer o 
melhor, mais breve, e mais seguro caminho marítimo 
para aquellas partes, que ha tantos annos buscavão com 
incríveis trabalhos e despezas, e não menor constância e 
perseverança. 

Quando el-Rei volvia em seu espiríto estes pensamentos, 
occorreo hum accidente, que parecia confirmal-os e favo- 
recel-os. 

Çacuta, ou Zacuta, mandado a Lisboa como Embai- 
xador do Rei de Beni, informou a el-Rei, que além do 
seu paiz, cousa de duzentas e cincoenta léguas para o 
oriente, havia hum Príncipe mui poderoso, denominado 
Ogané, de cuja suzerania era dependente o Rei de Beni: 
e taes circumstancias acrescentava, e de tal modo des- 
crevia os ritos, e o ceremonial, de que usava aquelle po- 
tentado, que el-Rei combinando tudo isto com as idéas 
que havia do Prp.ste João, facilmente começou a presu- 
mir, que podería ser este o próprio Príncipe, e resolveo 
não poupar diligencia alguma para veríficar a sua conje- 
ctura, ou presentimenlo (3). 

(3) Huma das circumstancias, com que Çamta descrevia o cere- 
monial daquelle mysterioso Principe, era que não se deixava ver 
dos sexis vassallos, ouvindo-os de dentro de cortinas, e amostrando- 



227 

No anno pois de 1486, ao mesmo tempo que mandava 
o illustre e intrépido navegador Barlliolomeu Dias ao des- 
cobrimento do grande cabo meridional de Africa, lhe dava 
ordem, que nas terras, que fosse descobrindo, lançasse 
certos negros e negras, que comsigo levava, já industria- 
dos, para que por elles chegasse d noticia do Preste João 
este desejo, que el-Rei tinha de o conhecer, e ter com elle 
amizade (Barros, dec l.'\ liv. 3.°, cap. 4.°). E não con- 
tente o grande Principe com estas providencias, que mal 
satisfazião a sua incessante e ardente curiosidade, despa- 
chava também por terra vários outros viajantes, ordenan- 
do-lhes, que por via do Cairo ou de Jerusalém, que erão 
pontos então mui conhecidos e frequentados, tentassem 
penetrar até á corte do Preste João, e haver as informa- 
ções e noticias, que tanto se desejavão. 

lhes, quando muito, hum pé. (Barros, dec. 1.", liv. 3.", cap. 4.°) Esta 
mesma circumstancia notou Kuito depois, como própria do Rei dos 
Abexis, o illustre Castro no Roteiro do mar roxo, aonde tratando 
dos costumes daquelies povos diz : « He ordenança dos Reys nam se 
averem de amostrar a seu povo, e passam muitos annos, que nam 
sam vistos. Quando quer que vão á guerra, ou caminham, levam per 
derrador de si taes impedimentos, que nam podem ser notados de al- 
guma pessoa». O que porém nos parece ainda mais notável a este 
respeito he o que lemos na viagem do douto, e celebre viajante 
Árabe Ben-Batuta, que visitando as terras interiores de Africa pelo 
meio do século xiv, e falando do paiz de Barnu, cujos habitantes 
erão Musulmanos, diz que «tinhõo hum Rei, por nome Edris, o qual 
não apparecia á gente, nem falava senão por detraz de huma cor- 
tina». Aproveitaremos ainda esta nota para dizer que o Principe 
Ogané, assim denominado nas Relações Portuguezps, segundo a in- 
formação do Embaixador de Beiíi, nos parece ter alguma semelliança 
com o Rei de Organa, de que faz menção o Atlas Catalão, acima 
citado. Nello se denota no interior de Africa hum rio, a que chama 
Nilo (o NigerfJ : por baixo se lê <( Núbia», « Organa ». e abaixo da 
palavra Organa esta nota: «Aqui reina o Rei de Organa, sarraceno, 
que tem continua guerra com os sai'racenos marítimos, e com outros 
ularabes (alarahps), ou occidcntaes». (Vej. Notice snr un Atlas en 
Uingue cutalane, &c., por Mr. Buchon, Paris, 1838, em 4,°) 



228 

Hum escriptor nosso antigo menciona como primeiro 
entre estes viajantes hum religioso por nome Fr. António 
de Lisboa, acompanhado de outro frade leigo; mas logo 
adverte, que elles não chegarão a passar de Jerusalém, 
por não falarem a lingua arábica. E Damião de Góes, na 
Chronica de el-Rei D. Manoel, part. 3.*, cap. 58.°, depois 
de dizer, que el-Rei D. João II mandara por algumas ve- 
zesj, c em diversos tempos, homens que sabião a lingua 
arábica, somente refere por seus nomes Afonso de Paiva, 
natural de Castello Branco, e João Perez da Covilhãa (4), 
que são com effeito os que mais famosos se fizerão nestas 
expedições terrestres, destinadas a explorar os paizes 
orientaes, e a se informarem do Preste João das índias. 

Ainda que os nossos escriptores não são perfeitamente 
uniformes em designar o anno, em que os viajantes sa- 
iiírão de Portugal para esta importante commissão, temos 
comtudo por quasi certo, que el-Rei os despachou, es- 
tando em Santarém, a 7 de Maio de 1487, sendo então 
presente ao despacho o Duque de Beja D. iManoel, que 
depois foi Rei. Esta he a data seguida por Castanheda, 
Barros, e outros. 

Os viajantes forão por terra até Nápoles, e embarcando 
ahi a 24 de Junho, dia de S. João Baptista, navegarão para 
Rhodes, aonde forão bem acolhidos de Fr. Fernando, e 
Fr. Gonçalo (que alguns nomèão Fernam Gonsalves, e 
Gonçalo Pimenta), cavalleiros Portuguezes da Ordem de 
S. João de Jerusalém, que ao tempo residião naquella ilha. 

De Rhodes passarão a Alexandria, e logo ao Cairo; e 
como achassem opporluna companhia nas cáfilas de Fez 
e Tremecêm, assentarão aproveitar-se delia, e viajarão 

(4) Alguns escriptores dão a este segundo viajante o nome de 
Pêro, ou Pedro da Covilhãa; mas ha nisto equivocação, segundo 
parece; porque Rezende, auctor contemporâneo, Góes, e outros, o 
chamão João, ou João Perez, e he provável que o sobrenome pa- 
troiiimico Perez desse occasião ao erro. 



229 

como mercadores para Tor sobre o golfo arábico, d'onde 
passarão a Çuaquêm, na costa da Ethiopia sob o Egypto, 
6 ultimamente a Adem, havendo alii por conveniente, na 
conformidade de suas instrucções, separar-se, e tomar 
cada hum delles differente direcção. 

Resolverão portanto, que Paiva se dirigisse â Ethiopia, 
que parecia ser a região designada pelas informações de 
Beni e Congo, e aonde se dizia existir hum grande Rei 
Christão, que poderia ser o Príncipe que procuravão; e 
que Covilhãa partisse em direitura á índia, ajustando por 
ultimo que se reunirião no Cairo depois de certo tempo 
determinado. 

Affonso de Paiva chegou com effeito a entrar em terras 
da Ethiopia. O Covilhãa passou ao golfo Pérsico, d'onde 
navegando para a costa da índia, visitou Cananor, Calecut, 
Gôa, e toda a costa Malabarica. Veio a Çofala, voltou a 
Adem, e recolhendo-se ao Cairo no tempo aprazado, 
achou a noticia de ter ali fallecido o seu companheiro 
Paiva, quando já voltava da Abyssinia. 

Emquanto estes dous viajantes procuravão desempe- 
nhar a sua árdua commissão, não cessava el-Rei de em- 
pregar novos e opportunos meios de assegurar cada vez 
mais o seu effeito: e com este presupposto despachou 
os dous Hebreos Rabbi Abraham de Beja, e José de La- 
mego com cartas suas para Paiva, e Covilhãa, endereçadas 
ao Cairo. Covilhãa os veio effectivamente encontrar ahi, e 
recebendo as cartas de el-Rei, lhe responden logo por José 
de Lamego, referindo tudo o que até então tinha visto e 
observado; participando a noticia da morte do seu com- 
panheiro; e dizendo, que se podia navegar para a índia 
pelo Oceano, o íjuo o PrfíHc João não podia ser outro 
que o Im[)('ra(lor da Ethiopia, segundo as informações 
que tinha podido coUigir: e ainda alguns acrescentão (não 
sem verosimilhança) (jue clle mandáia a el-Rei huma carta 
daquelles mares orienlaes entre a índia e a costa Africana. 



230 

Como porém el-Rei ordenava, que de nenhum modo vol- 
tassem a Portugal sem visitar Ormuz, e sem iiaver alguma 
certeza do Preste, o Covilhãa se pôz de novo a caminho 
com Rabbi Abraham para Adem: d'alii passou a Ormuz, 
voltou ao golfo Arábico, visitou Mecca, Monte Sinai, Thor, 
e depois Zeila; d'onde por terra penetrou emfim até á 
corte do Abexi (1490), e entregou ao Príncipe, que então 
ali reinava, e se chamava Escander (Alexandre) as cartas 
de el-Rei D. João, e hum mappa, em que estavão deli- 
neadas as nossas navegações. Em Ormuz se tinha Covilhãa 
apartado do seu companheiro Rabbi Abraham, confiando- 
lhe segundas cartas para el-Rei. 

Parece que a fortuna se comprazia de favorecer os 
projectos, e animar as esperanças de el-Rei de Portugal! 
Como elle tinha no mediterrâneo, em diíferentes portos 
do Levante, pessoas encarregadas de lhe participarem 
quaesquer noticias, que se podessem obter do Preste 
João, e das terras da índia, aconteceo, que vindo por 
aquelle mesmo tempo a Roma, e estando no coUegio de 
Santo Estevão dos Indianos hum sacerdote Ethiope, por 
nome Lucas Marcos, o Santo Padre ínnocencio VIII o en- 
viou a el-Rei, o qual não só o recebeo, e ouvio com grande 
contentamento, e alvoroço, mas também por elle escreveo 
novas cartas ao Imperador Abexi, fazendo que elle mesmo 
escrevesse outras por quatro differentes vias, nas quaes 
todas se annunciava áquelle Piincii)e o ardente desejo que 
el-Rei de Portugal tinha da sua amizade e communicação; 
se lhe recommendava e pedia que recebesse benignamente 
o Embaixador que de Portugal lhe tinha sido enviado; e 
se lhe indicava a via do Cairo, Jerusalém, ou Roma para 
reciproca correspondência, até que Deos abrisse outro 
mais directo, e mais fácil caminho. 

O Paiva falleceo no Cairo, como já vimos. O Covilhãa 
não voltou a Portugal; porque estando já para isso des- 
pachado por Escander, e fallecendo este antes que Co- 



231 

vilhãa podesse realisar a sabida, Nau, ou Naut, que suo- 
cedeo no tlirono, lhe denegou consta[it(3menle licença 
para sahir do império, e o mesmo fez David, que succe- 
deo a Naut, adoçando comtudo a Covilhãa as saudades 
da pátria com lhe fazer amplas mercês, e donativos. Pelo 
que, cazou-se Covilhãa na Abyssinia (diz Góes), e teve 
filhos, e filhas. 

Com eífeito pelos nossos escriptores nos consta, que 
quando o grande Albuquerque embocou o estreito do 
golfo Arábico em 1506, ainda o Covilhãa vivia nas terras 
daquelle império: e quando o Embaixador do Abexi, Mat- 
theus, chegou a Gôa no anno de 1512 para vir a Portugal, 
dizia, que na Abyssinia existião três Portuguezes, hum cha- 
mado João, que havia muito tempo linha sido mandado 
por hum Rei de Portugal (e este era sem duvida o nosso 
João Perez da Covilhãa, mandado por el-Rei D. João II 
vinte e seis annos antes), e outros doas que de pouco ti- 
nhão lá chegado, e serião certamente alguns daquelles, 
que os Capitães Portuguezes lançavão em terra em certas 
paragens, com ordem de penetrarem ao interior, quanto 
lhes fosse possível, a fim de poderem depois dar informa- 
ção do que tivessem observado. Ainda no anno de 1526, 
em que o Padre Francisco Alvarez sábio da Ethiopia com 
D. Rodrigo de Lima, parece que lá existia o Covilhãa; e 
finalmente no anno de 1559 achamos menção de hum 
Álvaro da Costa Covilhãa, que vivia na Abyssinia, e seria 
provavelmente algum dos filhos do nosso viajante. 

Taes são as noticias, que desta importante viagem (5) 

(5) Não podemos escusar-nos á satisfação de copiar nesta nota 
as palavras de hum douto e sincero escriplor iM-ancez a respeito da 
viagem, de que temos tratado. He Mr. PouqueviMe, que na Memoria 
histórica c diplomática sobre o commercio e estabelecimentos Fran- 
cezes no Levante, &c., anno 1827, lalando da época da tomada de 
Constantinopla por Maliomct lí, diz assim: «Até então tinha o Me- 
diterrâneo sido o centro da navegação do mundo; mas a Providen- 



232 

ficarão em nossas historias, e que aqui quizemos ajuntar 
para commodidade dos leitores, confiando que se nos re- 
levará descermos talvez a miudezas e particularidades, 
que podem hoje parecer de pouco interesse, mas que 
acreditão, e recommendão o discernimento, o zelo, e 
a constância, com que os Reis Portuguezes procurarão 
lançar os fundamentos ao magnifico edifício de gloria, e 
de grandeza, a que depois se elevou o império lusitano- 
oriental. 

El-Rei D. João II ao mesmo passo que com tanta dili- 
gencia, e grandes despezas da sua fazenda (6) mandava 
explorar as terras orientaes, também se não descuidava 
de fazer examinar o interior de Africa, tanto para adquirir 
conhecimento das producções do paiz, e dos costumes 
das gentes, como para aproveitar as utilidades do com- 



cia permittio emfim, que os homens descobrissem mais vasto campo, 
om que podessem dar ala ao seu génio, e á sua coragem. Os estados, 
que com mais perseverança se havião dado ás viagens longinquas, 
he que devião obter a gloria de abrir e franquear o caminho. Os 
Portuguezes merecerão esta honra, dobrando o cabo da Boa Espe- 
rança. Hum anno depois deste memorável descobrimento, Pedro de 
Covilhâa e AÍTonso de Paiva mandados por el-Rei de Portugal a re- 
conhecer, hum, os estados do Preste João, que se chamavão Índia, e 
o outro as terras donde rinha a especiaria, partirão a executar hunia 
das missões mais vastas, que jamais se havião concebido. Levavão 
elles ordem de se informarem, se era possível a navegação desde o 
cabo da Boa Esperança até ás índias orientaes, e de se instruir de 
tudo o que podesS(> ser ufil an comiiiercio. Chegados a Tor, aonde 
se separarão, Covilhâa embarcou, e foi o primeiro Portuguez que 
navegou os mares da índia, ao mesmo tempo que Paiva se dirigia 
á Ethiopia, tendo ambos ajustado entre si reunirem-se ]io Cairo de 
volta de suas viagens. Emquanto estes exploradores desempenhavão 
a sua perigosa commissão, Cliristovão Colombo descobria a Ame- 
rica», &c. 

(6) Rezende, na Vida de D. João II, cap. 60.", falando da viagem 
do Paiva e Covilhâa, acrescenta: 'E depois delles forão outros, com 
muitas despezas, que el-Rei nisso fez». 



233 

mercio, e levar áquelles povos rudes e bárbaros a luz do 
Evangelho, e com ella os benefícios da civilisação. 

Alguns escripiores estrangeiros, que ignorão, ou fin- 
gem ignorar os factos da nossa historia, atreverão-se a 
dizer, que os Portiiguezes nunca tiverão o pensamento 
de inspirar aos Africanos alguma idra moral. Esta pro- 
posição he huma insigne, e calumniosa falsidade, des- 
mentida por toda a historia dos nossos descobrimentos 
e conquistas, e filha, ao que parece, do baixo ciúme com 
que os estrangeiros, em geral, tem considerado, e ainda 
hoje considerão a superior gloria, que naquelles tempos 
adquirimos. Nós refutaremos em outra nota a injuriosa 
accusação, que nisto se nos quer fazer. Aqui somente tra- 
tamos de recolher as escassas idéas que ainda achamos 
nos escriptores nacionaes sobre as indagações dos nossos 
antigos no interior de Africa, para que por ellas se veja, 
que as tentativas feitas pelos modernos com o mesmo fim, 
forão precedidas pelos Portuguezes três séculos antes, e 
que se os Portuguezes não tirarão delias maiores provei- 
tos nem para si, nem para os povos Africanos, também 
os modernos não tem sido até o presente muito mais fe- 
lices, apezar da grande aptidão e capacidade de que se 
prezão e jactão, e apezar dos multiplicados meios de que 
hoje podem ajudar-se nesta empreza, e de que os Portu- 
guezes totalmente, ou quasi lotalmente carecião no sé- 
culo XV. 

Bem natural parece que o illusti-e Infante D. Henrique 
se não esquecesse de lançar mão de hum arbítrio tão pró- 
prio para levar ao fim os seus intentos, como era o das 
viagens ao interior de Africa. Os fins principaes a que 
elle se dirigia, que cr)nsislião em trazer os ])ovos bárbaros 
á religião Cliristãa, c am[)liar ao mesmo tempo as rela- 
ções, e os interesses coninu3rciaes do reino, aconselhavão 
este meio como opportuiio. O Infaiile tinha noticia, pelas 
informações dos xMouros, das grandes feiras, que se fa- 



334 

zião em diíferentes lugares da Africa central, e não igno- 
rava o extenso commercio, que os seus habitantes en- 
tretirihão com os das costas septemtrionaes, assentadas 
sobre o mediterrâneo. Pelo que não podemos prudente- 
mente duvidar de que intentasse examinar estes objectos 
com todo o cuidado e empenho, e assim parece per- 
suadil-o tanto a embaixada que mandou a Farim, Rei de 
Cabo Verde, e a fundação da fortaleza de Arguim, como 
os estabelecimentos, que ordenou se fizessem nas mar- 
gens do Rio Grande. 

Comtudo pelo que mais directamente respeita ao nosso 
particular assumpto, a historia somente nos conservou 
lembrança do ousado Portuguez João Fernandes, homem 
de honra e confiança, e já imtruido na lingua daquelks 
povos, que voluntariamente se oífereceo ao Infante para 
hir investigar o interior do paiz dos Azenegues. Este ani- 
moso aventureiro ficou com eíTeito no Rio do Ouro, pe- 
netrou o seftão, inquirio o trafico, ritos, e costumes dos 
habitantes, e de[)()is de sete mezes de peregrinação na- 
quellas terras, mandou o Infante que Antão Gonsalves o 
fosse buscar, e conduzir ao reino, aonde com grande 
altenção e gosto ouvia as informações, que elle dava de 
tão estranhas gentes. 

El-Rei D. João II foi o que depois proseguio com mais 
constância o desempenho daquelle plano. Delle nos consta 
que entretinha frequente correspondência com alguns 
Reis, e grandes senhores do interior, e que por via do 
castello de Arguim mandava estabelecer feitoria Portu- 
gueza em Huadem (7), despachando para feitor Rodrigo 
Reinei, para escrivão Diogo Rorges, e para homem da fei- 
toria Gonçalo d'Antes. 

Sendo o mesmo Piincipe informado, que o Senegal 
corria por Tomhiiclu, e Mombarcey principaes feiras dos 

(7) Em Árabe Uâdán, ou OuMán, ou Hoden. 



235 

sertões Africanos, mandava igualmente construir huma 
fortaleza na boca daquelle rio. Nas que se fundarão na 
Mi?iaj, e no Congo não só tinha a gente necessária para 
defeza, e os feitores que havião de tratar do commercio; 
mas também designava certas pessoas, particularmente 
destinadas a fazer excursões ás terras do sertão para se 
informarem das gentes que as habitavão, dos seus usos, 
costumes, e linguagem, das producções da terra, dos 
seus commercios, ác. (8). Por outra parte os ecclesiasti- 
cos que tinhão a seu cargo a conversão dos infiéis, fazião 
também para isso, por mandado de el-Rei, entradas nas 
terras, com o que se augmentava o numero, e a certeza 
das noticias, que progressivamente se hião adquirindo 
daquelles vastos paizes (9). 

Entre as muitas pessoas encarregadas destas viagens e 
indagações, faremos aqui menção das que o illustrc Barros 
nomêa nas suas Décadas, segundo os documentos origi- 
naes, que em seu tempo existião na Gaza de Guiné e In- 

(8) Mariz, dial. 4."; cap. H.»: «E era el-Rei D. João tão humano, 
que se carteava (com os Príncipes Africanos), e os tratava particu- 
larmente, tudo porém para desço Ijrir o estado do I^reste João, e com 
elle as índias, de que tantas grandezas se publicavão pelo mundo. 
E para este seu desejo mandava também por terra, e sertão dentro 
da Ethiopia muitos Christãos, assim Portuguezes, como naturaes da 
terra, em o qual tanto se occupava, e com tanto fervor o sollicitava, 
principalmente depois que vio e gostou de muitas cousas, de que os 
esciiptores antigos não tiverão noticia, que não lhe repousava o es- 
pirito, commetlendo muitas vezes por varias partes esta grande balsa 
de Guiné, que até hoje se não deixou penetrar». 

(9) Sousa, Historia de S. Domingos, part. 2.% liv. 6.", cap. 6.°, 
falando da missão de Beni em 1486. diz : «As Memorias de nossa 
Ordem dizem que el-Rei escolheo nella sujeitos, que além das sa- 
gradas letras, erão entendidos nas n)athematicas, para que, nas horas 
que lhe vagassem da pregação, fossem inquirindo alguma noticia da 
índia pelo sertão daquellas províncias, e do grande Rei do Abexim. 
que o vulgo chamava Preste João, e havendo-a, procurassem chegar 
a elle». 



236 

dia. São pois Pêro de Évora, e Gonçalo Eanes, mandados 
por el-Rei aos Reis de Tiicurol, e de Timbiigutu. Rodrigo 
Rebello, escudeiro da caza de el-Rei, e Pêro Reinei, seu 
moço de esporas, e João Collaço, besteiro da camará, des- 
pachados com outros homens, em numero de oito, por via 
de Cantor a Mandi-mansa, hum dos mais poderosos Prín- 
cipes da província de Mandinga (10). Mem Rodriguez, e 
Pêro de Astuniga a Timbugutu, e a Temalla dos Fullos- 
Rodrígo Rebello, e João Lourenço, criados de el-Rei, e 
Vicente Annes, e João Bispo, linguas, a vários outros rei- 
nos e gentes. Por hum Abexi chamado Lucas, escreveo 
também el-Rei ao Príncipe, ou senhor dos Mòses, nome 
mui celebrado entre os negros, e que se julgava ser visi- 
nho, ou vassallo do Preste, ou da gente dos Nobis (11) : 
e pelo forte da Mina enviou mensageiros a Mahamed-ben- 
Manzugul, neto de Mussa, Rei de Songo. «E não só por 
seus naturaes (diz Barros), mas ainda por estrangeiros, 
assi como Abexis c alguns alarbes que vinhão ao castello 
de Arguim, commettia este descobrimento do sertão, por 
lhe não ficar cousa alguma por tentar. Tão occupado, e 
soUicito o trazia este negocio! Principalmente de{)ois que 
vio, e gostou de muitas cousas, de que os antigos escri- 

(10) Barros, dec. l.-'', liv. .'}.», cap. 12.": «E assi ficou desta, e 
doutras idas, que oIRey lá mandou, lanla amizade ende os nossos 
e esto Rei Mandi-mansa, que enviando eu, por razão do meu cargo 
de feitor destas cazas de Guiné e índias, o anno de 1314, a tium 
Pêro Fernandes a este reyno de Mandi-mansa, em nome de elRey 
dom João o terceiro nosso senhor, que ora reina, por razão do res- 
gate de Cantor, estimou o Rey muito este recado, (|ue llie foi dado 
da parte de elRey, dizendo que avia em hoavenlura ser-lhe enviado 
este mensageiro, porque a seu avô, que tinha o seu próprio nome 
fora enviado outro mensageiro doutro Rey dom João de Portugal. 
Tanta memoria, sem terem letras, avia entre estes barliaros das cousas 
delRei dom João». 

(11) Este senhor dos Mòses parece ser o mesmo, que no Atlas 
Catalão acima citado se diz «Mussa Rei de Melhj». 



237 

ptores não tiverão noticia, falando desta parte de Africa, 
que não lhe repousava o espirito ! E bem como hum leão 
faminto, a quem a caça se esconde, com temor delle, em 
meio de alguma grande e espinhosa balsa, a qual elle 
rodêa e commette per muitas partes, e ferido e espinhado 
das entradas e sahidas, já cançado se lança com o sentido 
e tento posto na prèa escondida, assi el-Rey commettendo 
per muitas partes e vezes esta gran balsa de Guiné, que 
té hoje se não leixou penetrar, cançado desta continuação, 
e despeza de sua fazenda, e assi de grandes cuidados que 
lhe derão os negócios do reyno, principalmente no tempo 
das traições, se leixou algum tanto repousar. . . », á-c. 

Depois do fallecimento de el-Rei D. João II, e quando 
já os Portuguezes conhecião e praticavão o caminho ma- 
rítimo da índia, e os diversos portos da costa oriental de 
Africa, nem por isso afrouxarão, antes mais insistirão, e 
se empenharão em haver conhecimento dos paizes inte- 
riores daquella parte do mundo. 

Os primeiros Capitães, mandados á índia, levavão ho- 
mens criminosos, e condemnados a graves penas, os 
quacs, por commutação delias, erão lançados em terra 
em diversas paragens, com ordem de penetrarem, quanto 
lhes fosse possível, ao interior, para depois informarem 
do que tivessem visto e observado. No Rio dos Reis, a 25° 
meridionaes, deixou o grande Vasco da Gama dous destes 
exploradores, e pouco adiante outros dous no Rio dos 
Bons Signaes. Cabral, á sua volta da índia, lançou outros 
dous em Mdiude, recommendando-llies que trabalhassem 
por penetrar até á Abyssinia, de que ainda não havia bem 
miúdas, e exactas informações. João da Nova (em 1501) 
achou em Quilôa hum António Fernandes, carpinteiro de 
náos, degradado, lançado em terra pelo mesmo Cabral. 
Cyde Barbudo, e Pedro Quaresma, mandados a indagar 
por toda a terra do cabo da fina Esperança até Çofala o 
lugar, e as circumslancias da [)erdição de Francisco de 



ã38 

Albuquerque, e Pedro de Mendonça, lançarão em terra 
(em 1505) dous degradados na agooda de S. Braz com 
ordem de correrem ao longo da cosia da Cafraria. Tristão 
da Canha (em i507j pôz em Melinde três homens, a sa- 
ber: hum Portuguez, por nome Fernam Gomes o Sardo 
(ou João Gomes o Jardo, segundo a ultima edição de Cas- 
tanheda), hum Mourisco Christão, chamado João Sanches, 
e hum Mouro de Tunes, por nome Cyde Mahamede, man- 
dados por el-Rei D. Manoel com cartas suas ao Imperador 
Abexi : aos quaes o bom Rei de Melinde se encarregou de 
dar aviamento para a viagem, que comtudo se não che- 
gou então a executar por embaraços supervenientes. Estes 
mesmos homens porém forão depois (em 1508) postos 
por Aílonso de Albuquerque em terra, a três léguas do 
cabo de Guardafui, com cartas suas, e por ali chegarão 
finalmente á corte de David, aonde na menoridade deste 
Principe governava por elle sua avó Helena; sendo acaso 
esta huma das causas, que determinarão os Abexis a man- 
dar o Embaixador Maltheus, que com effeito veio pouco 
depois a Portugal, a trazendo carta de Helena, avó de 
David, Precioso João, Imperador dos Elhiopes a D. Ma- 
noel Rei dos Portnguezes, escripta em 1509 y>. (Góes.) 

Seria longa esta nossa escriptura, se quizessemos men- 
cionar todas as tentativa.^, todas as diligencias, todos os 
esforços, que naquelle tempo se empregarão para ha- 
vermos conhecimento dos paizes sertanejos das vastas re- 
giões Africanas: e he por certo bem para lamentar que 
em parte algum descuido dos nossos antigos, e em parte 
a lyrannia do tempo, e as revoluções ordinárias do mundo 
nos privassem de memorias mais individuaes, com as 
quaes responderíamos hoje á vaidosa, e não menos inve- 
josa presumpção dos estrangeiros, que aproveitando-se 
porventura dos trabalhos, e escriptos dos antigos Portu- 
guezes (que elles buscão, e guardão, e arrecadão melhor 
do que nós) vem depois lançar-nos em rosto a nossa sup- 



I 



239 

posta incuriosidade, e fazer ostentação dos seus scienti- 
ficos trabalhos. 

Faremos porém ainda menção de hum projecto, ou ten- 
tativa, que foi a ultima do reinado de el-Rei D. lAíanoel, 
e que infehzmente veio a malograr-se pela prematura 
morte deste Soberano. Castanheda, e Góes nos submi- 
nistrárão esta noticia. 

Hum cavalleiro Portuguez, por nome Gregório de Qua- 
dra, que fora criado do Marquez de Villa Real, e andava 
por Capitão de hum bargantim na armada de Duarte de 
Lemos, na costa oriental de Africa, pelos annos de 1508 
el509, estando em frente de il/a^adflíco, ecortando-se-lhe 
de noute, por má vigia, a amarra do bargantim, foi levado 
com o baixel â discrição das ondas até o cabo de Guarda- 
fui, e d'ahi a Zeila, onde sendo captivado com a sua gente, 
passou ao poder do Rei de Adem, que o teve prezo por 
alguns annos. 

Posto depois em liberdade, como tivesse bem apren- 
dido a lingua Arábica, e se fingisse devoto religioso ma- 
hometano, o próprio Rei de Adem o levou a Medina, 
d'onde passou á Pérsia, e á custa de gravíssimos incom- 
modos visitou a Babylonia, Baçorá, Ormuz, e índia, vol- 
tando ultimamente a Portugal em 1520. 

Deo este Capitão tão boa conta a el-Rei D. Manoel de 
tudo o que linha visto e observado, e de tudo o que sa- 
bia da Arábia, da Ethiopia, e do grande lago, que se re- 
putava ser a origem do Nilo, do Zaire, e de outros grandes 
rios de Africa, que el-Rei o julgou capaz de executar o que 
desde muito tempo fazia objecto de seus pensamentos e 
meditações, que era descobrir o caminho do Congo para 
Ethiopia por terra, espei"ando tirar grandes proveitos da 
communicação, que se abrisse entre os dous Príncipes 
Christãos seus alliados, cujos estados tinhão portos marí- 
timos em ambas as costas occidenlal e oriental de Africa. 

Despachou pois o Capitão Quadra, e lhe deo cartas de 



240 

credito para o Rei de Congo, e instrucções sobre o que 
devia tratar com o Abexi acerca da guerra com os Turcos, 
e das fortalezas que el-Rei queria fundar nas costas do 
mar da Arábia e da Ethiopia. 

Quadra partio, e cliegando ao Congo entregou as cartas 
de el-Rei: mas logo se lhe oppozerão taes embaraços, or- 
didos pela inveja, e malevolencia dos seus próprios na- 
turaes, que elle, para os remover, se vio obrigado a vol- 
tar a Portugal, aonde achou el-Rei fallecido, concebendo 
d'aqui tal desgosto, que se resolveo a entrar em religião, 
aonde acabou seus dias em exercícios de piedade. 

El-Rei D. João III, não obstante ver-se obrigado a di- 
vidir os seus cuidados para Africa, Ásia, e America, se- 
gundo a excessiva extensão, que havião tomado os domí- 
nios, e as emprezas portuguezas nestas diversas partes 
do mundo, não se esqueceo comtudo da exploração da 
Africa interior, e no anno de 13i6, escrevendo ao Impe- 
rador da Ethiopia, e aos Portuguezes, que ainda lá exis- 
tião, e tinhão feito parte da expedição de D. Christovão 
da Gama, recommendava com encarecidas palavras, que 
por pessoas idóneas se mandasse indagar e descobrir hum 
caminho, que da Ahyssinia viesse ter á costa de Mclinde, 
ou a alguma outra parte daquella banda: e porque pôde 
ser (dizia el-Rei), que a terra do Abeai venha tanto para 
oeste, e a de Manicongo vá tanto para leste, que não seja 
grande distancia de huma terra a outra; queria, e orde- 
nava, que também se tentasse este caminho do Abexi para 
Manicongo, ou para qualquer outro rio do cabo da Boa 
Esperança para cá (12). 

(12) A carta que el-Rei escieveo ao Rei da Ahyssinia lie datada 
de Almeirim a 13 de Março de lo46, e a que Sua Alteza escreveo 
aos fidalguos, e seus criados, e gente de armas, que estarão nas terras 
do Preste, he de 13 do mesmo mez e anno. Ambas forão remettidas 
por cópia a D. João de Castro, a quem el-Rei dizia: «Porque po- 
derá ser que para virem demandar as costas, que vereis pelo tre- 



241 

Aiuda em leiíipo de el-Rei D. Sebastião, c no armo de 
1562, tomando o Cardeal Infante D. Henrique a tutoria 
de el-Rei menor, o a rcjíencia do reino, lhe apresentou 
Lourenço Pirez de Távora liuns apontamentos sobre vá- 
rios ojjjectos do governo, em hum dos quaes se recom- 
mendava o descobrimento de Tombuctu, e a escolha de 
pessoas aptas para esta empreza. 

No mesmo reinado (anno de 1569) se fez notável a ex- 
pedição de Francisco Barreto, e de seu successor Vasco 
Fernandes Homem ás terras de Monomotapa, e ás minas 
de Chicova, Rutroque, Chicanga, Maçarás, á-c. Nem foi 
menos útil para o conhecimento de huma parte da Africa 
a importante expedição (em 1574 e 1575) a que foi man- 
dado Paulo Dias de Novaes, digno descendente do intré- 
pido Bartholomeu Dias, para o descobrimento das terras 
de Angola, e fundação deste reino Portuguez, a que logo 
depois, e pelos tempos adiante acrescerão as terras de 
Benguella (em 1G17), e os vários outros presídios, e dis- 
trictos nos respectivos sertões, resultando de tudo isto 
os conhecimentos c informações, que hoje temos daquella 
parte de Africa. 

Finalmente a exploração dos sertões Africanos, e o des- 
cobrimento de hum caminho para communicação da costa 
Occidental com a oriental, estava de tal modo, e esteve 
sempre no animo, e no intento dos Portuguezes, como 
moslrão os factos, (|ue havemos indicado, e os m;ns de 
que agoi'a fazemos menção. 

No anno de iOOG o Governador de Aiiiiola D. Manoel 
Pereira Forjaz, inlcnlandu realisar aquella communica- 

lado da carta, que escrevo aos VortXKjiiezes, lhes será necessário ai- 
gúus instrumentos, e ofjulhas, e cartas de viarear, c estrelabios, lhos 
enviareis, e assy húuin reqimento do modo que teram em descobrir, 
e escrever as derrotas e alturas do que caminharem ». (Existe ;i caria 
original tlc el-I{ei a 1). João de Castio, o as (■(■|]iias (Hk; a acoiiipa- 
iiliárão, na minha Collecmo.J 

TOMO V 40 



242 

ção, nomeou para a execução do projecto a Balthazar Re- 
bello (ou Pessoa) de Aragão, homem capacissimo para a 
empreza, tanto pelo seu valor, como pelos conhecimentos 
que tinha do sertão. Elle com effeito começou a viagem, 
e tinha já penetrado ao interior, quando se vio obrigado 
a retroceder, para acudir á fortaleza de Cambambe, pouco 
antes fundada (em 1603), e ova sitiada por hum Sova vi- 
sinho, colligado com os negros da provincia do Mosseque. 

No mesmo século xvn, no anno de 1648, sendo Angola 
libertada, e limpa de Hollandezes pelo illustre Capitão Sal- 
vador Corrêa de Sá, se offerecia este a el-Rei D. Pedro II 
para hir reduzir á obediência de Poitugal o reino de Patê 
na baixa Ethiopia oriental, que se tinha rebellado, e para 
abrir commumcamo desde Cnamá e Monomotapa até An- 
gola por terra: projecto e offerecimento, que a inveja e 
a ingratidão da carte frustrou, como outras vezes tinha 
feito ao que podia parecer glorioso a este benemérito fi- 
dalgo, diz hum escriptor judicioso e contemporâneo (43). 

Entre os annos de 1676 a 1(580, tendo Ayres de Salda- 
nha de Menezes e Sousa o governo de Angola, intentou 
abril" communicação por terra até BengueUa, e de Ben- 
guella á contra- costa de Sena. E postoque para esta em- 
preza se oífereceo o Capitão José da Rosa, que logo sahio 

(13) Vem aqui a propósito, pela ordem chronologica, notar o facto 
que nos refere Mr. Jomard nas suas Remarques et recherchcs géogra- 
fiques sur le voyarje de Mr. Caillié, Sx.c. « Se exceptuarmos (diz elle) 
Leão, Mouro nascido em Granada, e os Poriuguezes de que só temos 
noticias incertas, transmittidas por Marmol, e Barros, o primeiro 
Europêo, que chegou a Tombuctu, foi o Francez Paulo Imbert, nas- 
cidc em Sables-d'Olonne, isto he, na mesma provincia que Renato 
Cailliê. A sua viagem he anterior a 1670. Elle acompanhava seu 
amo, Portuguez renegado, enviado a Tombuctu pelo Governador de 
Tafdet»: aonde achamos notável, que o douto escriptor nomeie o 
Francez Imbert como primeiro Européo, que chegou a Tombuctu, 
sem advertir que o Portuguez, amo de Imbert, naturalmente hiria 
adiante do seu criado, e entraria primeiro na cidade! 



243 

de Massangano com esse destino, encontrou tantas e taes 
diííiculdades, e tanta opposição nos Sovas que dominavão 
as terras da sua passagem, que se vio obrigado a retro- 
ceder (14). 

Em 1798, estando D. Rodrigo de Sousa Coutinho (que 
depois foi Conde de Linhares) no Ministério dos Negó- 
cios da Marinha e do .Ultramar, quiz este illustre Minis- 
tro renovar a antiga, e tantas vezes intentada empreza da 
abertura da communicação por terra entre as duas costas 
Occidental e oriental de Africa: para cuja execução de- 
signou a Francisco José de Lacerda e Almeida, Doutor 
em mathematica, nomeando-o para Governador dos Rios 

(14) Seja-nos pemiittido copiar aqui o que no anno de 1663 es- 
crevia o Padre Manoel Godinho, na importante Relação do novo ca- 
minho, que fez por terra e mar, vindo da índia para Portugal, im- 
pressa em Lisboa em 1665: «O caminho de Angola (diz elle) por 
terra á índia não he ainda descoberto, mas não deixa de ser sabido, 
e será fácil em sendo cursado : porque de Angola á lagoa Zachaf 
(que fica no sertão da Ethiopia, e tem de largo quinze léguas, sem 
até agora se lhe saber o comprimento), são menos de duzentas e cin- 
coenta léguas. Esta lagoa põem os cosmógrafos em 15° e oO'; e se- 
gundo hum mappa que vi, feito por hum Portuguez, que andou 
muitos amios pelos reinos de Monomotapa, Manica, Butua, e outros 
daquella Cafraria, fica esta lagoa não muito longe do Zimhaué, quer 
dizer, corte de Mesura, ou Marahia. Sabe delia o rio Aruui, que por 
cima do nosso forte de Téte se mette no rio Zambeze. E também o 
rio Chire, que cortando por muitas terras, e ultimamente pelas do 
Rondo, se vai ajuntar com o rio de Cuamá para baixo do Sena. Islo 
supposto, digo agora: qu3ni pretender fazer este caminho de Angola 
a Moçambique, e d'aqui á índia, atravessando o sertão da Cafraria 
deve demandar a sobredita alagôa Zachaf, e em a achando, descer 
pelos rios aos nossos fortes de Téte e Sena; destes á barra de Qui- 
limane, de Quilimane a Moçambique, &c. Que haja a tal alagôa di- 
zem-no não só os Cafres, senão Portugnezcs, que já lá chegarão, 
navegando pelos rios acima, e por falta de premio se não tem des- 
coberto até agora este caminho. As condições que devem concorrer 
em seu descobridor, o poder que ha de levar, o modo com que se 
deve haver pelas terras por que passar, disse já em outro papel, que 
se me pedio para bem do descobrimento». (Dita Relação, cap. So.") 



de Sena, d'onde devia partir a expedição. Lacerda foi 
tomar o seu governo, e havendo-se munido dos meios, 
e instrumentos necessários, e tomadas as possiveis in- 
formações e noticias dos paizes que hia percorrer, se pôz 
a caminho para o interior. Chegando porém ás terras do 
Rei Cazembe (que parece serem o ponto central entre as 
duas costas) ahi falleceo: e postoque nos últimos mo- 
mentos da vida encommendou a seus companheiros a 
continuação da empreza, elles comtudo não annuírão a 
esta recommendação, e o descobrimento ficou sem ulte- 
rior effeito (15). 

Finalmente no anno de 1807, sendo Governador e Ca- 
pitão General do reino de Angola o illustre, douto, e ze- 
loso fidalgo António de Saldanha da Gama, hoje Conde 
de Porto Santo, se realisou, de mandado delle, a primeira 
expedição de Loanda á contra-costa, a qual voltou no anno 
de 1809, trazendo a embaixada dos MoUiias, nação que já 
commerciava com Moçambi(|ue. Immediatamente enviou 
o digno Governador (Hitra expedição com ordem expressa 
de hir até Moçambique, o que effectivamente se executou, 
voltando esta segunda expedição a Loanda com cartas de 
Moçambique, estando já a governar Angola José de Oli- 
veira Barbosa (16). 

(15) Temos por noticia fidedigna, que na livraria do Sr. Conde 
de Linhares existe a Relação circunistanciada desta viagem com os 
planos, instrucções, e documentos a ella relativos. Pôde porém en- 
tretanto ver-se a obra intitulada «Considerações politicas, e commer- 
ciaes sobre os descobrimentos e possessões dos Portuguezes na Africa 
e na Ásia», por José Accursio das Neves. Lisboa, 1813, em 12. 

(16) Vej. a Memoria do Sr. Visconde da Carreira, publicada no 
«Observador Lusitano», impresso em Paris no anno de 1814. 

Na Historia da naverjação, de J. H. de Linschot, HoUandez, às 
Índias orientaes, Amsterdam, 1619, no cap. 4.°, falando o auctor de 
Moçambique diz, que das minas de Çofala não distão as de Angola 
na contra-costa mais de trezentas léguas, e que os negros de Angola 
vão muitas rezes a Çofala jior terra. 



245 

Dirá porventura alguém que todas estas noticias, (jue 
aqui temos ajuntado, são de pouco valor, c interesse, 
porque emfim ainda se não conseguirão grandes adian- 
tamentos na geografia de Africa, nem no conhecimento 
dos povos que a habitão, nem nos outros muitos objectos, 
que deverião concorrer para a civilisação de tantas nações 
barbaras, e de hum tão extenso continente. Nós o confes- 
samos com magoa; mas perguntamos ao mesmo tempo 
aos sábios estrangeiros, que nos lanção em rosto a nossa 
ignorância, e a nossa incapacidade do século xv, pergun- 
tamos, digo, se elles, que desde o fim do século xvi co- 
meçarão a apossar-se de nossas conquistas, e a despojar- 
nos do fructo dos nossos trabalhos, tem sido mais felices, 
e tem adiantado muito mais que nós no conhecimento 
da Africa interior? Elles apenas ha poucos annos poderão 
ver essa mysteriosa cidade de Tombactu tão procurada, 
tão requestada, e tão fatal aos seus indagadores. Mungo- 
Parck não chegou a entrar nella: a pintura que elle faz do 
orgulho, perfídia, e barbaridade dos Mouros das visinhan- 
ças, explica bem huma das razões por que as emprezas ao 
interior de Africa são tão difficeis, e arriscadas. O Major 
Laing, que em 1826 penetrou até Tomhuctu com a pro- 
tecção do Bachá de Tripoli, foi obrigado a sahir logo 
occultamente, e pouco depois foi assassinado pelos Fel- 
lans, horda potente e bellicosa, que reina quasi exclu- 
sivamente nos immensos desertos da Africa central. O 
Capitão Clapperton, que emprendeo a mesma viagem, 
teve igual sorte antes de chegar a ver Tomhuctu. Mr. .To- 
manl, no lugar que acima citámos, faz huma lista do (jua- 
renta c dous viajantes, que desde 1588 intentarão reco- 
nhecer os paizes da Africa interioi", o roíloclc (]uc só hum 
pequeno (c bem petiueno) numero dclles deixou de suc- 
cumbir no meio da sua carr-eiía, sendo victimas da em- 
preza a (pie se havião arrojado. 

í]oncluiiemos este assumiilo das viagens de Africa com 



246 

as palavras de hum escriptor uão suspeito: « Os Portu- 
guezes (diz Pinkerton) estabelecerão a oeste em Africa di- 
versas feitorias. . . as relações dos missionários aiigmen- 
tárão os conhecimentos da geografia Africana: comtudo 
por hum concurso de circumstancias pnrliruhires, estes 
conhecimentos tem sempre sido mui limitados, e o seu 
aperfeiçoamento tem até o presente experimentado obstá- 
culos quasi insuperáveis » . 

Estes obstáculos, estas difficuldades que o escriptor 
chama, com razão, quasi insuperáveis, tem por causas 
principaes a vasta extensão dos desertos de arêa; a al- 
tura das cadèas de montanhas; as guerras quasi conti- 
nuas, que fazem entre si as pequenas tiibus Africanas, 
mais animosas e mais feroces que as da America, e menos 
fáceis de se intimidarem á vista das armas Europêas; a 
falta de mares interiores, ou de grandes rios navegáveis, 
que offereção facilidade de levar ao centro do paiz os 
benefícios da industria, e do commercio, á-c. Demais: 
os habitantes daquellas vastíssimas legiijes são extrema- 
mente supersticiosos e tenacíssimos de suas praticas re- 
ligiosas; e nos lugares aonde o MahumetisnK» tem che- 
gado, e se tem misturado com as grosseiras superstigijes 
do paiz, participão os miseráveis habitantes dos vicios in- 
natos dos seus mestres, e não deixão de mostrar por todos 
os modos o ódio e extrema aversão que elles lhes tem 
inspiíado aos Europèos. Acresce ainda em geral, que os 
homens selvagens e bárbaros de quasi todos os paizes do 
mundo moslrão constantemente huma quasi invencível re- 
pugnância a alterarem o seu modo de viver, e a adopta- 
rem a nossa civilisação. O Christianismo inspirado pelos 
missionários das differentes nações da Europa, tem feito 
na verdade muitos Christãos, mas pode dizer-se que não 
tem feito hum só homem civihsado, que adopte os nossos 
costumes, e que viva ao nosso modo. « Os estabelecimen- 
tos Portugiiezes (diz hum iilustre Portuguez, em huma 



247 

Memoria manuscripta, falando cios nossos estabelecimen- 
tos de Africa), os estabelecimentos Portuguezes, que ali 
existem ha séculos, não tendo influído senão impei cepti- 
velmente nas povoações lisinhas, fazem desconfiar da 
possibilidade de civilisação naquella parte do globo, que 
parece destinada a ser o domicilio eterno da barbari- 
dade)^ (17). 

Em verdade, que se não fossem tantas, tão fortes, e tão 
invencíveis as causas da ignorância, em que ainda labora- 
mos a respeito das terras da Africa central, e das difficul- 
dades que se tem encontrado na sua civilisação, parece 
natural que os estrangeiros, no espaço de dous séculos e 
meio, tivessem já suprido a incapacidade dos Portugue- 
zes, e dado grandes passos na obra da civilisação dos Afri- 
canos. E comtudo ella se conserva quasi estacionaria, e 
tal (com pequenas diíferenças), qual a deixarão os Portu- 
guezes pelos fins do século xvi. 

Lancem-se os olhos a huma carta de Africa, e se contie- 
cerá logo o mui pouco que se tem adiantado na geografia 
desta parte do mur/lo. Os estabelecimentos HoUandezes, 
Inglezes, Francezes, e Dinamarquezes na costa occidental 
tem na verdade dado a estas nações, em diííerentes tem- 
pos, grandes interesses commerciaes. Com esse intento 
he que ellas se lançarão á porfia bumas sobre outras, e 
todas sobre os Portuguezes, cuja riqueza desabava o seu 
ciúme, e a sua cobiça. A civilisação dos povos indígenas 
do interior era então objecto mui secuiidaiio para os go- 
vernos dessas nações: e quando ha pouco mais de meio 
século começarão a tomar mais a peito esse objecto, en- 
contiárão logo, e tem continuado a encontrar as grandes 
difficuldades, que oppõem a natureza do ])aiz, o caiacter 
e costumes dos povos, e as outras circunislancias que dei- 
xámos indicadas. 

(17) Memoria manusciipla do Sr. Conde de Porto Santo. 



248 

O grande estabelecimento do cabo da Boa Esperança 
termina ao norte a huma distancia, que se pode chamar 
insigniíicante, com respeito á grande extensão do conti- 
nente Africano: e no conhecimento da Cafraria, e de toda 
a costa oriental, bem pouco se tem adiantado além do que 
deixarão escripto os Portuguezes nas relações de seus 
numerosos naufrágios, e na descrii)ção dos paizes em 
que tem e conservão domínio, e estabelecimentos per- 
manentes. 

Finalmente a Abyssinia he ainda hoje em grande parte 
conhecida também pelas relações dos Portuguezes, que 
a frequentarão, visitarão, e habitarão por muitos annos, 
como he sabido, e o que os modernos viajantes de outras 
nações tem pretendido acrescentar, ou he tomado dos es- 
criplos Portuguezes, ou consiste em algumas noticias do 
estado moderno daquelles vastos paizes, ou finalmente na 
indagação da historia natural da sua constituição física, e 
dos seus produclos, objectos, que no século xvi erão tão 
novos para os Portuguezes, como para quaesquer outras 
nações da Europa. 

Agora que temos refeiido o que ainda nos consta das 
nossas antigas viagens por terra á índia, e das tentativas 
que fizemos para o conhecimento das terras e povos do 
interior de Africa, pediria o nosso assumpto, que désse- 
mos também noticia das viagens por terra executadas 
pelos Portuguezes, vindos da índia até á Europa. Mas 
para satisfazermos cabalmente a este intento, seria neces- 
sário escrever obra mais volumosa, e talvez repetir o que 
os próprios viajantes deixarão escriplo em suas relações 
impressas, ou manuscriptas, das quaes todavia seria con- 
veniente fazer huma collecção ordenada, e quaiilo podesse 
ser completa. 

Limitar-nos-hemos pois, por agora, a dar huma breve 
idéa das principaes viagens de que temos achado memoria 
nos nossos escriptores, e isto bastará para satisfazer ao in- 



249 

tento que levámos em colligir estas noticias, que he mos- 
trar que não somos nós os Portuguezes tão incuriosos, ou 
tão ineptos, como nos querem fazer os estrangeiros. 

Seciilo XVI 

1315.— Tendo o grande Alimquerque posto á obediên- 
cia de Portugal a rica cidade de Ormuz, e recebido nella 
com grande solemnidade a embaixada do Schach Ismael 
Rei da Pérsia, despachou com o mesmo caracter de Em- 
baixador á corte de Hispaiwn aFernamGomes de Lemos, 
senhor da Trufa, o qual tendo concluído a sua missão, se 
achava já de volta em Cochim no mez de Janeiro de 1517, 
e d'ahi escreveo a el-Rei D. Manoel, mandando-lhe hum 
livro, em que dava conta da sua embaixada, e do cami- 
nho que fizera, como consta da própria carta por elle di- 
rigida a el-Rei com a data de 4 de Janeiro de 1517, que 
se conserva no Archivo da Torre do Tombo, no Corpo 
Chronologico, pari. 1.=^, maç. il\.°, num. 4. (Vej. Góes, 
Chronica de el-Rei D. Manoel, pari. 4.% cap. 9.° e 11.^) 
Do livro porém, que continha a relação da embaixada e 
caminho não sabemos que exista. 

15^0. — Neste anno, entrando na AbyssiniaD. Rodrigo 
de Lima, Embaixador de el-Rei D. Manoel áquelle impé- 
rio, entrou com elle entre outros Portuguezes o Padre 
Fi'ancisco Alvares, natural de Coimbra, que de Portugal 
havia sahido como Capellão da embaixada de Duarte Gal- 
vão. Este ecclesiastico residio na Abyssinia cousa de seis 
annos, até o de 1526, e escreveo: « Verdadeira informa- 
rão das terras do Preste João)), obra rara, que se impri- 
mio em Lisboa no atino de 1540, em foi., c que foi tra- 
duzida em varias linguas, e inserida por Hamuzio na sua 
Cullecção, em Veneza, 1550, com o liliilu: a Viagem á 
Elhiopia por Francisco Alvares», d-c. 

Pelo mesmo Iciiqio NÍajava pnr diversos paizes da Ásia 



250 

O Capitão Gregório de Quadra, de que acima . fizemos 
menção. 

1522. — A este anno se deve referir o principio das via- 
gens de António Tenreiro, segundo o que elle mesmo es- 
creve na sua bem conhecida Relação, ou Itinerário. Saliio 
elle de Ormuz em companhia de Balthazar Pessoa, que de 
mandado do Governador da índia D. Duarte de Menezes 
hia por Embaixador á Pérsia. Esteve Tenreiro na Pérsia, 
d'onde passou á Arménia, veio á Syria, ao Cairo, a Ale- 
xandria, e d'ahi á ilha de Chipre. De Chipre voltou ao 
continente, e logo a Ormuz por terra, e ficando ahi cinco 
ou seis annos (como elle mesmo refere no cap. 58.°), 
tornou a sahir para vir por terra a Portugal, com recados 
a el-Rei sobre a armada do Turco, sendo Governador da 
índia Lopo Vaz de Sampaio, e Capitão de Ormuz Chris- 
tovão de Mendoça (18). Sahio de Ormuz pelos fins de 
Setembro de 1528, e chegou a Portugal em Maio do anno 
seguinte. He mui curioso o seu Itinerário, que se impri- 
mio em 1560, e depois por varias vezes, sendo a ultima 
em 1829, junto com a Peregrinação de Fernam Mendes 
Pinto. (Vej. Castanheda, liv.?.", cap. 71.°; Andrade, Chro- 
nica de D. João III, part. 2.^, cap. 49.°; e os Anna^s da 
Marinha Portugnezn, i)ublicados no presente anno de 
1839, pag. 394.) 

A morte do Conde Almirante Vice-Rei da índia veio an- 
nunciada a el-Rei D. João III i)or hum expresso enviado 
da índia por terra de mandado de D. Henrique de Me- 
nezes, como refere Quintella, Annaes da Marinha Por- 
tiigueza, ao anno de 1520. 

1537. — São mui conhecidas de nacionaes e estrangei- 
ros as viagens, ou (como elle mesmo lhe chama) as Pere- 

(18) De Memorias contemporâneas consta que Tenreiro, chegando 
da índia, esteve a ponto de ser assassinado por hum F. Mello, de 
Castello de Vide, por ter trazido cartas a el-Rei contra seu pai. Ten- 
reiro teve huma pensão de SO^^OOO réis mensaes. 



I 



m 

grinações de Fernam Mendes Pinto, começadas em 1537, 
e continuadas por vinte e hum annos até o de 1558, com 
tanta, e tão miúda e variada relação de casos e successos; 
com tão curiosas descripções de lugares e regiões ; de po- 
vos, e costumes; e com tantas e tão importantes noticias 
úteis á navegação e ao commercio, que mereceria huma 
particular e extensa menção, se a própria historia destas 
viagens não tivesse sido muitas vezes impressa, e recen- 
temente em 1829 na hngua Portugueza, em que foi es- 
cripta; e se não se achasse ha muito tempo traduzida em 
algumas línguas estrangeiras, e publicada nas Colleccues 
de Viagens. A multiplicidade e singularidade das aventu- 
ras, que este escriptor refere, a estranheza dos povos e 
nações que vio, e dos seus ritos, costumes, crenças, opi- 
niões e linguagens, os incommodos e riscos que correo, 
e de que escapou são e salvo, fizerão com que alguns lei- 
tores e escriptores desconfiassem da veracidade das suas 
relações. Hoje porém está mais desvanecida esta descon- 
fiança, e as indagações dos mais ousados viajantes mo- 
dernos tem verificado muitos dos factos, que ao principio 
parecião mais estranhos e duvidosos. 

1540. — Veio da índia por terra António de Sousa, man- 
dado por D. Estevam da Gama. (Couto, dec. 5.% liv. 7.", 
cap. 1.^) 

1548. — Neste anno passou á Índia Fr. Gaspar da Cruz, 
religioso dominicano, natural de Évora. O zelo da religião 
o levou á China, e foi o primeiro, ou hum dos primeiros 
missionários Portuguezes, que entrarão naquelle império. 
Temos delle liuma Relação da Chuta, e de suas particu- 
laridades, que se imprimio em Évora no anno de 1570, 
e segunda vez em Lisboa em 1820 com as Peregrinações 
de Fernam Mendes Pinto, de que acabámos de fazer me- 
moria. 

No Códice 840 da Bibliothcca Publica Portuense con- 
serva-se o « Itinerário da ilha de Ormuz até Tripoli de 



252 

Berbéria, e (Vahi até a Rochella de França, de Martim 
Affonso » . 

Este viajante era medico: partio de Ormuz a 25 de Ju- 
nho de 1565, e veio a Portugal atravez da Pérsia e Ásia 
menor com cartas importantes. Sua derrota foi de muito 
circuito por causa da guerra que havia entre Turcos e 
Persas, a qual o obrigou a deixar o curso regular das ca- 
ravanas, sem que nunca fosse conhecido, nem delle se 
desconfiasse. Descreve largamente os lugares por onde 
passou, com bom conhecimento da geografia. Fala de 
Riscóo, Jarde, Benvit, Adistan,Mahabnd, C/iaUabad, Cai- 
xam. Com, Sava, Casliii, Sollania, Meaná, Turquina, 
Condi, Tabiis, Sn/ian, Van, Vastan, Sory, Tadiian, Orfrí, 
Halep, árc. 

. . . ? — Na Historia da Índia no tempo em que a gover- 
nou o Viso-Rei D. Luiz de Athaide, escripta por António 
Pinto Pereira pelos annos de 1570, e impressa em 1616, 
no liv. 2.°, cap. 13.° faz o escriptor menção de hum Isaque 
do Cairo, Judeo, que da Índia tinha vindo duas vezes por 
terra a Portugal. Nada mais sabemos destas viagens, 
nem temos achado noticia da sua verdadeira data, que 
sem duvida pertence ao século xvi (19). 

. . .? — O mesmo diremos de outra viagem, de que nos 
dá noticia o Padre Fernam Guerreiro na sua Relação An- 
ual, ^U., liv. l.'\ cap. 1.°, pag. 3, dizendo, que hum An- 
dré Pereira, hindo de Portugal á índia por terra, e pas- 
sando por aquella parte da Caldêa, que corre de Babylonia 
para o estreito de Baçord, onde o Eufrates e o Tigre en- 

(19) Estando el-Rei D. João III em Almeirim, em Janeiro do I5ii, 
veio da índia por terra iium Judeo, trazendo recadq a el-Rei, como 
o Viso-Rei D. Garcia de Noronha fallecôra em véspera de Pascoela 
do anno anterior de 1540, succedendo-lhe D. Estevão da Gama, que 
ília na segunda successão, por ter já vindo para o reino Martim 
AíTonso de Sousa, que era o nomeado na primeira, &c. (Relações 
de Pêro de Alcáçova Carneiro, manuscriptas.) 



253 

trão no mar da Pérsia, ahi tratara com os Cliristãos da- 
quellas partes, e ainda depois voltara a ellas para acom- 
panhar hum Bispo, que elles querião mandar ao Papa, e 
a el-Hei de Portugal. 

1593. — Neste anuo passou ;í índia o dominicano Fr. 
Manoel dos Santos, o qual voltando a Portugal por terra, 
escreveo a sua viagem com o titulo de Curioso Itinerá- 
rio, ác, manuscripto, de que faz menção a Bibiiotheca 
Histórica Portugueza, pag. 33 da 2.^ edição. 

Século XVII 

O século xvn não he menos notável que o precedente 
na historia das nossas viagens. Logo no anno de 1602 
occorre a importante, e, para aquelle tempo, diíiicil via- 
gem do Jesuíta Portuguez Bento de Góes. Era este reli- 
gioso varão natural de Villa Franca na ilha de S. Miguel; 
e como tivesse conhecimento das linguas orientaes, e es- 
pecialmente da Persiana, pretendeo e conseguio de seus 
superiores ser mandado ao descobrimento do Gran-Ca- 
tayo, paiz que então desafiava a curiosidade dosEuropeos. 
Partio com effeito da corte doMogol, em cujas províncias 
tinha pregado o Evangelho, e viajou mais de três annos 
pelos sertões da Ásia, hindo sempre pelo norte do império 
do Mogol, desde o paiz dos Usbeks para o oriente até á 
China, e vindo a conhecer em resultado da sua trabalhosa, 
e dilatada viagem, que o chamado Gran-Cataijo era o pró- 
prio império da China, e não hum paiz diverso, como mui 
geralmente se acreditava. Na China íalleceo Góes em 1607. 
Vem a sua viagem inserta na Relação do Padre Trigaut, e 
fazem delia menção frequente os esci'iplores Portuguezes. 

No mesmo anno de 160i2 fazia a sua viagem á Pérsia o 
doulo augustiniano Fr. António de Gouvêa, que depois de 
ter acoin|)aiihado ás sei'ias do Malabar o Arcebispo D. Fr. 
Aleixo, Ibi mandado áquelle império como Embaixador 



254 

do Governador da índia Ayres de Saldanha. Ali adquirio 
a estimação do Sha-Abhas, fjue o enviou em companhia 
de hum Embaixador seu, que mandava a Roma, e á corte 
de Hespanha. Voltou á Pérsia, e dahi á Europa, atraves- 
sando os temerosos e arriscados desertos da Arábia. Che- 
gado que foi a Alepo, embarcou para Marselha, e sendo 
tomado por corsários, ou piratas Argelinos, esteve ca- 
ptivo em poder dnquelles bárbaros. Destas viagens e tra- 
balhos fala elle mesmo na Relação da jornada do Arce- 
bispo D. Fr. Aleixo de Menezes ás serras do Malabar, 
impressa em Coimbra em 1606, em foi., aonde também 
se lêem curiosas e importantes noticias sobre os povos 
que habitão aquellas serras, e sobre os seus costumes, e 
ritos religiosos, á-c. 

Em 1606 e 1607 temos noticia da viagem de Nicoláo 
d'Orta, natural de Santo António do Tojal, que sahio de 
Gôa com destino de vir a Portugal, por terra. Nos prin- 
cípios de Agosto de 1606 estava na fortaleza de Corno- 
rom, d'onde passou a Lara, Xiras, Romus, Bagadet, Ana, 
Taibe, e Alepo, aonde entrou a 16 de Janeiro de 1607. 
D'ahi vindo por Alexandreta, chegou poi' mar a Marse- 
lha, e logo a Madrid, d'onde el-Rei D. Filippe o tornou a 
mandar á índia. Escreveo o seu Itinerário, do qual existe 
na Bibliotheca Publica de Lisboa hum exemplar incom- 
pleto. (Vej. Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana.) 

Por esses mesmos tempos viajava por terra para a Eu- 
ropa Fr. Gaspar de S. Bernardino, missionário na índia, 
o qual naufragando na ilha de S. Lourenço, passou a 
Mombaça, cabo de Rosalgate, e Ormuz; d'onde resol- 
vendo continuar sua viagem por terra, visitou a Pérsia, 
Caldêa, e Syria até Chipre. D'ahi foi ver os Lugares San- 
tos, e voltando a Chipre, Cândia, Zante, Cephalonia, e 
Corfu, se recolheo por ultimo a Hespanha, e logo a Por- 
tugal. Escreveo o seu Itinerário, cuja primeira parte se 
imprimio em Lisboa em 1611, em 4.° 



Temos noticia que neste mesmo anno de 1611 veio da 
índia a Portugal, por terra, D. Álvaro da Costa, de cuja pes- 
soa e viagem não alcançámos in<lividual informação (20). 

Os annos de 10:24 e 102G são notáveis na historia da 
geografia, e das viagens Portuguezas, pelas duas qae fez 
o Padre António de Andrade, Jesuíta, ao descobiiraento 
do Tibet, estabelecendo ali missão Ghristã, e Catholica. Na 
segunda destas viagens (anno de 1626), em que tbi acom- 
panhado do Padre Gonçalo de Sousa, e cuja Relação se 
imprimio em Lisboa em 1628, fala elle expressamente da 
cidade de Caparangua, aonde residia o Rei de Tibet, e 
aonde estes padres tinlião chegado em menos de dous 
mezes e meio, partindo de Agra (no Defili), e passando 
por Sirinagar. Fala igualmente do paiz de Ussangue, oui 
Ussang, do qual diz que dista quarenta jornadas de Ca- 
paranguãj e vinte da China, &g. (Devem ver-se as pró- 
prias Relaç(5es, e a NoiíveUe Rdation de la Chine, do Padre 
Magalhães, traduzida em Francez, e impressa em 1690, 
de que mais adiante falaremos.) 

Pertence ao mesmo anno de 1624 a viagem, e residên- 
cia na Abyssinia do Padre Jeronymo Lobo, Jesuita Por- 
tuguez. Foi elle mandado ás missões da índia, para onde 
partio, e chegou a Gôa em 1622: e vindo no dito anno 
de 1624 a Moçambique, d'alii entrou no paiz dos Galas, 
penetrando até á Abyssinia, aonde viveo muitos annos, 
não sem grandes trabalhos e perseguições. A serie das 
suas posteriores aventin^as, os nanfr;igios que fez, os 
grandes incommodos que sofreo, emlini a sua vida até 
o anno de 1658, em que ficou em Portugal, são cousas 
dignas de curiosa reflexão. Escreveo o seu Itinerário, que 

(20) O Códice 482 da Bibliotheca Publica Portuense he cópia da 
viagem de D. Álvaro da Cosia, com este titulo: "Tratado da iiia- 
gem, que fez da índia oriental á Europa nos aitiios de 1010 e IGli 
por via da Pérsia e da Turquia . . . com relação ...da Terra Santa . . . 
e geral descripção da índia oriental, e navegação dos Portiiguezes ». 



tem merecido a attenção dos sábios, e eruditos, principal- 
mente na parte que diz respeito ás cousas da Abyssinia, 
e que se acha traduzido em liiglez, em Francez duas ve- 
zes, e em Italiano. 

Em 1635 foi mandado á missão do Tibet o Padre João 
Cabral, outro Jesuíta Portuguez, natural de Celorico da 
Beira, o qual fez caminho pov Bengala, evitando a difficil 
passagem da serra, por onde o Padre Andrade tinha en- 
trado na Tartaria. Escreveo também a Relação copiosa dos 
trabalhos que padeceo tia missão do Tibet. Obra, que se- 
gundo Barbosa Machado, foi mandada a Roma no referido 
anno de 1635. 

He digno de mui particular commemoração nesta nossa 
breve Memoria o Padre Gabriel de Magalhães, também 
Jesuita Portuguez, que depois de estar por alguns annos 
nas missões do Japão, passou á China, e a correo quasi 
toda desde o anno de 1640 até 1648, em que se estabe- 
leceo em Pekin, residindo ahi por quasi vinte c nove an- 
nos até o seu fallecimento, e deixando-nos huma Relação 
da China das mais exactas que se havião escripto até o 
seu tempo. Esta Relação foi traduzida em Francez com 
notas, e explicaçí^es, e impressa em 1090, em 4.° 

Alguns annos antes destes, em que vamos, missionou 
na Abyssinia o Padre Manoel de Almeida, Jesuita Portu- 
guez. Das cartas, que elle annualmente escrevia ao seu 
Geral, impressas em Roma, em Italiano, no anno de 1629, 
e de outras Memorias de muitos Jesuítas, he que o Padre 
Tellez compilou a Historia geral da Ethiopia alta ou 
Preste João, impressa em Coimbra em 1660, em foi., 
aonde se vê o largo conhecimento que os Portuguezes ti- 
nhão daquelle império por elles tão frequentemente pra- 
ticado. 

Em 1663, o Padre Manoel Godinho, natural da Villa de 
Montalvão, e religioso da Companhia (depois secularisado 
Prior de S. Nicoláo de Lisboa, e por ultimo de Loures), 



257 

tendo sido mandado ás inissõrs da índia, veio por terra 
a Portugal de mandado do Vice-Rei António de Mello de 
Castro, e segundo parece, com alguma secreta e impor- 
tante commissão. Escreveo Relação do novo caminho que 
fez por terra e mar vindo da índia para Portugal no 
anno de 1663, impressa em Lisboa em IGOo, 4.° Obra 
curiosa, que merece ser lida dos eruditos. 



TOMO V 



NOTA 

EM QUE SE MOSTRA, QUE OS PORTUGUEZES, 

AO PASSO QUE HlIO DESCOBRINDO AS COSTAS E TERRAS 

AFRICANAS, SE NÃO DESCUIDAVÃO DE INSPIRAR 

AOS SEUS HABITANTES 

IDÉAS MORAES, E PRINCÍPIOS DE CIVILISAÇÃO 



NOTA 

EM QUE SE iMOSTRA, QUE OS PORTUGUEZES, 

AO PASSO QUE HIÃO DESCOBRINDO AS COSTAS E TERRAS 

AFRICANAS, SE NÃO DESCUIDA VÃO DE INSPIRAR 

AOS SEUS HABITANTES 
IDÉAS MORAES, E PRINCÍPIOS DE CIVILISAÇÃO 



No artigo da Revista Enciclopédica do mez de Feve- 
reiro de 18:28, que tem por titulo, Noticia sobre a civili- 
sação de Africa, por Mr. Chauvet, lemos hum paragrafo, 
que traduzido em Portuguez, diz assim: 

a Por espaço de tres séculos nunca jamais os Europêos 
tiverão o pensamento de communicar aos Africanos al- 
guma idéa moral, ou alguma das artes praticadas na Eu- 
ropa. Bem longe disto, somente tratarão de enganal-os, 
para melhor os reduzirem á escravidão. Os Portuguezes 
comludo enviarão alguns missionários ao Congo : e posto- 
quc os ecclesiasticos empregados nesta missão fossem 
qiiasi tão ignorantes como os povos, a quem hião cate- 
quizar, tinhão comludo Uúlo numerosos proselytos, prin- 
cipalmente entre os chefes; e com alguns esforços mais 
que se fizessem, hnma grande parte de Africa seria hoje 
Christãa: mas nesse caso, adcos trafico! Este resultado 
foi logo presentido, e a civilisação de Africa foi sacrifi- 
cada ao systema colonial. ?> 

Parece incrível, que em tão poucas linhas podesse este 



262 

escriptor ajuntar tantos erros, e conlradiccões. Mas (já ou- 
tras vezes o temos dito) assim se fazem livros em França ! 
A estranha ligeireza de alguns escriplores desta nação não 
lhes permitte averiguar com paciência, e profundar os 
objectos sobre que intentão escrever; e a presumpção, 
que tem da sua superioridade litteraria, inspirando-lhes 
o desprezo dos outros povos, faz que ora occultem por 
ignorância ou malicia o que lhes pôde ser honroso; ora 
alterem e transformem os factos, e os apresentem por 
huma face enganosa e falsa, para deprimir, ou escurecer 
o que nelles ha de bom, louvável, e glorioso. 

Nas poucas palavras de Mr. Chauvet. que deixámos co- 
piadas, he hum erro dizer, que por três séculos nunca os 
Eiiropros íiverão o pensamento de inspirar aos Africanos 
alguma idéa moral; e he liuma contradicção acrescentar 
logo, que osPortuguezes enviarão missionários ao Congo, 
para instruir aquelles povos rudes è bárbaros na santa dou- 
trina do Cliristianismo. 

He outro erro dizer, que os missionários Portuguezes 
erão quasi tão ignorantes como os povos Africanos; e pa- 
rece outra contradicção confessar ao mesmo tempo, que 
elles fizerão numerosos proselytos, principalmente entre 
os chefes, e que com alguns esforços mais que se fizessem, 
huma grande parle de Africa seria hoje Christãa. 

He ainda outro erro grosseiro afiirmar, que o trapco 
dos negros foi motivo para se abandonar a instrucção 
Christãa dos Africanos, e que a civilisação de Africa foi 
sacrificada ao systema colonial, d-c. e^c. 

Restabeleçamos os factos sobre fundamentos verídicos, 
e inconcussos, e ficarão plenamente convencidos os erros 
do auctor. 

He ponto incontroverso, assentado, sem discrepância 
alguma em nossas historias antigas, e comprovado por 
documentos contemporâneos, que hum dos principaes 
fins, que o illustre e immortal Infante D. Henrique se 



263 

propoz conseguir pelos descobrimentos, de que foi pri- 
meiro auctor, era trazer ao conhecimento do Evangelho 
os povos bai'baros, e idolatias da Africa, e terras orien- 
taes; restaurar e animai' as Cliristantlades que se dizião 
estabelecidas em algumas regiões remotas, e guerrear os 
Mouros, que nellas dominassem, como inimigos irrecon- 
ciliáveis dos Christãos, não querendo elles mesmos abra- 
çar o Christianismo, ou oppondo-se aos seus progressos. 

Havia-se o Infante por obrigado de algum modo a pro- 
mover por estes meios a propagação do Evangelho, em 
razão do cargo que tinha de Administrador da Ordem da 
Cavallaria de Nosso Senhor Jesu-Christo, a qual em sua 
instituição fora ordenada para semelhantes fins; e quasi 
que julgava não poder fazer boas as rendas daquelle Mes- 
trado, se as não empregasse, em grande parte, no seu 
verdadeiro e original destino. E como nos limites do ter- 
ritório de Portugal não podesse já satisfazer os seus pie- 
dosos intentos, por não haver parte alguma que estivesse 
no dominio dos Sarracenos ; não só se unio aos Infantes 
seus irmãos para suggerirem a seu augusto pai a empreza 
de Ceuta; mas além disso, aconselhado e estimulado dos 
amplos conhecimentos, que já havia adquirido na astro- 
nomia, cosmografia, e náutica; e buscando com infatigável 
curiosidade, tanto pelos monumentos da historia, como 
por informações varias e repetidas, haver noticias das na- 
ções e povos mais remotos das partes orientaes, e da pos- 
sibilidade de estabelecer com elles algumas relações por 
meio da circumnavegação Africana; resolveo emfim pôr 
o peito a esta grande e heróica empreza, começando a 
mandar á costa de Africa alguns navios, que abrissem 
passagem do cabo de Nam, então limite da navegação 
Europêa, para as partes do sul, c pólo antárctico. 

Dissemos que estas intenções do Infante erão altestadas 
não só pelos nossos mais antigos historiadores, mas tam- 
bém por documentos contemporâneos. 



264 

A respeito dos liisloriadores, seria supérfluo trazer 
aqui provas desta verdade, que deve ser notória a todos 
os doutos, pelas numerosas obras dos escriptores Portu- 
guezes, que escreverão sobre nossos descobrimentos, e 
conquistas de Africa e Ásia, muitas das quaes se publi- 
carão peia imprensa. 

Entre os documentos porém bastará citar os sej^uintes: 

1." A doação de 7 de Junho de 1454, em que el-Rei 
D. AíTonso V doa á Ordem de Cliristo pelo seu Administra- 
dor, e successores, para sempre, o espiritual das praias, 
costas, ilhas, e terras, conquistadas e por conquistar, de 
(kizulla, Guiné, Núbia, Ethiopia, á-c, para que faca 
prover aquelles povos de pregadores, ministros e reitores 
espirituaes, com aprazimento de Sua Santidade, ác. E diz 
el-Rei neste seu diploma, que o Infante havia descoberto 
6 conquistado aquellas costas, praias, ilhas, á-c, ^i que- 
rendo trazer d Igreja de Deos Santa, e aa nossa obediên- 
cia aquelles bárbaros povos, a que nunca per mar, nem 
per terra C/ir islãos alguns chegar ouznroniy. 

2." A Bulia do Santo Padre Nicoláo V de O dos idos de 
Janeiro, anno da Encarnação de Nosso Senhor Jesu-Christo 
de 1454, obtida a pedido do illustre Príncipe, c conliimada 
por Calixto III em 3 dos idos de Março, anno da Encarna- 
ção de 1455, na qual, fazendo-se o extracto da narrativa 
do impetrante, se diz, que o Infante D. Henrique, desde 
seus primeiros aniios tinha formado o projecto de inda- 
gar, e descobrir os mares o costas meridionaes de Africa, 
e de passar ao oriente, a fim de combater os Mahumeta- 
nos, e trazer ao Christianismo os povos idolatras, que 
porventura habitassem aquellas vastas regiões, ou os pai- 
zes intermédios, á-c. (4). 

(1) nPraeteroa (diz a Hulla) cum olirn ad ipsius Infantis perve- 
nisset notitiam, quod nunqnnm, vel saltem a memoria hoininnm. non 
consnevissrt perhujnsmodi Oreannm maré meridicmnlex, et orientaleí; 
plagas navigari, illudiiue iiohis occiduis adeo foret incognituni, iij 



265 

3." A (loarão, que o próprio Infante fez á dita sua Or- 
dem de Cliristo do espiritual das terras conquistadas^ e 
descobertas, ou que se descobrissem, om data de 18 de 
Setembro de 1 460, na qual se conforma com a narrativa 
conteúda na referida Bulia, mostrando em suas palavras 
quanto intentava e desejava, que o Christianismo pene- 
trasse, e SC fizesse estável naquellas regiões, e (]ue a sua 
doutrina e culto tivesse igrejas, templos, e ministros, que 
perennemente ali o ensinassem e praticassem. 

Por estes documentos, e por outros semelhantes, que 
omittimos, se faz manifesto, que não só pelo decurso dos 
três séculos, de que fala Mr. Chauvet, mas logo desde o 
principio dos descobrimentos, e ainda antes delles, na 
mente, e nos projectos do sábio e religioso Infante, en- 
trou o pensamento de communicar aos Africanos alguma 
idra moral, e entre as idéas moraes as mais puras, as 
mais santas, e as mais capazes de fazer felizes os povos, 
quaes são as do Cliristinnismo. E não somente entrou o 
pensamento, senão que, tanto o mesmo illustre Príncipe, 
como os Reis Portnguezes, que cm seu tempo, e depois 
da sua morte promoverão e continuarão os descobrimen- 
tos, effectivamente o poserão em execução com empenho 
e perseverança igual á piedade, e religiosos sentimentos, 
de que erão animados. 

Pelos annos de 1440, dizem os nossos escriptores, que 
mandara o Infante huma armada de três nãos, comman- 

niillam de pailiuni illaniiii ^'ciililuis certaiii iioliliaiii halHTcnui.s: 
credens se tnaxinniiii ín hoc Dco piarslare uhsequivni, si ejiis opera 
et industria maré ips7im usqiie tid ludos, qui Christi nomen rolere 
dicuntur, navigahUe fieret, sicqiio ctiin eis participaro, et illos in 
Christiaiiorum auxilium adversiis Sarracenos, et alios liujusniodi 
fidei hosles conimovere possct, ac nonmdlos rjentiles, seu paijanos, 
nefandissiiiii Malininetis secta miiiiine infectai-, popnlos, inibi médio 
rxistenles nniliiino dchrllnre, cisque incoíjnition sarrutissimi Christi 
nomen praedirare. ac [acere pracdicari ». tVc (froras da Historia 
Genealorjica, tom. I.") 



266 

dadas por Antão Gonsalves, Diogo AÊfonso, e Gomes Pe- 
res, com ordem de proporem aos habitantes do Rio do 
Ouro o aceitarem a doutrina evangélica, e assentarem 
commercio com os Portuguezes. 

Pelo mesmo tempo, ou ainda antes, tendo sido desco- 
berto o Cabo Verde, enviou o mesmo Infante a Fernando 
AíTonso como seu Embaixador ao Rei ou Senhor daquella 
costa, chamado Farim, encarregando- o de fazei'-lhe igiiaes 
proposições. 

E se não sabemos de outras semelliantes dihgencias 
praticadas pailicularmenle por ordem do Infante em ou- 
tros diversos lugares, lie porque os nossos escriptores, 
contenlando-se com as noticias geraes, forão omissos em 
referir por menor as circumstancias, que então lhes pa- 
recião de pouco interesse para a historia : mas não po- 
demos duvidar de que elle procuraria satisfazer a hum 
empenho, (jue era essencialmente connexo com o seu 
plano, e fazia parle delle. 

E aqui tem lugar, em prova dos pios e religiosos pen- 
samentos do Infante, referir as palavras de Cadamosto 
no cap. IO." da sua Primeira Navegação, que por certo 
honrão nmito o imuKjrtal Príncipe, e conlirmão o que 
delle vamos dizendo. Fala o escriptor dos Azenegues, e 
suas qualidades e costumes, e logo traz este periodo: 
«A estes lie que os Portuguezes aprisionavão e vendião, 
e erão us melhores escravos de todos os negros: mas 
qualquer que fosse o motivo, de hum certo tempo para 
cá tudo se reduzia a paz, e trato de mercancia; e não 
consente o Senhor Infante que se faça damno a nenhum 
delles; porque espera, que tratando com os Christãos, le- 
vemente se possão reduzir á nossa crença, não estando 
ainda bem fiimes na féMahumetana, senão pelo que delia 
tem ouvido dizer». Aonde se vê, que o Infante não duvi- 
dava sacrificar os interesses do commercio dos escravos 
á vantagem, por certo mais solida, de estabelecer com 



267 

elles communicação pacifica, e facilitar assim a sua con- 
versão ao Christianismo. Exemplo tão admirável, como 
raro, e que bastaria só por si para desmentir a falsa e 
caUimniosa accusação que Mr. Cliauvet faz aos primeiros 
descobridores, quando diz, que elles somente tratavão 
de enganar aquelles povos para mais facilmente os re- 
duzirem d servidão. 

Em 1481, logo que el-Rei D. João 11 subio ao throno 
de Portugal, mandou fundar o castello (depois cidade) de 
S. Jorge da Mina, com aprazimento de Caramanza, Senhor 
daquella região, a quem convidou para abraçar o Chris- 
tianismo: e postoque o Príncipe bárbaro se recusou ao 
convite, nem por isso deixou el-Rei de mandar que na- 
quelle estabelecimento estivessem pessoas ecclesiasticas, 
por cujo ministério se propagasse a doutrina evangélica 
aos lugares confinantes. 

Em 1485, reinando o mesmo Soberano, e descobrindo 
Diogo Cam o reino de Congo, os Portuguezes, que forão 
ao interior, se houverão com tanta prudência e sizudeza, 
que attrahírão a bçnevolencia do Rei, e de muitos dos 
principaes senhores da sua corte, e os inclinarão a favo- 
recer a religião Christãa. Então quiz aquelle Príncipe Afri- 
cano que em companhia do Capitão Portuguez viessem a 
Lisboa alguns negros seus súbditos, com o fim de apren- 
derem a linguagem, e os costumes Portuguezes. E como 
el-Rei os tratasse com grande benignidade, e os fizesse 
voltar á sua terra cheios de dadivas, c favores reaes, e 
mandasse ao mesmo tempo convidar o seu Rei a receber 
o baptismo, elle não só aceitou o convite, admirado e 
commovido do que os seus lhe dizião das cousas de Por- 
tugal; mas também destinou alguns moços nobres, (jue 
demorando-se por mais tempo em Lisboa, se instruíssem 
na lingua, nos costumes, e na policia Portugueza: e pedia 
a el-Rei, que lhe mandasse ministros da religião, oljiciaes 
de alguns officios mecânicos, lavradores, que os ensinas- 



268 

sem a cultivar as terras, e mulheres, que os instruíssem 
na arte de amassar, e fabricar o pão. 

Estiverão com effeito estes Gongos na caza de Santo 
Eloy de Lisboa até o anno de 1490, em que voltarão ao 
seu paiz, hindo em companhia delles alguns ecciesiasticos, 
com instrucções mui individuaes de el-Rei para a planta- 
ção daquella Christandade, a qual foi logo crescendo com 
tão notáveis augmentos, que chegou a haver nella Sacer- 
dotes 6 Bispos naturaes do paiz, mestres de ler e escre- 
ver, que tinhão aprendido em Portugal, e ensinavão as 
primeiras letras aos filhos dos nobres, d-c. 

Estes progressos do Christianismo no Congo chegarão 
a tal ponto, e davão tanto gosto aos Reis Portuguezes, 
que el-Rei D. Manoel mandou em 1504 novas missões de 
homens letrados em theologia, e mestres de ler e escrever, 
e de artes mecânicas^ com livros de doutrina Christãa, e 
ornamentos, vestes, e vasos sagrados para o uso do culto 
religioso naquelles paizes. O que foi de tanta utilidade 
para o augmento da christandade, e civijisação do Congo, 
que alguns Príncipes e Senhores daquellns terras man- 
davão seus filhos moços a Portugal com o íim de apren- 
derem melhor os princípios da religião, os costumes, e 
as artes Portuguezas, com o que, depois de instruídos, 
voltavão ao seu paiz com notável aproveitamento em be- 
neficio dos seus naturaes. 

Em 1508 sabemos, que vindo alguns i)arentes do Rei 
de Congo, D. Afibnso. e outros nobres a Portugal para 
se instruírem nas letras, forão mandados residir na caza 
de Santo Eloy, aonde tinhão sido educados os primeiros, 
e ahi se sustentarão, e estiverão por algum tempo a ex- 
pensas de el-Rei. 

Em 1516 tendo el-Rei D. Manoel mandado rever e re- 
formar as Ordenações antigas do reino, e sabendo isto 
el-Rei de Congo, pedio alguns exemplares delias, que 
logo o Monarca Portuguez lhe mandou; e notão os nossos 



269 

escriptores, que com ser elle barbai'0, as mandava ler, e 
considerar, e conferir com os costumes da sua terra. 

Em 1535 escrevia o Papa a el-Rei de Congo, louvando- 
llie muito o seu zelo pela religião Christãa, e o cuidado 
que tiniia de a propagar, e fazer florecer em seus estados, 
servindo elle mesmo como de missionário, e instruindo 
os seus povos na santa doutrina do Evangíílho. O Anna- 
lista Raynaldo, fazendo menção destas letras apostólicas, 
ao referido anno de 1535, conclue com estas palavras: 
« Sancta propagatio fidei catholicae in Africa referenda 
est piissimis Lusitaniae Regibus » . 

El-Hei D. João III continuou a mandar outras diversas 
missijes áquellas terras; e no anno de 1538 se achavão 
ainda em Portugal alguns nobres Elhiopes do Congo, fa- 
zendo seus estudos na referida caza de Santo Eloy, aonde 
também por esse tempo se recolherão quatro Paravas da 
costa da Pescaria no Malabar, que vierão a este reino com 
o mesmo destino, e para os quaes compôz o grande João 
de Barros a sua Grammatica Portugueza, que se impri- 
mio no anno de 1539. 

Em tempo de el-Rei D. Sebastião, pelos annos de 1560, 
sendo o Rei de Congo D. Álvaro despojado de seus estados 
pelos Jaccos, ou Agages (2), que acommettendo-o com 
grande multidão de bárbaros o ol)rigárão a retirar-se a 
huma ilha do Zaire, e implorando este Príncipe o auxilio 
de el-Rei de Portugal, el-Rei o mandou restituir ao seu 
reino pelo Capitão Francisco de Gouvêa, que com alguns 
centos de Portuguezes derrotou os Bárbaros, e o repôz 
no throno. Acrescenta hum escriptor estrangeiro, nar- 
rando este facto, que el-Rei D. Sebastião, por cumulo 
de generosidade, recusara a homenagem, que D. Álvaro 

(2) Estes povos, que taiiihcni se chamão Jagas, ou Giagas, \>o- 
(lein considcrar-se (di/ hum geógrafo) como os Tatars da Africa me- 
ridional. Dcllos se diz lerem ás vezes feito lerriveis incursões desde 
o canal de Moçambique até ás visinhanças do cabo da JJoa Esperança. 



270 

queria render-lhe como vassallo, pelo qual procedimento, 
cheio de humanidade (diz o escriptor), he que os Portu- 
guezes tem ganhado a confiança daquelles povos, e os tem 
em,penhado a perseverarem na religião Christãa. 

No ânno de 1486 descobrindo-se o reino de Beni, e 
mandando o Principe daquella região hum Embaixador 
a el-Rei de Portugal D. João 11, este o recebeo com gran- 
des mostras de estima e Itenevoleiícia, e o despedio com 
ricos presentes para o seu Soberano, e com enérgicas per- 
suasões de abraçar o Christiamsmo. 

Em 1488 veio liemohi. Hei do Jalolb, pessoalmente a 
Lisboa, aonde aceitou o baptismo com todos os nobres 
que o acompanha vão, de que el-Rei D. João II houve sin- 
gular contentamento, como refere Rezende, na vida deste 
grande Principe. E vollando Remohi a Africa, lhe deo el- 
Rei hum poderoso auxilio contra alguns seus súbditos 
rebeldes, mandando ao mesmo tempo (de consentimento 
de Bemohi) que se fundasse fortaleza na foz do Senegal, 
e que fossem na armada alguns ecclesiasticos, de que era 
chefe Mestre Álvaro Dominicano, e levassem, como effe- 
ctivamente levarão, lodos os preparos necessários para 
aquelle estabelecimento, e entre elles ornamentos sagra- 
dos, livros ecclesiasticos, e moraes, vasos para o serviço 
das igrejas, d-c. Esta christandade não leve consequências 
ulteriores pelas razões que o citado escriptor aponta no 
mesmo lugar; mas nem por isso íica menos certo, que os 
Principes Portuguezes nunca perdião de vista a civilisação 
dos Africanos por meio da propagação do Evangelho. 

Pelos annos de 1575 começarão os Portuguezes a con- 
quista de Angola, Benguella, á-c, sendo primeiro con- 
quistador, povoador, e Governador o illustre Paulo Dias 
de Novaes, que á custa de mui gloriosos trabalhos, fadi- 
gas, e despezaSi manteve aquelle nascente reino até o 
anno 1588, em que falleceo. Logo ao principio se esta- 
belecerão na primeira povoação, ou villa (depois cidade) 



271 

de S. Paulo de Loanda cazas religiosas, cujos moradores, 
bem como outros ecclesiasticos seculares, erão destinados 
não só a praticar entre os Cliristãos os exercícios do culto, 
mas também a tiazei- a elle os naturaes do paiz, e das vas- 
tíssimas regiões confinantes. Bem conhecida he na histo- 
ria daquella conquista a celebre Rainha de Matamba^ cha- 
mada a Rainha Ginga (3), e pelo nome do baptismo Arma 
de Sousa, a qual tendo recebido o Christianismo a dili- 
gencias dos Portuguezes, e voltando depois á sua super- 
stição, se tornou cruehssima inimiga delles, até que por 
fim arrependida se converteo de novo com muita da sua 
gente, e na fé christãa veio a fallecer. Florecia esta notá- 
vel mulher pelos annos de 1622 até 1655; e forão instru- 
mento de sua reconciliação com a Igreja os Padres Capu- 
chinhos Italianos, a quem el-Rei D. João IV pelos annos 
de 1653 havia encarregado as missões de Caho Verde^ c 
Guiné: nova prova de que os Beis de Portugal nunca pef- 
dião de vista hum objecto tão digno da sua piedade, 
quanto conforme ás primeiras intenções do illustre auctor 
daquelles descobriípentos (4). 

Se da Africa occidental quizessemos passar á oriental, 
fácil nos seria tecer huma longa narração das repetidas, e 

(3) O seu nome era Ginga Bandy, filha do Rei de Matamba, que 
também se chamava Gitifia Bandy, e de huma sua escrava. Bapti- 
zou-se era 1622, sendo seu padrinho o Governador Jo5o Corrêa de 
Sousa, pelo que tomou o nome de Anna de Sousa. 

(4) Na menoridade de el-Rei D. Affonso VI, e tutoria de sua mãi 
a Rainha D. Luiza, se erigio i.'m Portugal huma Junta das Missões, 
encarregada de mandar missionários ás terras de Africa, Ásia. e Ame- 
rica, sujeitas cá Coroa Portugueza. De el-Rei D. Pedro II lemos, que 
fundara Missões, e Seminários, em beneficio da instrucção dos in- 
fiéis nas conquistas de Portugal. Em seu tempo mandou hum Rei 
Pagão, ou idolatra de Cabo Verde a hum seu filho a receter o ba- 
ptismo em Lisboa, d'ondo voltou ao seu paiz enriquecido de reaes 
dons. Ainda nos nossos tempos, e no reinado da Senhora I). Maria I, 
forão enviados missionários ao reino de Angola, e outras terras pró- 
ximas, «5cc. 



272 

constantes tentativas, que fizerão os Portuguezes para tra- 
zerem ao seio da Igreja Romana os Príncipes, e habitantes 
da Abyssinia, e para catequizarem e instruírem nos prin- 
cípios do Clirístíanísmo os povos da Ethíopia baixa, ou 
da Cafraria. Bastará porém lembrar que em 1560 e 1561 
foi baptizado com toda a sua corte o Imperador de Mo- 
nomotapa pelo Padre Gonçalo da Silveira, Jesuíta Portu- 
guez, martyrizado logo depois cruelmente por instigação 
dos Mouros, que em toda a parte fizerão sempre a mais 
pertinaz opposição ao estabelecimento e progressos das 
novas christandades plantadas pelos Portuguezes: sem 
embargo do que, nunca estes cessarão de annunciar na- 
quellas extensas e barbaras regiões a doutrina do Evange- 
lho, editícando igrejas, fundando cazas religiosas, pondo 
varões virtuosos, que as regessem, e attrahindo por todos 
os modos aquelles habitantes á religião e civilisação Eu- 
ropêa, como se poderia mostrar pelos estabelecimentos 
Christãos de Sena e Téte, de Çofala, Moçambique, Me- 
linde, árc, ác. 

Á vista de tantos factos, e ainda de muitos outios, que 
aqui passamos em silencio, e são constantes das historias, 
como he possível, que se diga, e se escreva, que fio de- 
curso de ires séculos nunca jamais os Européos tiverão 
o pensamento de communicar aos Africanos alguma idéa 
■moral? Porventura não foi este nobre pensamento o que 
inspirou ao Infante D. Henrique, e aos Reis de Portugal 
as multiplicadas tentativas, que deixámos referidas? Não 
foi este pensamento o que moveo o grande Rei D. João II 
a acolher e auxiliar com suas armas o Rei dos Jalofos; a 
convidar ao Ghristianismo o Rei de Beni; a mandar mis- 
sionários ao Congo? Não foi este pensamento hum dos que 
inspirarão a fundação do castello de Arguim, os estabele- 
cimentos do Senjegal, de Cabo Verde e suas ilhas, de Ca- 
cheo, de S. Jorge da Mina, de Angola, e Benguella? á-c. 

Bem sabemos, que alguns escriptores, incapazes (ao 



27:{ 

que parece) de conceber idéa alguma generosa, preten- 
dem persuadir-nos, que o zelo religioso dos Príncipes 
Portuguezes não era mais que hum pretexto, com que 
elles disfarçavão o piincipal intento de augmentar o seu 
poder, ampliar os seus estados, e colher os interesses do 
commercio. Nós podéramos refutar este pensamento com 
muitas daquellas razões, em que costumão estabelecer-se 
os factos mais bem averiguados da historia. Contentar- 
nos-hemos porém de responder com as palavras de hum 
escriptor Portuguez judicioso: « Concedão-fws (diz elle), 
qiifí o zelo cia religião era hum dos motivos, que dirigião 
os nossos Príncipes nos seus descobrimentos, e nós lhes 
concederemos. <jue não era o iinicoy>. Os Príncipes Portu- 
guezes não erão apóstolos, nem missionários: não tinhão 
obrigação, nem missão alguma especial para hirem levar 
o Evangelho a nações barbaras, infiéis, desconhecidas, e 
remotas. Não admira pois, que com o zelo da religião (que 
certamente os animava) misturassem a consideração dos 
interesses nacionaes: e que intentando trazer aquelles po- 
vos ao Christianismo, e civilisacão, se lembrassem tam- 
bém de por este meio assentarem com elles, mais fácil 
e seguramente, commuriicação, commercio, amizade, e 
interesses recíprocos. Haverá porventura neste procedi- 
mento alguma cousa, que mereça a censura das pessoas 
justas, e imparciaes? 

« Os missionários, que os Portuguezes mandarão ao 
Congo (diz Mr. Chauvet), erão quasi tão ignorantes, como 
os povos, a quem Mão catequizar. » 

Seja-nos permittido dizer francamente, que só por sum- 
ma ignorância da historia, ou por manifesta má fé se pôde 
assim ajuizar, e falar dos Portuguezes do século xv. 

Nós podéramos reconvir o escriptor Francez, e mos- 
trar-lhe com muitos e graves fundamentos, que a França 
não era naquelle século mais civilisada, nem estava mais 
adiantada nas loiras, que os Portuguezes: mas não que- 

TOMO V 18 



874 

remos demoiar-iios em odiosas comparações, nem o jul- 
gámos necessário para o nosso intento (5). 
Também não teceremos aqui com extensão a historia 

(5) No armo de 1406, celebrando-se em Paris hum grande ajun- 
lamento de sábios theologos e canonistas para deliberarem sobre 
dar, ou negar obediência ao antipapa Pedro de Luna; hum destes 
sábios, que, ao dar o seu voto, quiz exaltar a Universidade de Pa- 
ris, disse « Que JuUo César a havia transferido de Athenas para 
Roma; e que Carlos Magno a transplantara de Roma para Paris». 
Tal era (diz Fleury, referindo estas palavras) a erudição dos maio- 
res doutores daquelle tempo! E com tudo esta Universidade, em que 
havia tão insignes doutores, era a mesma quenaquelles tempos queria 
dar leis á Igreja, e decidir os mais importantes negócios ecciesiasti- 
cos : ora a mesma que não poucas vezes concorreo para as desgra- 
çadas discórdias, que tão funestas forão ao povo Christão. Pelos 
annos de 144o, hindo a França o doutíssimo Hespanhol Fernando 
de Córdova, de tal modo assombrou com o seu extraordinário saber 
a escola Parisiense, que foi vario o juizo, que delle fizerão os dou- 
tores: «Huns o tivcrão por mauo, outros sentião o contrario, e não 
faltarão alguns, que dissessem, que hum homem tão prodigiosamente 
sábio era impossivel que não fosse o Antichristo -k Assim o refere o 
Abbade João Trithemio' no Chronicon Spanheimense, ao anno 1501. 
Nos priíicipios do século seguinte, fundando el-Rei Francisco I huma 
cadeira de lingua Grega no collegio, chamado de França, em Paris, 
exclamava huui Monge, no púlpito, cheio de santo enthusiasmo: 
«Tem-se, meus irmãos, inventado hnma nova lingua, chamada Grego, 
de que devemos acautelar-nos com grande cuidado, porque ella gera, 
e delia nascem todas as herezias». Assim se falava em P^ris (diz 
Pouqueville referindo o facto), assim se falava em Paris da lingua 
do Nora Testamento, e do idioma, em que escrevêrãx) os primeiros 
Padres da Igreja! Em 1565 dizia hum advogado da Universidade 
lie Paris, qu? as quatro faculdades, de que ella se compunha, consti- 
tuião hum quasi concilio geral permanente (quasi generale concilium 
perpetuo in ampla urbe illa pro populi sublevamine stabilitum). Re- 
fere-o o Continuador de Fleury, liv. 169.°. § '.\9.° Ainda em 1629 o 
Parlamento de Paris, a instancias da Sorbona, expedio hum decreto 
contra os chimicos, no qual se dizia que ninguém podia impugnar 
os princípios da filosoOa de Aristóteles, sem impugnar ao mesmo 
tempo os da theologia escolástica recebida na Igreja. Assim o refere 
o P. Renato Rapin, Alc, 6íc. 



175 

litteraria de Portugal naquelle século, hum dos mais illus- 
trados, e gloriosos da monarquia : mas não podemos de 
todo escusar-nos a fazer algumas breves e genéricas con- 
siderações, em abono da nossa pátria, e da nossa gente. 

Primeira: Que naquelle tempo florecêrão em Portugal 
os estudos mathematicos, cosmograficos, e náuticos, cul- 
tivados na Escola de Sagres, fundada pelo grande Infante 
D. Henrique, auctor dos descobrimentos, do qual diz o 
douto Walckenaer na sua moderníssima « Historia geral 
das viagens r>, que era o primeiro mathemalico do seu 
tempo; que possuía grandes conhecimentos geográficos; 
e que tendo convidado para o estabelecimento da sua Es- 
cola hum sábio, versadissimo na navegação, e na arte de 
fabricar instrumentos, e projectar cartas náuticas, o po- 
sera d frente da Academia que havia fundado, com u 
fim de propagar e adiantar tão úteis e interessantes es- 
tudos (6). 

Segunda: Que desta Escola, do Observatório astronó- 
mico, que para ella fundou o Infante, e dos trabalhos 
dos sábios, que a frequentavão, sahírão importantíssimas 
observações, e as cartas geográficas e marítimas, que de- 
pois servirão aos posteriores geógrafos; resultando d'aqui 
a grande pericia náutica dos Portuguezes, e o desenvol- 
vimento de numa marinha respeitável, da qual o illustre 
geógrafo moderno, Mr. de Malte-Brun não duvidou falar 
com grande louvor, expressando- se nos seguintes termos : 

(6) O douto Poituguez Francisco José Freire (aliás Cândido Lu- 
sitano) na Vida do Infante, liv. 3.°, falando da fiequencia e gosto 
com que este illustre Príncipe communicava os sábios, continua nos 
seguintes termos: »Com elles tratava de setts estudos na cosmografia, 
especialmente com hum Mestre Jacome de Malhorca, de cuja ilha o 
mandara vir (e escreve-se, que a (jrande custo) para ensinar neste 
reino a arte de navegar, e a formação não menos de instrumentos 
mathematicos, que de cortas geográficas, em que era homem, que na- 
quella idade ouvia os primeiros upplausos '>. Esle iie sriii duvida o 
sábio, a que se refere Walckenaer. 



«A marinha Porlugueza foi florentissima no tempo de 
D. João I. Havia então no reino Escolas mui celebres para 
os estudos da navegação, em huma das quaes acabou Co- 
lombo de aperfeiçoar os seus talentos. No mesmo reinado 
erão os Portuguezes reputados como os primeiros nave- 
gadores do seu século, e Portugal occupava o primeiro 
lugar entre as potencias maritimas. Em 141ô, em que o 
Rei embarcou para a expedição de Ceuta, era a sua ar- 
mada composta de trinta e três vasos de primeira ordem, 
cincoenta e nove galeras, cento e dez transportes t>, &c. 

Terceira: Que no mesmo século, tanto el-Rei D. João I. 
como seu íilho el-Rei D. Duarte, e seu neto D. AíTonso V, 
dirigido então por seu tio e tutor o Infante D. Pedro, for- 
marão, prose^íuírão, e executarão o projecto de hum Có- 
digo de leis nacional, compilado em lingua Portugueza 
por alguns doutos Jurisconsultos Portuguezes, o qual, 
além de ser o primeiro, ou hum dos primeiros que sa- 
hírão na Europa moderna, he ainda hoje hum dos mais 
preciosos testemunhos, e hum dos mais illustres monu- 
mentos da nossa civihsação, policia, e litteratura. 

Quarta: Que outrosim se emprendeo e executou, por 
ordem dos mesmos Príncipes, o outro projecto de escre- 
ver as Chronicas dos Reis de Portugal em linguagem, as 
quaes effectivamente forão escriptas pelos dous chronistas 
Fernani Lopes, e Gomes Eannes de Azurara, com grande 
desempenho, merecendo o primeiro delles, a juizo de 
hum critico i Ilustrado, o nome de pai da praza, e do pe- 
ríodo Portuguez; e isto, quando nas outras nações da Eu- 
ropa era ainda mui raro, que semelhantes obras se escre- 
vessem nos idiomas vulgares. 

Quinta: Que no mesmo século foi el-Rei D. Affonso V 
o primeiro Rei Portuguez, que fundou no seu palácio o 
útil estabelecimento de huma Bibliotheca Real, que de- 
pois se foi progressivamente augmentando em riquezas 
litterarias. E que tanto este illustrado Príncipe, como seu 



277 

augusto pai, e avô, alguns dos Infantes seus tios, e até al- 
gumas das Princezas da Real Caza Portugueza, nos dei- 
xarão monumentos do seu saber, e do seu amor ás letras 
e estudos, em obras, que, ainda em parte, existem, e que 
ainda hoje merecem a altenção dos eruditos Portuguezes. 

SextUj, finalmente: Que a estas provas geraes da in- 
strucção, litteratura, e civilisacão dos Portuguezes do sé- 
culo XV, poderiamos ainda acrescentar (se os limites de 
huma nota o permittissem) outras muitas provas particu- 
lares e individuaes, fazendo o catalogo dos homens dou- 
tos, que se distinguirão em algum género de erudição; 
apontando as obras que compozerão; falando do estabe- 
lecimento da typografia em Portugal; e mencionando tan- 
tos varões illustres, que sahírão de nossas Escolas, e do 
palácio de el-Rei D. Affonso V e D. João II, e que depois 
muito illustrárão o reinado subsequente de el-Rei D. Ma- 
noel. E aqui figurarião sem pejo, antes com grande gloria 
da nação, o eloquente Bispo de Évora, D. Garcia de Me- 
nezes; o insigne Ayres Barbosa, discípulo de Angelo Po- 
liciano, e restaurador das letras Gregas na Hespanha; os 
celebres cosmógrafos de el-Rei D. João II, Mestre José, 
Mestre Rodrigo, e o Bispo de Viseo Calçadilha; o grande 
geomelra Pedro Nunes; os illustres navegadores Vasco 
da Gama, e Affonso de Albuquerque; os historiadores 
Duarte Galvão, e Garcia de Rezende, além dos chronistas 
que já notámos, ác, ác. 

Mas para que nos alargaríamos mais neste assumpto? 
O próprio escriptor, a quem vamos refutando, c que 
nos obrigou a esta digressão, se desmente e contradiz 
a si mesmo, como já apontámos, quando diz que os mis- 
sionários Poituguezes, com serem gnasi tão ígnovanles 
como os Africanos, íizerão comtudo numerosos proseíy- 
tos, principalmente entre os chefes; e que com poucos es- 
forços mais (/lie se fizessem, huma grande parle de Africa 
se faria Christãa: porquanto he impossível conciliar estes 



278 

grandes elieitos com aqnella supposta igiioi-ancia : e posto- 
que a eííjcacia da pregação evangélica dependa mais de 
Deos, que dos homens, comtudo, humanamente falando, 
não cabe em juizo prudente, (jue missionários tão igno- 
i"antes, e tão ineptos, conseguissem tamanho fructo de 
seus trabalhos. 

Aqui nos será permillido reflectir sobre aquellas pala- 
vras do auctor : « com poucos esforços mais que se fizes- 
serrij huma grande parle de Africa seria hoje ChristãaTi», 
para se manifestar e pôr em toda a evidencia a facihdade, 
6 imprudente ligeireza, de que no principio desta nota 
accusâmos a este escriptor, e a outros da sua nação. 

O pensamento, que Mr. Chauvet enunciou naquellas pa- 
lavras, não só he falso, mas excede todos os limites da 
verosimilhança, e passa a ser hum verdadeiro absurdo. 
Com todos os esforços^ que effectivamente se empregarão, 
e com outros muito maiores, que se empregassem, apenas 
se fez, e se poderia fazer Clirislã huma pequena, e mui 
pequena parte de Africa. 

He esta parte do globo de huma grandíssima extensão: 
o seu interior he de mui diíTicil accesso, cortado a espaços 
de vastos desertos de areia, e de altíssimas cadeias de 
montanhas e serranias : habitado de tribus barbaras e fe- 
roces, destituídas de todos os elementos de civjlisação, 
e (segundo opinião de alguns) pouco susceptíveis delia, 
pela grande inferioridade de suas faculdades Intellectuaes 
e moraes. Não tem mares interiores, nem grandes rios 
navegáveis, que olTereção a facilidade de levar até ao cen- 
tro do palz os beneficios do commerclo, da industria, e 
da clvilisação. Os seus habitantes são por extremo su- 
persticiosos, e tenacíssimos de suas miseráveis praticas, 
que mal se podem chamar religiosas. Nos lugares, aonde 
o Mahumetlsmo tem chegado, e se tem misturado com 
as grosseiras superstições do paiz, partlcipão os habi- 
tantes dos vícios Innatos de seus mestres, e não delxão 



I 



279 

de mostrar por todos os modos a aversão, e ódio, que 
elles lhe tem inspirado para com os Europêos, e para com 
a religião Chrislãa. A opposição que os missionários evan- 
gélicos encontrarão, e tem continuado a encontrar em am- 
bas as Etliiopias occidenlal e oriental, e geralmente em 
todas as terras, em que os Mahumetanos tem commu- 
nicação e influencia, attesta isto mesmo. Finalmente os 
Francezes, Inglezes, Ilollandezes, á-c, com todas as suas 
artes, com todo o seu zelo e superiores talentos, não ve- 
mos que hajão penetrado muito avante naquelle vasto 
continente, nem que tenhão feito os milagres, que osPor- 
tuguezes do século xv não poderão fazer. Os estabeleci- 
mentos do cabo da Boa Esperança, fundados ha cento e 
oitenta annos, não tem podido penetrar a mais de cem, 
ou cento e cincoenta léguas das costas para o interior, e 
isto não para as possuírem, doutrinarem, ou civilisarem, 
mas sim para satisfazerem com as noticias escassas de al- 
guns viajantes â curiosidade dos eruditos. Nos outros es- 
tabelecimentos Europêos observa-se o mesmo com pouca 
difíerença. As tentgtivas de alguns Officiaes Inglezes para 
chegarem a Touibuctu tem sidoinfructuosas, e os ousados 
aventureiros pagarão com a vida o seu zelo. Quando pelos 
annos de 1676 o Governador de Angola Ayres de Salda- 
nha e Menezes intentou abrir communicação por terra até 
Benguelia, e d'ahi até á contra-costa de Sena, e encar- 
regou desta pacifica, mas difficil empreza o Capitão José 
da Roza, que para ella se oflerecêra, sahio este com effeito 
de Massangano para o seu destino; mas a poucas jornadas 
encontrou tanta difficuldade, e opposição em muitos So- 
vas, ou Senhores, que lhe irnpedião a passagem, que se 
vio forçado a retroceder, ficando sem effeito aquelle uti- 
líssimo projecto. Como se pôde pois dizer, que compuiicos 
esforços mais, que se fizessem, no século xv. hiima grande 
parte de Africa estaria hoje Christãa? 
Lembre-se este escriptor, e os que como elle discoí- 



280 

rem, que outros paizes, muito mais patentes e transitá- 
veis que a Africa, visitados, e até frequentados pelos Ku- 
ropêos desde huma remota antiguidade, de muito menos 
diíTicil accesso, e hajjitados de povos ou menos bárbaros, 
ou mais tratáveis, estão ainda lioje não só deslituidos da 
civilisação, e artes da Europa, mas até ignorados, ou mui 
pouco conhecidos dos geógrafos. Taes são, por exemplo, 
a Turquia da Ásia, as terras situadas entre a Rússia e a 
China, o celebre reino do Tibet, e mil outras regiões, im- 
périos, e povos. E são os próprios escriptores, que con- 
fessão isto mesmo, os (jue accusão os Portuguezes do sé- 
culo XV por não fazerem alguns esforçou mais, com que 
trouxessem ao Christianismo e á civilisação huma grande 
parte de Africa ! 

Mas he já tempo de voltar ao nosso principal assumpto. 
Diz Mr. Chauvet que se /iitnia grande parte de Africa se 
fizesse Christãa (como elle suppõe que poderia fazer-se), 
acabaria o trafico dos negros (adcos trafico! diz elle), e 
que prevendo-se e temendo-se esta consequência, fora a 
civilisação de Africa sacrificada ao systema colonial. 

Primeiramente, nós confessámos com toda a ingenui- 
dade, que não percebemos bem a ligação destas idéas de 
Mr. Chauvet: « Se huma grande parte de Africa se fizesse 
Christãa, acabaria o trafico dos negros )k 

Christãos erão os povos da Europa até o século xiv, xv, 
e ainda xvi, e huns a outros se íazião escravos, e se ven- 
dião como taes. Chrislãas são as nações, que tem man- 
tido ha quatro séculos, e ainda actualmente mantêm o 
trafico dos negros; e Christãos são lambem os mesmos 
negros, a quem se administra o baptismo, e comtudo não 
vemos que o trafico haja cessado, ou esteja notavelmente 
diminuído. As missões christãas nada alterarão jamais 
neste ponto. Os interesses políticos, palliados talvez com 
idéas filantrópicas, apenas começão agora a querer corre- 
gir o que fizerão os ignorantes Portuguezes do século xy, 



281 

e o que seguirão depois delles, até com vergonhoso em- 
penho, as outras nações da Europa : e apezar de serem as 
actuaes diligencias auxiliadas das astúcias da diplomacia, 
e do formidável poder das armas, nem por isso os seus 
efifeitos deixão de ser extremamente lentos e vagarosos. 

Não ignorámos que muitos escriptores tem attribuido 
ao Christianismo a decadência, ou extincção da escravi- 
dão na Europa, elogiando por esta parte a sublime moral 
do Evangelho, e exaltando os effeitos da sua propagação : 
e acaso foi este pensamento o que inspirou a Mr. Chauvet 
as palavras que vamos analysando. 

Bem longe estamos nós de pretender despojar a reli- 
gião Christãa de suas nobres, e sobreeminentes qualida- 
des, pelas quaes se mostra não só superior a todas as 
outras religiões, ou seitas, conhecidas no mundo, mas 
única verdadeira, e de origem celestial e divina. Não es- 
tamos porém menos longe de pretender exaltal-a por mo- 
tivos e fundamentos, que nos parecem pouco conformes 
á verdade, por isso mesmo que gosando ella tantas e tão 
altas prerogativas,'não necessita de estranhos, e alheios 
louvores, nem o seu espirito os approva. 

A escravidão e o trafico de homens durou na Europa, 
como já apontámos, pelo menos até o século xiv ou xv, 
e toda esta parte do mundo era christãa desde muitos sé- 
culos. Os «scriptos do Novo Testamento, falando algumas 
vezes de escravos e senhores, e inculcando aos primeiros 
a sujeição e obediência, e aos segundos a benevolência, 
humanidade, e caridade, nem huma só palavra dizem, 
pela (jual se mostrem desapprovados estes dous estados 
respectivos do homem na sociedade civil (7). O Evange- 
lho, e (IS escriplus apostólicos, em conformidade com 
elle, ensinando aos homens, e até pondo por base da lei 



(7) Vej. a Epist. de S. I'aul. ad Eplies. V. o-9, ad Colossens. IV. 1., 
I. Petr., II. 18, &c. 



christãa a caridade, e benevolência geral, jamais alterarão, 
nem derão mostras de dever allerar-se a ordem estabele- 
cida nas sociedades dos homens, nem as differenças, e 
graduações civis, que estavão geralmente adoptadas. 

Dizem, na verdade, estes escrii)tos divinos, que todos 
os homens são filhos de Deos, e irmãos hiins dos outros, 
e que como taes se devem tratar reciprocamente: mas 
esta igualdade admiravelmente estabelecida como funda- 
mento da moial evangélica, não he (como alguns tem pre- 
tendido, ou por summa ignorância, ou por grande, e tal- 
vez calumniosa malícia), não he, digo, huma igualdade 
absoluta, que confundiria toda a ordem das sociedades hu- 
manas, e não pôde ser concebida por espirito algum sen- 
sato. O mesmo Evangelho, que a estabelece, reconhece 
também pais e lilhos, Heis e súbditos, senhores e servos, 
amos e criados, nobres e plebeos, capitães e soldados, 
magistrados e povo; e sem destruir nem alterar as rela- 
ções civis entre estes diflerentes estados, e condições, ou 
graduações, prescreve a cada hum delles os deveres que 
lhes cumpre observar, e que longe de contradizerem 
acjuella primeira qualiíicação de filhos de Deos, irmãos 
hims dos outros, e iguaes, neste sentido, entre si, muito 
pelo contrario íirmão o principio estabelecido, e nelle se 
fundão com singular sabedoria e coherencia. 

E tanto he isiu conforme á doutrina da moral christãa, 
que nós não sabemos que a escravidão em geral haja 
sido condemnada, nem reprovada em algum Concilio, ou 
Canon ecclesiastico, antes em muitos supposta, e ainda 
adoptada como legilima. 

Os moralistas, e juristas Christãos (que aqui podéra- 
mos citar em giande numero) tem seguido constante e 
uniformemente o mesmo systema de doutrina ; e quando 
tratão dos differentes estados do homem na sociedade, 
quasi sem discrepância reconhecem e sustentão que a es- 
cravidão, em geral, he licita, e apontão os casos e cir- 



283 

cumstancias, em que ella pôde ter lugar, sem offensa das 
leis naturaes, religiosas, e civis; notando tamsóraente os 
outros casos, em que se abusa, ou pôde abusar deste di- 
reito, e as circumstancias particulares que fazem illicito 
o seu uso. 

Não se pôde pois (a nosso juizo) dizer com verdade, 
que a religião Christãa abolio a escravidão na Europa, se- 
não por hum modo indirecto, isto he, por ser hum dos 
principaes, e mais activos instrumentos da civilisação ge- 
ral do mundo, e dos seus lentos, mas seguros progressos. 
Porém, aindaque oChristianismo, pela excellencia de seus 
princípios moraes, e pela elevada idéa que nos dà da ori- 
gem do homem, e de seus futuros destinos, seja hum dos 
primeiros instrumentos da civilisação; comtudo não he 
o único. He necessário que com elle concorrão o esta- 
belecimento de governos fixos e regulares; a justiça e 
sabedoria das leis; o amor e cultura das sciencias, e 
artes úteis, e em particular da agricultura, rainha de 
todas ellas, e base fundamental da propriedade; a com- 
municação frequente entre os povos; a pratica do com- 
mercio, Ac. 

Ao concurso e reunião de todas estas causas he que a 
Europa deve o estado de civilisação, em que actualmente 
se acha, a rectificação e melhoramento de suas idéas mo- 
raes, e a modificação de suas praticas e usos antigos so- 
bre a escravidão dos homens. Pelo que, ainda quando as 
idéas christãas fossem estabelecidas em grande parte de 
Africa, o que sô podia ser fructo do trabalho de alguns 
séculos, seria comtudo necessário, que ellas ganhassem 
todos os pontos, tanto das costas, como do interior, e que 
obrando de concerto, e constantemente com os outros 
princípios acima indicados, trouxessem todos, ou a maior 
parte dos povos daquelle vastíssimo continente a hum 
certo gráo de instrucção, e civilisação, para enião de todo 
cessar o trafico. Entretanto sempre este existiria, como 



284 

tem existido no meio das missões Portiiguezas e France- 
zas, e da communicação, e commercio dos Hollandezes, 
Inglezes, Dinamarquezes, ác. E quando a diplomacia Eu- 
ropêa chegue, com todos os seus esforços e ameaças, a 
extinguir o tratico nas costas occidentaes de Africa, lia- 
verá ainda muito que fazer para o vedar aos Mouros, que 
de todas as partes levão os infeiices negros aos mercados 
barbarescos, e d'aiii ao Egypto, á Grécia, a Constantino- 
pla, a todo o Oriente (8). 

Mr. Chauvet conclue o seu discurso, dizendo, que a ci- 
vilisação de Africa foi sacrificada ao systema colonial, 
por se antever e receiar que ella extinguisse a escravidão, 
e o trafico dos negros. 

Mas de que systema colonial nos quer falar este escri- 
ptor? Quando os Portuguezes descobrirão as costas occi- 
dentaes de Africa, e ainda por quasi cem annos depois, 
não existia, nem exislio esse systema colonial, e conse- 
quentemente não podia ser a elle sacrificada a civilisação 
dos povos Africanos. 

Depois de se descobrir a America, e de se estabelecer 
nella esse chamado systema colonial, nem por isso dei- 
xarão os Portuguezes de continuar suas diligencias e es- 
forços a beneficio dos Africanos, como deixamos provado. 
As nações da Europa, que pelos tempos adiante se apos- 
sarão de diversos pontos das mesmas costas, também 
mandarão seus missionários, com o fim de trazei* ao Chris- 
tianismo as nações barbaras, que por ali habitavão. Não 
houve pois o receio, que Mr. Chauvet suppõe, ou finge 
suppor, nem essa foi a causa de se suspender, retardar, 
ou esfriar o intento da civilisação Africana. 

As recentes tentativas, sempre infructuosas, que se tem 
empregado em beneficio daquelles povos, mostrãij quão 

(8) Vej. a particular Nota, que escrevemos sobre a escravidão e 
trafico dos negros, pag. 323 deste volume. • 



difíicil he, e arriscado penetrar no interior de Africa, e 
superar os multiplicados obstáculos, que o terreno, o 
clima, a barbaridade dos habitantes, o orgulho e perfídia 
dos Mouros, e outras semelhantes causas oppõem ás em- 
prezas da civilisação Europêa (9). Largos séculos devem 
ainda decorrer, antes que se possão destruir, ou minorar 
estas causas. Será porém sempre huma gravíssima injus- 
tiça (por não dizer alguma cousa mais) imputar aos pri- 
meiros descobridores culpas que elles não tiverão, ou ne- 
gar-lhes o merecimento de haverem começado, e ainda 
dado alguns passos, em tão difficil, trabalhosa, e arris- 
cada empreza. 

(9) Seja-nos perinittido copiar aqui hum lugar de Pinkerton, que 
faz ao noí^so propósito: «Esta época (diz o escriptor, referindo-se 
ao descolirimento da índia por Vasco da Gama em 1497 e 1498), 
esta época deve ser considerada a todos os respeitos como a mais 
mlavel da geografia Africana: mas o interior deste continente tinha 
como por destino íicar desconhecido ainda por muito tempo. He ver- 
dade que desde o século xvi Leão tinha dado huma ampla descripção 
das suas regiões septemtrionaes; e Alvares, que visitou a Abyssinia, 
pubhcou em 1320 huma mui circumstanciada Relação deste paiz, á 
qual acrescentarão novos desenvolvimentos as viagens de Lobo, e 
Telles. Os Portuguezes estabelecerão a oeste diversas factorias, para 
se assegurarem do commercio do ouro e do marflm; e os Monarcas 
Portuguezes ajuntarão a seus antigos fitulos o de Senhor de Guiné. 
As Relações dos missionários augmentárão os conhecimentos sobre a 
geografia de Africa. Comtudo por hum concurso de circumstancias 
particulares, estes conhecimentos tem sempre sido mui limitados; 
e o seu aperfeiçoamento tem até ao presente experimentado obstá- 
culos quasi insuperáveis. Estas diíficuldades tem por causas princi- 
paes (note-se bem) a vasta extensão dos desertos de areia; a altura 
das serranias; as guerras quasi contimias, que fazem entre si as pe- 
quenas Trihus Africanas, mais animosas, e mais feroces que as da 
America, e menos fáceis de se intimidarem das armas Europêas. 
Mas o que ainda mais particidarmente se tem opposto ao progresso 
dos descohrimenfos no interior, he a antipathia, de que são animados 
iontra os Europúos os Mahumetanus dr Africa, herdeiros do resenti- 
mento dos seus maiores, em outro tempo expulsos da Hespanha», &c. 



MEMORIA 

SOBRE A EXPEDIÇÃO DE VASCO DA GAMA 
AO DESCOBRIMENTO DA ÍNDIA EM 1497 



Credendnmque dccHfsimis hominibus, qu 
aninim advers.orum solatmm liltfra^ptilare- 
runt. 

QciNTiL., Imtit. Orat., liv. 6.". Praefat. 



Serra de Ossa, anoo de 1831. 



MEMOKIA 

SOBRE A EXPEDIÇÃO DE VASCO DA GAMA 
AO DESCOBRIMENTO DA ÍNDIA EM 1497 



A viagem maritima, que o grande Vasco da Gama fez 
ao descobrimento da índia no anno de 1497, de mandado 
de el-Rei de Portugal, navegando de Lisboa até Calecut, 
foi huma das emprezas mais extraordinárias, que se con- 
ceberão e executarão nos séculos modernos, ou se con- 
siderem as difificuldades e os perigos, que se podião te- 
mer, e effecti vãmente se encontrarão no seu desempenho, 
ou se attenda á inlUiencia que ella teve sobre os progressos 
da geographia , e conhecimento do globo, sobre a extensão 
do commercio e communicação dos povos, sobre o adian- 
tamento das sciencias e artes, e finalmente sobre a civi- 
lisação geral do mundo. 

Com este grande acontecimento pozerão os Portugue- 
zes o ultimo remate e gloriosa coroa aos vastos planos 
do immortal Infante D. Ilenriciue, e ás perseveradas dili- 
gencias, e incessantes e dispendiosos trabalhos, com que 
depois da sua morto os Reis Portuguezcs promoverão 
seus grandiosos e ulilissimos intentos. Com este aconte- 
cimento mostrarão, apesar da inveja e da ingi'ata niale- 
volencia, até onde podia chegar o valor, a constância, e a 
nobre ousadia de hum pov(^ (|ue em todo o tempo se dis- 

TdMO V 19 



290 

tinguio, ou na guerra por feitos illustres, ou na paz por 
actos de generosa virtude, e sempre pelo mais ardente 
amor de gloria, e da grandeza da sua pátria. 

Este mesmo acontecimento, porém, assim como mui- 
tos outros que honrão os Fastos de Portugal, tem sido 
quasi acintemenle altei'ado, e talvez destigurado com cir- 
cumstancias pouco exactas, com reflexões vãas e ineptas, 
e até com accessorios fabulosos, por escriptoi'es não bem 
informados das particularidades da historia, ou pouco 
altentos â verdade, e imparcial sinceridade, que ella deve 
professar. Pelo que nos pareceo ajuntar nesta Memoria 
tudo o que possa concorrer para o bom conhecimento de 
tão notável successo, rectihcando os erros que acerca 
delle temos notado em diílerentes escriptos, e preparando 
deste modo matéria para hum dia se escrever com exacta 
e sinceia verdade esta parte da historia de nossos desco- 
brimentos. 

AUTIGO 1.*^ 

Primeiros preparos da armada que foi ao descobrimeulo 
da índia 

El-Rei D. João II comprehendeo perfeitamente o plano 
traçado por seu tio o grande e immortal Infante D. Hen- 
rique, e vio que elle se não limitava ao simples c vago 
descobrimento de novos mares e novas terias, mas que 
tinha hum objecto mais determinado, e não menos grande 
e ulil, qual era hir por meio da circumnavegação africana 
debellar a potencia dos Mouros na índia, trazer os povos 
idolati'as á fé christãa, estabelecer com elles ajustes do 
commercio, e dai' huma nova direcção ás drogas e espe- 
ciarias orientaes, cujo monopólio era então o principal 
nervo do i)oder mahumetano, e o hia habilitando para 
sulimetter ao seu domini(^ os estados da Europa. 

O grande Rei, possuído destas idéas, que tanto roji- 



29t 

formavão com o seu c;ii'acter nobre e elevado, logo que 
subio ao throno, não deixou na verdade de promover o 
commercio Portuguez da costa occidental de Africa, de 
que já se tiravão grossos proveitos; mas teve sempre em 
vista o descobrimento da índia, como lim princii)al a que 
devião endereçar-se seus cuidados e esforços, e com este 
intuito ordenou e executou a seiie de descobrimentos, 
que sabemos, desde o cabo de Santa Calbarina até além 
do cabo da Boa Esperança, e logo immediatamente o des- 
cobrimento da índia por aquelle caminho, já em parle ex- 
plorado, e conhecido. 

«Pelos grandes desejos (diz o seu chronista e criado 
da sua escrivaninha, Garcia de Rezende) que el-Rei sem- 
pre teve do descobrimento da índia, no que muito tinha 
feito e descoberto até além do cabo da Boa Espeiança, 
tinha concertada e prestes a armada para descobi'il-a, 
com os regimentos leitos, e por Gapitão-mór delia Vasco 
da Gama, íidalgo da sua caza. E por fallecimento de el- 
Rei a armada não partio. E el-Rei D. iManuel, tanto que 
reinou, mandou partir a dita armada, asbim como estava 
prestes, pela mesma ordenança, e os mesmos regimentos 
que estavão feitos, e por Gapitão-mór o mesmo Vasco da 
Gama, que depois foi Gonde da Vidigueira, e Almirante 
das índias, c^-c. » 

Por onde se vê que foi el-Rei D. João II o que mandou 
aprestar a armada para o descobrimento da índia, orde- 
nando os regimentos para isso necessários, e designando 
para a execução desta grande empreza o illustre Gama, 
que depois com effeito a executou; e se mosti'a ao mesmo 
tempo quaes forão os verdadeiros motivos, que iníluíião 
Da resolução de el-Rei, a saber: os desi-jos que sempre 
teve do descubrimettto da índia, a cuja satisfação e com- 
plemento se tinhão constantemente dirigido os seus pre- 
cedentes descobrimentos viesde a íiiilia equinocial alé 
além do cabo da lloa Kspeidtiid. 



292 

Sem embargo porém da innegavel verdade destes fa- 
ctos, hum. geógrafo moderno, que devera estar bem in- 
struído delles, e de todas as circumstancias de hum acon- 
tecimento tão importante em geografia, não só altera e 
confunde algumas dessas circumstancias, mas até parece 
querer attribuir a expedição da armada, ao menos em 
parte, a hum motivo totalmente alheio do animo e das 
intenções de el-Rei, porventura com o fim de deprimir 
por este modo, ou diminuir hum pouco a gloria dos Por- 
tuguezes. 

« Como as informações (diz este escriplor) que se rece- 
berão da-Abyssinia confirmavão a possibilidade de huma 
passagem (por mar para o Oriente), que devia facilitar o 
commercio da Índia, el-Rei de Portugal, estimulado aliás 
pelo bom successo da viagem de Colombo a oeste, fez pre- 
parar outra expedição, e Vasco da Gama foi encarregado 
de a commandar. A 20 de Novembro de 1497 dobrou 
o cabo da Esperança», Ac. (Pinkerton, Abregé de Geo- 
graphie.) 

O escriptor parece confundir neste lugar o reinado de 
el-Rei D. João II com o de el-Rei D. Manoel, e a época 
em que se receberão as informações da Abyssinia, e se 
resolverão os preparos da armada, com a época da effe- 
ctiva execução do descobrimento, e da primeira viagem 
de Colombo. 

No fim do anno de 1487 foi el-Rei D. João II informado 
do feliz successo da viagem marítima do intrépido nave- 
gador Bartholomeu Dias, que havia descoberto e dobrado 
o cabo da Boa Esperança, e passado ainda além delle (1) ; 
e no anno de 1489, ou quando mais tarde, no de 1490, 
recebeo também el-Rei as informações da Abyssinia, em 



(1) Bartholomeu Dias chegou a Lishoa em Dezembro de 1487, ha- 
vendo 16 mezes e 17 dias que tinha sahido pai'a o descobrimento 
do grande cabo. 



293 

consequência da viagem por terra, que para esse íim li- 
nha ordenado e expedido (2). 

Humas e outras informações, pondo fora de duvida a 
possibilidade de se passar pormará índia, excitarão (como 
era de esperar) grande alvoroço no animo de el-Rei, que 
se via emfim tão adiantado na empreza, que sempre de- 
sejara executar. E então tomou a resolução de logo man- 
dar apromptar a armada para a expedição da índia, como 
refere o seu domestico e verídico chronista. 

Em nada disto teve, nem podia ter, parte alguma o es- 
timulo, que o geógrafo estrangeiro quer suppor exalado 
pela viagem de Colombo, o qual somente partio para o 
seu descobrimento d'ahi a dous annos, em 1402, e so- 
mente em 1493 aportou a Lisboa, já de volta da sua pri- 
meira viagem. 

Os pi'OJectos de el-Rei D. João II, em tudo conformes 
ás idéas primitivas do illustre Infante D. Henrique, erão 
muito anteriores á expedição de Colombo, e tendião ori- 
ginariamente, e por huma longa serie de factos entre si 
ligados, á execução do plano, de antemão sabiamente con- 
certado, e constantemente seguido desde o anno de 1416. 

Em continuação deste plano lie que el-Rei D. João II, 
subindo ao throno em 1481, mandou logo proseguir nas 
navegações de Africa, despachando para isso a Diogo Cão, 
que em 1484 e 1485 descobrio o Congo, e chegou aos 
22 gráos austraes. 

Em continuação do mesmo plano he que este grande 
Príncipe mandou em 1486 Barlliolomeu Dias (de que já 
falámos) ao descobrimento do cabo extremo meridional 
de Africa, a que el-Rei deo o nome da Boa Esperança, 
pela que então concebeo de chegar á índia, termo de 

(2) Allbiíso (lo Paiv;i, o João Perez da Covilhãa saliírão para a ín- 
dia (! Etliiopia, por terra, oní 'l'i87, o segundo as circunislancias (lue 
sabemos da sua viagem, não lie verosímil que tardassem mais de Ires 
annos as noticias delia. 



294 

seus desejos. E despachou também por terra vários 
viajantes, entre os quaes se nomeão especialmente os 
dous, AíTonso de Paiva, e João Perez da Covilhãa, encar- 
regando-os de passarem á índia, e penetrarem na Ethio- 
pia soÍ3 o Egypto, como com effeito se executou. E tudo 
isto he muito anterior á viagem de Colombo. 

Em continuação, finalmente, do mesmo plano he que 
aquelle sábio Rei rejeitou as vãas e quiméricas j)ropostas 
de Colombo (3), que ainda quando parecessem exequi- 

(3) Chamámos vãas e quiméricas as propostas de Coioniljo, por- 
que na verdade o erão, e iião julgámos fazer com isso injuria ao 
no])re Genovez, nem dotrahir cousa alguma do seu merecimento e 
da sua gloria. « Colombo (diz o Tarragonez Girava na sua Cosmografia) 
era grande marinheiro, c niediocre cosmógrafo '< . Este juizo nos pa- 
rece exacfissimo. Colombo tinha adoptado as erradas idéas de alguns 
antigos sobre a medida da circumferencia do globo, e sobre a pro- 
longarão das terras orientaes a este; e consequentemente presumia 
que navegando pelo Atlântico ao occidente, havia de achai', a pe- 
quena distancia, as terras mais orientaes da Ásia, c que poucos dias 
de navegação lhe bastarião para chegar a tocal-as. Esta idéa estava 
de tal modo fixa em seu pensamento, que elle se encarregou de huma 
carta de el-Rei Catholico O. Fernando para o gran-Kan dos Tártaros, 
esperando dentro de pouco tempo entregar-lh'a, e comprimentar 
aquelle Príncipe em pessoa da parle de el-Rei de Castella: e ainda 
depois de ter achado as Antilhas, insistia, em suas Carias, no pro- 
jecto ou esperança de tocar na Ásia, projecto e esperança, cm que 
muitas vezes se achou enganado, mas que, segundo parece, nunca 
de todo abandonou. (Veja-se sobre este assumpto o moderno escri- 
ptor Anglo-Americano Washington Irving, na Historia da vida e via- 
gens de Colombo. Paris, 1828, 4 vol., em 12.) E daijui vem que o 
douto historiador ]\lr. Depping, analysando a obra que citámos, não 
duvidou dizer, que Colombo era evidentemente visionário, e que esta 
fora a razão por que os Reis Calholicos tiverão tanta difficuldade em 
se decidirem a annuir a seus planos, e a fazer os gastos das expedições 
que elle propunha. «E na verdade (continua ainda o mesmo escriptor) 
hum estrangeiro que provava pela Biblia. e por Santo Agostinho 
e S. Basílio que a Ásia não devia estar muito longe da Hespanha, e 
que proraettia hir por mar ao gi-an-Kan da Tartaria para o conver- 
ter, e o fazer alliado dos Reis Catholicos, não podia inspirar grande 



295 

veis, não satisfazião ao intento previsto, antes tornavão 
em certo modo inúteis todos os trabalhos alô então em- 
prendidos, e com incrivel perseverança seguidos e exe- 
cutados por tantos annos. 

Se el-Reí D. João II não ciiegou a expedir eífecti vã- 
mente a armada, não foi porque esperasse, ou necessi- 
tasse ser para isso estimulado pela viagem de Colombo; 
mas sim porque logo foi com maior violência acommet- 
tido da enfermidade, que desde muito tempo padecia, e 
da qual veio a fallecer em Outubro de 1495. 

El-Rei D. Manoel, que lhe succedeo no throno, seguio 

confiança», eVc. El-Rei D. João II, e os rnathematicos e geógrafos 
Portuguezes que elle consultou, tinhão idéas mais justas de cosmo- 
grafia, e julgarão as idéas e propostas de Colombo, como ellas em 
realidade devião ser julgadas. Os escriptores que taxão a el-Rei de 
pouco avisado e prudente, e accusão os seus conselheiros de apai- 
xonados e invejosos da gloria do navegador Geiiovez. julgão o pro- 
jecto de Colombo, não pelo seu valor real, mas sim pelo seu re- 
sultado casual, imprevisto, e totalmente inesperado. Este modo de 
julgar, com ser frequente no mundo, lie tão próprio do vulgo igno- 
rante, quanto alheio da razão e do bom senso. Demais, ainda que 
Colombo realisasse a sua quimera, e chegasse a tocar as terras mais 
orientaes da Ásia, e a celebre Zipango, de que porventura lhe tinhão 
dado idéa as viagens de Marco Paulo, nem por isso el-Rei de l^or- 
tugal, e os astrónomos e cosmógrafos seus conselheiros merecerião 
a iniqua censura, que se lhes tem feito ; porquanto o plano Portu- 
guez não tendia vagamente (como já dissemos) ao descobrimento e 
conhecimento desses mais remotos paizes da Ásia; mas sim, e de- 
terminadamente, a debellar o poder dos Mahumetanos na Índia, e a 
arrancar das suas mãos o monopólio das especiarias e drogas orien- 
taes, que os enriquecia, e os habilitava para a meditada invasão e. 
conquista de toda a Europa Chrislãa. Sc os Portuguezes adoptassem 
as quimeras dn Colondjo, perderião em grande parte os trabalhos 
de mais de oitenta aiuios ^v. navegações, que os tinhão Itívado alé 
além do cabo da Roa Esperança; não salvarião (rojuo salvarão) a 
Europa do pesadíssimo jugo que a ameaçava; licaria ainda por nmito 
tempo esquecida, ou abandonada a circumnavegação Africana, e só 
mais tarde se aproveitarião os iinmensos recursos desta parte do 
mundo, &c., &c. 



296 

á risca o plano que achou traçado, e aproveitando-se dos 
aprestos que estavão feitos, fez sahir a armada em Jullio 
de 1497. 

Pelo que tudo se vê que os successos de Colombo são 
totalmente estranhos a huma empreza, que em substan- 
cia estava projectada havia mais fie oitenta annos, e á 
qual se tinhão constantemente dirigido os esforços dos 
Portuguezes em conformidade com as idéas e direcções 
do Infante D. Henrique, como bem expressou o poeta 
Portuguez na fala do Gama ao Çamori de Calecut, (jue 
vem nos Lmiadas, cant. 8.", est. 70. "^ a 73.", e consta 
das nossas historias: 



Sabe, que ha muitos annos que os antigos 
Reis nossos firmemente proposerão 
De vencer os trabalhos, e perigos 
Que sempre ás grandes cousas se opposerão ; 
E descobrindo os mares, inimigos 
Do quieto descanro, pretendt!>rão 
De sabor que lim tinhão, e onde estavão 
As derradeiras prai;is. qui' lavavão. 

Conceito digno foi do ramo claro 
Do venturoso liei que arou primeiro 
O mar, por hir deitar do ninho caro 
O morador de Abila derradeiro. 
Este por sua industria, e engenho raro, 
N'hum madeiro ajuntando outro madeiro 
Descobrir pôde a parte que faz clara 
De Argos, da Ilydra a luz, da Lebre e da Ara. 

Crescendo c'os successos bons primeiros 
No peito as ousadias, descobrirão 
Pouco e pouco caminhos estrangeiros. 
Que huns succedendo aos outros prosegúirão : 
D'Africa os moradores derradeiros 
Austraes, que nunca as sete flamas virão. 
Porão vistos de nós, atrás deixando 
Quantos estão os Trópicos queimando. 



297 

Assi com lirme peito, e com tamanho 
Propósito vencemos a Fortuna, 
Até que nós no teu terreno estranho 
Viemos pôr a ultima columna : 
Rompendo a força do liquido estanho. 
Da tempestade horrífica, e importuna, 
A ti chegámos, de quem só queremos 
Signal, que ao nosso Rei de ti levemos. 

&c., &c. 

ARTIGO 2.° 

Molívos |)or que D. Manoel mandou tão pequena armada, 
c tão pouca gente ao descobrimento da índia 

He constante nos nossos escriptos, que a armada, que 
foi ao descobrimento da índia, constava tão somente de 
quatro navios, hum dos quaes era de mantimentos, e lia- 
via de ser queimado em certa paragem; e que em todos 
eiles liião não mais que 160 ou 170 homens, tanto de ar- 
mas, como de maiinhagem. 

Deste pequeno numero de navios, e de homens tirarão 
alguns escriptores a bem estranha consequência de que 
el-Rei D. .Manoel tinha tão pouca esperança de conseguir 
o effeito desta empreza, que não houvera por conveniente 
arriscar nella maiores forças, nem sacrificar-lhe maior nu- 
mero de indivíduos. 

Semehiante modo porém de discorrer nos parece ins- 
pirado por aquelle mesmo ciúme, que tantas vezes, e com 
tanta razão, temos notado nos escriptores estrangeiros, 
quando falão de nossos descobrimentos; o qual faz, que 
não podendo elles de todo negar, ou occultar as acções 
que nos são gloriosas, procurão ao menos desluzil-as, e 
dar-lhes alguma falsa côr que as desfigure. Assim agora, 
não lhes sendo possível passar em silencio a empreza do 
illustre Gama, a felicidade da sua estupenda navegação, 
e a incalculável impoi'tancia do seu descobrimento, pre- 



298 

tendem attribuil-o em certo modo ao acaso, suppondo o 
próprio Rei D. Manoel, apenas com alguma leve esperança 
do bom successo da expedição, e comtudo não duvidando 
sacrificar a hum projecto quasi vão e quimérico (como 
elles suppõem) a vida do insigne Gama, dos nobres Ca- 
pitães que o acompanharão, e desses poucos Portuguezes, 
que mnreavão, e guarnecião os navios. 

Todo o discurso, porém, destes escriptores he fundado 
em falsidade, e ignorância, como outros muitos do mesmo 
toque, que podéramos apontar; e somente serve de mos- 
trar o espirito que os (hrige em tão absurdas e insensatas 
reflexões. 

Não queremos negar que a expedição da índia fosse 
arriscada, e de exilo incerto. Quem o poderia negar tendo 
o juizo são? TinliHo os navegantes de passar mares ainda 
pouco frequentados, e outros totalmente desconhecidos, 
e nunca trilhados dos navios europèos. Não conhecião as 
costas, nem os povos que as habitavão; ignoravão a di- 
recção dos ventos, a^^ correntes das aguas, a influencia 
dos climas, os baixos, restingas, parceis, e arrecifes, que 
poderião encontrar em seu caminho; tudo emfmi para 
elles era novo, e nunca experimentado. 

Comtudo, no meio de tantas difficuldades, e apesar dos 
riscos que ordinariamente acompanhão as grandes e ár- 
duas omprezas, e que todavia somente parecem invencí- 
veis ás almas medíocres; outras circumstancias occorrião 
então, que desvanecendo parte dos temores e medos po- 
pulares, inspií-avão animo e confiança, assim ao ventu- 
roso Bei que resolveo e ordenou a expedição, como ao 
hwoico Gama, <; aos itlustres Capitães, que delia se en- 
carregarão. 

Largos annos havia ipie os Portuguezes estavão acos- 
tumados a supportar as fadigas fio mar, a affrontar os pe- 
rigos de temerosas navegações, e a descobrir e praticar 
costas, ilhas, e povos até então desconhecidos. Já o grande 



299 

navegador Bartholomeu Dias linha descoberto e dobrado 
o cabo Tormentoso, que logo se chamou da Boa Espe- 
ronça, e observado os mares que o banhão, e a nova di- 
recção, que d'ahi começa a tomar a costa de Africa. Não 
faltavão informações, postoque ainda vagas e confusas, 
dos povos daquelle Oriente, das suas riquezas, e do grande 
commercio que fazião de differcntes c mui remotos pontos 
da Ásia pelos golfos Pérsico, e Arábico. Já também se sa- 
bia pelas relações de Covilhãa, que era possivel a nave- 
gação desde a costa oriental de Africa até á índia pelo 
Oceano. Havia finalmente entre os Porluguezes grande 
instrucção de cosmografia, geografia, e náutica, a que se 
applicavão com particular esmero c curiosidade, e sobre 
tudo levavão os ousados navegantes o animo heróico, de 
que erão dotados, o amor invencível da gloria, e aquella 
incontrastavel obediência, que os Portuguezes sempre ti- 
verão ás ordens e vontades dos seus soberanos. 

Era pois a empreza (outra vez o dizemos) difficil e ar- 
riscada; mas não era impossível, nem quimérica, nem 
temerária. E se q grande animo de el-Rei D. Manoel a 
não julgasse praticável, quem o obrigaria a emprendel-a? 
Muitas pessoas distinctas da sua corte, e até do seu con- 
selho, a desapprovavão e a havião por impraticável, nem 
duvidavão dar seus votos em conformidade com esta 
opinião. El-Rei porém desattendeo estes votos, desat- 
tendeo os temores e clamores populares, ainda mais con- 
trários ao seu projecto (4). E diremos, ou poderá al- 

(4) El-Rei resolvei) esfa expedirão, não nhstnvte as muHiu ad- 
moestações de seus vassallos, que o contrario lhe persuadião : nem 
os medos e carrancas, que de tão lonqa nareíjacão, de tão prorellosos 
mares, de tão incógnitos c perigosos cursos lhe erão cada dia com 
muita vehemencia representados. São os termos de que usa Mariz no 
dial. 4.°, cap. 14." Veja-se tanilieni Camões, nos Lusiadas, canl. 4.", 
est. 8!).' a lOi.", e especialmente a admirável fala do Velho, na est. 94." 
e seguintes, aonde o poeta exprimio os rec(Mos e temores do povo do 
reino sobre aquella navegação. Ainda ao tempo da segunda viagem 



300 

guem cora razão dizer que o íizeia, não tendo elle mesmo 
esperança de feliz successo? Como encarregaria elle huma 
empreza, que reputasse quimérica, não a algum atrevido 
aventureiro, mas sim ao illustre Gama, a hum varão tão 
hábil nos conhecimentos náuticos, tão experimentado no 
mar, cheio de préstimo, e dotado de tão superiores qua- 
lidades? Como caberia aliás na piedade, e nos benignos 
sentimentos de el-Rei sacrificar a huma ruina quasi certa 
(como se quer suppor) os seus vassallos, ainda os de in- 
ferior condição, e menos úteis? 

Mas venhamos já ao ponto, e digamos a verdadeira ra- 
zão por que el-Rei mandou a huma expedição de tão alta 
importância tão poucos navios, e nelles somente loO. ou 
•170 homens. Este pequeno numero de navios e de ho- 
mens, longe de nos dar alguma idéa da pouca confiança 
de el-Rei no deserapenho da sua empreza, nos parece, 
pelo contrario, huma nova prova do seu grande discer- 
nimento e consummada prudência, e do serio desejo que 
tinha de chegar ao fim do seu intento. 

Sabia el-Rei D. Manoel, que a chusma dos navios, com 
que Bartholomeu Dias aíTrontára pela primeira vez o cabo 
Tormentoso, tinha chegado a enfastiar-se da longura da 
sua navegação, e quasi o forçara a retroceder para Por- 
tugal. Sabia mais recentemente, que a tripulação dos na- 
vios de Colombo se tinha revoltado contra o seu Capitão, 
e estivera a ponto de frustrar seus gloriosos trabalhos. 
Sabia quanto he raro achar para as grandes e arriscadas 
facções hum considerável numero de homens ousados, 

do Gama, em 1502, fazendo el-Rei conselho, muitos dos Conselheiros 
(diz o citado Mariz, no mosmo dial., cap. 15.") apontavão mil incon- 
venientes para se proseguir poderosamente com força de armas a 
conquista e commercio de terra tão remota. Pôde ver-se Barros, 
dec. 1.% liv. 4.*', cap. 1.°, e liv. 6.°, cap. 1.°, tVc, Góes, Chronica de 
el-Rei D. Manoel, part. l.'\ cap. 2.3.°, e os outros nossos cscri- 
ptores. 



301 

fortes, destemidos, sofredores de traballios, superiores 
aos perigos, e de animo intrépido e constante. Sabia flnal- 
mente, que em hum grande numero de navios seria 
mais diíTicil unir as vontades e os votos dos capitães, 
quando porvenluia fosse necessai-io consultal-os; conser- 
var a unidade e harmonia, que he indispensavelmente 
necessária ao desempenho dos grandes e extraordinários 
projectos: e manter entre a marinhagem e os homens de 
armas a quietação, a prompta obediência, a subordina- 
ção devida, e o exacto e fiel cumprimento dos deveres 
de cada*hum. 

Por outra parte o fim daquelia expedição não era con- 
quistar terras, nem fazer guerra a povos alguns; mas tão 
somente descobrir o caminho maritimo da índia, denotar 
nas cartas os seus principaes pontos, e tomar todas as 
informações que ao diante podessem ser úteis; para o 
que não concorria tanto o numero dos navios e dos ho- 
mens, quanto a sua qualidade, o seu valor, a sua expe- 
riência, e a sua união e perseverança. 

Por todos estes motivos pois resolveo o prudentíssimo 
Príncipe mandar ao descobrimento da índia huma armada 
de poucas velas, que podessem auxiliar-se reciprocamente 
nas necessidades do mar, sem que pelo seu numero cau- 
sassem embaraço, confusão, ou desordem nas operações 
do serviço. 

Nomeou para chefe da expedição o grande Vasco da 
Gama, cujos superiores talentos erão conhecidos, e para 
cuja abonação sobejava o ter merecido a escolha de el-Rei 
1). João ÍI, e poz em suas mãos 

a chave 

Deste cornmettimerito grande e grave, 

como diz o immortal poeta (5). Deu-lhe por companhei- 
ros, a seu aprazimento, Paulo da Gama, seu irmão, que 

(ri) íjimidas, caiil. 4.°, est. 82." 



302 

se offerecêra para o acompanhar, e que pela obrigação 
do caigo, e peio aílecto do sangue se uniria sempre com 
eile, e faria todo o possivel por que fosse bem succedido 
na sua empreza; e Nicolau Coeliio, varão 

De trabalhos mui grande sofredor, 

e que também merecia o conceito de el-Hei, dos quaes 
dous Capitães diz Camiões : 

Ambos são de valia e de conselho 
De experiência em armas e furor (G). 

A marinhagem e gente de armas foi escolliida còm igual 
discrição. Alguns erão criados dos Capitães; alguns ou- 
tros criados de el-Rei; todos acostumados ás navegações, 
e nellas experimentados, homens de animo esforçado e 
constante, como mostrarão em todo o decui'so da sua via- 
gem. E assim mesmo pareceo tão admirável, e tão digna 
de louvor a sua obediência aos cabos, e a sua tolerância 
nos trabalhos daquella prohxa e perigosa navegação, que 
o poeta Portuguez, a quem não escapou género algum de 
gloria nacional, que não deixasse immortalisada no seu 
Poema, julgou também esta digna de ser commemorada 
e honrada naquelles versos do cant. 5.°, est. 71.° que põe 
na boca do próprio Gama, falando a el-Rei de Melinde : 

Crês tu, que se este nosso ajuntamento 
De soldados não fora Lusitano, 
Que durara elle tanto obediente 
Porventura a seu Rei, e a seu regente? 

E logo depois na est. 72.*: 

Grandemente por certo estão provados, 
Pois que nenhum trabalho grande os tira 
Daquella Portugueza alta excellencia 
De lealdade firme e obediência. 

(6) Lusíadas, cant. 4.", est. 82.* 



303 

E por aqui se vê quão errado conceito tiverão desta na- 
vegação alguns escriptores nossos antigos (7), e depois 
delles modernamente Mr. de La Clede, que no liv. xiv da 
sua Historia Geral de Portugal, diz que Vasco da Gama 
forcejando por dobrar o cabo da Boa Esperança íôra con- 
trastado pelas tormentas, escolhos, nevoeiros^, e ventos 
contrários, sendo tamanho o perigo da armada, que toda 
a equipagem, e os próprios ojficiaes delia começarão a 
perder as esperanças de vida, e a pedir a Vasco da Gama 
que voltasse atrás; que o grande Capitão os exhorlára a 
arredar de si estes vãos temores; mas que suas exliorta- 
ções Ibrão inúteis; e que os Portuguezes possuídos do 
medo conspirarão para a sua morte; finalmente, que 
sendo o conluio descoberto por Paulo da Gama, mandái'a 
Vasco carregar de ferros os auctores delle; tomara elle 
mesmo o leme da sua náo, e que depois de sofrer por 
muitos dias horrível tormenta, mudara o tempo e a ar- 
mada dobrara o cabo. 

Todas estas circumstancias nos parecem destituídas de 
fundamento, e verdadeiramente fabulosas. Os nossos dous 
escriptores mais antigos, Castanheda, e Banos não fazem 
delias menção alguma, antes positivamente as desmen- 
tem (8), e Camões, que estava mui particularmente in- 
formado da viagem, e successos do seu heroe, e que nos 
pontos essenciaes descreve os acontecimentos conforme 
a verdade histórica, não só não faz menção alguma da 
supposta conspiração, mas até louva e engrandece a con- 

(7) Osório, De Rebns Emmanuelis, «kc, e o Padre Mafeu, Rer. 
Ind., &c. 

(8) Castantieda, Uisíoria da Índia, liv. 1.°, cap. ll.°, aDobrou e»tf 
caho (Vasco da Gama) indo ao longo da costa co)n vento á popa, com 
muito prazer de foliai, e tanger de trombetas cm toda afivla^, tSíc. 
Barros, liv. 4.", cap. 4.° <i Passou aquelle grão rabo de Boaesperunça 
com menos tormenta e perigo do que os marinheiros esperarão, pela 
opiniUo que entra elles nndava. donde lhe ctiamaváo o Cabo das Tor- 
mentas". 



304 

staricia, obediência e lealdade da gente dos navios, com 
as encarecidas expressões, que deixamos allegadas. 

O que porém acaba de refutar completamente esta fa- 
bula, he que a armada Portugueza nem sequer experi- 
mentou tormenta alguma notável ao dobrar o cabo da 
Boa Esperança, como já vimos pelos lugares citados, e o 
notarão outros escriptores Portuguezes como cousa digna 
de admiração (9). O próprio Camões, que neste lugar in- 
troduzio o immorlal episodio de Adamastor, desvanece, 
em sua mesma poética ficção, a idéa de grandes tormen- 
tas, que os navegantes experimentassem naquella para- 
gem ; porquanto o fero gigante, depois de os atemorisar 
comavistadehuma«Mvew?we</rfl, temerosa, ecarref/ada, 
e com os grandes bramidos do mar (cant. 5,°, est. 37.° e 
38.°), se limitou ás terríveis ameaças de futuras vinc/an- 
ças, e com isto 

Súbito d'ante os olhos se apartou; 
Desfez-se a nuvem negra, e c'hum sonoro 
Bramido muito longe o mar soou (10). 

Pelo que entendemos que os escriptores que falarão de 
grandes tormentas, e conspirações na cabo da Boa Espe- 
rança, ou se equivocarão com as viagens de Colombo, e 
Magalhães, ou julgarão realçar a gloria do Gama, ornando 
a sua narração com huma circumstancia semelhante (H). 

(9) Góes, Chronica de el-Rei D. Manoel, part. 1.», cap. So." Ma- 
riz, dial. 4.", cap. 14.°, ÒiC. 

(10) Cant. 5.°, est. 60.» 

(11) Agora, que de apontamentos escriptos ha alguns annos ti- 
rávamos a hmpo esta Memoria, chegou ás nossas mãos o Roteiro da 
viagem de D. Vasco da Gama á Índia em 1497, impresso na Typo- 
graphia Commercial Portuense no presente anno de 1838. Os doutos 
editores na sua nota 17, pag. 143, concordão no que temos dito da 
conspiração contra o Gama, e apontão breve, mas judiciosamente, 
os argumentos que a fazem inverosimil, sendo hum delles o silencio 
do próprio Roteiro acerca das suppostas tormentas no cabo da Boa 
Esperança. 



305 



ARTIGO 3.° 

Corri (jera-se algiiniiis equivociHÕes de hum esciipldr l*(nlu(|iiez 
sobre esta viagem 

Em outro escripto nosso descrevemos succintamente a 
viagem da armada Portugueza, notando os ptincipaes pon- 
tos das costas que ella tocou, e os dias em que os tocou, 
6 seguindo nisto o que nos pareceo mais provável no meio 
da variedade, que se observa nos escriptores acerca destas 
particularidades. Assim, por exemplo, posemos a sabida 
do Gama de Lisboa no dia 8, e não 9 de Julho de 1 497, 
porque notando alguns antigos que fora em hum sabbado, 
esta condição se veiificou naquelle anno no dia 8. Pose- 
mos a chegada a Melinde no dia I o de Abril de 1498, por- 
que também achámos notado que era dia de Páscoa (42), 
a qual efiectivamente cahio naquelle anno a 15 de Abril. 
Posemos a chegada á costa do Malabar a 20 de iMaio, por- 
que lemos em alguns antigos, que fora em domingo, e 
esta nota se verificou naquelle anno no dia 20, ác. 

Aqui somente pretendemos agora notar algumas equi- 
vocações, que padeceo o benemérito auctor da Historia 
Genealógica da Coza Real Portugueza; porque sendo 
escriptor domestico, sincero, e verídico, pôde a sua aucto- 
ridade induzir em erro os leitores desprevenidos. 

Diz elle (13) que a armada de Vasco da Gama andara 
no cabo da Boa Esperança os mezes de Agosto, Setembro 
e Outubro^ padecendo tormentas, e tendo avistado a ilha, 
a que se paz o nome de «Santa Helena)^, e que finalmente 
dobrara o cabo a 2~> de Novembro. 

(12) A este dia do 1'ascoa alliule Camões, cant. 2.°, est. 72.» Ve- 
ja-se Góes, (Ihnmka de ol-Rri ]). Manoel, part. l.", cap. 35.° e se- 
guintes. 

(13) No artigo em ipn' (rala de el-llei l). Manoel. 

TOMO V 20 



306 

Porém o próprio escriptor nota, que o Gama sahíra do 
Tejo com a armada a 8 de Julho de 1497, e como assim, 
bem claro he que não podia estar, e andar no cabo da 
Boa Esperança em Agosto, Setembro e Outubro (14). 

Os nossos escriplores dizem que era o quinto mez da 
navegação (15), quando os navegantes avistarão terra, e 
nella sahírão, que foi na angra de Santa Helena, onde o 
Gama quiz íãzer aguada, e tomar a altura do sol. Alguns 
nolão que era sabbado 4 de Novembro. Camões diz que 
erão passadas cinco luas, quando a armada chegou e se 
demorou aqui; e logo suppõe, que tendo continuado via- 
gem, e passados mais cinco soes (isto he, cinco dias) se 
avistara o grande cabo (16), e nenhum destes escriptores 
faz menção de toi-mentas algumas, que os navegantes so- 
fressem nestas paragens, como já mostrámos no artigo 
antecedente. 

Também o escriptor se equivocou em dizer que a ar- 
mada avistara a ilha de Santa Helena. Esta ilha foi des- 
coberta por João da Nova. em 1302, ao voltar da índia. 
O douto escriptor parece ler confundido a ilha de Santa 
Helena com a angra de Santa Helena, que foi, como aca- 
bámos de dizer, a que Gama descobrio, e aonde sahio em 



(14) O douto esciiplor equivocou-se, porvíMitura, na inteliigeií- 
cia das palavras de Dainiâo do Góes, que diz: « Assique, seguindo 
Vasco da Gama sua viaqein, passou a vista das ilhas de Canarea, 
p d'alii foi ter ao porto de Santa Maria na illia de Santiago aos 28 
dias do mez de Jiútío, donde seguindo seu regimento, começou de cor- 
tar a leste em busca do cabo da Bouesperança, no que andou (não 
no cabo, mas em busca e demanda delle) os mezes de Agosto, Se- 
tembro, e Outubro, com muitas tormentas, e tempos contrários, até 
que Deos se houve por servido lhes mostrar terra. .. e acharão ser 
huma terra baixa, em que ha livma grande bahia, a que poserão o 
nome a Angra de Santa Helena «. 

(15) O quinto mez, ou ao quinto mez de navegação, e não depois 
de passados cinco mezes, como alguns disseram pouco exactamente 

(16) iMsiddas. ranl. "i.". esl. 24." e 37/ 



307 

terra. A angra ou r»aliia de Santa Helena lie situada quasi 
na extremidade de Africa : mas ainda na costa occidental, 
antes de chegar ao rosto do cabo. As Cartas a denotão 
em pouco mais de 3á'\ ao mesmo tempo que a ilha de 
Santa Helena está em l(j", ou 10° 40' segundo a compu- 
tação dos nossos antigos marinheiros, e dista alguns 16" 
em latitude do lugar, aonde Gama tomou terra (17). 

A passagem do Cabo da Boa Esperança a 25 de Novem- 
bro he ainda outra equivocação do escriptor. Alguns di- 
zem que os navegantes o passarão a 20, outros a 22, e 
que a 25, dia de Saeta Catharina, chegarão á angra ou 
aguada de S. Braz, já 00 léguas alem do cabo. Nós jul- 
gámos que o dia 22 tem melhores votos a seu favor, e 
conforma mais com as notas precedentes e subsequentes 
da viagem (18). 

ABTIGO 4.° 

Da pessoa do tíama 

São uniformes os nossos escriptores em dizer que Vasco 
da Gama era homem fidalgo, natural da villa de Sines, e 
filho de Estevão da Gama (19); mas não temos achado 
notado o anno do seu nascimento, nem a idade que tinha 
quando foi mandado ao descobrimento da índia, sendo 
que todas as particularidades são dignas de memoria, 
quando se trata de homens, que por suas grandes e il- 
lustres acções se fizerão acredores da immortalidade. 

Mariz, falando da expedição da índia, diz que Vasco da 

(17) Veja-se o Roteiro da viagem de Vasco da Gama (de que jú 
acima falámos) recenteiaente dado á luz da imprensa na cidade do 
Porto, not. 11, pag. l.'{9. 

(18) Ibidem, not. 17, pag. 142. 

(19) Moreri diz : «Filho de Estevão da Gama, e de Isabel Sodré, 
fdha de João de Rezende, Provedor, ou, Director dos diques do Tejo, 
Provedor das rallas de Santarém ». Grand. de Portugal. 



308 

Gama era então mancebo solteiro, e de idade e disposição 
para sofrer todos os trabalhos (20). Mas que idade era 
esta? E até onde alargava este escriptor a denominação 
de mancebo? Isto he o que elle nos não diz; e somente sa- 
bemos que em 1478 já Vasco da Gama tinha passado a 
Tangere em companhia de Fernam de Lemos, mandados 
(como he verosimi!) por el-Rei, e encarregados de alguma 
importante commissão, pois consta que havendo passado 
pelos reinos de Castella com direcção áquella praça, forão 
munidos de salvo-conducto, dado pela Rainha D. Iza- 
bel (ál): e em 1402, mandando el-Rei D. João II pôr em- 
bargo em todos os navios Francczes. que estavão nos portos 
de Portugal, encarregou de executar esta ordem em Setu- 
val, e no Algarve a Vasco da Gama, por onde entendemos, 
que já então devia ter idade e prudência para commandar 
alguns navios, e dar, como deo, cabal satisfação ao que 
el-Rei lhe encarregara (22). 

Diz mais o mesmo Mariz: «Que D. Vasco da Gama era 
homem de meãa estatura; hum pouco envolto em carnes: 
cavalleiro de sua pessoa; ousado em commelter qualquer 
grande feito; em mandar áspero, e muito para temer em 
qualquer paixão; sofredor de trabalho, e grande execu- 
tor no castigo de qualquer culpa em cumprimento da jus- 
tiça y>; e em outro lugar: «Que Vasco da Gama era do- 
tado de hum animo grande e incançavel, curiosissimo da 
arte marilima, e tão douto e diligente nella, que podia 
competir no entendimento e cuidado de suas cousas com 
os mais experimentados pilotos da Europar» (23): quali- 
dades que lhe merecerão o conceito e a estimação da- 

(20) Góes diz: «Homem solteiro, e de idade para sofrer os tra- 
balhos de Imma tal viagem». 

(21) Navarrete, Viages y descobrimientos de los Espaíioles des de 
fines dei siglo av. Madrid 1825, loin. 3.°, pag. 477. 

(22) Garcia de Rezende, Chronica de D. João II. 

(23) Mariz, dial. 4.", cap. 14.°, o dial. o.°, cap. l."- 



3U9 

quellc grande Rei, tão bom conhecedor dos homens, e tão 
justo avahador do merecimento, que não só o encarre- 
gou da commissão que dissemos, mas lambem o rleslinou 
para a árdua empreza do descobrimento da índia, logo 
que começou a ai)restar a armada que lá (jueria iii.iii- 
dar(2i). 

Alguns escriptores nossos, e entre elles Góes, e o mes- 
mo Mariz, dizem que el-Rei D. João II tinha dado a ca- 
pitania da armada do descobrimento da Índia a Estevão 
da Gama, pai de Vasco da Gama; e que por eile ser fal- 
lecido ao tempo que el-Rei D. Manoel mandou executar 
a empreza, escolhera el-Rei o filho para esse fim (25). 
Esta noticia porém he desmentida pelo testemunho de 
Rezende, que no principio desta memoria deixamos ci- 
tado, o qual por ser escriptor contemporâneo e veridico, 
e ter sido do intimo serviço de el-Rei D. João lí nos me- 
rece mais credito; além de nos parecer provável que Es- 
tevão da Gama tivesse já então mais idade do que convi- 
nha para tão diíBcil e laboriosa empreza. 

O illustre Gama fez a viagem da índia da maneira (}ue 
referem nossas Historias, e nós tocámos em outro es- 
cripto; e voltando a Portugal, teve o desgosto de deixar 
sepultado na ilha Terceira seu irmão Paulo da Gama, 
que ali veio fallecer, e chegou a Lisboa a 29 de Julho de 
449Í) (26), pouco mais de dous annos depois da sua sa- 

(21) Rezende, Chrunica de D. João II, cap. 146." e iHio." 
(2o) Góes, Chronica de el-Rei D. Manoel, part. 1.', cap. 23." — 
Mariz, dial. 4.", cap. 14." — Moreri acrescenta mais alguma cousa, e 
diz: «Que Estevão da Gama lóra nomeado por el-Rei D. João II; 
mas (jue não executando a empreza por el-Rei fallecer, nomeara el- 
Rei D. Manoe! a Paulo da (iama, o (jual recusara aceitar a conunis- 
são com -pretexto de fulta de saúde; mas que depois quizera hir com 
seu irmão para mostrar que não temia a incerteza da viaçiem. Isto 
nos parece inverosímil. Nós preferimos, neste ponto, a narração de 
Rezende a todas as outras. 

(2G) Gocs e Mariz dizem, ijue JSicolao Coelho ciiegára ao Tejo a 



310 

hida, sendo recebido com applausos e admirações, que 
facilmente se podem presumir (á7). 

Muitos escriptores notão, e estranhão (jueVasco da Gama 
não tivesse hum premio correspondente a tão relevante 
serviço. Eu não sei se ha nisto alguma exageração,, ou al- 
guma confusão de tempos. He certo que alguns serviços 
nunca podem ser recompensados de liuin modo conve- 
niente, e com premio que os iguale; e laes erão os que 
Vasco da Gama fez ao Estado naquella viagem: mas 
também he certo que a avaliação dos serviços, e a es- 
timação dos prémios são cousas mui varias no juizo e 
conceito dos homens, e dependem muitas vezes de con- 
siderações parliculares, que nem sem{)re podem ser uni- 
formes. 

Gomo quer que seja, Vasco da Gama teve de el-Rei a 
mercê do prenome Dom para si e seus irmãos, e descen- 
dentes, e a honra de pôr no centro do escudo das suas 
armas o escudo das Quinas Reaes (á8). Estas distincções, 
postoque meramente honorificas, tinlião naquelle tempo 
muito maior valor do que hoje se lhes daria. Teve mais 
)iOO)$ÍOOU réis annuaes de juro, u herdade para si e para 

10 de Julho, e o Gama a 20 de Agosto. Castanheda diz que chegara 
em Setembro a Belém, havendo dous annos e deus mezes que d'ahi 
partira. Outros dizem que entrara em Lisboa a 29 de Julho: e Bar- 
ros a 29 de Agosto. Nós seguimos o que tivemos por mais verosí- 
mil, parecendo-nos, que nem o Gama se d(Mnoiaria quarenta, qua- 
renta e nove, ou cincoenta e tantos dias na ilha Terceira, nem el-Rei 
deixaria de mandar algum navio em busca delle, se tanto se demo- 
rasse. 

(27) Além das festas e alegrias publicas (juc houve em Lisboa, 
escreveo el-Rei a todas as cidades e villas notáveis do reino, parti- 
cipando-lhes a chegada de Vasco da Gama, os trabalhos que tinha 
passado, e o descobrimento que deixava feito, e encommendando- 
Ihes que solemnisassem este successo tão prospero, e de tanta gloria 
e utilidade para a nação com acções de graças ao Ceo, e com de- 
monstrações de piedade e alegria. (Mariz, dial. 4.". cap. 14.°) 

(28) Severim de Faria, Noticias de Portugal, disc. 3.°, § 16." 



seus descendentes, impostos na (lizinin nova do pescadd 
de Sines, o de Villa Nova de Milfontes, nas sizas de Sines 
e de Santiago de Cacem, e no Faço da Madeira de Lisboa; 
e a faculdade de poder empregar na Índia cada anno 200 
cruzados, os qiiaes regularmente, na especiaria que lhe 
vinha do emprego delles, no tempo de João de Barros, 
respondiam cá no reino 2:8006000 réis (29). 

Alguns acrescentão aqui o officio hereditário de Almi- 
rante da índia, e também (com pouca exacção chronolo- 
gica) o íilnlo de Conde da Vidigueira; mas este titulo so- 
mente foi dado ao Gama vinte annos depois, como logo 
diremos; e emquanto ao officio de Almirante, diz Casta- 
nheda, que el-Rei lhe fizera delle mercê depois da se- 
gunda viagem á índia em 1503 (30). Nós vimos hum tras- 
lado authentico do Regimento do Almirante destes reinos 
tirado do liv. 1." das hordenações antyguas, dado, em 
pergaminho, a pedido de D. Vasco da Gama, em 12 de 
Fevereiro de 152 i, pouco antes da sua terceira viagem 
ã índia, e quando já tinha o titulo de Conde. 

Vasco da Gama foi mandado segunda vez á índia no 
anno de 1502 com vinte nãos, parte das quaes havião de 
licar em guarda daquelles mares. Fez tributário o Rei de 
Quiloa, e trouxe a el-Hei o ouro das páreas, que aquelle 
Príncipe prometteo pagar, e que erão as primeiras que 
vinhão da Ethiopia Oriental. Assentou novos ajustes de 
commercio e amizade com os Reis de Cochim, e Cananor; 
castigou severamente a perfídia e trato doble do Çamo- 

(29) Míiriz, (liai. '^.^ t;i|». 14." Conf. Ikiros, liv. 4." e 11." 

(30) As palavras de Caslaiilxnia são t>stas, no liv. 1.", cap. 48.»: 
" Cheqou a Lisboa hn primeyrb de Setembro do iiwsiiio anno {úe lo03). 
c todos os (irandes da corte delUeij dom Manuel lio foráo receber ao 
cays, e ho levarão ao paço onde lio ellley recebeo com muita honra, 
e lhe fez mercê do almirantado do mar Indico, e o fez Conde da viUa 
da Vidifiueira » : mas como a ulliiiia clausula não lie verdadeira, re- 
ceiàinos que também na precedente houvesse equivocarão. 



312 

rim de Calecut, e recollieo-se a Portugal com treze náos 
carregadas de ricas mercadorias, que acabarão de desva- 
necer todas as desconfianças, que ainda havia contra o 
commercio do Oriente. 

Destes novos, e mui relevantes serviços he que parece 
não ter tido Vasco da Gama premio algum, que nos conste, 
até o anno de 1519, salvo se dissermos com Castanheda, 
que então lhe foi dado o almirantado. 

Em 1519, o Duque de Bragança D. .layme, que esti- 
mava o Gama, sabendo que este grande homem estava 
queixoso da pouca remunerarão de seus serviços, não só 
lhe facilitou a venda das duas villas da Vidigueira, e Villa 
de Frades (que erão dos Duques), mas também interveio 
com el-Rei para que o fizesse Conde da Vidigueira, o que 
tudo se effeituou no mesmo anno, sendo a Carta do titulo 
passada a 29 de Dezembro (31). Com este titulo conti- 
nuou a sua caza até o tempo de el-Rei D. João IV, em 
que o Conde Almirante foi elevado a Marquez de Niza, 
pelos bons serviços que fizera á Coroa na embaixada de 
França (32). 

O Conde D. Vasco da Gama foi ainda mandado terceira 



(31) Historia Genealógica, no artigo do Duque D. Jayme. — Faria 
e Souza, Europa Portwjueza, tom. 2.°, part. 4.', cap. 1.°, § 52.°, diz 
quo (^1-Rci deo a T). Vasco da Gama o titulo de Conde, menos instado 
da gratidão Renl, que de sen valido D. Álvaro da Costa. Pôde ser 
que o Duque e o valido concorressem ambos para o despacho do 
Gama. A venda das duas villas foi feita pelp Duque por escriptura 
celebrada em Évora a 17 de Novendtro de 1519. O Gama deo por 
ellas quatro mil cruzados em dinheiro, e quatrocentos mil réis de 
juro. (Ckronica do Carmo de Fr. José Pereira de SanfAnna.) 

(32) D. Vasco Luiz da Gama, 5.° Conde da VidigUíúra, e 3." neto 
do nosso heroe, do Conselho d'Estado, e Embaixador a França, foi 
feito Marquez de Niza por Carta de 18 de Outubrf) de 1646 : e a 
seu fdho fez el-Rei Conde da Vidigueira de juro e herdade, conce- 
dendo que os primogénitos da sua caza tomassem este titulo, sem 
necessidade de nova Carta, ou Graça. 



313 

vez á índia em 1524, com o cargo de Vice-Rei (33); mas 
chegando a Goa em Setembro, foi fallecer em Cochim, 
com cousa de três mezes e vinte dias de vice-reinado, a 
24 de Dezembro do mesmo anno. 

He bem notável, que Mr. de la Glede, fazendo menção 
desta terceira viagem do grande Gama, no liv, 16.° da sua 
Historia Geral de Portugal, não só lhe dê nesse lugar 
constantemente, e por muitas vezes, o nome de Lopo Vaz 
da Gama (34), mas também nos dê a nós a noticia de 
que o Gama era então já velho, e quasi caduco. 

Acima dissemos que ignorávamos a idade do Gama 
quando foi a primeira vez á índia ; e he provável que Mr. 
de la Glede não tivesse disto melhor conhecimento : mas 
dado que o Gama tivesse então quarenta annos, teria agora 
sessenta e sete, que nem he grande velhice, nem he idade 
que faça o homem caduco. Muitas vezes temos observado 
e notado, a outros respeitos, quão pouco exacto he este 
escriptor, e quão propenso a ornar com fabulas a historia 
de Portugal! Não duvidando ás vezes de nos dar as suas 
fantasias por factos históricos (35). 

(33) Em Évora, a 28 de Fevereiro de lo24 fez D.Vasco da Gama 
homenagem a el-Rei pela Capitania-mór, e governança da índia, 
como consta do auto que disso se lavrou, e está no Real Archivo, 
110 Corpo (^hronolofiico, part. 1.% maç. 30, num. 90, sendo testemu- 
nlias o ÍAmiU' do Vimioso, e Bartlioloineii. de Paiva, amo de S. Alteza. 

(34) Já precedentfiniMite, no mesmo liv. iô.", descrevendo Mr. 
de la Clede o acto da acclamação de el-Rei 13. João 111, nomêa en- 
tre os fidalgos ([uc o acompanhavão, o famoso Conde da Vidigueira 
Lopo da Gama, que foi o primeiro que entrou nas hidias! E o tra- 
diKítor deixou passar tudo isto sem correcção! 

(35) Como a accusação que aqui fazemos a Mr. de la Clede pôde 
parecer grave, havemo-nos por obrigado a dar delia algumas pro- 
vas, e serão escolhidas, entre muitas outras, dos próprios factos que 
pertencem á historia dos nossos descolirimentos (> conquistas: 

1." No liv. H." toda a narração (]ue o escriptor ahi faz do prin- 
cipio dos (l<'scohrimentos iiiariliiiios dns l'ortiiguezes he escriptacom 
extrema negligcsncia e cheia de erros. Noiaremos porém somente, que 



314 

Os nossos Heis não costumavão mandar ã índia para 
governar aquelles estados homens caducos, nem D. Vasco 

lalando de Gil Eanuex (a quem na tradticrão se dá o nome de Gil 
Annio, e ás vezes simplesmente de Ânnio), que dobrou o cabo Bo- 
jador, diz que elle chegáfa até Serra Leoa, e que depois por espaço 
de cincoenta annos mnQuem ousou dobrar o cabo de Serra Leoa. 
Mas tudo isto he falso: porque nem Gil Eannes chegou a Serra 
I.eôa, nem em Sei ra í^eóa havia cabo algum' que demorasse ou dif- 
ficultasse a ulterior navegação, nem nos descobrimentos houve essa 
interrupção de cincoenta annos, imaginada pelo escriptor. Desde que 
(iil Eannes dobrou o Bojador, toda a costa para o sul se foi desco- 
brindo successiva e progressivamente por espaço de trinta annos, e 
por dilTereiítes descobridores, em vida do immorfal Infante D. Hen- 
rique. Logo depois da sua morte, que foi em 1460, mandou el-Rei 
D. Affonso V Pedro de Cintra á costa de Africa, e este foi o que 
descobrio Serra Leoa em 1461, e a correo em toda a sua iongura de 
oO milhas, passando ainda alem delia cousa de 240, ou 2oO milhas 
até o cabo Mesurado, em quasi o gráos meridionaes, &c. 

2." No liv. 17.". escrcvenilo iMr. de la Clede a historia do pri- 
meiro cerco de Diu, dá constantemente ao insigne capitão, que de- 
fendeo níjuella fortaleza, o nome de Heitor da Silveira, sendo bem 
sabido de todos, que se chamava António (e não Heitor) da Silreira. 
Heitor da Silveira. t]\w lambem se assignalou muito em feitos mili- 
tares na Índia, já i-va fallicido ao tempo do primeii'0 cerco de Diu. 

3." No mesmo liv. 17.", referindo Mr. de la Clede a vinda de Nuno 
da Cunha para o reino, depois de ter governado a índia por dez an- 
nos, e como falleç(^ra no mar, acrescenta o gr.ande conceito que el- 
Rei fazia deste excellenie capitão, o muito que aeidio a sua perda, 
(' as lagrimas que pur ella derramou. Mas o certo he que na ilha 
Terceira estava bum Ministro de el-Rei esperando por Nuno da Cu- 
nha para o trazer em ferros a Lisboa, e Barros diz, que cala por 
credito da nação as festas e apercebimentos, (jue esperavão a Nuno 
da í^unha com Portugal, se cá chegasse. 

4." No liv. 18.". diz la Clede, que D. João de Castro era Gover- 
nador de Ormuz quando iecebeo*a patente de Governador Geral dos 
índias. Mas D. João de Castio nunca foi Governador deOrnjuz, nem 
estava na índia, m is sim em Portugal quando lhe foi dado aquelle 
governo. 

5." No niesnio liv. 18." refere ao tempo de el-Rei D. João III o 
estabelecimento dos Portuguezes na ilha de S. Thomé, sendo que a 
ilha foi mandada povoar em 1493, como o mesmo la Clede reco- 



315 

da Gama mostrou no decurso desta ultima viagem mere- 
cer essa qualificação. El-Rei não só o mandou para res- 
taurar as cousas da índia que já então ameaçavão deca- 
dência, mas também lhe confiou huma poderosa armada, 
em que hião 3:000 homens de armas para servirem na- 
quelles estados debaixo do seu mando. A armada nave- 
gou prosperamente até á vista das terras de Cambaia, 
aonde, estando o mar em calm.i, se sentio repentinamente 
nas náos hum espantoso tremor que pôz toda a gente em 
confusão, cuidando que naufragavão. Huns acudião ao 
leme, outros á bomba, outros a prevenir algum modo de 
salvação, todos em grita, todos em grande perturbação 
e desordem. Senão quando o illustre Gama se levantou 
intrépido, e adiantando-se ao meio do convés, bradou: 
« Eia, amigos, não temaes, que o mar he o que treme de 
nós-»; as quaes palavras, ditas com grande acordo e se- 
guridade, alentarão a gente, e dahi a pouco cessou o ter- 
remoto que elle mui bem conheceo que era a causa da- 
quelle fenómeno. Acaso será isto prova de que Vasco da 
Gama estava quasi caduco? Não o julgou assim Camões, 
que a esta palavra do Gama alludia, (juando disse no 
cant. 2.°, est. 47.'^: 

Vereis este, que agora pressuroso 
Por tantos medos o Indo vai buscando, 
Tremer delle Neptuno de medroso. 
Sem vento suas agoas encrespando. 



E logo : 



Ó gente fortt' e de altos pensamentos. 
Que também delia lião medo os elementos. 



O mesmo que os escriptores. e com elles Mr. de la 
Clede, referem acerca das providencias, que o Gama logo 

nhece no liv. 14."; e em 1550, que lie o anno que assigna áquelle 
estabelecimento, já na ilha liavia grande commercio, como nos consta 
da Navegação de Lisboa a S. Thomé. escripta no snno de 1551 por 
hum piloto Portuguez, (fiie lá tinha hido cinco vezes, como elle mesmo 
diz, ÒLC, Ac. 



316 

deo nesse pouco tempo de seu vice-reinado, das expedi- 
ções que ordenou, dos effeitos que a sua chegada á índia 
produzio, tanto nos Portuguezes, como nos estrangeiros, 
á-c, desvanece a idéa de caducidade, mui imprópria, e 
desattentadamente introduzida porJMr. de la Clede na sua 
narração. O fallecimeiito de D. Vasco, aos três mezes e 
pouco mais do seu governo, podia acontecer, ainda que 
elle estivesse no vigor da mocidade. 

As respeitáveis cinzas deste grande liomem vierão tras- 
ladadas para Portugal, e forão depositadas no convento 
carmelitano da villa da Vidigueira, em hum caixão collo- 
cado no presbyterio da igreja ao lado do Evangelho, em 
cuja parede se metteo huma lapida com esta inscripção: 

AQUI JAZ O GRANDE ARGONAUTA D. 

VASCO DA (;ama, primeiro conde da 

VIDIGUEIRA, E ALMIRANTE DAS ÍNDIAS 
ORIENTAES, E SEU FAMOSO DESCOBRIDOR. 

Parece cousa mui verosímil, que Vasco da Gama escre- 
vesse a Relação ou Diário da sua primeira navegação á 
índia, para o apresentar a el-Rei D. Manoel, ou pelo me- 
nos o mandasse escrever debaixo da sua immediata di- 
recção e nota. Este devia ser (ao que parece) hum dos 
primeiros cuidados, se não rigorosa obrigação, que in- 
cumbia aos capitães das expedições marítimas, maior- 
mente quando hião a descobrir novos mares, costas, e ter- 
ras; tanto para que por suas observações se verificassem 
os pontos já denotados nas cartas, ou se demarcassem os 
que novamente se hião descobrindo, ou se determinasse 
e corregisse a projecção das mesmas cartas, como para 
se notarem os differentes povos que habitavão as costas, 
os seus costumes, Índole, linguagem e trato, e emfim to- 
dos os accidentes que podesseni servir ao conhecimento 
dos lugares e da gente, e fossem de utilidade aos futuros 
navegantes, que fizessem o mesmo caminho. A viagem de 
Vasco da Gama era de tal novidade e importância, e de 



317 

tanto empenho de el-Kei, e expectação dos Portuguezes, 
que temos por absolutamente incrivel, que elle não satis- 
fizesse aquelle cuidado e obrigação. Comtudo não temos 
achado a este respeito noticia alguma mais positiva que a 
que nos dá Ortelio no seu Theatrum orhis Terrarum, im- 
presso em Antuérpia, em 1612, na breve nota que pre- 
cede á taboa 4.^ de Africa, aonde apontando alguns au- 
ctores, que desci-evèrão esta parte do globo, diz: aExre- 
centioribus consnle Aloysiiim Cadamostum, Vascum de 
Gama, Franciscum Alvarez, giii Áethiopiam perlustra- 
vit)^, de; donde parece colligir-se que Ortelio tinha co- 
nhecimento de alguma Relação feita por Vasco da Gama, 
ou que corria com o seu nome. Hum escriptor nosso, mo- 
derno, diz: «Ha tradição que escrevera a sua primeira 
viagem ^K E Moreri: nDizem que publicara a Relação da 
sua primeira viagem d índia » ; e cita huma fíibliotheca 
Lusitana (manuscripto). E eis-aqui tudo o que a este res- 
peito tínhamos achado até 1838, anno em que se fez a 
publicação do Roteiro mencionado a pag. 304 e 306, not. 
num. M, e 17. • 

Na Colíecção das Cartas de Américo, publicada por 
Bandini em 1743, vem no art. 3." a Relação de huma ex- 
pedição feita por ordem de el-Rei de Portugal pelo cabo 
da Boa Esperança a Calicut, dirigida a Lourenço de Me- 
dicis, que Bandini chamou inédita. Desta Relação, diz Ca- 
mus, que he a da viagem de Vasco da Gama, escripta por 
Américo Vespucio. (Vej. a Memoria de Mr. Camus sobre 
a Colíecção das grandes e pequenas viagens, ócC. Paris, 
1802, em 4.") 

ARTIGO 5.° 

Dos Poi-lii(|ii('zes que acuiiipuiiliárão a Vasco da Gama 
na sua viagem 

(^omo este nosso trabalho, e outros que temos empren- 
dido acerca de nossas navegações, viagens, e descobri- 



318 

mentos tenha por hum de seus principaes fins renovar a 
memoria de tudo quanto possa ser glorioso á nação Por- 
tugueza, e vindicar os nossos compatriotas do injusto e 
ingrato desprezo dos estrangeiros, bem quizeramos no- 
mear aqui hum por hum os heróicos companheiros que 
forão com o Gama na expedição da índia, e dar a todos, 
até ao mais inferior, a porção de gloria que a todos indu- 
bitavelmente compete. Mas a historia somente nos con- 
servou escassa memoria de poucos, e com essa nos de- 
vemos contentar. 

Já nomeámos os dous illustres Capitães, Paulo da Gama, 
da náo S. Rafael, e Nicolao Coelho, da náo Berrio. O pri- 
meiro que era (como dissemos) irmão de Vasco da Gama, 
ficou sepultado na ilha Terceira, aonde falleceo, vindo de 
volta para Portugal. 

De Nicolao Coelho, diz Severim de Faria (Noticias de 
Portugal, disc. S.**. 1 16.°) que era fidalgo de grande va- 
lor, e que se houvera na exi)edição com singular esforço 
e prudência. Na volta da armada ao reino apartou-se da 
capitanea, e chegando á bahia de Cascaes a 10 de Julho 
de 1499, e sabendo que o Gama ainda não era vindo, di- 
zem alguns, que quizera voltar ao mar a procural-o, mas 
que el-Hei o não consentira, e o mandara entrar; pelo 
que foi o primeiro que informou a el-Rei de tudo o suc- 
cedido. 

El-Rei D. Manoel enti^e outras mercês (diz o mesmo Se- 
verim) lhe deo por armas em campo vermelho hum leão 
rompente entre duas columnas de prata, que estão sobre 
huns montes verdes, e em cima de cada hum, fmm escudo 
com cinco dinheiros, e ao pé o mar, que significava os pa- 
drões que deixou postos no novo descobrimento do mar 
e terra do Oriente, e no leão o valor, com que neste des- 
cobrimento se houve. 

Faria e Souza diz que Nicolao Coelho fora premiado 
com o foro de fidalgo, e lOU escudos de tença annual. 



319 

Este nobre Capitão foi segunda vez á índia, governando 
huma das náos que forão na armada de Pedro Alvarez 
Cabral em 1500, e com elle aportou á Terra de Santa 
Cruz (Brazil), então descoberta, e dahi o acompanhou ca- 
minho da índia. 

Fez ainda terceira viagem no anno de 1503, em huma 
das náos da armada de Francisco de Albuquerque, e o 
ajudou com grande valor a castigar os rebeldes de Co- 
chim, e a restituir ao Rei as terras que lhe pertencião. 
Mas vindo Francisco de Albuquerque para o reino, e com 
elle Nicolao Coelho, em Janeiro de 1504. ambos se per- 
derão na viagem, sem se saber onde, nem como, diz Góes. 
E a isto se reduzem as noticias que poílémos alcançar de 
Nicolao Coelho. 

Da outra gente da armada do Gama, adiámos nomea- 
dos os seguintes : 

1.° Gonçalo Nunes, Capitão do navio em que hião os 
mantimentos. Delle diz Faria e Souza, com Barros, que 
era criado dos Gamas (36). 

2.° Pedro de Alemquer, celebre Piloto que já tinha 
Ilido com Bartolomeu Dias ao descobrimento do cabo da 
Boa Esperança, e agora foi na capitanea S. Gabriel. 

3.° Gonçalo Alvarez, Mestre da mesma náo capitanea 
(Barros, 1. 4, 4). 

4."" João de Coimbra, Pilolo da náo S. Rafael, de Paulo 
da Gama. 

5.° Pedro deEscobar, Piloto da náo Herrio, de Nicolao 
Coelho. 

6.'' Fr. Pedro da Covillíãa, Trinitaiio, Prior do convento 
de Lisboa, Confessor de Vasco da Gama (37). 

(36) Escusado paivci' advertir, qui* criado não tinha iiaquelie 
tempo a significarão que hoje se lhe dá. Chamava-se então criado 
o que criava e educava, c vivia nas cazas dns fidalgos, e era ás ve- 
zes seu parente. &c. 

(37) Nos mais antigos t^scriptores nossos, que tratarão da expe- 



320 

7.° Fernam Martins de Lisboa, que falava bem o ará- 
bico, e que mereceo por isso ser commemorado de Ca- 
mões naquelles versos dos Lusíadas, cant. 5.", est. 77.*: 

Pela arábica lingua, que mal falão, 

E que Fernam Martins mui bem entende. &c. 

do qual diz Faria e Souza, que tivera de el-Rei os privi- 
légios do seu foro, e os mesmos para seu filho mais velho. 

S.° Martim Monso, que sabia muitas línguas dos ne- 
gros (diz Castanheda), e que achámos nomeado com Fer- 
nam Martins línguas, e lambem pilotos. 

9." Diogo Dias, irmão do inUvpido Bartolomeu Dias, 
Escrivão da náo capitanea. 

10." João de Sá, Escrivão da náo S. Rafael. Voltou á 
índia na armada de Cabral, e foi depois Thesoureiro da 
Caza da índia. 

H .° Álvaro de Braga, Escrivão da Berrio, e depois Es- 
crivão da Alfandega do Porto. 

li.° Fernam Velloso, mancebo valente e ousado a 
quem succedeo a aventura que Camões refere no cant. 5.", 
est. Zi.^ e seguintes, e de quem torna a falar no cant. fi. ", 
est. 41.* 

I3.° Leonardo, lembrado pelo Poeta no cant. C", 
est. 40.% de quem diz Manoel Corrêa, que se chamava 
Leonardo Ribeiro, e que assim lh'o dissera Camões. 

dição do Gama, não temos achado o nomo deste Religioso Trinita- 
rio. Faria e Souza lhe dá o nome de Pedro de Cohillones, e diz que 
fora com effeito por confessor de Vasco da Gama ; mas este escriptor 
não nos merece grande credito de exacção. O moderno Chronista dos 
Trinitarios também dolie fala com o nome de Fr. Pedro da Corilhãa, 
e refere a hida com o Gama, ajuntando circumstancias que nos pa- 
recem pouco verosímeis, especiahnente a de ser martyrisado na ín- 
dia, em 1498, ás lançadas, estando ensinando e explicando o myste- 
rio da Santissima Trindade, pelo que lhe chama o protomartrjr da 
Índia, e diz que iôra enterrado no campo por alguns Catholicos, &c. 
O leitor fará desta narração o conceito que lhe parecer razoável. 



321 

14.° Gonçalo Pirez, marinheiro, da criação de Gama, 
e que o acompanhou á visita do Çamorim. 

15.° Álvaro Vellio, soldado. 

16.° Pedro de Faria e Figueiredo. 

17.° Francisco de Faria e Figueiredo, irmão do ante- 
cedente, e ambos nomeados por Faria e Souza. 



TOMO V 



NOTA 

SOBRE A ORIGEM DA ESCRAVIDÃO E TRAFICO 
DOS NEGROS 



Serra de Ossa, aiiim do 1829. 



NOTA 

SOBKE A ORIGEM DA EScr.AYIDÃO E TRAFICO 
DOS NEGROS 



Na obra intilulada Histnive abrefjéo des Trailcs depaíx 
entre les puissances de lEurope depuis la paix de West- 
phalie, par F. Schoell, Paris, 1818, em 8.°, no tom. 11. °, 
pag. 171, tratando o escriptor das negociações entre di- 
versos gabinetes paivi a abolição do trafico dos negros, 
começa o seu discurso por este solemne paragrafo, que 
aqui fielmente traduzimos em Portuguez: 

«A origem do trafico dos negros remonta ao principio 
do século XVI. Os Portuguezes tem a triste Itonra de o ha- 
verem imaginado. Em 1503 forão elles os que introdu- 
zirão nas colónias Hespanhoias da America os primeiros 
negros comprados em Africa. Bartholomeu de las Cazas, 
julgando que este trafico seria hum meio de preservar os 
indígenas das Antilhas da destruição, de que os amea- 
çava a cubica dos colonos, propoz ao Cardeal Ximenes 
legalisar este commercio, e dar-lhe forma legular. O mi- 
nistro rejeitou o [)rojecto; mas Caiios V o auctorisou for- 
malmente em 1517, e concedeo ao seu valido Bresa o mo- 
noi»olio da inlrodncção annual de 4:000 negros, o qual 
elle traspassou aos Genovezes. Em Inglaterra foi o trafico 
auctoiisado em tempo da Hainha Isabel, e em Fiança so- 
mente o foi em tempo de Luiz XIII », Ac. 



326 

Se alguém lesse este paragrafo sem outro algum prévio 
conhecimento da historia do mundo, não deixaria, por 
certo, de censurar com merecida severidade o procedi- 
mento dos Portuguezes, inventores ,de hum trafico tão 
deshumano; de os julgar destituidos naquelle tempo dos 
princípios da verdadeira civilisação: e de votar á execra- 
ção dos séculos futuros hum povo, que assim calcava aos 
pés os direitos sagrados da humanidade. 

Comtudo, quem assim discorresse erraria gravemen- 
te, e faria manifesta e atroz injuria aos Portuguezes, 
seduzido pela ignorância, e ousada temeridade do es- 
criptor. 

A historia de todos os povos, que conhecemos, nos 
mostra estabelecido por toda a parte, desde os mais re- 
motos tempos, o trafico debomms, havidos por escravos, 
comprados, e vendidos como taes por seus chamados se- 
nhores, tratados talvez com barbara e cruel deshumani- 
dade, e reduzidos a huma condição ainda mais vil e mais 
infeliz, que a dos mais vis animaes brutos. 

Os livros de Moisés, que, ainda pondo de parte a sua 
origem divina, são os que temos mais antigos (3 mais res- 
peitáveis em matéria de historia, e de legislação, fazem 
frequente menção dos escravos, que havia entre o povo 
Hebreo: huns, que volunlariamente se fazião taes, obri- 
gados da necessidade ; outros vendidos por seus próprios 
pais; outros, que não podendo pagar suas dividas, ou 
restituir os bens roubados, davão por elles a própria li- 
berdade; outros captivados na guerra, À-c; e referem 
muitas leis, dadas por J)eos ao mesmo povo, já para re- 
gular os direitos, e obrigações dos senhores e dos es- 
cravos, já para adoçar de algum modo a infeliz sorte 
dos segundos. (Vej. Gems. XXXV II, 26-i.>8, XIMl, 
18-22; Exod. XXI, 2-7; Levit. XXV, 39-54; Deute- 
ron. XV, 12-18; ác, ác.) 

Esta escravidão era praticada naquelles antigos tempos, 



327 

e o he ainda hoje [mv todos os povos orientaes, sem ex- 
cepção alguma, que nos conste, e seria perder inutilmente 
o tempo, se quizessemos demonstrar liuma verdade tão 
constante em todas as historias. 

E não somente erão sujeitos á escravidão os homens 
captivados em guerra justa, ou injusta, ou aquelles que 
forçados da cruel necessidade, ou de outras causas se su- 
jeitavão a tão miserável condição; senão que também era 
frequente a pratica de os apanhar, e arrebatar violenta- 
mente, e adoptado o trafico, isto he, a compra e venda 
destes infelizes, passando-se de huns a outros o dominio e 
senhorio delles, talvez em mercados públicos, por preços 
ajustados, bem como se costumava, e costuma fazer com 
os outros objectos, que entrão no ordinário commercio 
dos homens, e das nações. Os próprios Hebreos nos sub- 
ministrão a este respeito o notável exemplo de José, ven- 
dido por seus irmãos aos mercadores Ismaelitas, e re- 
vendido por estes no Egypto. (Genes. AXVÍ7/.^ 

Os Gregos e Romanos, tidos ainda hoje como as nações 
mais illustradas, mais civilisadas, e mais polidas entre as 
antigas, e cujos frequentes atlentados contra a justiça e 
a humanidade pai'ece que ainda hoje são respeitados, e 
talvez admirados dos nossos eruditos, não só praticavão 
a escravidão, e tinhão hum [)rodigioso, e quasi incrível 
numero de esciavos, mas até os tratavão com huma bar- 
baridade e ferocidade de que apenas haverá poucos exem- 
})los entre os povos modernos. 

Todos sabem qual era entre os Gregos Lacedemonios 
a condição dos ilotas. Os outros estados da Grécia todos 
tinhão seus ilotas com differentes nomes, e todos prati- 
cavão com os miseráveis escravos as mesmas deshuma- 
nidades. 

Que diremos dos Romanos? Lúcio Floio attribue a le- 
volta, que na Sicília fizerão os escravos c;ipitaneados por 
Euro Syro, ao bárbaro tratamento, que se dava a estes 



328 

infelizes, obrigaiido-os alavraras lerras, encadeados huns 
aos outros, como animaes brutos (l). Séneca, no tratado 
De ira, liv. 3.°, cap. 40.°, nos dá noticia de humVedio 
Pollion, que mandava lançar luim escravo no tanque em 
que se cevavão as lamprêas, por lhe ter quebrado hum 
vaso de cristal. Bandos numerosos daquelles miseráveis 
erão forçados a se matarem huns aos outros nos chamados 
jogos do Circo, para recreação de hum povo cruel, que 
ousava chamar bárbaros os outros povos, de. O virtuoso 
Catão não se pejava de ser mercador de escravos; e Tra- 
jano, este Priucipc admirável, que somente teve a fra- 
queza dos grandes corações, o excessivo amor da gloria, 
dava ao povo Romano festas publicas, em que se dego- 
lavão dez mil gladiadores, e onze mil animaes. (Diodor., 
liv. 48.") 

Quando Paulo Emilio conquistou a Macedónia, diz Pli- 
nio, que decretou n'hum só dia a ruina de setenta e duas 
cidades (2). Cento e cincoenta mil Epirolas, e Macedonios 
forão então vendidos em Roma, em hasta publica, no 
mesmo lugar, aonde depois forão postos em almoeda os 
restos, não menos desgraçados, do povo Hebreo, á-c. Fi- 
nalmente pelas obras de Séneca nos consta, que em seu 
tempo havia em Roma armazéns de escravos, aonde os 
mercadores desta fazenda os guaidavão, para d'ali serem 
levados ;i praça publica, e nella expostos á venda como 
vis animaes (3). 



(1) Lúcio Floro, Historia Romana, liv. 3.", cap. 19." «Terra íru- 
í,'Uiii forax, et quoclammodo suburbana prnvincia latifundiis eiviuni 
latinoruni tenebatur. Hic ad cultum agri frequentia ergastula, cale- 
natique cultores niateriam bello pracbuere». 

(2) riiaio, Historia Natural^ liv. 4.", cap. 10." «Ilacc eadeni est 
Macedónia, cujus, uno die, Paulus Aemilius, Imperalor noster, se- 
ptuaginta duas urbes direptas vendidit». 

(3) Séneca de Const. Sapioit., cap. 13.<* «Num moleste feram si 
milii non reddiderit nomen aliquis ex his, qui ad (^astoris fórum 



329 

Os povos, que desmembrarão o império Romano, e se 
apossarão de suas proviíicias, coiilimiárão a usar do tra- 
fico de liomens, que adiarão estabelecido, e que a elles 
mesmos não era estranho. O Cliristianismo, postoque 
muito concorresse para suavisar a sorte dos escravos, e 
fosse pelos séculos adiante, pela tendência de seus prin- 
cípios eminentemente sociaes, huma das mais poderosas 
causas da diminuição e decadência deste inhumano com- 
mercio, não abrogou comtudo a pratica geralmente ado- 
ptada, nem o seu divino Auctor alterou, nem quiz alterar 
directamente a ordem estabelecida nas sociedades huma- 
nas, ou as diíTerentes graduações, e respectivos estados 
civis, que as leis, e usos dos povos tinhão adoptado (4). 

As igrejas e mosteiros tinhão escravos : as antigas doa- 
ções fazem a cada passo menção delles entre os bens 
doados. Os concílios de differentes séculos e nações estão 
cheios de cânones relativos a escravos, suppondo a exis- 
tência da escravidão, sem a reprovarem, nem condemna- 
rem. Em huns se prohibe dar as ordens sagradas a es- 
cravos, ou admittil-os a qualquer ministério ecclesiastico: 
em outros se dão providencias para serem restituídos a 
seus senhores os escravos, que buscavão a protecção da 
igreja com o fim de se subtrahirem á servidão : em outros 
se ordena que os .ludeos não possão ter escravos Christãos : 
em outros se estabelecem regras para a manumissão dos 
escravos, que pertencião ás igrejas, ócc. 

Os mercadoresVcnezianos commerciavão no século vm 
em escravos Chrislãos. A hisloria nos deixou em lembrança 
a religiosa piedade do Papa /acharias, que pelos annos 
de 7iS, sabendo que aquelles mercadores tinhão com- 
piadn cm \Vn\\\\ nuiitos escravos de ambos os sexos, i»ara 

nogotiantur, iiciiuaiii niniicipia imikmiIi^s, \(MiiI('iiI('S(|iii\ (|ii()riiiij ta- 
liernae pessiiiioriiiii seivoíiim lurba roferlai^ sunl?" 

(4) Vej. «a Ei)ist ad lOphos.. VI, 5-9; ad Colosscns, IV, I; ad 
Philern., I, í^pist.. 11: INlr., I[. 18». ísn\ 



330 

OS hirem vender, depois de mutilados, aos infiéis de Africa, 
resgatou grande numero destes infelizes, a quem deo a li- 
berdade. 

No anno 785 lançou Carlos Magno dos seus estados os 
Gregos, que alii vinlião comprar escravos Christãos, para 
os hirem vender aos Mosselemanos da Hespanha, e do 
Oriente. Comtudo no século seguinte, pelos annos 820, 
ainda os negociantes de Verdtm se empregavão naquelle 
trafico, vendendo seus próprios concidadãos, depois de 
mutilados, aos Kaiifas e Mouros, para serem empregados 
na guarda dos seus serralhos (5). 

Em hum concilio de Londres de 1102 se determinou, 
que ninguém vendesse homens como animaes brutos, cousa 
(jue (Kantes se {indicava em Inglaterra, dizFleury(6). Sem 
embaigo porém dcsla jii-oliibição, consta que pelos annos 
1171, tendo Heiíiiijuelí conquistado a Hibernia, celebra- 
rão os Bispos íiesta ilha hum concilio, em que se ordenou 
que fossem reslitiiidos á liberdade todos oslnglezes, que 
ali eslavão em cst ravidão, [loiípianto (diz o escriptor con- 
temporâneo) (^slavão os Padres persuadidos que a divina 
justiça os siijeilava (aos Ingle/.cs) em pena de seus crimes, 
e especialnieidc iiorr/ur (iiihão por costume comprar a 
mercaâores e piratas ns homens da nação Ingleza, para 
os reduzirem d c ser a vidão (7). 

No século xiM. no meio da Europa, entre nações Chris- 

(5) Luitpraiiilo, CUroniva. A esles escravos davâo os negociantes 
o nome de carsamatia , á tnaiioira dos Gregos. Luitprando explica 
esta denominação: « Carsainatium autem (diz elle) Graeci vocant, 
amputatis viriliiius, et viiga, cnnuchum, quos Verdunenses ob im- 
iiiensimi liicruni facerc soleiít, et in Hispaniam ducrre». (Vej. Mc- 
vioire liisloriqne et diplouintiqne siir Ic commerce, et les étahlissemcnls 
Franriiis nu l:rnnt , lida na sessão publica do Instituto, anno 1827. 

(G) Fleuiy, Historia Ecciesiastica, liv. 6o.", § 22." «Ut nemo ho- 
mines ut bruta animantia vcnumdet. Quod in Anglia ad ea usqiie 
têmpora tieri solebat». 

(7) Ibid., liv. 72.°, § 38." 



.331 

tãas, se vendião não só os prisioneiros de guerra, Rias até 
ás vezes os iiabitantes pacíficos, e inermes das cidades, 
ou praças expugnadas. A carta que o Papa Gregório IX 
escrevia ao Arcebispo de Estrigonia em 1^31, estranhando 
algumas cousas indignas, que se praticavão em Hungria 
com menoscabo da religião, nota, que os Sarracenos hião 
lá comprar escravos Christãos, de que abusavão a seu ar- 
bítrio; e que os Christãos, forçados da pobreza e inópia, 
vendião aos infleis seus próprios filhos (8). 

O Papa Gregório XI, nas suas Letras Apostólicas de 20 
de Abril de 1376, dadas contra os Florentinos, sobre ou- 
tras graves penas e censuras, que contra elles fulmina, 
acrescenta a de serem reduzidos a escravidão por quem 
quer que os apanhasse: e diz a historia, que muitos del- 
les, em Inglaterra, forão effectivamente feitos escravos do 
Rei, e os seus bens confiscados. Ainda no século xvi o 
Papa Júlio II, no seu Monitorio contra a republica de Ve- 
neza, dava a qualquer pessoa o poder de occupar os bens 
dos republicanos, e de reduzil-os a clles mesmos d es- 
cravidão, prohibinflo dar-lhes acolhimento, ou soccorro. 
E S. Pio V por Bulia de 2G de Fevereiro de 1569, man- 
dando sahir dos seus estados (excepto de Roma e Ancona) 
todos os Judeos no espaço de três mezes, commina aos 
que não obedecerem a perda de todos os bens, e o fica- 
rem em escravidão perpetua. 

Finalmente extincta já na Europa a escravidão domes- 
tica, se conservou ainda em algumas nações, até os nossos 
dias, outro género de servidão não monos ignominiosa. 

(8) llaynald., Annaes: «Sanaconi (dizia o Santo Padre) iiianci- 
pia Christiaiia crnunt: iis ul lubel abuluntur. . . inlerduni (^lirisliani, 
suadcnte inópia, liberos sues ethnicis venumdant», &c. Huifi (Con- 
cilio de Valladolid. em 1322. proliiltio seAeiatiienIe a pratica do al- 
guns niáos (Christãos, que rouhavão homens lambem (Christãos, e os 
vendião aos Sarracenos. O mesmo se confirmou no Concilio de To- 
ledo de 1324, e no de Falência de 1388. 



332 

« Os paizanos servos (diz hum escriptor, descrevendo o 
governo, e os costumes de Raguza, laes como elle mesmo 
os observou em 1805) erão reputados mais como parte 
dos bens de raiz, do que como homens pertencentes d so- 
ciedade. Se o pejo tinha feito cessar o uso, em outro 
tempo praticado, de os vender no mercado, nem por isso 
os senhores deixavão de os considerar como propriedade 
sua. Dispunhão delles. quando aiienavão as terras, bem 
como se dispije dos instrumentos da lavoura, ou dos ani- 
maes de trabalho, estipulando a quantidade de gado hu- 
mano, macho e fêmea que havia de passar ao dominio do 
comprador», á-c. (9). 

Por todos estes factos, que summariamente havemos 
referido, e a que poderíamos acrescentar muitos outros, 
de (jue a historia nos dá frequentíssimos testemunhos, já 
se deixa entender, que ainda que os Porluguezes preten- 
dessem a triste honra de haver inventado o trafico dos 
negros da Africa, não poderião conseguir o seu intento, 
pois muitos outros povos mais antigos, e mais famosos na 
historia, e mais admirados, elogiados, e exaltados pelos 
escriptores, lhes poderião com toda a justiça disputar 
neste ponto gloriosa preferencia; salvo comtudo se al- 
guém quizer dizer, que ha alguma substancial diíferença 
entre trafico de escravos negros, e trafico de escravos 
brancos: e entre comprai" aquelles em. Africa para os le- 
var d America, ou comprai' estes em França, Veneza, c 

(9) Pouqueville, Voyage dans la Grèce. Paris, 1820. Na Histo- 
ria do império da Rússia, em tempo de Pedro o Grande, diz ]\Ir. de 
Voltaire, que dos vinte e (luatro milhões de habitantes, que entiio 
tinha aquelle império, « a maior parte erão escravos, como na l^olo- 
nia, e em muitas partes da Allemaniia, e como antigamente cm toda 
a Europa». Só nos conventos de homens e mulheres, que não erão 
muitos, se contavão entre as suas propriedades setecentos c vinte mil 
servos destinados para a cultura das terras. A civilisação geral tem 
hido diminuindo, ou modificando este resto da antiga barbaridade, 
que todavia não sabemos se está hoje mesmo de tcdo cxfiiicta. 



333 

Roma para os transportar d Hespanha, a Africa, ou ao 
Oriente. 

Nós não sabemos descobrir esta diíferença ; mas se al- 
guma ha, ousamos dizer, e não duvidaríamos sustentar, 
que seria hum pouco mais desculpável, ou menos odioso 
o trafico de escravos negros, do que o de escravos bran- 
cos. Sem entrar porém nesta matéria, que nos distrahiria 
do nosso assumpto, procuremos indagar com alguma di- 
ligencia, e quanto nos permittir o silencio das antigas his- 
torias, se na verdade a origem do especial trafico dos ne- 
gros remonta, como diz o nosso escriptor, an principio 
do século xvr, e se ha algum fundamento para se dizer 
tão decisivamente que aos Portuguezes cabe a triste glo- 
ria de o haverem imaginado. 

A escravidão e trafico dos negros, em geral, pôde di- 
zer-se com toda a certeza e segurança, que he tão antigo, 
como o conhecimento que houve das nações negras: pois 
sendo por todos, em toda a parte, e em todos os tempos 
usada a escravidão, e o trafico de homens, nenhuma ra- 
zão havia para que as raças negras fossem exceptuadas 
da commum sorte, logo que houvesse opi)ortunidade de 
captivar, vender, e comprar os seus indivíduos. Os factos 
da historia confirmão este pensamento: 

1.° Duas Peleiades, ou negras Ethiopezas, vindas do 
templo de Osiris no Egypto, instituirão (dizem) entre os 
Pelasgos o culto de huma divindade estrangeira, a saber : 
huma delias no Oásis de Ammon, e a outra no Epiro, 
aonde fora vendida por alguns navegantes que ali apor- 
tarão. Nós não ficaremos por fiadores da veracidade desta 
narração; mas qualquer que seja o juizo que delia se faça, 
he pelo menos certo, que antiquissimos escriptores fala- 
rão de huma escrava negra, vinda do Egypto, e vendida 
na (jrecia, como de luiin facto, que não causava estra- 
nheza, nem })aivcia inverosimil. Ainda hoje concorrem ás 
feiras (panegyris) da Grécia conlialadores de negros de 



334 

Africa, que provavelmente não aprenderão dos Portu- 
guezes a fazer este trafico, e que nunca jamais (diz o es- 
criptor a quem devemos esta noticia) hão de renunciar a 
elle. Tão antiga lie a sua pratica, e tão inveterado, e tenaz 
o costume, alias inspirado, conservado, e roborado pela 
avareza, e pela barbaridade (10). 

2," Hum dos relevos, que Mr. Champollion Júnior lia 
I)oucos ânuos observou no templo de Isambul na Núbia, 
re[)resenta o carro triunfal de hum dos Pharaós acompa- 
nhado de grupos de negros prisioneiros da Núbia: o que 
prova, que os negros de Africa erão já naquelles remo- 
tissimos tempos sujeitos ás mesmas leis da servidão, que 
se praticavão com os povos brancos em todo o mundo (11). 

3." Joseph, Hebreo, na sua obra das Anliguidades Ju- 
daicas, liv. 8.'^, falando das frotas de Salomão, diz, que 
entre os objectos, que ellas importavão era o ouro, a prata, 
o marfim, escravos Ethiopes, e bugios, aprorebnsexpor- 
tatis aurmn, argenfum, regi referebant, multumque ebo- 
ris, et mancipia aetliiopica, et simiasr>. 

Os Uomanos, depois da destruição de Carthago, se forão 
apossando de toda a costa septemtrional de Africa, e he ve- 
rosímil, que penetrando pouco a pouco nos paizes ao sul, 
praticassem com os povos negros, que os habitavão, o 
mesmo que antes delles havião feito os Berberes, os Nu- 
midas, os Persas, e os Fenícios, e que depois delles íizerão 
os Árabes, dos quaes lodos diz com razão hum escriptor 
moderno, « que possuindo desde tempos immemoriaes, e 
successivamente, as margens septemtrionaes de Africa, 
não cessarão jamais de lhes impor hum tributo de san- 
gue»: maiormente porque sabemos que os Romanos es- 

(10) Pouqueville, Observ. siir Dodone, Voyage, tom. 5.'', o liv. 
de i821. 

(H) Constou esta noticia por carta do 1.° de Janeiro de 1829, 
escripta pelo douto viajante em Ouadi-Halfa, cujo extracto se pu- 
blicou no Morning -Journal de 24 de Abril do mesmo anno. 



33fi 

tabelecérão iia vasla extensão do tenilorio, que decorre 
até o Niger, algumas florentes colónias, e que o mesmo 
rio Niger não foi de todo desconhecido aos seus historia- 
dores, e geógrafos (IÍ2). 

Deste período da dominação Romana, em »|ub entra 
o dos Wandalos, acliâmos alguns factos, que mostrão a 
escravidão dos negros de Afiica já naqueiles remotos 
tempos. 

O primeiro vem nas Vidas dos Padres, escriptas por 
Palladio, Bispo de Helenopole, nos fins do século iv, ou 
princípios do v, aonde descreve a vida de hum Moisés, 
Ethiope, negro, que sendo escravo, e lançado da caza de 
seu senhor por suas maldades, veio por fim a converter-se, 
e se fez monge, e foi pai de monges no Egypto (VA). 

O segundo he do século vi, e acha-se era huma das 

(12) Gossellin, Géogruphie des Gi'ecs analysée, &c. Paris, 1790, 
part. 2.*, pag. 114: « As expedições de Septirnio Flacco, e de Jiilio 
Materno, que á frente dos exércitos Romanos penetrarão até os Ga- 
ramantes, e até á região Agizyrnba, occupada pelos Ethiopfs, suIj- 
ministrárão grandes cojiliecinieiitos sohre o interior de Africa. Estas 
expedições comtudo (diz o inesino escriptor a pag. 129 e 130) não 
erão as primeiras tentativas dos Romanos. Debaixo do reino de Au- 
gusto, Suetonio Paulino tinha franqueado o Atlante, que até então 
passava por inaccessi\ el. Cornelio Balbo linha penetrado até o paiz 
dos Garamantes, e esta expedição lhe grangeou as honras do triunfo, 
não obstante ser estrangeiro. Elle fez notar as correntes dos i-ios, e 
as representações das montanhas, das cidades, e dos povos, que ti- 
nha conquistado, em numero de vinte e sete. Juba, o Moço, tinha 
feito indagações sobre o interior de Africa. A direcção do ISiger de 
occidente a oriente, e a sua gi'ande longina foi provavelmente o (jue 
fez crer a muitos auctores, c em particular a Juba, que este rio não 
era mais que a parte inferior do Nilo, que depois de ter atravessado 

Africa, voltava ao norte, e bia fertilizar o Egypto», &c. (Vej. Plí- 
nio, liv. o.", cap. 10."; e coníira-se Séneca, Quaest. Natur., liv. 4.°, 
cap. 2.°) O mesmo Plinio, no cap. 8.", citado por Malfe-Brun, nota 
o uso que linhão os Garamantes de hirem á caça dos ncijros. 

(13) Vit. PP., cap. 22.", apud Uosweid. Kuil quidam, Moyses lio- 
mine, aethiops genere, niger, servus cujusdam, &c. 



336 

Epistolas de S. Fulgencio, Bispo de Africa, escripta ao 
Diácono Ferrando, na qual se faz menção de hum moço 
Ethiope (juvenis nigro corporis colore), que era escravo, 
e por seu senhor fora convertido ao Ghristianismo (14). 

No século vn se apossarão os Árabes de toda a costa 
septemtrional de Africa desde os limites do Egypto até 
ao Oceano Atlântico, e sabemos que pouco a pouco se 
forão também alargando para o interior do paiz, e para 
as terras habitadas pelos negros, aonde os viajantes mo- 
dernos tem achado a religião de Mahomet, ou estabele- 
cida, e dominante, ou misturada com as superstições gen- 
tílicas, bem como a lingua Árabe, e muitos dos costumes, 
que parecem próprios destes povos. 

No anno 741, levantando-se os Mouros de Africa con- 
tra o governo dos Kalifas Árabes, e mandando o Kalifa 
hum exercito para os reprimir, refere a historia, que os 
Mouros invocarão o auxilio dos Nigritas, que coníinão 
pelo sul com o reino de Marrocos, os quaes lhe derão 
effectivamente hum considerável soccorro de gente negra 
em tanto numero, que á sua côr e figura se attribuio a 
desordem da cavallaria Árabe, e a consequente derrota 
do exercito do Kalifa (15). Por onde se prova que os ne- 
gros não só erão conhecidos, mas também linhão relações 
com os povos estrangeiros, que dominavão os paizes se- 
ptemtrionaes de Africa, e os auxiliavão em suas guerras, 
ficando consequentemente sujeitos ás contingências e suc- 
cessos da guerra, e a serem prizioneiros, e como taes re- 
duzidos á escravidão, segundo a pratica daquelles tempos. 

No século antecedente, em que os Mosselemanos fize- 
rão a sua primeira expedição á conquista da Núbia, re- 
ferem os escriptores Árabes o Tratado ajustado entre o 
Emir Abadallah-ben-Saad-ben-Aby-Sarali de huma parte, 

(14) Ep. S. Fulg. Rusp., epist. 11, em Fleury, Historia Ecdesias- 
Uca, continuada, liv. 32.°, § 36.°, ao anno 533. 

(15) Ferreras, ao anno 741. 



Mil 

tí o !{(M o [tovus (la Niihia da uutra, pelo (iiial os Nul)ienstíS 
se obiágárão a dar cada armo aos Árabes 860 escravos 
dos dons sexos, escolhidos entre os melhores do paiz, 
isentos de defeito, em que não entrarião nem velhos de- 
crépitos, nem mulheres velhas, nem meninos abaixo da 
idade da puberdade, os qaaes serião entregues ao tjo- 
vernador d'Asuan, para serem enviados ao Itnam dos 
Mosselemanos (16). 

Do celebre Mostanser-Bitlah, Kalifa Fatimita, que vivia 
pelos aimos 429 da Heg. (século xi), referem os escripto- 
res Árabes, que era filho de huma escrava negra, que ti- 
nha pertencido ao mercador Judeo Abu-Said-Sahal, e por 
elle tinha sido vendida ao Kalifa Daher, pai de Mostanser. 
Desta Princeza dizem, que logo que vio seu filho no throno 
mandou vir á côrle o seu antigo senhor, e o escolheo para 
seuVisir, e conselheiro intimo; e acrescentão, que era tão 
alfeiçoada aos seus compatriotas, que com empenho com- 
prava os muitos, que de diversas parles lhe trazido, a 
ponto de chegar a ajuntar no Egypto mais de cincoenta 
mil negros (17). 

Este uso dos escravos negros propagou-se para a Eu- 
ropa pelo tempo das cruzadas, como nos consta da his- 
toria de hum Gaudri, Normando, leferendario de llenri- 
(jne í de Inglaierra, que sendo elevado á Sé de Laon, 
tinha no seu sei^vico 'Jium destes escravos negros, que 
os grandes senhores, á volta da primeira cruzada (llotí) 
começarão a pôr em moday> (1(S). 

Aci'Cscentemos ainda, que muito antes dos descobri- 

(16) Quatremere. Mènioin' snv la Nnbic, na collecção de Memo- 
rias ijeo<)rajit:as c lilsluriras sohre o Efuipta. Paris, 1811, (oiii. "2°, 
pag. 45. 

(17) lliidciii, Méniuire hhloriquc sur la vic dii Kalifc. FatiinUe, 
Mostaiisoi-liillah, iio incsino loiíio, paj?. 296 c 355. 

(IS) A. Tlii(!rrv. Letlrcs sur rillstoiír (h> Franrv. Icl. \\i. 
pag. 240 da 5." edirãd. 

TOMO V t'l 



338 

mentos Portuguezes, era a malagueta conhecida na llalia, 
e por consequência levada de Guiné pelos Mouros, que atra- 
vessa vão o reino de Mandinga, e os desertos da Libya, até 
o porto de Barkali, sobre o Mediterrâneo, o que prova qu*j 
este caminho lhes não era desconhecido, e que por elle tra- 
zião á costa scptemtrional os géneros do interior, e entre 
elles os escravos negros, que depois erão transportados 
e vendidos na Grécia, na Asia-menor, na Syria, á-c. 

Cadamosto, na Relação que escreveo da sua primeira 
viagem, feita em 1445, falando do trafico, que os Mouros 
fazião nas terras dos negros, diz : « Igualmente comprão 
sedas Mouriscas fabricadas em Granada, e em Tunes de 
Berbéria, prata, e muitas outras cousas, e recebem pelo 
seu resgate quanlidadedencgros, e alguma somma de our» ). 
Estes escravos (continua elle ainda) chegão á escala e lugar 
de Guaden (Huadev, ou Oaaden), e ali se dividem, hindo 
parte delles aos montes de Barkah, d"o!ide chegão a Sicilia, 
e alguns a Tunes, e depois se estendem por toda a costa de 
Berbéria: íiualmenle a outra porção he conduzida a este 
lugar de Aiguim, e vendida aos Portuguezes», de. 

Ainda hoje as caravanas de Daríur, e Sennaar (Núbia), 
fornecem escravos negros aos mercados do Cairo, que 
d'ahi são levados a Constantinopla, bem como de Constan- 
tinopla se levão aos mesmos mercados escravos brancos 
Circassianos, e Georgianos. Ainda hoje as caravanas, que 
vão dos estados Berberescos á grande feira de Tombu- 
culu, trazem d(?lla, entre outras mercadorias, escravos 
negros, vindos de Ouangara, Houssa, e outras terras do 
interior. O intrépido viajante Árabe do século xiv, conhe- 
cido pelo nome de Ben-Batuta, sahindo das terras do 
grande Stidan para se recolher ao seu paiz, atravessou o 
deserto em huma caravana, em que hião seiscentos es- 
cravos. E tudo isto era anterior aos descobrimentos dos 
Portuguezes, e muito antes que elles podessem lembrar- 
se de inventar o trajico dou negros. 



339 

Mas venhainus eintiiii a factos mais chegailus a nós, e 
tomados da nossa historia. 

Quando os Portuguezes continuavão os seus descobri- 
mentos nas costas occidenlaes de Africa, hindo Nuno Tris- 
tão, e Antão Gonçalves, criados do Infante D. Henrique, 
no anno de 1440, ao posto já descoberto, cliamado dos 
Lobos Marinhos, sahirão ern terra, e tomando alguns 
Mouros bárbaros, com elles voltou Antão Gonçalves ao 
reino, d'onde (diz a historia) tornou á costa de Africa 
em •i442, levando alguns dos captivos, porque estes lhe 
lizerão promessa de dar negros em seu resgale- Os Mou- 
ros cumprirão o que tinhão prometlido, e derão com 
effeito ao navegante Portuguez dez escravos negros, de 
differentes terras, que forão os primeiros, que vierão de 
África a Portugal. 

Este, e outros acontecimentos semelhantes, que peio 
tempo adiante se forão succedendo, moslrão que já entre 
os Moui'OS era praticada não só a escravidão dos negros, 
mas também o comrnercio e trafico delles, pois os [»ro- 
mettião, e davão como preço do resgate de suas próprias 
pessoas e liberdades, do mesmo modo que davão o ouro, 
o marfim, e outras mercadorias do seu paiz: e mostrão 
também, que a origem do trafico nem remo?ita aos prin- 
cipios do século xvr (como affirma o escriptor que refutá- 
mos), nem he devida a invenção Portugueza. 

A Chronica de el-Rei D. João II nos subministra outra 
jirova desta verdade: ponpianto, descobrindo-se em seu 
tempo, e uo anno de 1480 o i'eiiio de líeni, refere o verí- 
dico Rezende, que o Rei daquella terra, ouvindo grandes 
louvores das virtudes, j)eifeições, e grandezas de el-Rei 
de Portugal, lhe mandái-a hum rico e grandioso presente, 
de que fazião paite cem escravos negros: por onde se vê 
que o Rei linha escravos negros, dos ipiacs (li>|iuiilia como 
de jtropiicdade sua, i! (|ue iia(|ui'lla> icgincs era pralicado 
o uso de os vendei', ou doai', ainda antes que os Portu- 



340 

guezes podessem Icmbrar-se de inventar o Uatico com u 
lim que se lhes nuer attiibuir. 

Finalmente todos estes argumentos recebem nova loira 
e luz, reílectindo-se sobre iium lugar do immorlal poema 
dos Lusíadas, que parece não ter sido até agora altenla- 
mente lido, com respeito ao nosso assumpto. 

Bem sabido he, e muitas vezes tem sido notado, (juam 
grande era a exacção, e fidelidade de Camões nas suas 
descripções geográficas, nas quaes se não desviava hum 
só ponto da verdade em seu tempo conhecida, caractcri- 
sando os reinos, cidades, ou povos, não segundo a lan- 
tasia poética, mas segundo as idéas geralmente recebidas 
e adoptadas. 

O poeta pois no canto v descrevendo a derrota do grande 
(lama, desde Lisboa até Melinde, nota a passagem do he- 
roe pelas ilhas de Porto Santo, Madeira, de, novamente 
descobertas: pinta em huma excellente estancia: 

de Massilia a estéril costa. 

Onde seu gado os Azeuegnes pastão: 

Nota a passagem do trópico; fala das Canaiias, e du 
Cabo Verde, e diz finalmente na est. x: 

Por aqui rodeauilo a larga parte 
De Africa, que ficava ao Oriente, 
A província Jalolo, qite reparte 
Por diversas nações a negra gente, (5c c. 

Aonde o poeta maniíeslamente allude ao trahcd dos 
negros das teiTas de Jalofo, e á extracção que delles se 
costumava fazer para dimrsas fiações, não se podendo 
commodamente entender a frase, « Que reparte por di- 
versas i/arões a neijra gejite», senão da pratica geral que 
os Mouros tinlião, de (irar dos Jalofos, Fulas, Mandingas, 
e outros paizes circumvisinhos negros escravos, para os 
hirem levar, e vender, como ainda hoje vão, c lorão em 
todos os temi)Os, aos mercados da costa septemtrional. 



341 

(Tõnde depois se espalhão [lor diversas nações, como diz 
o i)oeta. Af> qual coslumc dos Mouros, até hoje conser- 
vado, e poi' certo não recebido, nem aprendido dos Por- 
tuguezes, allude hum escriptor moderno, que tendo ex- 
pressado o horror que lhe causava este trafico deshumano 
feito poi' povos Christãos, logo acrescenta: « O trafico que 
fazem os Momos he acompanhado dos mesmos crimes: as 
aréas do deserto conservão, e mostrão por toda a parle 
ao viajante os vesligios sinistros das caravanas, que ar- 
rastão os miseráveis escravos aos mercados berberescos. 
Sempre a raça branca se tem mostrado inexorável para 
com a raça negra, lanto ao norte, como ao occidente de 
Africa y> (19). 

(19) Quando lançávamos os primeiros traços a este discurso, che- 
gou mui casualmente á nossa mão tiuiii catalogo de livros da livraria 
do illustre typograf o Firmino Didot, impresso em Julho de 1828. no 
qual vem annunciada huma ohia com titulo: Précis historique de la 
traite des noirs, et de Vesclavage colonial. Paris, 1828, 8."; e logo 
dando o editor do catalogo huma breve idéa da obra, diz assim: 
"O auctor, depois de ter dado algumas noticias novas sobre a es- 
cravidão domestica dos antigos povos, e sobre a que ainda existe 
na Ásia, combate a opinião geral, que attribue ao celebre las Gazas 
a invenção do traíico, e faz remontar a origem deste commercio ao 
(empo da dominação dos Árabes na Hespanha. muitos séculos antes 
da época de 1443, a que commummente se assigna a introducção 
dos primeiros escravos negros em Lisboa. Mostra depois por hum 
grande numero de factos, que o trafico, com ser inhumauo. im- 
moral, e contrario ás leis de Deos e dos homens, tem continuado 
em França até o presente », àc. Foi para nós de grande satisfação 
ver, que as idéas, que hiamos lançando no nosso discurso, se con- 
formavão no essencial com as do auctor daquella obra. E dizemos 
no essencial, que consiste em remover dos Portuguezes, dos Hespa- 
nhoes, ou de quaesqucr outros povos modernos, a triste honra de 
terem imaginado o ti-alico dos negros : poi-quanto, no que respeita 
á verdadeira, e primitiva origem de.ste trafico, nós a suppomos, e 
mostrámos mais antiga que a dominação dos Árabes nas Hespanhas, 
e fundados em fados históricos, temos por certo, que olla se con- 
liiiiilr \\:\ oh^ciiridadi' (lo< inai^ iimiihIos scciíins. c lie da iiirsnia dala 



342 

Tenhamos pois por certo, e fora de toda a duvida: 

1.° Qiio o trafuu) dos not^ros ?iíio remonta aos princi- 
pios do spciílo XVI. como prelende Mr. F. Sclioell. mas \\v 
muito mais antigo. 

2." Oue a sua origem não !ie do invenção Porttigtieza, 
nem de neiíliuuui nação moderna. 

3.^ Que a origem do ira/ico de homens vem da mais 
alta antiguidade, a qne a liisloria pode subir. 

4." Que o trafico de homens negros he tão anligo como 
o conhecimento das antigas nações negras; praticado a 
respeito dos negros de Africa desde tempos antiquissimos, 
e até introduzido na Eurí)pa Occidental pelo tempo das 
cruzadas. 

5.'' Finalmente, que no século xvi não houve nisto nada 
de novo, senão a direcção do trafico dos escravos negros 
da Africa para a America: e que as declamações exage- 
radas, e aíTectadamenttí palhelicas dos fdantropos moder- 
nos contra este trafico, nem são tão sinceras nos seus 
motivos, como elles nos querem fazer crer, nem tão des- 
interessadas na sua tendência politica, como seria de es- 
perar; nem tão justas em suas circumstancias históricas, 
como pede a natureza e importância da matéria, e a boa 
fé do escriplor sizudo e imparcial. 

Mas continuemos a vei' se Mi". Sclioell lie mais fiel á 
verdade, e mais exacto no que ainda acrescenta á sua 
proposição principal, e como em prova delia. 

nKm lõOS (diz elle) forão os Porlugnezes que intro- 
duzirão nas colónias JJespanholas da America os pri- 
meiros escravos negros, comprados em Africa. » 

lie falso, lie moralmente impossivel, que fossem os Por- 
ttiguezes os ijiie introduzirão os primeiros' negros nas co- 
lónias Hespanholas. O escriplor que assim o aífirma mos- 
tra pouco conhecimento da historia, ou pouca attenção á 

que a escravidão i\c lioinens. p o conliocimento das nações, ou raçaa 
nefirax. 



543 

verdade delia. Todos sabem quanto era naquelles tempos, 
e ainda nnaita depois, o ciúme dos Ilespanlioes e Portu- 
guezes a respeito dos seus descobrinnentos, e conquistas, 
e commercio das novas terras, Huns e outros vedavão 
com grande vigilância aos estrangeiros commerciantes a 
entrada em suas respectivas conquistas: huns e outros 
pedião aos Papas a confirmação destas prohibições, e ex- 
clusivas. Por onde podemos com segurança aíTirmar que 
não succedei), nem podia sucreder o que o auctor tão li- 
geiramente suppõe : maiormente constando-nos pela his- 
toria, que logo depois do meio do século xv, em que Lis- 
boa (por assim dizer) se encheo de escravos negros de 
Africa, começou também a exportal-os por venda para 
Sevilha, d'onde pelo tempo adiante sahírão provavelmente 
os primeiros que vio a America. 

Emquanto á época precisa, em que começou o trafico 
para a America, mui diííicil nos parece averiguar hoje 
este ponto histórico, aliás não muito importante, em que 
os escriptores tem sido tão vários e incoherentes. E como 
por outra parte o ríosso escriptor não apresenta testemu- 
nho, ou razão alguma que verifique a sua época de lo03, 
e o temos achado menos verdadeiro em designar a ori- 
gem e os inventores, ou imaginadores do traíico, bem po- 
demos, sem lhe fazer injuria, duvidar também desta época. 

Diz o escriptor, seguindo a outros muitos « Que o pio e 
rcspeilavel varão Bartholomeu de las Cazas foi o que in- 
ventou o transporte dos íier/ros para a America, com o 
fim de arrancar os Índios aos trabalhos das minas, e os 
negros á morte». Esta opinião, que tem sido adoptada 
sem reflexão e sem exame, não pôde sustentar-se de ma- 
neira alguma, referindo-se aquelle transporte dos escra- 
ros ao anno de lõOS, como assertivamente refere o es- 
criptor. 

He constante que las Cazas nasceo pelos annos de 1474: 
(|U(' foi com seu pai na primeira viagem de Colombo em 



344 

1492; e que linha entíio dezoito para dezennve annos de 
idade. Voltou á Euiopa i^m I4Í)S a conlinuar os seus es- 
tudos, e acabados elles. tornou a navegar para a Ame- 
rica, aonde em 4510, ordenado já de sacerdote, esteve 
por algum tempo paroquiando em liuma das ilhas recen- 
temente descobertas, até que movido do seu zelo pelo 
bem dos índios, deixou a paroquia, para se consagrar in- 
teiramente áquelle objecto, a que o convidava a sua pie- 
dade e humanidade. 

Á vista destes factos, e destas datas, não parece vero- 
símil, que las Gazas podesse ter adquiiido em laOli, nem 
na America, nem na Europa, o credito, e influencia, que 
se requeria, para que o seu voto fosse altendido, e as 
suas diligencias fossem efficazes a favor dos índios: antes 
podemos conjecturar, que só depois do anno de lolO co- 
meçaria a desenvolver-se o seu ardente zelo, e os seus 
trabalhos em beneficio delles. 

Vem aqui a propósito o que achámos em Imm escriptor 
llespanliol antigo (20), a saber: que Vasco (Blasco, ou 
Vflasco, dizem os Ilespanhoes) Nunes de Valhoa, saliindo 
em 1513 de Darien com 190 Hespaiihoes, chegara a Que- 
reca, terra de que era senhor hum índio, por nome To- 
reca, e que ahi acharão escravos negros; que fucnm (diz 
o escriptor) los primevos, que los nuestros vieron cn las 
índias: e continua narrando como Valboa sul)indo depois 
a huma alta montanha, avistara o mar do sul a 25 de Se- 
tembro, e descendo ao golío de S. Miguel, tomara |)osse 
daquellas terras i)or Castella em 29 de Setembro, de. 

Desta nari-ação julgámos poder tirar duas consequên- 
cias: 1.* Que também entre os índios Americanos havia 
escravos negros, antes que lá os levassem os Europeus, 
o que confirma a nossa opinião sobre a generalidade desta 

(20) Caroliti Enchiridhn. Viihi tJc Cnrlos V. imprfss;) em ]Á<- 
boa, iTiSS, pari. I.", em íVil. 



345 

pratica; i.' Qiifi no anno de ir>|l! ainda na America não 
existião escravos liansporlados de Africa, visto serem 
aquelles de Quereca us primeiros que os Hespanhoes de 
Valboa virão nas regiões Americanas, como diz o escri- 
ptor citado. 

Adiantemos alguma cousa mais. Alguns escriptores são 
de opinião (e Mr. Schoell também a segue) que o com- 
mercio dos escravos negros para a America fora aucto- 
risado formalmente em 1517 em virtude de huma patente 
de Carlos V, obtida a instancia de las Gazas. Mas também 
esta época nos pai'ece duvidosa. 

Carlos V aportou nas Astúrias naquelle anno de 1517, 
em Setembro, vindo tomar posse dos estados Hespanhoes. 
Entrou em Valladolid no mez de Novembro, e nos annos 
logo seguintes de 1518, 1519 e 1520 celebrou Cortes em 
Castella, Aragão, Cataluna, e Galliza; e não teve pouco 
que fazer para acalmar as inquietações publicas, conciliar 
a seu favor os ânimos dos Hespanhoes, firmar-se no tliro- 
no, e approvar ou illudir as condições, que os povos lhe 
impunhão. Em totlas estas Cortes não achamos que se to- 
casse huma só palavra acerca das possessões das índias 
Occidentaes, ou do seu governo (til). 

Carlos V passou immediatamente a Allemanha, a rece- 
ber a coroa do império, que neste meio tempo lhe fora 
defeiida, e no entretanto se suscitarão na Hespanlia os 
levantamentos chamados í/as Communidades, que dinárão 
até 1522, cm que o Imperador voltou a llespanha. 

Nos annos de 1 520 c 1 524, diz hum geógrafo moderno, 
que Lucas Vasqu(!z de Sillon, e outros Hespanhoes sal- 
tearão a Florida, para ali roubarem homens que fossem 
trabalhar nas minas de S. Domingos: o que parece in- 
dicar que ainda o tralico dos negros não estava eslabele- 
ciilo, ao menos de hum modo legal. 

(21) Saiiilov;il. Vida dr Ctiflofi V. 



346 

Os escriptores da Vida de las Cazas referem ao anno 
de 1522 a sua primeira vinda á Europa, eom o particular 
fim e intento de advogar a causa dos índios; e parece 
que então lie que se começarão a dar algumas providen- 
cias a favor delles, sem todavia se fazer ainda menção al- 
guma de substituir áquelles miseráveis os escravos ne- 
gros de Africa. 

Rem vemos que não são estes argumentos taes, que 
por elles se possa decidir e terminar a duvida, e incei"- 
teza que ha sobre a í'jwca precisa, em ([ue teve principio 
o transporte dos escravos negros para America. Com- 
tudo. emquanto não adiarmos testemunhos authenlicos, 
ou factos bem provados, teremos por mui veiosimil, que 
aquella pratica começou hum pouco mais tarde do que 
commummenle se suppõe. 

Nem se pôde admittir sem provas o que diz o nosso 
auctor, isto he, (jue las Cazas proposera ao Cardeal Xi- 
menes a legalisação do trafico: porquanto o Cardeal só- 
uienle regeo a Hespanha depois da morte de Feinando o 
(Jatholico até á vinda de Carlos V, isto be, cousa de dous 
annos; e este seu breve governo foi Ião inquieto, etão 
pouco independente, que mal haveria lugar á supposta 
proposição de las Cazas, e ainda menos a (|ue Ximenes to- 
masse sobre si o resolver definitivamente ijualquer cousa, 
a favor, ou contra, em matéria tão ponderosa. 

O ([ue diz a este respeito Gomes de Castro na Vida de 
Ximenes he, que o Cardeal desejando occorrer aos trata- 
mentos bárbaros, que se praticavão com os índios, man- 
dara á America alguns magistrados, que conhecessem 
deste objecto: e acrescenta, que pelo mesmo tempo (1317) 
intentando o celebre valido do Imperador Mr. de Chevres 
comprar na Aquitania ÔOO negros para os fazer trans- 
portar a S. Domingos, e communicando este seu projecto 
ao cardeal, este se oppozera a tal pretenção, escrevendo 
a Chevres, ponderando-lhe quão perigoso era transportar 



347 

negros á America, sendo elles, como erão, repugnantes 
aos incommodos úo tr:iballio, e de génio inquieto e in- 
domável, de maneira que do seu grande numero se podia 
receiar alguma sedição. Oponde podemos inferir que já 
então havia lembrança de transportará America escravos 
negros; mas que este traíico e transporte ou ainda se não 
tinha realisado, nem iegalisado, ou pelo menos ainda não 
tinha ganhado fundas raízes. 

He verdade que se apontão humas Instrucções de el- 
Rei Catholico para Nicoláo Ovando, dadas em 1500, or- 
denando-lhe que permittisse a importação de escravos 
negros nascidos em reinos de Cliristãos. Diz-se, que o go- 
verno Hespanhol prohibio em 1506 o transporte dos es- 
cravos negros de Levante, e dos que tivessem sido criados 
com Mouros. Refere-se, que já em 1501 e 1503 erão trans- 
portados para as possessões Ilespanholas da America al- 
guns poucos escravos, d-c. 

Isto tudo prova (a nosso parecer) a incerteza que por 
ora ha, e que porventura haverá sempre acerca da ver- 
dadeira época precisa do estabelecimento deste trafico, 
maiormente se quizermos falar de hum trafico extenso, 
generalisado, e formalmente auctorisado, e Iegalisado. 

O que nesta matéria nos parece natural e provável he 
que as pessoas que tinhão interesse na exploração e tia- 
balhos das minas, e que na Europa possuião alguns 
escravos, começassem desde logo a mandal-os para a 
America, em peijueno numero, para serem empregados 
naquelles tiabalhos, e talvez a compral-os com esse des- 
tino: e que crescendo cada vez mais o numero de escra- 
vos vindos de Africa, seguindo-se as gi'aves questões a 
favor dos índios, e occorrendo talvez outras circumstan- 
cias, se foi generalisando o transporte, até que a auclo- 
ridade publica se viu obrigada a legalisal-o, e a regular 
por leis, e providencias a sua pratica. 



I 



i 



EM QUE SE COLLIGEM AEGUMAS NOTICIAS 

SOBRE OS PROGRESSOS DA MARINHA PORTUGUEZA 

ATÉ OS princípios DO SÉCULO XVI 



AIKMOIUA 

ÍM qUE 6E COLLIUL.M ALGUMAS XUllClAb 

íiOliKE OS ]'KOGKESSOS DÍ MAlílNlIA VOIiTUGUEZA 

ATÉ OS princípios DO SECCLO XVI 



Depois (Ih liaveiiiios iioladu iio índice Cfnoi/oloí/io). ao 
anuo cli' 1415, a gcande aimada, que el-Rei D. Juãu I le- 
vou á expugnação da praça de Ceuta, bem (juizeramos 
ajuntar nesta nota algumas noticias, que mostrassem por 
que gráos a Marinha Portugueza chegou ao quasi p!'odi- 
gioso desenvolvimento em que a vemos no século xv, e 
servissem hum dia á historia deste importante ramo da 
pubhca administração: mas forão Ião descuidados nesta 
parte os nossos antigos, que quasi nos sentimos desani- 
mados de proseguir na execução do pensamento, que tí- 
nhamos concebido. Colligiremos o que se offereceo â 
nossa curiosidade, e outios farão mais, e melhor. 

Considerando-se este objecto na sua mais ampla gene- 
ralidade, parece não poder duvidar-se que os povos das 
Uespanhas, e mais especialmente os habitantes das re- 
gi(3es litloraes, fossem, desde os mais i'emotos tempos, 
dados á arte da navegação, da maneira que o ilidia con- 
sentir o atrazamento da civilisação, e a imperfeição das 
artes. 

He a Hespanlia banhada em Ioda a sua circumferencia, 
pelos dous uiares Atlântico, e Mediterrâneo, á (íxcepção 
tamsómente do pequeno espaço dccupado pelos montes 
Pyieneos, que a unem ao conlineiile da Europa. As suas 



352 

costas em hum e oulro mar oiferecem IVequeiites ensea- 
das, bahias, surgidouros, e portos excellentes, aptos pára 
a segurança dos navios de qualquer grandeza, porte, e 
dimensão. Os seus povos são industriosos, e ousados: 
muitas das suas montanhas e serras erão nos antigos tem- 
{)os, e algumas são ainda hoje, cobertas de óptimas ma- 
deiras de construcção. A mui pequenas distancias tem as 
costas de Africa, Itália, Sicilia. Sardenha, França meri- 
dional, Córsega, e Baleares, habitadas nos mais antigos 
tempos por povos industriosos, dados ao commercio e á 
navegação. Nós não conhecemos quasi nação alguma, que 
em semelhantes circumstancias não tivesse algum uso, 
mais ou menos perfeito, mais ou menos extenso, da arte 
de navegar. 

As Hespanhas forão antigamente frequentadas pelos 
povos, de que temos noticia, que mais peritos fossem na 
navegação, como erão indubitavelmente os Fenícios, os 
Gregos, os Carthaginezes, e os Romanos. Os próprios Cel- 
tas, que antes destas naçijes estavão estabelecidos na Lu- 
sitânia, Galliza, e outras pai-tes da llespanha, não erão 
estranhos á arte de navegar. Festo Avieno celebra a pe- 
rícia, e industria dos Celtas Artabros no commercio, e na 
pratica náutica, quando descrevendo aquella costa, e as 
ilhas, que chama Oestrimnides, diz (jue erão os seus ha- 
bitantes dotados de animo ousado, de eílicaz industria, 
e dados geralmente ao negocio, e commercio, e nota com 
admiração o artificio de suas embarcações, e as largas 
viagens, que com ellas fazião (1). 

(1) Avien., V. í»8.- 

Multa vis Jiii' (jentis est_. 

Stiperbus onimm, ejjicax solertia, 
Negotia)tdi cura jwjis omnihns. 



E loiío : 



yokisijue ctiinhis litrbidum lale frciíun 
Et bellkosi qurfjiteni oceani sccanl. 



353 

Eslrabão (liv. '3.") também mencionou o mesmo uso, 
que os povos Hespanhoes da costa septemtrional fazião 
em outro tempo de barcos formados das pelles, e couros 
dos animaes : « Coriaceis (diz) usi simt navigns ». 

Esta pericia, e uso da navegação dos povos da Hespa- 
nha se mostra não menos por algumas expedições, que 
elles íizerão em tempos remotíssimos aos paizes estran- 
geiros ultramarinos. 

Na parte montanhosa da Gran-Brelanha, chamada hoje 
paiz de Galles, habilavão os SUures, de origem Hespa- 
nhola, cuja capital era Vcnla, hoje Caervenl. A Hibernia^ 
chamada pelos Gregos leme, também se julgava ter sido 
antigamente povoada, em parte, por nações vindas da 
Hespanlia (2). Os Hibernos (dizia hum escriptor do sé- 
culo xii) parecem-se com os Vascões, tanto nos corpos, 
como nos vestidos, armadura, e costumes (3). A Sicília 
foi primeiro povoada pelos Hespanhoes Sicanos (4) ; e na 

Non hi carinas qiiipe pinu texere 
Fecere morem, non ahiete, ut usu est, 
Ctirvant fasello : sed rei ad miracuhim 
ISavifjia junctis semper aptant pellibus. 
&c. ' 

(2) Barbié du Bocage, Geograf. antiq. 

(3) Valesio na Noticifi das Gallias, palavra Lapnrdum, cila liuiu 
escriptor do século xir, que escreveo sobre a topografia da Hi}»eriiia, 
do qual diz : « Ait eniin Basclenses de Hispaniarum partibiis classe 
in Hibrrniam insulam venisse, ibique habitavisse. Et Basdensiuni 
Hiberniensium corpora, vestes, armaturam, moresqne describit». 

(4) Deniz de Halicarnasso, Antiq. lioman., liv. 1.", falando da 
chegada dos Sictdos á Sicilia, diz: « Sicani tum eam tenebant, gentis 
Hispanicum, quod [ngatimi a Liguribus paulo ante ibi habiiare coe- 
perant, Sicanianique suo nomine vocaverant, qiiae prius Trinacria 
dicebntnr a forma triangula ». E Silio Ital., de liello Punic, liv. 14.", 
vers. Si.", fazendo menção dos campos Sicutos, diz: 

Vomere verterunt primo nova rura Sicani: 
Pyrene misit populos, qui nomen, ab ainne 
Ascitwn pátrio, terrae imposuere vacanti 
&c. 

TOMO V á3 



354 

Córsega, ainda em tempo de Séneca se reconhecião ves- 
tígios de Hespanhoes na linguagem, e em alguns usos po- 
pulares (5). 

No tempo dos Fenícios, Carthaginezes, e Romanos to- 
das as costas das Hespanhas erão cheias de povoações 
marítimas, cujos habitantes por cei-to, que não olharíão 
com índififerença para os mares, que banhavão seus domi- 
cílios, nem deixarião de tirar delles, á imitação daquelles 
povos estrangeiros, algum útil partido, ao menos para sa- 
tisfazerem por meio da pesca a quotidiana necessidade do 
seu alimento. 

Cadiz era então hum dos principaes empórios do com- 
mercio dos Fenícios, e o foi, depois, dos Carthaginezes. 
Hannibal fundou, ou deo o nome ao porto, que delle se 
chamou Porto de Hannibal, hoje villa de Alvor, na costa 
meridional da Lusitânia. Ossonoba, cidade na mesma 
costa, foi mui conhecida dos antigos geógrafos Gregos, e 
Romanos, sem duvida, pela sua situação littoral, e pelo 
seu commercio. Balsa, e Lacobriga tinhão a mesma po- 
sição. Na costa occídeulal estava Merohriga, e logo Ceto- 
briga, notável pelo culto da Deosa Salada, mulher de 
Neptuno Deos do mar (6), e pelas pescarias, e salgações, 
que nella se fazião, e de que ainda em tempo de Rezende 
existião alguns vestígios (7). Olisipo sobre o Tejo tinha 

(5) Séneca, de Consolai, ad Helviam, cap. 8.", referindo alguns 
povos, que tinhão vindo habitar a Córsega, diz : « Transienmt deinde 
Ligures in eam; transierunt et Hispani, qiiod ex similitudine ritus 
appnret: eadem enim tegwnentacapiturn, idemqiie genus calceamenti, 
quod Cantabris est, et rerba quuedam; naiii totus sermo conversa- 
tione Graecoriím, Ligunimque a pátrio descivit ». 

(6) Camões, Lusíadas, cant. 6.°, est. 16.* : 

Tritão, que de ser filho se gloria 
Do Rei, e de Salacia veneranda. 

(7) Rezende, De antiquit. Lvsil., iiv. 4." : « Quoniam vero in tirbe 
hac celebris est piscatio, et salsura tfdium piscinm. . . Cetobriqa vo- 



3S5 

hum porto capaz, segundo Estrabão, de grandes na- 
vios (8). Langobriga era situada sobre o rio Vacca, hoje 
Vouga. Cale, á foz do Douro, era tão fi-equentada de nar 
vios, e de gente dada aos trabalhos do mar, que por esse 
motivo deo origem á fundação da cidade fi'onteira, que 
d'ahi se chamou Portus-Cale, e depois Portucale. Ao 
norte do Douro até o cabo de Finisterrae he a costa 
cheia de portos, e povoações já conhecidas nos antigos 
tempos, a sabei": a foz do Ave, do Neiva, do Lima, do 
Minho, de Iria (hoje Padrão), de Brigando, ou Coru- 
nha, de. (9). 

Muitas das antigas moedas, que se conservão daquelles 
remotos tempos, talvez com legendas de caracteres desco- 
nhecidos, mostrão symbolos allusivos á navegação, como 
são peixes, proas de navio?, ancoras, ác, e indicão por 
isso mesmo terem sido batidas em cidades littoraes, e 
versadas naquella arte. 

cata civitas est. Durant adhuc in Ceiobrigensi littore ipsa cetaria, 
signino opere antiquitus fabricata». 

(8) Rezende, ihideiu, liv. 2.°: « Latitiidinem ostis (Tagi fluvii) 
Strabo stadiorum esse viginti tradidit; altitudinem vero permag^iam , 
ut a navigiis milita decem vectantibus navigari facile possit». 

(9) Os Romanos chamavão magnus portus ao porto em que hoje 
está a cidade da Corunha na Galiiza, e ahi se levantou no tempo 
delles o celebre Faro para atalaia do mar, e guia dos navegantes, 
fabricado pelo Lusitano Gayo Sevio Lupo, arquitecto, que era em 
Aguas-flavias (hoje Chaves); o qual Faro se conserva ainda, e delle, 
denominado columna, tomou a povoação o nome de Corunha. Deste 
faro, ou torre faz menção o douto Bracarense Paulo Orosio (no 
liv. 1.", cap. 2.°) quando diz, que em Brigantia (nomo antigo da 
cidade) se levanta hum altíssimo faro, destinado a vigiar o mar 
Britânico : « secundus angiilus (diz) circmm intendit, ubi Brigantia, 
Gaíleciae civitas, sita altissinmm farum. et inter paucu mcmorandi 
operis, ud specnlani liritaniae erigit». A este porto se dirigio Julio 
Gesar com a sua armada, depois que vindo de (>adiz subjugou os 
Lusitanos do monte Hermínio, refugiados om huma ilha, que pa- 
rece seria Peniche; e então se assenhoreou de Brigando (Corunha) 
de que aqui falámos. 



356 

Lançando ora a vista ás outras costas da Hespanha, e 
discorrendo ligeiramente pela oriental, e meridional, achá- 
mos mui notável nos antigos tempos por seu porto, fre- 
quência de navios, e commercio, Empórios, ou Ampn- 
rias, que do mesmo commercio tomou o nome : Tarra- 
gona, aonde existem ainda vestigios de hum magnifico 
templo, erigido em honra de Neptuno, Deos do mar: 
Dianium (hoje Denia, no reino de Valência), que era aco- 
lheita das esquadras de Sertório, como diz Estrabão (10): 
Carthagena, fundada por Hasdrubal, arsenal marítimo 
dos Carthaginezes, e grande deposito das riquezas de 
Africa, e Hespanha, notável aliás pelos excellenles ferros 
de flechas de suas fabricas : Málaga, d'onde se fazia grande 
commercio com a fronteira costa Africana, transportando- 
se para ella as salgações, que ali se fabricavão, como ou- 
trosim refere Estrabão (11): Hispalis (hoje Sevilha) não 
menos notável pelo seu commercio, e que em tempo dos 

(10) Strab., liv. U.°: uQno ad res maritimas rccept anilo nsus est 
Sertorius» Huma das primeiras acções de Sertório, depois que to- 
mou o mando dos Lusitanos, foi a victoria naval, que alcançou con- 
tra Cotta no Estreito Hercúleo, aonde o general Romano andava cru- 
zando para impedir a passagem de algum soccorro Africano. D'ahi 
entrou Sertório no Guadalquivir (antigo BetisJ, e achando em suas 
margens alojado o exercito do Pretor Romano Didio, o derrotou com 
morte de 2:000 Romanos. A Historia ainda faz menção de outra 
expedição naval de Sertório destinada a hostilisar as cidades mari- 
timas, em que havia presídios Romanos, e diz que discorrendo pelo 
Mediterrâneo derrotara, e tomara muitos baxeis inimigos. E já antes 
de Sertório, e ainda antes da guerra de Viriato, notão alguns escri- 
ptores, que pelos annos de 151 antes de Christo, sendo Lúcio Mum- 
mio Pro-pretor na Lusitânia, e sendo os Lusitanos commandados 
por Cancheno, emprendi^ra este capitão a conquista de algumas ci- 
dades da Mauritânia, e mandara fabricar, e apparelhar baxeis para 
a passagem do Estreito, e chegara a render Tangere, &c. 

(H) Estrab., liv. 3.°: «In hac ora prima urbs est Malaca, tanto 
a Calpe, quantum ab hac Gades, intervallo. Ea habet emporium, qiio 
utuntur, qui in opposito littore vivunt; multumque ibi conficitur sal- 
samenti», &c. 



357 

Romanos era hum grande empório (12): Calpe, que Es- 
trabão menciona i)roxinia ao monte do mesmo nome, ca- 
racterizando-a de antiga, e memorável, e notando que 
era em outro tempo ancoradouro dos navios Hespa- 
nhoes (13); e que ainda em seu tempo se via o grande 
circuito de seus muros, e os estaleiros (14): finalmente 
Belon, outra cidade nomeada por Estrabão, e da qual 
diz, que era lugar de salgações, e que delia se fazia cora- 
mercio para a Mauritânia Tingitana (15). 

He pois fora de duvida, que nos antigos tempos, in- 
clusos os da dominação Romana, tinhão os povos das 
Hespanbas grande uso da navegação, pesca, e commercio 
marítimo, em toda a circumferencia de suas costas. 

Os povos do norte, que no principio do século v inva- 
dirão a Península, e vierão a extinguir nella o império 
Romano, erão pouco exercitados na arte de navegar, por- 
que o seu estado precedente lhes não havia dado (ao que 
parece) opportunidade de muito praticarem esta arte. 
Comtudo, vinte annos depois da sua entrada nas Hespa- 
nbas, os Wandalos passarão da Betica a Africa em nu- 
mero de mais de 80:000 pessoas, e esta passagem de- 
mandava grande numero de navios, e alguma pericia da 
navegação (16). Pouco depois vemos os mesmos Wanda- 
los, debaixo do reinado deGenserico, fazer descensos so- 
bre as costas da Itália, da Sicilia, das Gallias, das Balea- 
res, ác. ; destruir frotas numerosas do império, e dispu- 
tar-lbe a superioridade náutica, e o dominio do mar (17). 

(12) IJetii, iljidciii : « /Vr has Hispalis claret, ipsa quoqiie Ro- 
luaiiorum rolunia, ac uiinc quklem emporium ibi ãurat». 

(13) Idem, ibidem: «OUm statio varibus Hispnnorum». 

(14) Marpium murorum circuitKui, et navnlia. 

(lo) Lib. 3. Belon iirbs el lliwius. Hinc maxime ad Tingim Mau- 
rituniae Irajicitur, mercatusque ibi sunt et salsametita. 

(10) Idar. Chvnn.. da edição de Florez, na Espana Sagrada, ao 
aiino 429. 

(17) Ihidcm. ans annos iio, 4-")6, io7, i6o, 467, kc. 



3S8 

Nos princípios do século vi (diz hum escriptor moderno) 
as imicas potencias marítimas erão o império Romano, 
e o reino dos Wandalos. . . Os Godos da Itália também ti- 
fíhão Marinha, mas pouco co?isideravel (18). 

Os Godos das Hespanhas, que ao ptincipio se davão 
pouco á navegação, vieião em tempo do Rei Sisehuto a 
fazer-se peritos nesta arte, chegando a domar por mar e 
terra os próprios Romanos, a quem d'antes tinhão obe- 
decido, e servido, como nos informa Santo Izidoro na his- 
toria destes povos (19). 

Pelos annos G73, preparando o Rei Wami^a a expedi- 
ção contra o rebelde e tyranno Paulo, e contra a provin* 
cia das Gallias, que o seguia; diz S. Julião, na historia, 
que escreveo desta expedição, que se destinara também 
hum e.rercHo varal coiítra os mesmos rebeldes (20). Ou- 
tra armada do Wamba combateo, e venceo no anno de 
677 a dos Sarracenos de Africa, que constava, dizem al- 
guns escri[)tores, de 270 vasos, entre grandes e peque- 
nos (21). E em 006, tendo-se os Árabes já apossado das 
Mauritanias, e tomendo-se el-Rei Egica de algum insulto 
sobre as costas da Hespanha, mandou sahir ao mai' a 

(18) Ml", le Comte du Buat, Histoire ancienne. des Peiíples de l'Eu- 
ropc. Sidónio Apolinar. enumerando no Panegírico de Majoriano, 
os diversos géneros, com que cada naeão servia ao Imperador, diz : 
«SaMiliia nrçjentnm, naves Hispânia deferi»; e era isto na segunda 
anietade do século v. (Vej. o Chron. de Idac, ao anno 462.) 

(19) Isidor., Ilistor. Gothor. «Hac sola tantum armorum expe- 
rientia hncusque carehant (Gothi) qíiod clássica hella in mari (jereré 
non stndebant: sed postquam Sisebntus Princcps, celesti gratiã, re- 
gni suscepit sceptra, ejus studiis aã tantam felicitatis virtutevi pro- 
fedi sunt, nt nrni solum terras, sed et ipsa maria suis armis adeant, 
subactusque serviat illis Bomanus miles, quibus servire tot gentes et 
ipsa Hispânia vidit». 

(20) S. Julião, Historia d<t expedição de Wamba, edição de Flo- 
res, na Espana Sagrada : << Alium exercitam destinans, qni narali 
praelio bellaturus accederet». 

(21) Ferveras, ao anno 677; Chronic. Sebastianí, § 2." 



359 

armada Goda, que afugentou e dispersou a dos inimi- 
gos (22). 

Durante este periodo, que compreiíende desde o prin- 
cipio do século V até o principio do vin, em que os Ára- 
bes effectivamente invadirão, e soi)jugárão as Hespanhas, 
e destruirão o império Goliiico, se nos ofíerecem ainda 
alguns outros argumentos da pratica da navegação entre 
os povos Hespanlioes, que nos pareceo não ommittir neste 
lugar. 

Da provincia da Galliza, que comprehendia huma parte 
do actual reino de Portugal, e da própria Lusitânia, pa- 
rece que sahião por aquelles tempos alguns navios para 
as costas de Africa, e para o Oriente, como se faz mani- 
festo pela viagem do celebre e douto Presbytero Braca- 
rense Orosio a Hipona, dos dous Avitos, e Idacio, da 
mesma província, e de S. João de Valclara, Lusitano, ao 
Oriente. 

A historia dos dous Bispos de Merida, Paulo, e Fidel, 
Gregos de nação, e ambos metropolitanos da Lusitânia, 
de que temos noticia pelos escriptos do Diácono Emeri- 
tense Paulo (23), mostra que naquelle tempo vinhão na- 
vios Gregos ao Anãs (Guadiana) por causa do commer- 
cio. No século vi acudião á Tarraconensc, e a outras 
províncias das Hespanhas, Clérigos Gregos, expulsos ou 
fugitivos do Oriente, como se vê da carta do Papa Ilor- 
misdas, dirigida, no anno de 317, ao Bispo de Tarragona, 
em que lhe dá instrucções sobre o modo de receber os 
Clérigos Gregos, e de examinar, e reconhecer a sua or- 
thodoxia. Idacio, Bispo de Aqiias Flavias (hoje Choves, 
em Portugal) metteo no seu Clironicon algumas noticias 
das Igrejas orientaes, que lhe havião sido communicadas 
por Presbyteros, e outros Gregos. (|ue aijorlavãd á Gal- 

{±2} ísidor. Pacen?., (jliran. I''orrei'as. 

{tli) Vitae Patrum Einerilem., edição de Floros, na Equina Sa- 
grada. 



360 

liza (24). S. Martinho Dumiense e Bracarense aportou á 
Galliza vindo do Oriente (23), ao mesmo tempo que che- 
gavão as relíquias do Turonense, trazidas das Gallias, 
também por mar, pelos enviados de el-Rei Suevo Carra- 
rico. Tudo isto suppõe não só communicação de navios 
estrangeiros nos nossos portos ; mas também alguma pra- 
tica de navegação, propriamente nossa; pois não he ve- 
rosímil, que a nossa gente fosse meramente passiva no 
commercio, nem isso se compadece com o exercício, e 
pericia de multas artes, e fabricas, que por aquelles an- 
tigos tempos havia na Península, como erão os cxcellentes 
tecidos de hnlio de Setabi; os vasos de bano de Sagunto; 
as salgações da costa meridional e occidental da Betica, e 
Lusitânia; as obras de madeira do antigo lugar marítimo, 
onde hoje está Sines, na Lusitânia; as de ferro, e aço de 
Carlhagena, de Toledo, e da Galliza, e outras de que, pôde 
ser, falaremos em lugar opportuno. 

Os Árabes, que como já dissemos, se apossarão de quasi 
toda a Península no principio do século vni, derão-se á 
navegação com grande ardor, segundo as proporções, que 
o paiz lhes oITerecia, e a necessidade, que elles tinhão de 
manter suas communlcações com a Africa, e Oriente. Não 
só a praça de Ceuta era liuma das princlpaes. acolheitas 
de suas esquadras, d'onde faxião frequentes descensos 
nas Hespanhas, e sahião a saltear as costas da Europa 
occidental, e mediterrânea; mas também dos próprios 
portos da Hespanha, por elles dominados, sahião multas 
destas expedições, como he íiequente na historia daquel- 
les tempos. A Historia Compostcllana faz menção de al- 
gumas delias, que do porto de Lisboa, e de outros das 

(24) Idac, Chron.. anuo 43o. 

(25) Diz o seu epitáfio: 

Panonils qenitns, transcendens aequora vasta, 
Galliciae in ijremma divinis nutibus actus 

étc. 



361 

Andaluzias fazião frequentes saltos nas costas da Galliza 
desde o Douro até o cabo de Finisterrac, com o fim de rou- 
bar, e captivar os habitantes de Portugal, e Galliza (26). 
Os povos indígenas do norte da Hespanha, aonde come- 
çarão a levantar-se as novas monarquias nacionaes, for- 
çados a combater quasi de continuo com os seus inimigos 
no continente da Península, não poderião dar-se com igual 
empenho á navegação. As frequentes invasões dos Nor- 
mandos nas costas da Galliza, Lusitânia, e Andaluzia pa- 
rece mostrarem, que não havia forças marítimas, em acção 
permanente, bastantes a rebater os seus insultos. Com- 
tudo havia algumas, e não faltava de todo a perícia náu- 
tica, como se collige dos lugares citados da Historia Com- 
postcllana, e de outros monumentos. E logoque o Bispo 
de Santiago, D. Diogo Gelmirez, mandou vir de Piza, e 
Génova constructores, que fabricassem galeras triremes. 
conseguio varrer as costas, e reprimir a ousadia dos bár- 
baros (27). 

(26) Historia Compostei.,, Iiv. 1.°. cap. 103."; liv. 2.°, cap. 21." e 
75.°; liv. 3.°, cap. 28.0 

(27) Vejão-se os lugares citados na nota antecedente. Em906 man- 
dava el-Rei D. Affonso Magno navios seus aos portos da França, como 
SC vô da carta, que escreveo ao Clero, e Povo Turonome, copiada en- 
tre os documentos do tom. 19.° da Espana Sagrada. Em 1111 que- 
rendo o Bispo de Santiago tomar alguns castellos. que se tinhão re- 
bellado contra a RainliaD. Urraca, e seu lilho (D. Allbnso VII), diz 
a Compostellana, que mandou que os vassallos littoraes da sua Igreja 
apromptassem a aiwnada, e fossem cei'car pela parte do mar os re- 
beldes. E acreiícenla, que alguns erão peritos nas artes inaritimas, 
e acostumados a e\ercitar-se nellas. Iricnses (diz) hand mora cias- 
sem aptant; armis el fjwhnsrpie neressariis tiares suas onerant ; et 
praeter caslelhim Honesti remvjantes. homines de Sancta Maria de 
Lanchata adeunt ; ii eteniin ejusdeni dxtis periti, in littore maris se- 
debant, et in narali exercitio studere solitierant_, &c. (Cornpostellana, 
liv. 1.", cap. 7.').") E note-s? que já então dizia Gelmirez. que lhe 
pertencia o (|uinto das prezas íeilas aos inimigos, o (jue suppõe al- 
gumas leis navaes. 



362 

Por esse mesmo tempo era frequentíssimo o commer- 
cio em alguns portos da Hespanlia, como nos informa em 
especial de Barcellona Benjamin de Tudela no seu itine- 
rário (28): e outro tanto se deve presumir dos outros 
muitos excellentes portos, de que he cercada toda a Pe- 
nínsula. Por onde se faz manifesto o uso constante da na- 
vegação nos povos Hespanhoes, em todos os tempos, e 
circumstancias, de que faz menção a historia. 

Os nossos primeiros Reis, tão valerosos na guerra, 
como providentes na paz, não desprezarão este impor- 
tante meio de defender, e engrandecer os seus estados, 
nem deixarão de dar ai tenção i\ Marinha, tanto para apro- 
veitarem as utilidades do comme.rcio, como para rebate- 
rem, quando fosse necessário, as forças dos Mouros: 
cousa tanto mais indispensável, quanto a posição geográ- 
fica de Portugal, esleiulido ao longo do Oceano, oíferecia 
mais fácil preza aos insultos das esquadras, e dos piratas 
Sarracenos, 

Assim vemos que logo nos princípios do governo de el- 
Reí D, Aftonso Henriques havia em Portugal algumas for- 
ças navaes; porquanto pelos annos 1133, sendo tomado 
pelos Castelhanos, e prezo no castello de Aguilar o Conde 
D, Gonçalo, que se havia rebellado contra D, Afíbnso VII, 
mandou este Príncipe, que o Conde fosse posto em li- 
berdade, mas que logo sahisse de seus estados : e nota a 
historia, que o mesmo Conde viera offerecer-se a el-Rci 
de Portugal, para (jtierrear por mar a Galliza, e Astú- 
rias (29). O que suppõe em Portugal algumas forças ma- 
rítimas, que elle commandasse. 

(28) Oppidum cst j)arrum (diz), attamen elegans, ét in maris lit- 
h)re sihtm, ijuo negotiatioitis ergo mermtores ex omnibu8 locis con- 
flunnt; e Graecia. P/.s/.s-. Ge)iua. Sicilia. Alexandria, Aegypto, Terra 
Israehs, confiniisqiie omnibus ejm. 

(29) Chronka de D. Affonso VIL era 1171: «Ut inde (aceret hei- 
lum per maré in Astúrias, et in Gallaeciam». 



363 

Mui verosímil he taml3em, que el-Rei D. AíTonso Hen- 
riques, conquistando Lisljoa no anno de 1147, augmen- 
tasse a sua Marinha, apossando-se de algumas das forças 
navaes, que os Mouros coslumavão ter naquelle porto; 
pois com esse fim cercou a cidade por mor, e terra, 
como dizem as antigas chronicas, valendo-se opportuna- 
mente do auxilio da frota estrangeira, que passava á Terra 
Santa, e cujos cabos o ajudarão em tão gloriosa, e feliz 
empreza. 

O certo he .que el-Rei cuidou logo em augmentar, e 
pôr em boa ordem a sua armada, nomeando para a com- 
mandar, como Capitão do mar, o celebre D. Fuás Roíipi- 
nho, do qual sabemos, que tomou aos infiéis algumas ga- 
lés, junto ao cabo de Espichei : 

levando a gloria 

Da primeira maritiina victoria, 

como cantou o immortal poeta Portuguez (30), e que de- 
pois outra vez os combateo, postoque com adversa for- 
tuna, na costa do Algarve, segundo referem as antigas 
chronicas do reino (31). Nem se pôde presumir, que hum 
Príncipe, que com tanto valor e constância tinha guer- 
reado os Sarracenos, libertado Lisboa, e muitas praças 
visinhas, e levado suas victoriosas armas aos campos do 
Alemtejo, deixasse de attender á defeza, e segurança das 
costas marítimas, e de prevenir todos os meios, com que 

(30) Lusíadas, cant. 8.", est. Ki." Chronica de Galvão, cap. 51." 
6 52." 

(31) Historia de Portugal, traduzida do luglez, edição de 1828, 
tom. l.", pag. 142: «E vindo depois (D. Fuás) commandar a frota 
destroçou huma esquadra de Mouros, da qual enviou 9 fjalés a Lis- 
boa, e foi acommeller a dos infiéis , que era de oi guleaçaa, com sós 
21 (lalés. Mas esta temeridade saliio-lhe cara; porque, eereando-thc 
os Mouros os navios, de tal sorte o combaterão, que veio a servir-lhe 
de sepultura agnelle mesmo mar, que fora theatro de suas tictof ias». 



364 

podesse rebater os insultos, e invasões das esquadras, e 
piratas Barbarescos. 

Também se não pôde duvidar de que já por este tempo 
houvesse em Portugal alguma Marinha mercante, por 
meio da qual se fazia commercio com as nações do norte. 
Os cazamentos de alguns filhos, e filhas dos primeiros Reis 
Portuguezes em Flandres, e Dinamarca, parece confirma- 
rem esta reflexão, e mostrarem, que havia relações com 
aquelles paizes, as quaes sem duvida erão resultado, ao 
menos em parte, das frequentes communicações, e cor- 
respondências commerciaes (32). 

No reinado de D. Sancho I, filho do grande D. AíTonso 
Henriques, sabemos peio testemunho dos antigos, que 
aproveitando-se este Príncipe (como já fizera seu pai) do 
auxilio de huma esquadra do norte, jiara conquistar do 
poder dos Mouros a importante cidade tle Silves, na costa 
do Algarve, ajuntara ás forças estrangeiras a sua própria 
armada, na qual havia (diz a chronica) 40 galés e galeo- 
fas, afora outras narios. em que hião aimas, engenhos, 
artilherias, bastimentos (33), cV-c. 

D. Afifonso II chegou a esquipar huma armada para a 
guerra da Terra Santa (34), e D. AíTonso III não só fez 
contínua guerra aos Mouros com as suas armadas; mas 
também soccorreo por mar, e terra com grandes forças 
a seu sogro el-Rei D. AíTonso, o Sabío, quando acommet- 
tido por inumerável multidão de Mouros de Africa, e lícs- 
panha; auxilio tão eíficaz, e de tanta utilidade, (|ue o Rei 

(32) D. Tliereza (que os Flamengos cliamánlo Mathikle), filha de 
D. AlTonso Henriques, cazou com Filippe, Conde de Flandres. D. Fer- 
nando, íilho de D. Sancho I, cazou com Joanna, herdeira do mesmo 
condado de Flandres. D. Berenguella, filha do mesmo D. Sancho I, 
cazou com Valdemaro, 2." do nome, Rei de Dinamarca. D. Leonor, 
filha de D. Aífonso II, cazou com outro Valdemaro, 3." do nome, e 
também Rei de Dinamarca, àc. 

(33) Chronica, cap. 9.°, Faria e Sousa, epit., part. 3.% cap. 3." 

(34) Faria e Sousa, ibidem, part. 3.% cap. 4." La Clede, liv. 6.» 



365 

de Gastei la e Leão, contente da victoria, e cheio de agra- 
decimento, cedeo então do direito, que por precedentes 
Tratados havia reservado ás rendas do Algarve, e a 30 
lanças Portuguezas durante a sua vida (33). 

A conquista, que D. Affonso III fez das terras do Al- 
garve, e de quasi todas as suas praças maritimas, o pu- 
nlião também nn forçosa necessidade de huma força res- 
peitável, que as defendesse de novas invasões dos ini- 
migos: e sabemos, que el-Rei se não descuidou deste 
dever (36j. 

Este mesmo illustre Principe nos he recommendado nas 
antigas historias Portuguezas como grande favorecedor 
do commercio, tanto interno, como marítimo. 

Do primeiro são boa prova os privilégios, e franquezas, 
que concedeo a diversas villas, e lugares, com o íim de 
multiplicar, e facilitar as feiras: e o cuidado, que teve de 
assignar o justo valor ao ouro, prata, e outros metaes, 
que são como certas medidas da estimação das cousas, 
que andão no commercio dos homens. 

Do segundo nos dão abonado testemunho, por huma 
paite a fundação, restauração, ou povoação de lugares 
littoraes, accommodados á pratica da navegação, e com- 
mercio, como forão Silves, Tavira, Faro, Vianna do Lima, 
Villa Nova de Cerveira, Caminha, á-c. : e por outra parte 
o notável documento, que existe no Real Arquivo, e vem 
transcripto nas Dissertações Chronologicas e Criticas do 

(;{5) La Clede, liv. 7.°, traducção Portugueza, not. 8. 

(36) A chroilica antiga, cap. 12.", diz: «E destes lugares do Al- 
gaiTe, depois que os el-Rei D. Affonso houve a sen poder, e senhorio, 
se acha, que com suas galés, e outros muitos navios fez sempre de 
continuo crua guerra aos Mouros de Africa, que em seus corpos e 
fazendas recehião grandes damnos». E Mariz, no dial. 2.°, cap. 15.", 
t(Mulo referido a conquista das principais praças do Algarve por 
D. Aflbnso III, concluc: «Todo o mais tempo de sua vida gastoti el- 
Rei D. Affonso em continua guerra, que com suas armadas fazia 
aos Mouros de Africa». 



366 

Dr. João Pedro Ribeiro, datado da era 1291, anno de 
Christo de 1253 (37). 

Por este documento sabemos quão extenso era, na- 
quella remota idade, o commercio marítimo Portuguez, e 
quanto o consummo, que no reino se fazia de varias fazen- 
das de Londres, Ruan, Abeville, Bruges, Ipres, Tournay, 
Montpellier, e de outi"os muitos portos da grande e pe- 
quena Bretanha, da Flandres, da Normandia, doLangue- 
doc, de. O que suppõe a producção Portugueza de objectos 
de permutação: o consequente progresso da agricultura, 
artes, e fabricas nacionaes; a pratica da navegação, e final- 
mente a existência de forças navaes adequadas á guarda, 
e defensão dos portos, e navios Portuguezes (38). 

A estes tempos julgamos se devem attribuir as relações 
dos Portuguezes com as cidades Hanseaticas, de cuja liga 
fez parle a cidade de Lisboa : e de tudo isto resultavão tão 
consideiaveis direitos, que el-Rei, fazendo seu testamento, 
julgou bastante applicar para satisfação das mandas, e le- 

(37) Dissertações Chronologicas e Criticas^ tom. 3.°, append. 
n.» 21, pag. 59. 

(38) Quando da avnaltada iraporlação de fazendas estrangeiras de- 
duzimos a existência, e fabricação de géneros, e fazendas nacionaes, 
não nos fundimos somente na mera probabilidade desta consequên- 
cia. As nossas chronicas, e os antigos códigos de nossas leis estão 
cheios de ordenações, que vedavão a saca do dinheiro, e dos nietaes 
preciosos; e hum dos fins desta providencia era obrigar os nego- 
ciantes a fazer o saldo do commercio com eíTeitos nacionaes. Por 
este motivo, não menos que para evitar o descaminho dos direitos, 
se estabelecerão os lealdamentos. pelos quaes erão os estrangeiros 
obrigad-os a manifestar os géneros importados, e os retornos, que 
levavão em fazendas do reino : e os nacionaes sofrião igualmente 
varejos, e balanços, em que se medião, e calculavão as fazendas exis- 
tentes, e as vendidas, conferindo tudo com as que se lealdavão, e 
manifestavão nas alfandegas, e portos, para deste modo se ver se 
algumas se introduzião por alto, e descaminhadas, e se a exporta- 
ção correspondia á importação, de sorte, que não houvesse saca de 
moeda, ouro, ou prata, &c. 



367 

gados, que nelle deixava, os redditos da cidade de Lisboa, 
e seus termos, com as dizimas de mar, e terra, que alii 
lhe pertencião (39). De maneira, que bem podemos dizer, 
que no tempo de el-Rei D. Afíunso III he que se lançarão 
os mais largos, e sólidos fundamentos á Marinha Portu- 
gueza, a qual logo no seguinte reinado de el-Rei D. Diniz 
seu íilho se levantou a maior luzimento pela sabia poli- 
tica, e acertadas providencias deste Príncipe, a quem não 
escapou cousa alguma, que podesse elevar a hum alto grão 
a grandeza, e gloria da sua nação (40). 

Foi elle o primeiro Rei Portuguez, que deu forma es- 
tável, e regular ao importante cargo de Almirante, no 
anno 1322 (41), conferindo-o debaixo de certas con< li- 
ções, e com grandes honras e interesses a iMisser Manoel 
Peçanha, nobre Genovez, mui perito nas cousas maríti- 
mas. O qual bem he de crer, que poria em grande me- 
lhoramento a armada naval, tanto no que respeita ao nu- 
mero, e foiça dos navios, como á manobra náutica, e á 
disciplina da gente da marinhagem; para o que se criarão 
também os oíTicios necessários, e se determinou a ordem, 
e os limites de suas jurisdições, e auctoridades: obri- 
gando-se alem disso o Almirante a ter em Portugal 20 
Geno vezes, homens do mar, para governarem os navios, 
como alcaides, e arraizes, quando a armada sahisse con- 
tra os inimigos, por serem os Genovezes, naquelle tempo 

(39) Provas da Historia Genealógica, tom. l.° : «Et dizimas omnes 
tam maris quam terrae, et omnia qiiae pertinent ad me in eadem 
civitate, et in ter minis siiis, tam in mari, quam in terra». 

(40) Teve particular cuidado na conservação da sua frota, de 
sorte, que eniquanto viveo foi senhor do mar. (Historia de Porlu- 
(jal citada, tom. 1.°, pag. 253.) 

(41) Vej. o contracto feito com o Almirante Peçanha, no tom. 1.° 
das Provas da Historia Gcnealorjica. do (jual consta, que o primeiro 
ajuste tinha sido feito na era 13.^5, que he anno de (lliristo 1317, 
postoque somente fosse reduzido a escriptura na era 13()0. aiuio 
de Christo 1322, que he a data do referido contracto. 



368 

mui experimentados, e peritos nas cousas navaes. Com o 
que attendia também el-Rei a ter no reino huma como 
escola, em que os Portuguezes se fossem cada vez mais 
exercitando, e aperfeiçoando naquella importante arte. 

Foi também el-Rei D. Diniz o que, conhecendo quanto 
convinha para o augmento deste ramo da força publica 
ter madeiras de construcção de boa qualidade, em abun- 
dância, e em lugar accommodado ao fácil transporte para 
os estaleiros maritimos, mandou semear o grande pinhal 
de Leiria, do qual ainda hoje tira grandes proveitos a Ma- 
rinha Portugueza, e sem o qual (como avisadamente re- 
flecte hum escriptor) seria impossivel conservar-se depois 
a navegação da índia, pelas grandes embarcações, que 
para ella erão necessárias, e que se não podião fazer, se- 
não de muitas, grandes, e antigas arvores (4^). 

Nem este zelo, que el-Rei D. Diniz mostrava pelo au- 
gmento da Marinha, era de mera ostentação, e apparato. 
As chronicas antigas, bem que pouco solicitas de nos in- 
struírem sobre hum objecto tão importante, dizem com- 
tudo, que el-Rei trazia continuamente suas galés nas cos- 
tas do Algarve, a fim de as guardar dos saltos do inimigo, 
e de embaraçar, ou interceptar os soccorros, que os Mou- 
ros de Africa mandavão aos de Granada (4íi) : e com este 
mesmo intuito obteve do Papa João XXll os dizimos eccle- 
siasticos, para melhor poder costear as grandes despezas 
de suas armadas : alem de nos constar pelo contracto, que 
se fez com o Almirante Peçanha, que a este se concedia a 



(42) Mariz, dial. 3.°, cap. 1.°, no liiii. 

(43) Idem, ibidem, refere de el-Rei D. Diniz, que fizera sempre 
cruel, e continua guerra com suas poderosas armadas aos Mouros de 
Africa, vendo que os de Portugal já erão lançados fora delle. E hou- 
ve-se (diz) com elles tão asperamente, que se não acha posto em me- 
moria, que alguma hora lhes concedesse tréguas, ou com elles fizesse 
pazes. (VeJ. a Historia de Portugal, traduzida do Inglez, edição de 
1828, tom. 1.», pag. 257, not. 1, &c.) 



no9 

quinta parle do que cabia a el-Rei de todas as prezas to- 
madas aos inimigos^ tirando navios, armas, e prizionei- 
ros de mercê, o qual, quando el-Rei o queria tomar, era 
obrigado a dar 100 libras Portuguezas, e delias tinha 
também o Almirante a quinta parte, de. (ii); por onde 
se vu, que a armada não estava ociosa, nem as suas em- 
prezas erão sem proveito. 

As mesmas chronicas nos inCormão, que pelos annos 
129o, rompendo-se guerra entre Portugal, e Castella, 
fizera el-Rei de Castella esquipar no porto de Sevilha al- 
gumas galeras, com as quaes D. Sancho de Ledesnia, en- 
trando subitamente no Tejo, e achando desprevenida a 
armada Portugueza, levara vários navio-;, (jue naquelle 
rio estavão ancoi^ados: mas que o Almirante Porlnguez 
ai'mando, e aparelhando com grande celeridade, e sa- 
hindo logo ao mar, íôra alcançar os Castelhanos jimto ao 
cabo de S. Vicente, aonde pelejando com elles, não só re- 
cobrara a preza, que levavão, mas também lhes tomara 
muitos dos seus navios, com o que se recolhera victorioso 
a Lisboa ('45). 

Nem he alheii» do nosso propósito reflectir aqui, que 
substituindo el-Hei á extincta Ordem dos Templários a 
outra Ordem Militar da Cavallaria de Nosso Senhor Jesu- 
Christo, destinou com prudente advertência para sua ca- 
pital, e para residência do Mestre a villa de Castro Marim, 
situada na extremidade do reino do Algarve, á foz do Gua- 
diana, sobre a costa do mar: como dando a entender, que 
sendo os Cavalleiros da nova Ordem incumbidos de fazer 
guerra aos intieis, convinha que assentados em hum lu- 
gar marítimo, e fronteiro aos Mouros, se habilitassem nos 
exercícios náuticos, c na guei"ra do mar. e augmentassem 
assim as forças da Marinha Portugueza. 

(44) Consla do cuiilraclo acima cilatlo. E vrj. Sovoriín ilc l\ii'ia. 
Noticias de Portugal, disc. 2.*», § 13.° 
(4'j) Chronim. v:\\). (i." 

TOMO V -2'i 



370 

Outra grande prova do estado florente, a que ella tinha 
chegado, se deduz das extraordinárias riquezas de el- 
Rei, procedidas em grande parte do extenso commercio 
maritimo, que então fazião os Portuguezes. Os auctores 
da Historia de Portugal, escripta em Inglez, fazem a este 
respeito algumas reflexões, que nos pareceo não ommittir 
aqui (46). 

« Suas riquezas (dizem elles, falando das deel-ReiD. Di- 
niz) erão o espanto daquelles tempos: porque o povo, 
vendo que elle quanto emprendia tudo acabava, dizia vul- 
garmente, e ainda hoje se repete: (íEl-Rei D. Diniz fez 
tudo quanto quizy>. Mas isto prova, que em Portugal de- 
via de haver então muitos commercios. O que também se 
pode deduzir da grande armada, que el-Rei sempre teve, 
e lhe servia de conter os Mouros, e de proteger as costas 
de Portugal e Andaluzia. Acresce a isto dizerem os his- 
toriadores Portuguezes, que el-Rei nunca usou de cousa 
estrangeira em seus vestidos, moveis, e meza, d'onde se 
deixa entender, que elle nisto era singular, e queria ani- 
mar as manufacturas do reino, dando-lhes valor aos olhos 
dos seus naturaes, e dos estranhos: o qual meio era hum 
dos mais efficazes para attrahir ao seu reino as riquezas 
dos visinhos, porque ellas costumão acompanhar sempre 
o commercio, se no luxo se sabe guardar huma certa tem- 
perança. 

« Nós falámos disto (continuão ainda os auctores) con- 
jecturalmente, porque os historiadores Portuguezes não 
dizem nada a este respeito; mas fundàrao-nos nas cir- 
cumstancias, e damo-nos a crer, que o grande commercio 
se faria com as frequentes visitas das armadas dos Cru- 
zados, que de toda a Europa passavão á Terra Santa, e 
tocavão nos portos de Portugal, e da correspondência, 

(46) Historia de Portugal, traduzida, edição de 1828, tom. i.°, 
pag. 255. 



í 



371 

que daqui nasceria com as illias do Arquipélago, e com 
os portos da Grécia, Syria, e Egypto. Destes receberão 
os Portuguezes as luzes, (jue depois os guiarão nos des- 
cobrimentos, de que não tinlião idéa alguma: mas já en- 
tão experimentavão os prósperos successos do commer- 
cio, e da navegação, que os fazia ricos e poderosos a 
respeito de seus visinhos. » 

Finalmente temos ainda hum testemunho notável do cui- 
dado, com que el-Rei D. Diniz se applicava ao augmento 
da Marinha do reino, na exposição, que os enviados de 
seu filho e successor el-Rei D. AfTonso IV fizerão ao Santo 
Padre Benedicto XII, quando no anno de 1341 forão pe- 
dir-lhe em nome deste Principè a concessão das decimas 
dos benefícios de Portugal e do Algarve para a guerra 
contra os infiéis. 

Dizião os Embaixadores, que el-Rei D. Diniz, para 
mais facilmente quebrantar as forças dos Mouros fi- 
zera aparelhar huma numerosaxirmada, e nomeara hum 
Almirante, e com ella alcançara algumas victorias dos 
Sarracenos. E acrescentava o, que desejando ora el-Rei 
D. Affonso seguir as pizadas de seu pai, tinha augmen- 
tado a armada, e de tal modo havia feito exercitar a sua 
gente na maiinhagem, que nenhuma nação lhe levava 
vantagem na pericia náutica, d-c. Pelas quaes palavras 
não só se confirma o que deixámos dito acerca de el-Rei 
D. Diniz, mas também se vê o progressivo augmento, que 
no governo de seu filho hia tomando a Marinha Poitu- 
gueza, e quanto os Poi'tuguezes começavão já a sobresa- 
hir ás outras nações no exercício, e pericia da marinha- 
gem (47). 

Com elleito ao tempo deste Rei D. AíTonsoIVse devem 
sem duvida refeiir as [irimeiías emprezas iilliamarinas 



(47) Yel.oPontificiar. Conslituliuniim Kpiloint'. abAloijsio (luerra 
edit. 4." vnl., foi. 



372 

dos Portuguezes, que no seguinte século se fizerão Ião fa- 
mosas. 

Já em outras partes, e a outros respeitos temos mencip- 
nado a resposta, que este Principe mandou dar ao Santo 
Padre Clemente YI, quando D. Luiz de Lacerda, investido 
no domínio das ilhas Canárias, pretendia hir apossar-se 
delias, pelos aimos 1344, e pedia para isso por interven- 
ção do Papa, o auxilio de Portugal, e de outros Soberanos. 
A resposta de el-Rei foi : « Que aquellas ilhas lhe perten- 
cião, pelas haver descoberto, e mandado a ellas os seus 
vassallos, n que as teria conquistado, se as guerras, que 
sustentam contra os Mouros, Ihopermittissemy, á-c. As- 
sim consta pelos documentos da Chancellaria Romana, ci- 
tados pelo Annalista Haynaldo, ao referido anno. 

Desla expedição, que el-Hei dizia ter mandado ao des- 
cobrimento das Canárias, não lemos achado até o presente 
memoria alguma nos nossos escriptores; mas parece não 
se poder pruilenlemente duvidar delia, por ser inverosí- 
mil, ou antes impossível, que el-Rei adegasse ao Santo 
Padre hum facto tão notável, que devia ser publico, e 
acontecido naquelle próprio tempo, se não fosse verda- 
deiro. Em hum escriptor porém estrangeiro, e moderno 
achámos noticia (também pouco conhecida) de huma em- 
preza marítima dos Portuguezes no século xiv, que acaso 
pôde ter alguma relação com o referido facto; e que ainda 
não a tendo, merece mencionar-se neste lugar, em prova 
do que vamos tratando. 

He Mr. Court de Gébelin, o escriptor, que nos dá esta 
noticia (48), citando o Diário dos Eruditos (49) do mez 
de Abril de 1758, e copiando delle esta notável anecdota: 

« Oito pessoas de Lisboa (dizem os diaristas) com todas 
as suas famílias tizerão esquipar hum navio, e lhe mettê- 
rão mantimentos para muito tempo. Era o seu desígnio 

(48) Monde Primitif analysé, &c., no vo!. de Disserlaíiom mélées. 

(49) Jíiiirnal dpn Sçarans. 



373 

embarcaiem-se, navegarem o Oceano, e não voltarem sem 
que tivessem descoberto as terras, que devião terminar 
o mar ao occídentc. Navegarão avante onze dias em alto 
mar; mas a violência dos ventos os obrigou a tomar o 
rumo ao meio dia. Depois de outros doze dias de nave- 
gação, abordarão a huma ilha, onde acharão prodigiosa 
quantidade de gados, cuja carne lhes pareceo amargosa, 
e por isso se contentarão de aproveitar as pelles. Nave- 
garão depois outros doze dias ao sul, e chegarão a outra 
ilha, que era habitada, e que tinha huma cidade á borda 
do mar. Ahi acharão hum interprete Árabe, que os infor- 
mou, que o Rei da ilha tendo concebido o mesmo pro- 
jecto, enviara alguns dos seus súbditos, os quaes havião 
navegado hum mez inteiro sem nada descobrirem». Era 
isto (dizem os diarislas) quasi dous séculos antes do des- 
cobrimento de Guiné, e da America; e acrescenlão, « que 
esta anecdota fora tirada de hum livro manuscripto in- 
titulado Ketab Karidat el Adgiaib, que se interpreta o 
livro da pérola das maravilhas, composto por Zein- 
Eddin-Omar, fdho de Almudasser, por sobre-nome Ben- 
el-Oiiardi, que vivia no século xiv». 

O leitor fará sobre esta relação o juizo, que bem lhe 
parecer: nós porém não teríamos por conjectura arrojada, 
ou inverosímil presumir, que os ousados navegantes de 
Lisboa sendo lançados ao rumo de sul, fossem parar em 
alguma das Canárias (50), que logo começarão a ser tão 
requestadas, e das quaes sabemos serem as únicas, que 
naquelles mares erão povoadas, quando se descobrirão as 
da Madeira, Porto Santo, Açores, á-c. 

Ultimamente do tempo do mesmo Rei D. Atfonso IV 
nos consla: Que na guerra, que teve com Castella, se pe- 
lejou também no mar, repartindo-se as forças Portugue- 
zas em duas divisões, huma de 20 galeras, e outros na- 

(50) Vej. l\oUi nobre as Canárias, a pa^;. 163 c seg. desle tomo. 



374 

vios, guarnecidos por 2:000 soldados, e capitaneados por 
D. Gonçalo Camelo, a qual andava sobre as costas da An- 
daluzia: e a outra commandada pelo Genovez Manoel Pe- 
çanha, a qual fazia suas hostilidades sobre as costas da 
Galliza: Que pelos annos 1336 corria o mar o Almirante 
Estevão Vaz de Barbuda com 3 náos grossas, e 5 outros 
baxeis contra os piratas, que infestavão as costas, e lu- 
gares marítimos de Portugal: e que quando foi das em- 
prezas de Algezira, e Gibraltar, deo el-Rei de Portugal 
ao Castelhano o soccorro de algumas galés da sua ar- 
mada (51). 

Os progressos, que tinha feito, e hia fazendo a Marinha 
Portugueza, não sofrerão interrupção no reinado de el- 
Rei D. Pedro L antes temos motivo pni-a ajuizar o con- 
trario, se reflectirmos nos grandes thesouros, que deixou 
este Príncipe (que não he taxado de avaro, ou mesqui- 
nho), e na grande extensão, que em seu tempo tinha o 
commercio Portuguez, huma das principaes origens de 
suas riquezas. 

Mariz, descrevendo o estado em que el-Rei D. Fernando 
achou o reino, quando subio ao Ihrono, refere estar posto 
em memoria, que só na torre do Castello de Lisboa se 
acharão por morte de el-Rei D. Pedro « 80:000 peças de 
ouro, 400:000 marcos de prata, e grande somma de moe- 
das de ouro e prata, e outras muitas cousas ricas, e de 
grande ralar » (52) : e logo dando a razão desta tão ex- 
traordinária riqueza, acrescenta: «E não pareça novidade 
estranha, porqtie havia então em Portugal tão grande con- 
tractação de vinho, azeite, sal, e outras cousas, que so- 
mente na cidade de Lisboa acontecia acharem-se, algu- 

(ol) Faria e Sousa, Epit., part. 3.*, cap. 8." La Clede, liv. 8.°; 
na traducção Portugueza. tom. 4.°, pag. 59, 62-67, 91, &c. 

(32) Mariz. dial. 'i.", cap. o.° Alguns lêem: «800:000 peças de 
ouro». Nós temos a edição de 1749, e seguimos a sua lição, que 
também nos parece mais razoável. 



375 

mas vezes no anno, 400, e 600 navios de carregação 
juntos, de que el-Rei tinha grandes direitos, e estas car- 
regações se fazião cada anno três e quatro vezesy> (53). 

Em confirmação do que, notaremos ainda, que deixan- 
do-nos as chronicas em lembrança a horrível tempestade 
de chuva e vento, que se experimentou em Lisboa no mez 
de Fevereiro de 1370 (terceiro anno de el-Rei D. Fer- 
nando), referem, que esta tempestade, durando muitas 
horas, fizera gravíssimo destroço em grande numero de 
navios, que estavão no Tejo, e que abalroarão huns con- 
tra os outros com grande ruina, e perda de navios e fa- 
zendas, escapando comtudo a esta desgraça as galeras, 
que pouco antes havião sahido ao mar, a cruzar na foz 
do Guadalquivir, e a espiar os movimentos da armada 
Castelhana. 

El-Rei D. Fernando, com quanto teve graves defeitos 
no que toca á administração do reino, foi comtudo (se- 
gundo a frase de hum escriptor judicioso) bcnemeritis- 
simo, no seu governo interno, da policia, agricultura, e 
commercio; e não só não desprezou a conservação da Ma- 
rinha, mas antes a acrescentou, e augmentou considera- 
velmente, como se collige de varias providencias que deo, 
e do estado florente em que se achava este ramo da força 
publica, logo nos princípios do seguinte reinado de el-Rei 
D. João I. 

Foi el-Rei D. Fernando grande zelador dos progressos 
da agricultura (base fundamental do commercio), e do 
aproveitamento das terras, que por incúria de seus donos, 
ou por outras cauzas, se acliavão destituídas dos bene- 
fícios da arte, e du trabalho humano: e com este presu- 
posto não só promulgou leis ulilissimns, (}uo so compi- 

(53) lljicleiii, aoiifle diz mais. que pov serem tantos, r tão conli- 
mios os navios dos eslranijeiros, ordenou u eiílcidc de IJsboa rertos 
homens, que pelas ruas, armados, andassem riijiondn de noite, c 
rjuardando a cidade de ahiuma traição. 



376 

lárão nos Códigos nacionacs; mas também perseguio, e 
punio com justa severidade os ociosos, vagabundos, e 
mendigos, peste funestíssima dos estados, e inimigos de- 
clarados da prosperidade, e riqueza publica (54). 

Com igual cuidado zelou, e promoveo o augmento do 
material daMarinba, tanto militar, como mercante, quero 
dizer, do numero, e multiplicidade dos navios, que em 
huma e outra se podessem empregar, concedendo privi- 
légios aos seus vassallos, que ou comprassem navios es- 
trangeiros, ou os mandassem construir nos estaleiros 
Portuguezes (5o), e dando-Ihes elle mesmo exemplo na 
construcção, que por conta da sua fazenda mandava fa- 
zer de vazos de toda a sorte, com os quaes podesse au- 
gmentar as forças marítimas do reino, e fazer-se, quanto 
possível fosse, senhor do mar. 

Creou também de novo o cargo de Capilão-mór do mar, 
que parece devia substituir o Almirante nas suas faltas, ou 
ausências, e lhe determinou a jurisdicção, e ospróes com- 
petentes á importância, e dignidade da sua occupação (56). 

Com estes meios e arbítrios subio a Marinha neste rei- 
nado a tal ponto, que Duarte Nunes de Leão nos diz na 
sua Chronica, que andando el-Rei de guerra com Castella, 
armara 32 gah^s, e 30 nãos, que he forra mui considerá- 
vel para aquelles tempos, e ainda para as posses de hum 
tão pequeno reino: e com esta armada se poz o Almirante 
sobre as costas de Andaluzia, aonde por quasi dous annos 

(54) Fez muitas leis excellentes sobre a agricultura; e punindo 
os vadios, não faltou quem tralialhasse nas lavouras, e com isso 
houve pão no reino de sobejo; fez taínbeni leis sobre os mendigos, 
e outras concernentes ao commercio, como se podem ver apontadas 
em Duarte Nunes de Leão, no fim da Chronica deste Rei, e regulou 
o commercio dos estrangeiros, òíc. (Historia de Portugal citada, 
tom. L°, pag. 337. Mariz, dial. 3.°, cap. 6.", &c. 

(oõ) Mariz, ibidem. 

(o6) Severim de Faria, Notirius de Portugal, disc. 2.", § 14." His- 
toria Genealógica, &c.) 



377 

fez notáveis estragos, e deo grandes perdas aos Caste- 
lhanos. 

Durando, ou renovando-se a mesma guerra com Cas- 
tella em diíTerentes annos, ti verão as armadas Portugue- 
zas grandes quebras, que a historia attribue á incúria, ou 
imperícia dos chefes (57) ; mas essas mesmas perdas nos 
dão prova da grande força marítima, que havia no reino; 
porque ajustando-se a paz entre as duas nações no anno 
de 1382, se estipulou em hum dos artigos delia a resti- 
tuição de não menos, que 22 galeras Portuguezas, que 
havião sido tomadas pelos Castelhanos, e estavão em seu 
poder. 

Do mesmo grande numero de galés, e outros navios de 
guerra, que então havia em Portugal, se collige também 
a grande pratica, e exercício, que os Portuguezes tinhão 
naquelle tempo na arte da pesca, que he outra base es- 
sencial da Maiúnha mercante e militar, e outra fonte de 
riqueza publica. 

A chusma das galés e baxeis de guerra era tirada então 
dos homens do mar, pescadores, e barqueiros, os quaes 
estavão para esse fim alistados nos livros chamados da 
Armação, e linhão obrigação de fornecer de cada vinte ho- 
mens hum, tendo o'Anadel-mór o cargo do alistamento, 
e a auctoridade de os constranger ao serviço da armada 
naval, por meio de oííicíaes seus, que se chamavão Vi?ite' 
neiros. Consta-nos esta pratica e uso pelo contracto, que 
depois fizerão os pescadores com el-Rei D. João I, pro- 

(57) Attribue-se a primeira perda pelos annos de 1373 á incúria, 
ou (corno outros dizem) á covardia do Almirante, a quem el-Rei 
tinha dado ordem para embaraçar a entrada do Tejo cá armada de 
Castclla. O Almirante foi Sííveramcnlc punido. A segunda perda, 
pelos annos de 1381, se atlribue á imperícia de D. João AtTonso 
Telles, irmão da Hai!ilia D. Leonor, ao (jual, só pi'lo titulo de irmão 
da Rainha, se dera o coinmando da armada. Elle foi levado prizio- 
neiro a Castella com outros Senhores Portuguezes, e o Almirante 
de Castella ficou tamlieni prizioneiro dos Portuguezes vencidos! 



378 

mettendo-lhe huma segunda dizima do pescado, sobre a 
que já pagavão, com a condição, que el-Rei proveria as 
galés de remeiros á custa desta contribuição, ficando elies, 
pescadores, desonerados de tão pezado encargo (58). 

O que porém mais decisivamente prova os grandes pro- 
gressos da nossa Marinha neste século xiv, de que vamos 
falando, he o brilhante estado em que a achámos logo nos 
principios do governo, e reinado de el-Rei D. João I, e 
ainda antes que este illustre Príncipe, e seu filho o im- 
mortal Infante D. Henrique, a elevassem ao grande des- 
envolvimento, em que a vemos por todo o decurso de sé- 
culo XV. 

Ainda o grande Mestre de Avis era simplesmente de- 
fensor do reino (1383 até 1385), quando mandou vir da 
cidade do Porto huma divisão de 35 velas, em que en- 
travão 18 nãos, e 17 galés, para se unir á divisão do Tejo, 
e se opporem ás emprezas marítimas de Castella. E logo 
depois de acclamado Rei, tendo pedido ao Duque de Len- 
castre auxilio de tropas, vierão estas de Inglaterra em na- 
vios Portwjuczeíi, e nelles forão depois restituídas ao seu 
paiz (59). 

(58) Vej. Severini de Faria, Noticias de Portugal^ disc. 2.", | 14." 
Estas dizimas, nora e rellid do pescado de Lisboa forão doadas por 
el-Rei D. Manoel ao Duque de Bragança por Carta de lo de Dezem- 
bro de 1500, em satisfaçdo do Reguengo de Colares, e da Mouraria 
e Judiaria da cidade, extinctas pela expulsão dos Mouros e Judeos. 
Depois em 1502 fez o mesmo Rei outra doação ao Duque das dizi- 
mas do pescado de Villa do Conde, Fão, Espozende, Darque, e Villa 
Nova de Cerveira, por indemnização das Mourarias e Judiarias ex- 
tinctas nas terras do Duque. Nas Cortes de Lisboa de 1562, em que 
se deo a tutoria de el-Rei ao Cardeal D. Henrique, pedirão os povos, 
entre outras cousas, « que a dizivia do pescado se tornasse para as 
tjalés, para qnr ox mareantes a derão». 

(59) Vej. o Epitáfio de el-Rei, copiado na Historia Genealógica, 
e com mais exacção, na Memoria, que escrevemos, sobre as obras 
da Batalha, e vem nas collecções da Academia Real das Sciencias 
de Lisboa. Faria e Sousa diz, que el-Rei mandara a Plymouth, 



379 

O commercio com os portos do norte continuava em 
grande actividade, tanto, que (|uando el-Kei armava para 
a expedição de Ceuta, querendo encobrir o verdadeiro 
alvo de seus preparativos, córava-os com dizer, que ar- 
mava contra o Conde de Flandres, porque lhe estorvava 
o commercio de seus vassallos; e esta ficção politica, que 
só ao Conde foi communicada, achou fácil credito em 
muitos. 

No anno de 1415, hindo el-Rei á dita gloriosa expedi- 
ção de Ceuta, armou 220 vasos, em que entravão 33 nãos 
grossas, 59 galeras, e muitos galeões, caravelas, e ou- 
tros navios de differentes grandezas, sahindo da só barra 
do Douro 70 velas, em que entravão 17 galés, poder ma- 
rítimo, que obrigou a hum distincto escriptor moderno, 
e estrangeiro, a dizer, que naquelle tempo erão os Por- 
tuguezes reputados como os primeiros navegadores do seu 
século; e que Portugal occupava então o primeiro lugar 
entre as potencias maritimas (QO). E outro escriptor, tam- 
bém estrangeiro, referindo a expedição de Ceuta, conclue: 
« Toda a Europa pasmou de ver, que hum reino tão pe- 
queno, como o de Portugal, armasse com tanto poder, 
mormente depois de tão longa, e tão damnosa guerra, 
como acabava de sustentar ((51). 

Pelos fins do anno de 1429, hindo a Infanta D. Isabel, 
filha de el-Rei, cazar com Filippe, Duque de Borgonha, 
sahio de Lisboa acompanhada de huma armada Portu- 
gueza de 39 embarcações, que forão aportar a Esclusa 
na costa de Flandres: apparato, que até suppõe (para as- 
sim nos explicarmos) algum luxo de foi-ças navaes, aliás 
bem empregado nos merecimentos da Infanta, e mui pro- 

para a passagem do Duque, e da sua Iropa, láO tidos de ijrandc 
porte, e 6 galeras, e que o Duque ajuntííra a esta armada S4 velas 
suas. 

(60) Malte-Brun, (Irografia. 

(61) La Clede, Historia Geral de Portugal, &c. 



380 

prio da grandeza de el-Rei seu pai, e da alia nobreza do 
Duque seu esposo. 

Não se pôde duvidar, que para o rápido e progressivo 
augmento, que a Marinha Portugueza tinha já adquirido, 
e foi adquirindo por todo este século, concorresse mui 
poderosamente a Escola de Sagres, fundada pelo Infante 
D. Henrique, c a ardente paixão, que este grande Prín- 
cipe mostrava, tanto pelo adiantamento das sciencias ma- 
thematicas, cosmograticas, e náuticas, como pelos desco- 
brimentos marítimos, que começou, e continuou por toda 
a sua vida com a perseverança mais heróica, e com os 
effeitos,.que todo o mundo sabe, e admira. 

Nesta escola se inventavão, fabricavão, e aperfeiçoavão 
os instrumentos náuticos necessários á navegação. Ali se 
fazião, e ensinavão a fazer observações astronómicas para 
regular, e rectificar o curso dos navios, e para verificar 
pelo calculo das latitudes e longitudes as paragens, em 
que se achavão, e os rumos, que devião seguir. Ali se 
projectarão as primeiras cartas hydrograficas, nas quaes 
se preferio desenvolver a superficie do globo, estendendo 
os meridianos em linhas rectas, parallelas entre si, pelas 
razões, que aponta o sábio Montucla (62), D'ali sahírão 
os hábeis cosmógrafos, que em tempo de el-Rei D. .Toão II 
aperfeiçoarão o astrolábio, e fizerão taboadas paia se na- 
vegar pela altura do sol. Ali emfim se trabalhava inces- 
santemente nos estudos da arquitectura naval, e em me- 
lhorar, e aperfeiçoar a construcção, e a manobra dos 
navios, chegando-se a conseguir, que as caravelas de 
Portugal fossem naquelle tempo os melhores navios de 
vela, que andarão sobre o mar, como se expressou Ga- 
damosto (63), Ac. 

(62) Histoire des Maíhématiques. 

(63) Proemio da Relação das suas navegações: e vej. Barros, 
dec. 1." ; Andrés, Historia de Ioda la Litteratura ; Bory de Saint-Viíi- 
cent, &c. 



381 

O grande movimento, extensão, e actividade, qued'aqui 
i'esultou ao commei'cio Portuguez; o gosto da navegação, 
e das emprezas maritimas, que se foi generalisando, e 
diífundindo por todas as classes de cidadãos; os docu- 
mentos, methodos, e luzes, que sahião, e se propagavão 
da mencionada escola ; os grandes capitães do mar, e os 
hábeis pilotos, que depois de adquirirem nella os conhe- 
cimentos theoricos, hião logo pratical-os em arriscadas 
navegações; emfim, o desejo de agradar, e servir a Prín- 
cipes, que erão como pais, e talvez mestres de seus vas- 
sallos: tudo isto deo em pouco tempo tal extensão, e des- 
envolvimento á Marinha Portugueza, que bem justiflca o 
dito dos escriptores, que acima referimos. 

Em 14o8 levou el-Rei D. Aííonso V á conquista de Al- 
cácer Seguer 220, ou mais, baxeis de todos os portes, e 
era 1471 , em que tomou Arzila, e Tanger, constava a sua 
armada de 300, ou, como outros dizem, de 308 navios, 
em que forão cousa de 30:000 liomens de desembarque: 
e fazia-se isto ao mesmo tempo, em que se continuavão 
os descobrimentos das ilhas, e das costas Africanas, e se 
frequentava avultado commercio para aquellas partes (64). 

Seu íilho, e successor el-Rei D. João II aprestou por ve- 
zes numerosas armadas para a costa de Africa, fundou o 
castello, e cidade de S. Jorge da Mina, cujo commercio 
rendia grandes cabedaes, e por elle tomou no seu dictado 
o titulo de Senhor de Guiné; descobrio o Congo, e o cabo 
da Boa Esperança, e preparou a armada para o grande 
descobrimento da Índia, que se realisou no seguinte rei- 
nado. 

Em tíímpo deste grande Príncipe he que se inventou, 

(61) Uuiíiiito o reinado de el-Rei D. Affoiíso V, isto he, desde 
1438 até 1'j81, se descobrirão as ilhas dos/lroírs, as de Caho Verde, 
as de .S. Thomé, Anuo Bom, Principe, Fernando Pó, &c., e pela costa 
se adiantou quasi desde o Senegal afé ao Cabo de Santa Catharina, 
a 3" da e(|iiiiinccial para o sid, &('. 



382 

OU aperfeiçoou o uso do astrolábio, e a sua applicação á 
navegação do alto mar, de que já acima fizemos menção: 
e elle mesmo, com a grande intelligencia, que tinha em 
lodos os ofjkios, e em particular nas artilherias (como 
diz Rezende), achou, e inventou o modo de trazer mui 
grossas bombardas em pequenas caravelas, cousa até 
então desconhecida, com o que conseguio defender as 
costas, e a navegação, e fazer respeitar, e temer o seu 
poder no mar (6o). 

Durante o largo período dos dous reinados, de que va- 
mos falando, e ainda depois delles. Unhão as armadas Por- 
tuguezas huma decidida superioridade sobre as de todas 
as outras nações marítimas da Europa, como se faz ma- 
nifesto por muitos factos, que nos refere a Historia, dos 
quaes apontaremos aqui summariamente alguns, em prova 
do que dizemos, e para que por elles se possa ajuizar a 
que elevado ponto tinha chegado o poder naval desta pe- 
quena, mas heróica nação, mais de hum século antes, que 
a Rainha Isabel lançasse os primeiros fundamentos á Ma- 
rinha Ingleza, e que os Hollandezes tivessem algum dis- 
tincto nome entre as nações marítimas. 

Seja o primeiro fado, que ousando os vassallos do Du- 
que de Bretanha incommodar o commercio Portuguez, 
forão castigados tão pezadamente, que se virão reduzidos 
a não poderem sahir de seus portos, arruinado o seu com- 
mercio, até que tomarão o partido de cessar de seus ex- 
cessos, e de não tornarem a desafiar as nossas forças. 

Outro tanto succedeo aos Inglezes. Pelos annos de 
1471, doze navios mercantes Portuguezes, que sahião 
dos portos de Flandres, carregados de muitas, e ricas 
mercadorias, forão tomados, e roubados por hum navio 
de guerra Inglez, cbmmandado pelo bastardo Falcom- 
bridge, sobrinho do Conde de Berwik, que então gover- 

(65) Garcia de Rezende, Chronkn úp D. .Todo 11, cap. 180." 



383 

nava o reino de Inglaterra. El-Rei D. Affonso V, que tinha 
prompta huma grande armada para descer em Africa, 
não quiz distrahil-a para differente operação, e limilou-se 
a dar aos armadores Portuguezes cartas de marca contra 
os Inglezes; com o que forão tantas as prezas, que todos 
os dias lhes fazião, e trazião a Portugal, que el-Rei de In- 
glaterra mandou satisfazer plenamente os effeitos rouba- 
dos, e renovou a paz, que de tempos antes havia entre as 
duas nações (66). 

Pelos annos de 1479, antes que se ratificasse a paz, que 
já estava ajustada com Castella, os Reis Gatholicos, que 
em hum dos artigos do Tratado renunciavão as suas frí- 
volas pretenções sobre Guiné, mandarão lá 30 navios; 
mas os Portuguezes os aprezárão todos com as grandes 
riquezas, que trazião, e os conduzirão a Lisboa: e este 
incidente abreviou a ratiflcação do Tratado, que os Cas- 
telhanos com artificiosa má fé, mas inutilmente, havião 
retardado. 

Em 1492, fazendo os Francezes pouco caso das antigas 
relações, que havia entre Portugal, e a França, e até do 
Tratado de amizade e commercio poucos annos antes ajus- 
tado entre ambas as nações (67), tomarão no mar huma 
caravela, que vinha da Mina com carregação mui rica, e 
muito ouro. El-Rei D. João II, sem se entreter em de- 
longas diplomáticas, mandou immediatamente pôr em- 
bargo em todos os navios Francezes, que estavão nos seus 
portos, e só em Lisboa se acharão 10 náos. Forão embar- 
gados os que estavão em Aveiro, e no Douro; e para 
Setúbal, e Algarve despachou el-Rei com a mesma in- 
cumbência a Vasco da Gama (68). Carlos VIII de França 

(66) Vej. Góes, Pina, &.c. Os nossos escriptores varião cm algu- 
mas miúdas circumstancias deste facto; mas todos convc^m na sub- 
stancia. 

(67) Em 1485, segundo a Hialoria Genealógica, &c. 

(68) Hezende, Chronica de D. Joúo II. 



384 

escreveo logo a el-Rei D. João II, dando satisfação do in- 
sulto, e fez restituir toda a preza, e todo o ouro, sem fal- 
tar hiima dobra (diz Rezende) : e acrescentão alguns es- 
criptores nossos, e estrangeiros, que se não levantou o 
embargo, até que fosse restituído /mm papagaio, que 
ainda faltava; e que admirando-se alguns desta severi- 
dade de el-Rei, respondera este grande Príncipe : « Quero 
que se entenda, que a bandeira Portugueza defende, e 
protege até hum papagaios; mostrando por este modo, 
que não era tanto o valor das cousas, quanto a lioiiia da 
sua bandeira, que elle defendia, e vindicava (69). 

(69) Os Francezes, que (segundo diz Voltaire) somente cuidavão 
em justas, torneios, e amores, quando os Portnguezes, a despeito de 
opiniões supersticiosamente acreditadas, de tormentas de mar, e de 
fjuerras, descobrirão e conquistarão a. nacecjação, e commercio da 
Ásia; logo que virão o caminho aberto, e os interesses, que d'ali 
vinhão a Portugal, quizerão ter parte nos lucros, o ser nossos ri- 
vaes, e então invocarão a liberdade do commercio, que nenhuma na- 
ção poderosa deixa de estreitar, e monopolisar. Como pon-m se não 
atrevessem então com a Marinha Portugueza, limitárão-se por muitos 
annos a huma guerra dolosa, ou antes a huma verdadeira pirataria, 
assaltando na paragem dos Açores, e em outros pontos, os navios 
Portuguezes, que contiados na segurança da paz, que tínhamos com 
todas as nações, vinhão da índia, ou da costa de Africa, quasi sem 
defeza alguma. « Huma das primeiras acções de el-fíei D. João 111 (di- 
zem os auctores da Historia de Portmjal) foi enviar por Embaixador 
a França João da Silveira, paru se queixar das hostilidades, que os 
armadores Francezes fazião aos Portuguezes, e para requerer, que 
se não mandasse armada Franceza á índia, como em França se pro- 
jectava ». El-Rei D. João II fazia estas embaixadas com náos, e bom- 
bardas, e era bem succedido, como acabámos de verl As outras na- 
ções, que também ao principio tiverão por insanas as navegações 
Portuguezas, concorrião agora com os Francezes na mesma emula- 
ção, ou inveja, e no commum intento de nos despojarem do bem 
merecido fructo dos nossos trabalhos, nos quaes não tiverão parte 
alguma. « Os Turcos (dizia hum douto Portuguez em lo62), os Ve- 
nezianos, os Francezes, os Inglezes, todos tem contenda comnosco so- 
bre a índia, e a Especiaria, o Brazil, Guiné, &c., e com elles temos 
sempre guerras, e trabalhos : e se alguma cousa os detém, em seus 



385 

Pelos annos de líiOO, já em tempo de el-Hei D. Manoel, 
corria os mares hum corsário Francez, por nome Mon- 
dragon, o qual aprezou hum navio Portuguez, que vinha 
da índia com preciosa carregação. El-Rei não quiz seguir 
o processo summario do seu antecessor, e mandou quei- 
xar-se a el-Rei de França Luiz XII, de quem não recebeo 
satisfação alguma : pelo que ordenou a Duarte Pacheco, 
que sahisse ao mar em demanda do corsário. O heróico 
Pacheco, sem embargo da vigorosa resistência de Mon- 
dragon, metteo-lhe no fundo hum dos seus navios, e apre- 
zou-lhe os outros três, e com elles o trouxe a elle mesmo 
prezo a Lisboa, aonde restituindo a preza, e promettendo 
respeitar d'ahi em diante a bandeira Portugueza, teve por 
benignidade de el-Rei a liberdade de se retirar, á-c. 

De tudo o que até agora temos dito acerca do grande 
poder naval do nosso reino no século xv, íacil he de ver, 
que também seria proporcionado o adiantamento das duas 

propósitos^ a nos não fazerem mal, he ter por sem duvida, que o 
nosso Rei he o mais rico, e o mais poderoso, que ha no mundo». 
Estes propósitos porém começarão a executar-se sem rebuço, logo 
que Portugal passou ao lyrannico poder de Castella, e a sua deca- 
dência se fez manifesta a toda Europa por tantas causas, que para 
ella concorrerão. As nações, invejosas da nossa gloria, e prosperi- 
dade, postergarão então todas as considerações da justiça, romperão 
a paz, que, máo grado seu, tinhão conservado; e com o pretexto de 
sermos vassallos de Castella, começarão a fazer-nos guerra, isto he, 
a arruinar o nosso commercio, e a rouLar-nos as nossas ricas pos- 
sessões ultramarinas. Em lo90 navegarão para a hulia alguns navios 
Inglezes em frota. Em 1595 saquearão os Francezes o castello de Ar- 
guim na costa de Africa. Em 1597 apparccérão os primeiros navios 
Hollandezes na índia. Na America, apesar das repetidas tentativas 
sempre mallogradas dos Fi'ancezes, ainda no anno de 1003 (diz Pin- 
kerton) tudo naquelle rasto continente estaca em poder de Hespa- 
nhoes, e Portuguezes. E tudo conservaríamos lá, e em Africa, e na 
índia, se os Portuguezes não houvessem degenerado de suas antigas 
virtudes, e sobre tudo, se o governo usurpador não favorecesse de 
propósito esta degeneração, e não liouvesse couperailo positivamente 
para o nosso abatiiiicnlo. e ruína. 

TOMO v as 



386 

artes, que são como criadoras, e ao mesmo tempo subsi- 
diarias da Marinha, quero dizer, o commercio externo, e 
a pesca. 

Emquanto ao commercio: não falando do que de tem- 
j)os antigos se continuava com os portos do norte, e do 
Mediterrâneo, acresceo o das novas colónias das illias, e 
terras descobertas de Africa. 

Da ilha da Madeira, aos vinte annos depois de povoada 
pelos Portuguezes, dizia Cadamosto em suas Relações, 
que além do asucar, que produzia, dos arcos de teixo, 
que já se exportavão, e dos excellentes vinhos, que já so- 
bejavão para se exportar, ha\ia engenhos de serrar, e se 
trabalhavão muitas, e excellentes obras de carpintaria, 
e bofetes de muitas invenções, e outras obras de madeira, 
de que se provia todo Portugal, e outros paizes (70). 

A ilha de S. Thomè, mandada povoar em 1493 por el- 
Rei D. João II, começou logo a ser tão copiosa na pro- 
ducção, e commercio do asucar, que pelo meio do sé- 
culo XVI dava mais de 150:000 arrobas, producto de 60 
engenhos, que se havião construído, não estando todavia 
roteado senão apenas huma terça parte do terreno da 
ilha, na qual se achavão estabelecidos muitos commer- 

(70) Cadamosto, Navegação ■primeira, edição da Academia Real 
das Seiencias de Lisboa, cap. 4.° Ahi se diz, que no tempo desta 
primeira viagem, em 1445, se fabricavão na ilha da Madeira 400 
cântaros de asucar, o que (regulando o cântaro Veneziano pelo Flo- 
rentino) vem a dar em 468 quintaes, ou 1872 arrobas. Em outra Me- 
moria achámos, que o asucar da ilha da Madeira, ainda em tempo 
do Infante D. Henrique, lhe dava de quinto 900 arrobas, o que vem 
ao total de 4:500 arrobas. Finalmente Barros diz, que humas três 
léguas de terreno da ilha davão em seu tempo ao quinto mais de 
60:000 arrobas. Sabido he, que a canna, e os mestres de fabricar 
asucar forão mandados vir da Sicilia pelo Infante D. Henrique, o 
qual também mandou vir de Cândia a excellente malvazia, cujos 
vinhos são ainda hoje de tanto interesse para a ilha. e seu com- 
mercio. 



387 

ciantes Portuguezes, Castelhanos, Francezes, e Genove- 
zes, sendo o seu ancoradouro frequentado de navios de 
varias nações, attrahidos huns e outros das franquezas, e 
benefícios, que dos nossos Reis lhes erão concedidos (71). 
Para as outras ilhas, portos, e terras descobertas na 
costa Occidental de Africa, era frequentissimo o trafico 
dos negociantes de Portugal, e da ilha da Madeira, de 
sorte, que no anno de 1444 julgou o Infante D. Henrique 
conveniente auctorisar a Companhia de Lagos para fazer 
o commercio das ilhas de Arguim, aonde mandara levan- 
tar fortaleza, e tinha Feitoria sua: e pelos annos de 1447 
se acharão juntos naquellas paragens 27 navios Portu- 
guezes, que traficavão em differentes pontos da costa. 
O qual commercio foi em muito maior augmento, logo 
que se descobrio o reino de Beny (d'onde os Portuguezes 
começarão a levar a pimenta a Flandres), e a Mina, onde 
el-Rei D. João II mandou fundar o castello, e cidade de 
S. Jorge, cujos proveitos erão avultadíssimos (72). Pelo 
que el-Rei D. Affonso V houve por necessário nomear 
hum particular Veedor da Fazenda das cousas, que per- 
tendão a todolos feitos do mar Oceano, cargo, em que 
achámos provido Pedro Affonso por Carta dada no anno 
de 1460 (73). E el-Rei D. João II tinha efectivamente em 
Flandres hum Feitor seu, encarregado dos negócios da 

(71) Vej. Navegação de Lisboa a S. Tkomé por hum Piloto Por- 
tuguez, na collecção da Academia. 

(72) Garcia de Rezende, Chronica de D. João U. 

(73) Vej. a Historia Genealógica. Por Carta de 20 de Março de 
1432 concedeo el-Rei vários privilégios e isenções a Flamengos, Al- 
lemães, Francezes, e Bretões, que viessem morar em Portugal. Em 
seu tempo actiâmos Gil de Brito, Cavalleiro da Gaza de el-Rei, 
Veedor-mòr das artilharias do reino. Em 1487 era Diogo de Azam- 
buja Veedor-mór das artilharias, e armazéns do reino. Já em tempo 
de el-Rei I). João III adiámos Jorge de Azambuja Veedor das arti- 
lharias, armazéns, e lererenas , cargo (juc tinha em 1.^27 Cosme Im- 
fetá. &c. 



3SS 

sua fazenda, e de proteger o conimercio dos seus vas- 
sallos. 

Este il lustrado, e nunca assas louvado Principe, que 
entendia perfeitamente das cousas do commercio, inten- 
tando augmentar com elle as riquezas do seu reino, abateo 
ametade dos direitos de entrada, que se pagavão na alfan- 
dega de Lisboa, com o que attrabio a esta cidade o com- 
mercio da Galliza, e da Andaluzia. E favorecia tanto os 
estrangeiros, que vinhão negociar ás suas terras, que to- 
mando huns piratas Francezes quatro galés Venezianas, e 
lançando nús na praia os homens da guarnição, junto á foz 
do Tejo. el-Rei não só os mandou vestir, e sustentar, mas 
lambem llies olíereceo 40:000 cruzados para resgatarem 
as galés ; e como os Francezes pretendessem preços maio- 
res, el-Hei emtim comprou os cascos, e os pôz á disposição 
da Republica de Veneza: acção tão generosa, que a Repu- 
blica se houve por obrigada a lhe enviar huma solemne 
embaixada, agradecendo o beneíicio, e sollicitando a sua 
amizade. Já acima apontámos o Tratado de amizade, e 
commercio ajustado com os Francezes em 148o, e podá- 
ramos mencionar muitos outros factos, que provão por 
huma parte a extensão do commercio Portuguez naquelles 
felices tempos, e mostrão, por outra parte, a grande in- 
telligencia, que el-Rei tinha dos verdadeiros princípios da 
economia politica, quando esta sciencia estava ainda por 
criar. INIas estes objectos não cabem nos limites, que nos 
temos prescripto, e demandão escriptura mais extensa. 

Emquanto á pesca: postoque sejão mui escassas as no- 
ticias, que a este respeito nos deixarão os antigos, nota- 
remos comtudo algumas de que achámos feita menção, e 
que servirão de estimulo para novas indagações, a quem 
for mais feliz, e tiver mais meios para fazel-as do que nós 
somos, e temos. 

Algarve: os navios, que naquelles tempos sahião de 
I\)rlngal com grandcí frequência, e em grande numero, 



389 

para as ilhas, e costas de Africa novamente descobertas, 
ou que se pretendião descobrir, hião quasi sempre bem 
providos de peixe salgado, que bastasse para o abundante 
mantimento dos navegantes, e gente da marinhagem (74), 
e parece verosímil, que estas provisões fossem das pes- 
carias, c salgações do reino, e ainda especialmente das 
do Algarve, d'onde sahião as expedições, e aonde o In- 
fante D. Henrique residia, e tinha suas terecenas, arma- 
zéns, de. O Algarve, que por sua posição geográfica he 
aptissimo para as pescarias, tem sempre conservado, e 
conserva ainda hoje este trafico. 

Setiival: foi sempre desde os mais antigos tempos hum 
lugar notável pelas suas pescarias, salgações, e grande 
commercio de sal: e por este respeito querendo el-Rei 
D. João II favorecer, e melhorar a terra, aconselhou aos 
moradores a obra do aqueducto, por onde lhes vem a 
agua, que d'antes não tinhão; fez-lhes mercê de alguns 
dos tributos, que pagavão, para que os applicassem á 
mesma obra ; e por ultimo a mandou elle mesmo acabar 
á custa da sua fazenda, com o que a villa se augmentou 
em trafico, commercio, riqueza, e povoação. 

Lisboa: já acima indiccámos a doação, que el-Rei D. Ma- 
noel fez no anno de 1500 ao Duque de Bragança das dizi- 
mas do pescado de Lisboa, por indemnização do reguengo 
de Colares, e dos rendimentos da Mouraria e Judiaria ex- 
tinctas. Isto prova a importância daquelles direitos, e con- 
sequentemente a grande extensão das pescarias do Tejo, 
e dos mares adjacentes (75). 

Aveiro: villa (hoje cidade) mui notável, nos tempos de 
que tratamos, pelas sims pescarias, e também pelo grande 
fabrico de sal. A Princeza Santa Joanna teve o senhorio da 

(74) Navegação de Lisboa a S. Thomé por hum Piloto Portiujuez, 
&c., cap. 2." 

(75) Diz o auctor da Historia Gencaloç^icn . ijuo só o dizitiio do pes- 
cado fresco de Lisboa rend(*ra, no anno de 1736, á2:^>60;à<X)0 réis. 



390 

teria, e recebia entre outras rendas a imposição do sal, e 
as dizimas nova e velha do pescado, por mercê de seu ir- 
mão el-Rei D. João II, e Carta passada no anno de 1485. 
D'aqui sahião, logo que se descobrio a Terra Nova, mui- 
tos navios, e homens do mar a fazer naquellas paragens a 
pesca do bacalbáo, em que os nossos Porluguezes se con- 
servarão, até que em tempos menos felices forão despo- 
jados desta liberdade e posse pelos Inglezes. E era tal a 
nossa concorrência naquelle traflco, que ainda em 1578 
se acharão na Terra Nova 50 navios de pesi-a Portuguezes, 
fazendo todos juntos o porte de 3:000 toneladas (76). 
Aveiro (diz hum escriptor Portuguez) contava pelos annos 
de 1550 mais de 150 embarcações de commercio próprio. 

Villa do Conde, Fão, Espozende, Darque, e VillaNova 
da Cerveira: já também notámos a doação, que el-Rei 
D. Manoel fez ao Duque de Bragança, no anno de 1502, 
das dizimas novas e velhas do pescado desles portos, poi' 
indemnização dos rendimentos das Mourarias e Judiarias 
extinctas nas terras do Duque pela expulsão dos Mouros 
e Judeus: e d'aqui se infere a frequência áâ pesca, que 
havia em todos estes lugares, e os grandes proveitos, que 
se tiravão de seus rendimentos (77). 

Vianna da foz do Lima: esta villa, fundada, ou melho- 

(76) No mesmo anno concorrénlo áquella pescaria 150 navios 
Francezes, 100 Hespanhoes, e 30 Inglezes ! (Aiiderson.) 

(77) Não parecerá totalmente alheio do nosso assumpto notar aqui, 
que de Villa do Conde era o douto Piloto, que Unido feito cinco via- 
gens de Portugal .á ilha de S. Thomé, escreveo pelos annos de 1551 
a Navegação de Portugal a S. Thomé. que neste escripto temos ci- 
tado algumas vezes, e a mandou ao Conde Rayniundo de la Torre, 
Gentil-homem Veronés. João Baptista Ramuzio a publicou traduzida 
em Italiano em 1554, e a Academia Real das Sciencias de Lisboa a 
mandou imprimir, tirada do Italiano em Portuguez. na sua Collecção 
de Memorias para a Historia e Geonrofta das nações tdtramarinas, 
tom. 2.°, num. 2. Na introducção do editor académico se pôde ver 
oom quanta razão damos a este Piloto a qualificação de dmito. 



391 

rada em sitio por el-Rei D. Affonso III (como acima to- 
cámos), e povoada de gente industriosa, aproveitou a 
opportunidade do seu local, e foi crescendo tanto em na- 
vegação, e commercio, que mandava seus navios a todas 
as provincias do norte, e ás ilhas, e terras novamente 
descobertas, especialmente ao Brazil, depois que esta 
grande região começou a povoar-se, e a ser dos nossos 
mais frequentada. Fr. Luiz de Souza, que imprimia a 
Vida do Arcebispo em 1619, diz que nesse tempo trazia 
Vianna no mar 70 navios de toda a sorte, sendo a maior 
parte dos armadores, e marinhagem tudo da terra (78). 
E acrescenta, que cincoenta annos antes, isto he, pelo 
meio do século xvi, havia algumas 80 barcas de pesca- 
dores, que depois deixarão este trafico para se darem á 
navegação do alto, passando os trabalhos da pescaria aos 
povos visinhos, que delia se sustentavão, e com ella for- 
necião de marinheiros os navios mercantes, á-c. (79). 

Caminha: villa fundada sobre a foz do Minho; tinha 
provavelmente nos tempos, de que falamos, grande pra- 
tica da navegação, commercio, epesca; pois sabemos, que 
os seus habitantes, pelos annos de 1459, sendo aquellas 
costas do norte de Portugal infestadas de corsários, e pi- 
ratas Francezes, e Gallegos, pedirão a el-Rei D. Affonso V 
licença para armarem em corso contra os inimigos, e que 

(78) Vej. a Vida do Arcebispo, liv. 1.", cap. 24.°, e 26.° No liv. 4.° 
cap. i.", diz o escriptor, que a jurisdicção temporal dos Arcebispos 
de Braga llies fora dada em troca de rendas próprias, qiie a Igreja 
largou á coroa, entre as quaes erão os direitos, e rendiíuenlos da al- 
fandega de Vianna, por onde se pôde conjecturar qual seria desde 
antigos tempos o commercio da viila. 

(79) Desta vilia de Vianna saliio n prinii^iro povoador da (Capi- 
tania de Porto Serjaro no lírazii, Pedi o de (Cauipos (ou de Campo) 
Tourinlio, liomem nobre, cavalleiro. e muito visto na arte de ma- 
rear, a quem el-Rei D. Joílo III deo a mesma capitania com 50 lé- 
guas de costa, como em outro lugar dizemos. Ksle foi o fundador 
das villas de Porto Seç/uro, Santa Cruz, e SaiHo Amaro, &c. 



392 

lhes fizesse mercê do quinto das prezas, que pertencia á 
real fazenda, a fim de poderem armar maior forças com 
menos dispêndio próprio. Ao que el-Rei deferio, remet- 
tendo-os ao Fronteiro-mór da província, que era o Duque 
de Bragança, para iiies conceder, e regular a licença, e ce- 
dendo logo do quinto na forma, que supplicavão, de. (80). 

E tal era o estado de nossas cousas marítimas, quando 
subio ao throno el-Rei D. Manoel, a quem os Portuguezes 
com razão appellidárão o Venturoso, o qual coiheo os 
abundantes fructos de gloria, de grandeza, e de poder, 
que seus antecessores lhe deixarão grangeados, c prepa- 
rados; sustentou, e ampliou o seu senhorio em Africa; fun- 
dou o império Portuguez no Oriente; descobrio a grande 
região, que se chamou Terra de Santa Cruz, e depois lira- 
zil, na America meridional ; descobrio também a Terra 
Nova de Corte Real, e muitas ilhas adjacentes na America 
septemtrional; fez respeitar, e temer cm toda a parte as 
suas armas; e conservou, e engrandeceo a Marinha Por- 
tugueza, 6 fez de Lisboa hum dos principaes, e mais ricos 
empórios do commercio do mundo. 

Faz na verdade admirar, se bem se considera, e quasi 
que excede toda a crença o grande poder marítimo ne- 
cessário para tantas emprezas, e desenvolvido em Portu- 
gal no tempo deste feliz reinado. 

Descoberta a índia pelo grande Vasco da Gama, logo no 
anno de d 500, subsequente á sua vinda, sahio de Lisboa 



(80) O auctor da Historia Genealógica, referindo o que aqui di- 
zemos, o aUribue aos moradores de Vianna do Lima : mas na repre- 
sentação que se fez a el-Rei, e de que elle mesmo faz o extracto, se 
diz, que os representantes, ou a sua terra, distava três léguas da fron- 
teira, e doze da cidade do Porto; o que nos parece mais próprio de 
Caminha do que de Vianna: porquanto Caminha dista na verdade 
três léguas de Valença, fronteira de Tuy, e fica a doze léguas do 
Porto : ao mesmo tempo que Vianna dista do Porto nove léguas, e 
fica a seis da fronteira, isto he, de Valença. 



393 

Pedro Alvares Cabral com huma armada de 13 náos, em 
que forão 1:200 homens mareantes, e soldados. A esta 
seguio em 1501 outra de 4 náos, commandadas por João 
da Nova. Em 1502 fez segunda viagem á índia D. Vasco 
da Gama, levando 20 velas á sua obediência. Em 1503 
sahírão as armadas de Francisco de Albuquerque, de 
António de Saldanha, e do grande Affonso de Albuquer-. 
que, d-c. E tudo isto se fazia no mesmo tempo, em que 
se despachavão outras expedições ao reconhecimento da 
Terra de Santa Cruz ; se defendião as costas de Portugal, 
e das conquistas de Africa; se conservava, e promovia o 
grande commercio do reino ; e el-Rei mandava em soc- 
corro dos Venezianos, contra o Turco, o poderoso auxilio 
de 30 náos, com 3:500 homens de tropas, commandados 
por D. João de Menezes, Conde de Tarouca (81). 

Em 1504 passou á índia Lopo Soares de Albergaria 
cum 12 náos grossas: e em 1505 foi o Vice-Rei D. Fran- 
cisco de Almeida com 22 velas, que erão 16 náos grossas, 
e 6 caravelas. Neste amio (diz Faria e Souza) sahírão para 
a índia por vezes HO náos, ficando outras para a guerra 
da Mauritânia, e guarda das costas do i eino. 

Sendo tal o empenho, com que el-Rei entrou nas cousas 
do Oriente, e tanta a necessidade de ter lá forças bastantes 
a contrastar o poder do Soldão do Egypto, que unido com 
os Príncipes mais poderosos da índia, e auxiliado occulta- 
mente dos Venezianos, intentavão expulsar-nos daquelles 

(81) O continuador Francez da Historia Ecciesiastica de Heury, 
fazendo memoria desta expedição, e soccorvo, diz que a armada Por- 
tugueza se recolhera a Portugal, sem ter alcançado victoria alguma 
contra o inimigo : « Ília tamen nulld adversus hostem victoría insi- 
gnis reversa est». Nisto disse o escriptor a verdade; mas não a 
disse toda. Devera acrescentar, que os Turcos, sabendo que a ar- 
mada Portugueza hia unir-se á Veneziana, se pozerão em retirada, 
ou fugida. E parece, que não deve fazer admiração, que se não al- 
cance victoria contra hum inimigo, que toma com tempo a precau- 
ção de fugir ao combate. 



394 

mares: assim mesmo mandou el-Rei em 1513 huma nu- 
merosíssima armada a Africa, constante (segundo Damião 
de Góes) de 400 navios, commandada pelo Duque de Bra- 
gança D. Jayme, com a qual tomou Azamor, Tite, e Alme- 
dina, na Mauritânia, levando a esta facção 16:000 infantes, 
e i2:500 cavallos, além da gente da manobra, e serviço do 
mar. E notão os nossos escriptores, que esta grande ar- 
mada se aprestara em quatro mezes e meio! 

Concluamos com dizer em summa com o mesmo Góes: 
que el- Hei D. Manoel trazia commnmmente SOO nãos suas 
nas conquistas de Ásia, Africa, e America (82). 

E se alguém porventura se admirar, de que tantas, e 
tamanhas armadas se esquipassem, e aprestassem tão fre- 
quentemente, e ás vezes com tanta celeridade (83), deve 
altender: 

1." Que el-Rei D. Manoel tinha em vários lugares do 
reino Feitorias para a fabricação de amarras, enxárcias, 
cordoalhas, d-c, de cânhamo, que então se cultivava, em 
grande abundância, em Portugal (84). 

2.** Que tinha lambem grande fundição de artilharias, 
já estabelecida no tempo de seus antecessores, para a qual 



(82) De Reb. et Imper. Lusitan. ad Paul. Jov. 

(83) Seveiim de Faria, Noticias de Portugal, disc. 2.", § 15." 

(84) He muito verosímil, que esta fabrica trouxesse origem de 
tempos mais antigos. O cânhamo era cultivado em differentes partes 
do reino. O nome de Canavezes dado a alguns lugares, indica a exis- 
tência, e extensão desta cultura. Ella se conservou ainda por longos 
tempos. Em 1740 havia na Torre de Moncorvo feitoria, e armazém 
de linhos, e canhamos, (pie se criavão nos campos de Villariça, fe- 
cundados pelas inundações do iJouro: e he esta (dizia hum escriptor 
desse tempo) a cultura de maior importância do reino, para o apresto 
das armadas, por ter o uso qualificado a sua bondade, e fortaleza. 
Nesses annos se colhião ainda cousa de 160:000 arrates (o:000 ar- 
robas) de linho, e se se encanassem as aguas (dizia o mesmo es- 
criptor), que muitas vezes alagão, e destroem os linhos semeados, 
maior fora o lucro da provinda, e do reino. 



395 

fundou as terecenas da Porta da Cruz em Lisboa, assim 
como mandou fazer a caza da pólvora. 

3.° Que ordenou outrosim, que houvesse armeiros pa- 
gos à custa de sua fazenda, para o fabrico de armas de 
toda a sorte, nas cidades de Coimbra, Évora, e Porto; em 
Santarém, Elvas, Beja, Tavira, e Lagos, e nas villas de 
Moura, Mourão, Murisarás, Govilhãa, Vianna do Lima, 
Castello Branco, e Torre de Moncorvo (8o). 

4.° Que inui provavelmente existião já no tempo deste 
Príncipe, ou (pode ser) de seus antecessores, os chamados 
Fornos de el-Rei, estabelecidos na freguezia de Palhaes, 
comarca de Setúbal, e destinados especialmente a for- 
necer o pão necessário ás armadas do reino (8(5). 

5.° Que os mesmos particulares não desdenhavão na- 
quelle tempo o commercio, as artes, e a industria, do que 
são bom exemplo os Duques de Bragança, os quaes tinhão 
na mesma cidade de Bragança huma fabrica de ferrarias, 
e perto de Villa Viçosa hum engenho de armas (87) : de 
maneira, que dentro do reino, sem dependência dos es- 
trangeiros, se achava tudo o necessário para o apresto das 
armadas. . . 

Mas tempo he já de darmos fim a este nosso escripto, 

(8o) Mariz, dial. 4.°, cap. 20.» Severim de Faria, Noticias de Por- 
tugal, disc. 2.°, § H.° 

(86) Não temos achado notada a origem, e fundarão deste esta- 
belecimento, que ainda existia no século passado ; e presumimos, 
que se deve referir aos tempos, em que Portugal despachava suas 
armadas para os descobrimentos, e conciuistas ultramarinas. Os for- 
iiox erão 30; tinhão lenha, e moinhos em boa distancia. A caza dos 
trigos accommodava 1):000 moios: e os fornos todos podiâo fornecer 
pão fresco para 30:000 homens, e biscouto para 20:000. 

(87) Por Carta de Janeiro de 1453 isentou el-Rei de siza o ferro, 
que se vendesse da fabrica de ferraria do Duque de Bragança : e o 
Duque D. Theodosio 1 em 1540 unio em morgado com outros bens 
seus patriínoniaes o ciKjvntw de armas. (\nv tinha no teniKi de Villa 
Viçosa. 



396 

bem imperfeito na verdade, mas emprendido somente 
pelo puro amor da pátria, e só por elle também recom- 
pensado : 

Que não he premio vil ser conliecido 
Por hum pregão do ninho meu paterno. 
(Lusiadas, cant. 1.°, est. 10.») 



FIM DO TOMO V 



índice 



Reflexões geraes acerca do Infante D. Henrique, e dos desco- 
brimentos de que elie foi auctor no século xv 1 

índice Chronologico das navegações, viagens, descobrimentos, 
e conquistas dos Portuguezes nos paizes ultramarinos desde 

o principio do século xv 45 

Notas acerca de alguns dos descobrimentos apontados no ín- 
dice Chronologico : 

Sobre as ilhas Canárias 163 

Sobre as ilhas dos Açores ou Terceiras 17á 

Sobre o descobrimento do Congo 190 

Sobre o descobrimento da America, e do Estreito de 

Magalhães, attribuidos a Martim Behaim 193 

Sobre a terra de Corte Real na America Septemtrional 201 

Sobre as ilhas Lequias ou de Lieu-Kieu 206 

Sobre a bahia e rio de Lourenço Marques 210 

Sobre o Tibet 216 

Memoria sobre as viagens dos Portuguezes á índia por terra, 

e ao interior da Africa desde os princípios do século xv. . . 221 
Nota em que se mostra, que os Portuguezes, ao passo que hião 
descobrindo as costas e terras africanas, se não descuidavão 
de inspirar aos seus habitantes idéas moraes e princípios 

de civilisação 259 

Memoria sohrc a expedição de Vasco da Gama ao descobri- 
mento da índia em 1497 287 

Nota sobre a origem da escravidão e trafico dos negros 323 

Memoria em que se colligem algumas noticias sobre os pro- 
gressos da Marinha Portugucza alé os princípios do sé- 
culo XVI 349 



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